domingo, 30 de dezembro de 2012

It's up to you

Desejo a todos os leitores, amigos e seguidores um Feliz 2013

On the rocks...
   OU on the rocks

E sem esquecerem que aqui há crónicas on the rocks durante todo o ano.

                                                           FELIZ 2013





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Noite de Natal em Pinamar



O Sol escondeu-se há pouco para além dos Andes. Alguns pedaços de “asado de tira” e de “lechon” jazem ainda no churrasco do jardim, rescaldo de uma ceia farta.
Acabo o gelado de dulce de leche com raspas de limão e afasto-me discretamente para um recanto do jardim, com um copo de cidra.
Ali fico durante uns minutos apanhando o ar fresco da noite, olhar fixo nas estrelas, à espera que me envies um sinal.
Um avião cruza o céu, sem fazer ruído, piscando as luzes. Sigo-lhe o rasto e aterro na esplanada do café de S. João do Estoril onde te vi pela última vez.
Estremeço. Sinto-te a respiração. Pressinto o calor do teu afago. Ouço a tua voz, em surdina, pedir –me um beijo, enquanto te preparo o “mate” com rum.
Lá dentro as crianças, em reboliço, desembrulham as prendas do Menino Jesú.
Não sabem que os algozes que há anos lançaram o avô sobre o Atlântico de Península Valdés, foram libertados por ordem da Justiça argentina.
Ignoram que a tia Patty desapareceu no aeroporto de Ezeiza, levada por militares, perante o desespero e a impotência da irmã, que a esperava para a felicitar pelo casamento.
Sinto a mão de Laura pousar, firme, no meu ombro. Os nossos olhares cruzam-se. Estão marejados de lágrimas. Prenhes de dor e revolta. Recordam uma família destroçada por uma ditadura infame. Sonham uma família que nunca chegou a ser, porque militares filhos da puta lhe negaram o direito de existir.
“Não sabemos se está morta” – diz Laura num sussurro tantas vezes repetido.
A Mercedes interrompe-nos o silêncio cúmplice.

Mummy, Mummy mira! Bolas de sabão desprendem-se –lhe da boquita, entre sorrisos. 
Vejo-te subir no ar dentro de uma dessas bolas coloridas. Não consigo perceber se estás feliz. Sei que não estás aqui. Que não poderemos repetir a noite de Natal em Ushuaia, onde passámos o último Natal das nossas vidas. Que não voltarei a passear contigo no Parque Nacional de Los Alerces. Que não voltarei a abraçar-te ao pôr do sol naquele rochedo do Guincho. Que não voltarei a preparar-te o mate com rum. Que não deixarei de pensar que tudo poderia ter sido diferente se tivesse partido contigo naquela tarde em que te despediste de mim, na esplanada do café de S. João do Estoril, felicidade estampada no rosto. Partias para dar a boa nova à tua família. Lamentavas apenas que o teu pai, amante de Portugal, do Fado, do Estoril e das touradas, já não pudesse ter a felicidade de te ver casada com um português. Ignorávamos que partias ao encontro da morte, seguindo o destino do teu pai.
Que mal fizeste? Lutar contra a ditadura é crime? Como se chamarão aqueles que lutam para nos negar a Liberdade?
É quase meia- noite. Dentro de alguns minutos o fogo de artifício irá iluminar o mar, abafando o som das ondas a derramar-se na praia.
Cá em cima atearemos fogo ao espantalho da Ditadura, que ficará a arder até ser dia. Um dia havemos de nos reencontrar. Seja quando for, havemos de regressar, numa noite de Natal, à nossa casa de Pinamar. Dançaremos um tango e viveremos uma noite de milongas. Apenas com a Lua como testemunha, iluminando os nossos corpos nus, gritaremos enfim, AMERICA LATINA LIBRE!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Na esplanada do "Les deux magots"




