quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ir comer uma sopa: da idade da inocência, à astúcia de um mendigo




Quando regressei a Portugal, era moda no eixo Lisboa/Cascais as tias dizerem “Vamos ali comer uma sopa!”, em vez do tradicional "vamos jantar!"
Eu desconhecia, ainda, que a expressão significava “ Vamos ali a um restaurante caro praticar a ostentação e o desperdício” pelo que quando, num belo fim de tarde, enquanto bebia um copo na companhia de uma candidata a partilhar comigo os eflúvios do prazer carnal, ela me sugeriu “ e se fossemos comer uma sopa?”  respondi com toda a inocência:
“Desculpa lá, mas eu quero mesmo é jantar!”
Não deixei  de registar o seu sorriso complacente perante a minha reacção, mas só mais tarde suspeitei que, muito provavelmente, ela terá anotado a resposta e mentalmente me terá de imediato incluído na lista dos proscritos a evitar, por ser demasiado saloio.
Fomos a um restaurante por ela sugerido. Quando o empregado me entregou a lista, notei que das entradas apenas constava uma “sopa rica de peixe”, o que me pareceu  oferta  demasiado avara para uma apreciadora de sopa. 
Perguntei-lhe se era a sopa que queria e ela respondeu:
- Não… como entrada  preferia os caracóis à Bourguignonne se não te importares…
(À época, “ se não te importares” dito logo no início do jantar, era a frase com que as tias avisavam que não faziam a mínima intenção de participar na despesa, mas não foi nisso que pensei).  Limitei-me a comentar com os meus botões “ Vá lá a gente entender as mulheres. Quer vir comer uma sopa e escolhe-me caracóis!”. Percebi-lhe, no olhar, que captara os meus pensamentos  ( o sexto sentido feminino é lixado!), mas fingiu nada ter percebido.  
 Não sei se fruto dos aromas marítimos que se desprendiam do mar do Guincho junto ao rochedo, naquela noite de fim de verão, se resultado de vapores etílicos acumulados, ou por  simples capricho do destino , a verdade é que acabamos fisicamente, no preciso local onde ambos tínhamos começado mentalmente na véspera: na cama do meu rochedo.
Descansem, porque não vos vou aqui maçar com pormenores sobre o evento,  que teve como única testemunha presencial  uma fresca brisa do Guincho.  
O que vos pretendo dizer é que experiências subsequentes me levaram a construir uma teoria inabalável: naquela época,” ir comer uma sopa” era sinónimo de desperdício.
Tudo começava num restaurante da moda, de preferência especializado em “nouvelle cuisine”. Recebido o cardápio, os comensais elegiam uma entrada, um ( às vezes dois) prato e uma sobremesa.
Quando os empregados traziam os  pratos ( "mais enormes” que o aumento dos impostos do Gaspar) onde pontificavam duas folhas de alface , um rabanete e uma porção tão minúscula como as reformas em tempo de crise, o cerimonial era quase um rito. Os comensais davam duas garfadas e deixavam o resto de parte, alegando que “já tinham comido demais”, ou “não queriam engordar” ( elas, claro…).
(Assim se desperdiçava comida e dinheiro, na época  em que a classe média com aspirações a subir na escala social  das revistas cor de rosa, que lhe permitisse entradas livres nas discotecas da moda, com direito a vénia do porteiro, descobriu que vivia no tempo das vacas gordas)
Ao longo da refeição, o cerimonial repetia-se cada vez que o empregado trazia um prato, mas o repasto-desperdício era acompanhado por generosas doses de vinho e, a acompanhar o café, não faltavam os digestivos.
 No final, todos estendiam os seus cartões de crédito, dourados ou de platina, numa competição de onde eram de imediato excluídos os pelintras como eu que tinham apenas um cartão de crédito mexeruca.
Chamava-se a esta forma de ostentação “ir comer uma sopa”. Recordo-o, para rematar esta história com um episódio ocorrido nas Furnas do Guincho, depois de um jantar bem regado e com promessas de sequências carnais bastante animadoras.  
À saída do parque de estacionamento, um mendigo estendia a mão aos comensais, na esperança de que fossem generosos. Uma senhora que integrava o grupo com quem eu amesendara, querendo talvez mostrar que era utilizadora frequente do restaurante, avisou em surdina:
- Este está aqui todos os dias. Daqui a umas horas está aí a cair de bêbado, como sempre.
Não sei se o mendigo terá ouvido, pressentido, ou apenas sendo conhecedor da prática de “ir comer uma sopa” terá tentado uma esmola mais generosa. A verdade é que, quando um dos membros do grupo lhe depositou uma moeda na mão  e disse “tome lá para uma cerveja”, o mendigo olhou para a moeda na palma da mão, remirou-a e respondeu:
- Obrigado, meu senhor. Um bocadinho mais e já me dava para ir comer uma sopa!



11 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  2. E esta, hein?
    Nunca pertenci a essa elite das tias de Cascais, mas não sei porquê duvido que esse tipo de gente usasse essa expressão "ir comer uma sopa", quando queriam ir papar um belo jantar, com entrada de escargorts à Bourgogne e terminando o repasto com uma bela noite de amor, ou sexo, ou lá o que lhe queiras chamar:)))
    Isso até é uma afronta à sopa dos pobres.:(

    Pois muito me contas, então o teu Rochedo já existia nessa altura e com cama e tudo????

    Assim mereces mesmo levar no toutiço e não é por causa do "Bourguignonne". Eheheheh

    Beijinhos e boa noite no Rochedo!

    Hei-de cá voltar a ver se me escapou alguma coisa...

    ResponderEliminar
  3. Carlos, fiz semelhante salgalhada no 1º comment, que tive que o remover. Sorry!

    Em tempos de crise e vens-me cá falar nestas comesainas é no que dá!!:-))

    ResponderEliminar
  4. Xi, Carlos, estou mesmo desfasada do vocabulário das tias da linha, que essa de "ir comer uma sopa" nem conhecia... :)))

    Quanto ao pedinte, se era habitué, está claro que apanhou o tique das tias, para se "vingar" do dichote da outra, com alguma malícia... :D

    ResponderEliminar
  5. Senti-me uma "saloia" ao ler o teu texto...

    Desconhecia tal sopa!!! O mendigo não!!!

    Essas tias de Cascais são umas "pindéricas"...irritam-me!!!

    Hummmmm...se o rochedo falasse!!!

    Beijos.

    ResponderEliminar
  6. Não conhecia essa de comer uma sopa.
    Pois, eu também sou saloio.

    ResponderEliminar
  7. Ao que parece os leitores e leitoras destas Crónicas somos todos do género saloio (ainda bem).

    ResponderEliminar
  8. Adorei! Cascais carrego na mente e no coração, é um pedaço de Portugal que me conquistou ainda pequena.
    Com ou sem sopa, agora compreendo a cara de uns amigos portugueses, um tanto rosados, quando disse que havia comido muito bem em um tal restaurante.Neste então, a tia morria de aflição: http://youtu.be/tEoBAmzbW6g

    ResponderEliminar
  9. Obrigada, Carlos.

    Bom fim de semana para ti também.

    Beijos.

    ResponderEliminar
  10. Olhe que não quero jurar, mas acho que já tinha ouvido a expressão em qualquer lado. Como não me dou com tias de Cascais - conselho do médico, por causa dos nervos e da tensão e assim - só pode ter sido alguém a gozar com as tias de Cascais. Têm um humor peculiar as tias; como a Lili quando foi distribuir tigresas de griffe de não sei quem a ciganitas não sei de onde. Há malta que não tem noção, mesmo.
    Não tem noção, mas tinha bom gosto a sua moça, que uns escargots calham sempre bem :)
    Bom fim de semana

    ResponderEliminar
  11. Desconhecia a expressão, mas os hábitos associados, creio já os ter visto...!
    Beijo, bom fim de semana

    ResponderEliminar