Na última semana do Ano, Paris deve ser parecido com a Black Friday do El Corte Inglês. Embora nunca tenha estado nesse evento que põe meia Lisboa de cabeça à roda sei, por alguns relatos, que por lá andam milhares de tugas eufóricos, com a oportunidade de compras a metade do preço. Em Paris não havia muitos turistas tugas, quem andava por lá não andava à procura de saldos, mas não faltavam italianos aos berros, em número suficiente para encher dois estádios de San Siro, russos alcoolizados e brasileiros bastantes para encher o Maracanã em dia de Fla-Flu.
Ora, nestas circunstâncias, visitar museus não é a melhor opção. As filas estendem-se por centenas de metros, desafiando a paciência dos turistas mais fleumáticos, que passam um dia inteiro entre as filas e uma visita a um museu. Já estive em Paris umas duas dezenas de vezes fora das época de grande afluxo turístico e, por isso, conheço razoavelmente bem a maioria dos museus mais emblemáticos. No entanto, uma visita ao Georges Pompidou é sempre obrigatória. Arrostei com uma fila de 300 metros que se movia a bom ritmo e lá fui cumprir o meu ritual.
O resto do tempo passei-o a desfrutar a cidade. S. Pedro esteve pelos ajustes, fechou as torneiras e, apesar das temperaturas gélidas durante a maior parte da minha estadia, pude passear por Montmartre, Saint Germain, Quartier Latin, Montparnasse, Grand Boulevards, Trocadero ou Champs Elysées.
Gosto de passear por cidades com história e os edifícios de Paris têm vida e guardam memórias que ajudaram a construir a História da Europa. Uma História diferente- porventura mais vivida- daquela que se guarda entre as paredes de um museu. Gosto de me sentar em cafés e esplanadas frequentadas noutros tempos por escritores, poetas ou filósofos, que fazem parte da cultura e da História ocidental.


Ao início de uma tarde sentei-me na esplanada do “Les Deux Magots", no preciosíssimo bairro de Saint Germain. Este emblemático local de Paris, fundado em 1813 uns quarteirões distantes da sua localização actual, era um estabelecimento comercial onde os parisienses procuravam “novidades”. Em 1873 transferiu-se para as actuais instalações, onde permaneceram bem visíveis as duas estátuas de madeira ( na foto) que lhe deram o nome.A partir dessa data, “Les Deux Magots” passou a ser um café/ casa de chá muito frequentado por intelectuais contando, entre os seus assíduos visitantes, nomes como André Malraux, André Gide, Anatole France, Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre ou Albert Camus. Também Hemingway aqui escreveu algumas das páginas dos seus livros e Picasso pintou alguns dos seus quadros.
A importância de “Les Deux Magots” na vida cultural parisiense está bem patente na criação, em 1933, do prémio literário Les Deux Magots que, ainda hoje, é uma referência incontornável no meio cultural da capital francesa.
Enquanto saboreava uma omelette aux trois saveurs, imaginei-me a viver naqueles tempos, compartilhando o espaço com alguns dos vultos que fizeram a História da Cultura Europeia. Saí de lá reconfortado e continuei o meu passeio por Saint Germain, até desaguar no Quartier Latin. No caminho descobri, numa placa de mármore, um pequeno pedaço de Portugal. 
Deixara para trás os Jardins du Luxembourg e caminhava pela rue Gay-Lussac em direcção ao coração do Quartier Latin, quando sou atraído por uma placa de mármore onde se lia:


DANS CET IMMEUBLE A VÉCU
DE 1969 À 1974

AMORIM DE CARVALHO

POÈTE ET PHILOSOPHE PORTUGAIS
MORT À PARIS LE 15 AVRIL 1976

Fiquei a magicar. Como era possível ter-me escapado esta placa em passeatas anteriores por esta rua?
 Já em Lisboa, fiquei a saber que a placa foi ali colocada apenas em 2008, por decisão do Perfeito de Paris, razão que explica a minha surpresa.
Confesso-vos ( ignorância minha) que não sabia quem era Amorim de Carvalho e foi a leitura daquela lápide que me levou a investigar. Descobri, graças ao amigo Google, que era bisneto do poeta Pinheiro Caldas e nasceu no Porto em 1904, tendo vivido em Lisboa entre 1953 e 1965, ano em que ,” desiludido com a situação intelectual da Pátria” emigrou para Paris, onde viria a falecer.
Autodidacta, viu reconhecido, pela Sorbonne, o grau de doutor. Se quiserem saber mais sobre esta curiosa personalidade basta seguirem este link, que vos conduzirá ao site da Casa Amorim de Carvalho, no Porto. Para mim foi um prazer descobri-lo e verificar, uma vez mais, que durante as nossas viagens lá por fora é sempre possível aprender um pouco sobre Portugal e os portugueses.
A curiosidade, porém, não acaba aqui. Amorim de Carvalho nasceu na Foz em 1904, na Rua Senhora da Luz, nº 224, quase pegado à casa onde nasceria a minha mãe 10 anos depois.
Adenda: a casa de Amorim de Carvalho o é hoje parte de um pequeno hotel que ocupa os nºs 50 a 52
Este post foi reeditado, a partir da narrativa que fiz em Janeiro de 2010, sobre a passagem de ano em Paris.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Boas Festas


Este é o primeiro Natal do On the rocks. Por aqui, o Natal ainda é encantamento, cor, gente feliz, luzes feéricas e amor.
Por isso que tenha escolhido um cartão muito diferente do que escolhi para o Rochedo.
Aqui ainda há espaço para acreditar, para sorrir, para ter esperança. É com um pouco de tudo isto que vos desejo Festas Felizes e faço votos para que 2013 seja melhor do que esperamos.
Continuarei a vir aqui, embora espaçadamente. Domingo, a Rua dos Cafés montará banca em Paris. Até lá!
Obrigado a todos os que aqui aportam. Bem hajam!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Prova de paternidade



Ao final da noite, o jornalista está a petiscar com um amigo num restaurante discreto. Falam de outros tempos, vividos noutras paragens.
O jornalista está de frente para a porta, por isso estranha quando o amigo, de costas para a mesma, lhe anuncia a entrada de uma deusa. 
“Entrou por aquela portinha das traseiras…”- esclarece o amigo
O jornalista volta-se discretamente. Para ver a  deusa e descobrir a portinha. Lá estão as duas. Não estão sozinhas. A deusa vem pendurada no braço de uma figura pública, também comentador ocasional em rádios e televisões.  Cerca de 50 anos os separam. Mas não só isso os diferencia. Ela caminha numa postura vertical que lhe realça as formas, ele arrasta.se alquebrado, vergado ao peso de uma enorme bebedeira, apoiando-se no seu corpo para manter o equilíbrio. Sentam-se frente a frente. Pedem a lista e um café forte.
Jornalista e amigo continuam a conversa. Claro que o mote é o quadro deprimente que se lhes atravessou no campo de visão. 
Quando a conversa retomara o rumo inicial, ouvem um surpreendente ressonar. A figura pública adormecera e a deusa sentara-se ao seu lado. Abraçava-o e dava-lhe beijos na face, enquanto o tentava despertar passando-lhe pelo rosto o guardanapo embebido em água. A figura pública abriu os olhos que se  cruzaram com o olhar dos dois amigos. Pareceu surpreendido e procurou recuperar a compostura. Balbuciou umas palavras em surdina. A deusa nada terá percebido e encostou o ouvido à boca dele. Ele beijou-a na face e fez-lhe uma carícia. 
Os amigos retomaram a conversa. O jornalista ficou de costas para a cena e foi ouvindo o relato que o amigo lhe fazia, em surdina, do evoluir da situação. Estava em dupla situação difícil. Conhecia pessoalmente a figura pública e também não queria ser visto, para não lhe provocar maior embaraço.
Depois de sussurrar alguma coisa ao ouvido da deusa, dirigiu-se cambaleante para o quarto de banho. Ao passar pela mesa onde estavam os dois amigos deteve-se discretamente. O jornalista baixou os olhos e escondeu discretamente a cara. A figura seguiu. Passaram alguns minutos. A deusa trocou um sorriso com os amigos. De seguida levantou-se, dirigiu-se para a porta do toilette e, do corredor, gritou em voz bem audível:
“Papá! Papá!”
Esperou uns segundos. Aparentemente terá obtido uma resposta. Voltou para o seu lugar.
Ao passar pela mesa dos amigos disse num tom de voz esmaecido:
- Desculpem, mas o meu pai sentiu-se mal no escritório
Os amigos  responderam com um acenar de assentimento. Pediram a conta. A figura pública regressou à sua mesa. Aparentemente mais equilibrado.  Quando se sentou disse em voz pouco perceptível, mas propositadamente audível:
- Desculpa o incómodo, filha. Não digas nada à mãe que eu não a quero preocupar.
“ Se soubesses que eu namorei com a tua filha dois anos, tinhas pedido à deusa para te chamar avô!”- diz o jornalista para os seus botões
Pagaram a conta. O jornalista não tirou fotografias nem telefonou para um jornal de escândalos a contar a cena. O jornalista é da velha guarda e respeita a privacidade das figuras públicas. Mesmo que não as conheça pessoalmente, ou lhes tenha um ódio de morte.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ana (não) foi ao circo


A Ana tem  8 anos. É filha de funcionários públicos. Todos os anos, no Natal,  os serviços sociais da administração pública oferecem uma tarde de circo aos filhos dos funcionários. Em Outubro, a Ana começa a perguntar aos pais “quando é que vamos ao circo?”.
Ontem perguntei à Ana se já tinha ido ao circo. A fazer beicinho respondeu-me que este ano não havia.
Então porquê?- perguntei.
Não sei bem. O papá disse-me que era por não haver palhaços e a mamã disse-me que era por não haver animais.
Ah sim? Mas porque é que não há palhaços nem animais, Ana?
A mamã diz que foram todos para o governo e agora  têm um circo só para eles!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pipocas & Cª



A maioria dos leitores do On the rocks ou do CR já sabe que não entro em  salas de cinema onde as pipocas sejam convidadas. Não se trata de casmurrice, apenas convivo mal com o cheiro e o ruído que o seu mastigar provoca.
A minha escolha de salas de cinema é, por isso, bastante restrita: Londres, King, Fonte Nova e (Hélas!) Alvalade onde as pipocas normalmente ficam à porta ou são suficientemente discretas na maioria das sessões.
A aversão a salas de cinema com pipocas já me obrigou a ter de ver alguns filmes em casa, o que por variadíssimas razões também não é muito do meu agrado, salvo para “revisões” de filmes em sessões que se iniciam de madrugada e por vezes prolongam até ao alvorecer.
Já não sou um consumidor compulsivo de cinema. Deixei de o ser desde que as salas de cinema passaram a ser  uma variante do fastfood, exibindo em doses super maxi mixórdias americanas, em detrimento de bons filmes europeus, quase exclusivamente visionáveis em sessões especializadas, na Cinemateca, ou em Ciclos e Festivais de Cinema.  Ora, sendo eu uma espécie de irredutível gaulês em relação ao cinema europeu, atravessei uma época sensaborona que me afastou progressivamente das salas de cinema ( Macau também ajudou, mas isso faz parte de outra história).
Ainda sou do tempo em que ia aos sábados ao final da tarde ao cine-teatro  S. João (Porto) ver os filmes do Cineclube da Boavista e a sessão se prolongava numa tertúlia que se estendia pela noite dentro. 
Dessa época guardei o hábito de gostar de discutir um filme logo a seguir ao seu visionamento e aprendi que ao cinema se deve ir sozinho, ou com a pessoa certa. Não são raras as vezes em que telefono a um/a amigo/a para ir ver determinado filme.
Vem todo este arrozoado a propósito do filme de que ontem vos “falei” aqui. Tinha programado ir ver “Amour” este fim de semana com a escolha certa. Acontece, porém, que antes de formular o convite, alguém me convidou. Sabia que não era a companhia certa, mas não tive como recusar pois já lhe tinha manifestado a vontade de ver o filme. Fomos. No final aconteceu o que eu temia. Com ela não poderia aprofundar a conversa. Sabia que não era o seu género. Daí que, ao terminar o filme, tenha tido uma sensação desagradável, por não ter interlocutora que o prolongasse em amena cavaqueira.  As vítimas foram vocês. Vim para o teclado e escrevi mais do que é habitual sobre um filme. 
Da próxima vez que um filme me empolgue tanto como “Amour”, tenho de escolher a companhia certa. Ainda que, para tal, me tenha de sujeitar à mal cheirosa e ruidosa companhia das pipocas.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Maladie d'Amour




Não tenho palavras par definir “Amour”. Palma de Ouro em Cannes, vencedor do Prémio do Cinema Europeu e forte candidato a algumas estatuetas em Hollywood, “Amour” entrou directamente para o restrito rol de “filmes da minha vida que nunca irei esquecer”...enquanto memória tiver! 
Esmagadoramente belo? Avassaladoramente perturbador? Cruelmente violento?  Perfidamente acusador? Tudo isso, mas muito mais.
Não é apenas um filme sobre o amor. É um filme sobre a vida, a morte, a decrepitude e o envelhecimento . É um filme sobre a tragédia humana, a decadência, a perda  dos valores e  da dignidade.  Parece feito à medida do “Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade Entre Gerações” que este ano se assinala.
É um filme passado num “laboratório” ( ou será num sarcófago?) onde um casal octogenário ( interpretações magistrais de Jean Loius Trintignant e Emmanuelle Riva) está sempre em cena a servir de cobaia, mas a principal protagonista é na verdade a filha (Isabelle Hupert) com escassas e curtas aparições. Confusos?  Eu explico.
Embora o filme se centre no casal e na forma como vive a decrepitude, a verdade é que nos está sempre a falar da ausência. Dos adiamentos. Das pequenas coisas sem importância. Dos detalhes que deixamos escapar e nos vão sugando a vida. Tudo isto é personificado em Isabelle  Hupert, a filha ausente, mas também no porteiro e sua mulher, ou na enfermeira incompetente e oportunista que trata os velhos sem profissionalismo, com sobranceria e sem respeito pela sua dignidade.
O filme  parece ser uma amálgama de pequenos pormenores, detalhes sem importância, mas é precisamente nos detalhes que toda a trama se constrói até nos esmagar e deixar presos à cadeira, à espera que as luzes se acendam. ( Raras vezes tenho assistido a um filme onde a pessoas permaneçam duas horas em silêncio. Sem murmúrios. Sem tosses. Nada! Absolutamente nada!) Depois de a luzes se acenderem fiquei a observar as caras de quem saía. Eram rostos esmagados. De encantamento? De remorso? De amargura? A viver os efeitos de uma catarse consentida, mas não programada? Não vos sei dizer. 
Talvez um somatório de todos estes sentimentos. Que, tal como no filme, se foram construindo reactivamente, nos pequenos detalhes da trama. 
O filme não tem qualquer suspense, pois a primeira cena revela-nos o final. Só que, até lá chegarmos, Haneke no obriga a percorrer o doloroso caminho até à morte, chamando-nos a meditar em cada detalhe, em cada cena, porque só a  análise individualizada permite captar os sinais das múltiplas mensagens que o filme transmite. Onde não há vítimas e culpados, porque todos o são em simultâneo.
A última palavra de  Emmanuelle Riva é dói! Repetidamente a ouvimos dizer dói! dói!dói! dói! E nós sentimos essa dor como um punhal que se vai cravando na nossa consciência. Tão humilhada, como o casal  impotente para evitar a humilhação da decrepitude. Tão violenta, que Jean Louis Trintignant a pretende afastar da visão da filha. Tão vil, quanto o amor às vezes pode ser.
Encontrei, finalmente, uma palavra para definir “Amour”. Soberbo! Mas de uma soberba que dói. Muito! De forma quase brutal!
Havia muito mais coisa a escrever sobe este filme, mas a prosa já vai demasiado longa.
Fico a torcer para que saia de Hollywood carregado de estatuetas. Seria uma vitória do realismo do cinema europeu sobre a ficção americana. Seria a vitória da  Vida sobre o reality show de autómatos em que transformamos a nossa existência.

domingo, 16 de dezembro de 2012

À mesa no café bar da Faculdade de Direito

Hoje temos connosco o Pedro, um homem  muito dado a Devaneios e que diariamente nos proporciona momentos de boa disposição desde o Oriente. 
Como não podia deixar de ser,a história do Pedro é bem disposta e vai provocar umas boas gargalhadas.Preparem-se




Para responder a mais um desafio do Carlos, não é acerca de um café que vou escrever.
Prefiro escrever acerca de um episódio rocambolesco que vivi pouco tempo depois de ter começado a frequentar o curso de Direito em Coimbra.
Confesso que era, juntamente com um amigo de longa data, um bom boémio.
Como não era obrigatório frequentar as aulas, nós éramos frequentadores assíduos…..do bar.
Ainda para mais tendo o bar de Direito uma “paisagem” muito famosa.
Para agravar, no nosso ano de caloiros, a “colheita” foi especialmente farta.
Em qualidade e em quantidade.
Assíduos frequentadores do bar, eu e o meu amigalhaço enfrentávamos corajosamente as “horas de ponta”, isto é, logo pela manhã, após o almoço e ao final da tarde.
Se não havia mesa desocupada, nem cadeira para nos sentarmos, ficávamos de pé nas escadas que davam acesso ao bar.
Até era um bom local porque, ficando no topo, ou no primeiro degrau, dava para admirar toda a “paisagem” logo abaixo.
Naquele dia, “caloiro a cheirar a leite” na linguagem de Coimbra, estava com esse meu amigalhaço, logo após um almoço muito frugal na cantina das Físicas no primeiro degrau das escadas.
Quer o bar, quer as escadas, estavam apinhados.Qual não é meu espanto, levo uma valente palmada no pescoço.
A princípio pensei que se tratava de um outro amigalhaço.Não era.Era um idoso que eu não conhecia e que, entre as dezenas de pessoas que ali estavam, resolveu que o meu pescoço seria o mais interessante para levar uma boa palmada.E escolheu-me a mim para berrar desabridamente exigindo que toda a gente saísse das escadas e o deixasse passar em paz.
Confrontado com a palmada e os berros, e não conhecendo o sujeito, fiquei atónito.E furioso.Mas não podia esmurrar um idoso.Idoso que, mais furioso que eu, me perguntava incessantemente – “sabe quem eu sou?”
Não fazia a mais pequena ideia. Nem eu, nem o meu amigalhaço.
Amigalhaço esse que, mais desbocado que eu, ria a bom rir e dizia – “Pedro, mando o velho pró c$%^&*!! O tipo dever ser daqueles doidinhos amigos do Tatonas!!” (Abra-se um parêntesis para explicar que o Tatonas era um indigente, com problemas mentais, que vagueava pela cidade, com um aspecto em tudo semelhante ao do “filho do Pinto da Costa”).
As bocas do meu amigalhaço e o seu riso trocista, mais enfureceram o idoso.E este continuava a  berrar, visivelmente alterado – “sabem quem é que eu sou, sabem quem é que eu sou??!!
Entretanto, o bar inteiro estava concentrado na cena e as reacções dos colegas variavam entre o espanto e o riso descontrolado.Indignado e já sem paciência, comecei a berrar com a pessoa e mandei-o a alguns locais que não vou agora aqui referir.
Foi então que chegou ao pé de mim, me agarrou no braço e me pediu para ir embora, o dono do bar, o Agostinho, irmão de um tio meu.
“Pedro, vai embora que eu depois falo contigo. Agora sai!”
Foi a minha vez de me exaltar a sério.
Sair dali porquê? Estava tranquilo, o velho deu-me uma palmada, desatou a berrar comigo, e eu é que vou embora?Nem pensar!!
O Agostinho insistia, agora puxando-me para fora – “anda embora, anda embora”.
Achei estranho, mas amigo do Agostinho como era, e porque tudo me estava a parecer muito estranho, lá fui com ele.
Já cá fora, na rua, o Agostinho diz-me – “porra, Pedro, não sabes quem é o gajo???”
Respondi-lhe que não e que não tinha obrigação de aturar velhos malucos.
O Agostinho, finalmente, desvendou-me quem era esse “velho maluco” – tão só o Professor Eduardo Correia, ilustre penalista, à época director da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Fiquei sem pinga de sangue!
Mas, mesmo assim, pouco tempo depois, ainda tive a lata de ir ao “local do crime”.
Agora guardado por dois funcionários, um da cada lado das escadas, os quais, juntamente com toda a malta que estava no bar (o Prof. Eduardo Correia já tinha ido embora) olhavam para mim e não conseguiam parar de rir.
Durante uns tempos, eu o meu amigalhaço ficámos célebres – os dois caloiros que mandaram o Eduardo Correia pró c#$%^&* e ainda lhe chamaram Tatonas!!
Moral da história?
Vão às aulas pá, vão às aulas!!
Nota do editor do blog: Está a ser bem recebida pelos leitores esta iniciativa das conversas à mesa do café e agradeço a todos os que já enviaram as suas colaborações.
Nas próximas duas semanas não me será possível estar presente nesta tertúlia ( e penso que com alguns leitores possa acontecer o mesmo) Assim,  as conversas de café de 23 e 30 de Dezembro serão preenchidas com memórias de cafés que fazem parte das minhas memórias, mas não poderei vir cá responder aos vossos comentários.
Estas conversas serão retomadas no dia 6 de Janeiro ( Dia de Reis) com uma história da Catarina, para a qual reclamo desde já a vossa presença. Depois de Macau, será a vez de viajarmos até ao Canadá.



sábado, 15 de dezembro de 2012

Na varanda com Luís Sepúlveda


Sábado à tarde. Estou sentado na varanda "à conversa" com Luís Sepúlveda, relembrando passagens de "O Poder dos Sonhos". Diante de mim, a esplendorosa baía de Cascais. À esquerda, avisto o Bugio. Entre estes dois cenários, um pouco mais abaixo, uma extensa fila de automóveis, movendo-se lentamente em direcção a Cascais.
Não compreendo este amor dos portugueses pelas longas filas de trânsito, que os conduzem ordeiramente, ao fim de semana, até "lado nenhum". No final da década de 60 ia-se de Lisboa a Cascais só para comer um gelado do Santini. Uma geração preocupada com a guerra em África tinha, ali, uma das raras oportunidades de sorver um leve sabor da Europa: o verdadeiro gelado italiano. Hoje, creio que ninguém vai lá para isso. Não faltam locais, em Lisboa, onde os pais da geração da Coca Cola e do hamburguer, possam saciar os apetites importados de outras paragens. E quanto aos filhos, mais preocupados com os sons do i-pod do que com os sabores de um gelado, nem se fala.
Que levará então os lisboetas a enfrentar longas filas pachorrentas, onde "torram" algumas dezenas de euros em combustível, para uma visita furtiva a Cascais ao fim de semana?
Abandonada por reis a quem serviu de estância de veraneio ou de exílio, esfumada a aspiração de se transformar na Côte d'Azur portuguesa; com o "jet set" acantonado na Quinta da Marinha ou em condomínios privados inexpugnáveis; abarrotando de automóveis e sem oferta cultural relevante, Cascais é, hoje em dia, uma vila desinteresante que perdeu o "glamour" e se arrasta numa penosa decadência. Nenhuma operação de "lifting" poderá devolver a Cascais a beleza que José Luís Judas destruiu a golpes de "camartelo", saindo incólume de tão bárbara agressão à envolvente paisagística. Em Cascais, nem as místicas discotecas dos anos 60 e 7o, como o Vangogh ou o Palm Beach, resistiram. Do "glamour" da "Linha" ( para além do rochedo que é só meu), restam apenas alguns resquícios no Monte Estoril, escassos locais que me devolvem memórias da juventude, como o Muchaxo, ou o Oitavos, e esta casa onde me acoito, olhando a baía à espera que o declínio do Sol a torne ainda mais bela.
Das "novidades", para além do projecto falhado da Marina, e da requalificação do Tamariz em estertor, apenas me cativa aquele magnífico paredão entre S.Pedro e Cascais que calcorreio nas manhãs de fim de semana para ir comprar jornais a Cascais e depois tomar a"bica" e pôr a leitura em dia num daqueles ancoradouros que lhe servem de suporte. Quando a manhã se apresta a enlaçar-se com a hora do almoço e "hordas" de visitantes de fim de semana invadem ao paredão, regresso a casa e aí fico até horas tardias da noite, desfrutando da paisagem. Quando as filas de automóveis invertem o sentido, para o regresso a Lisboa, saio para jantar e "tomar um copo" com amigos. Falamos, com frequência, desta atracção dos lisboetas por uma "ida" a Cascais. Tenho uma explicação que não os convence, mas que continua a ser a minha. Os lisboetas não querem perder o hábito dos engarrafamentos e metem-se à estrada nas tardes de sábado e domingo, para cumprir o "passeio dos tristes". Consigo transportam recordações acumuladas de sonhos que se não cumpriram. Fazem o trajecto em silêncios intermináveis, apenas interrompidos por um choro, uma birra ou uma exclamação, proveniente do fruto de uma noite de amor que viaja no banco de trás. Por vezes, nem isso, apenas o "bruaaá" de um golo saído da telefonia do carro do lado, irrompe o pesado silêncio de uma marcha quase fúnebre. Os lisboetas que rumam a Cascais ( como acontece noutras cidades portuguesas, onde apenas muda o roteiro de destino) procuram apenas uma coisa: "matar o tempo", porque os fins de semana a dois são dolorosamente longos para serem vividos entre quatro paredes.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

À espera do cimbalino



Enquanto espero que me tragam o café, entro em reflexão. Há tempos, o director da ASAE afirmou que metade dos estabelecimentos de restauração portugueses estão condenados. A minha experiência de viajante dentro de portas, permite-me acrescentar que 80 a 90 por cento dos estabelecimentos de restauração portugueses não prestam. Ementas pouco variadas, confecções a oscilar entre o medíocre e o péssimo, condições de higiene entre o duvidoso e o deplorável e atendimento desprovido de profissionalismo.
Perante este panorama, interrogo-me: como é possível haver tanta gente a escrever sobre restauração na comunicação social portuguesa? Como é possível que, quase diariamente, se recomendem restaurantes? Como é possível incluir centenas de restaurantes recomendáveis em guias de restauração?
Estou longe de ser um “gourmet”, tenho tendência a utilizar mais o faro do que os guias quando, nas minhas deambulações pelo país, opto por um restaurante. Sigo também conselhos de amigos fiáveis, mas não tive tempo de pedir uma sugestão.
Há tempos decidi seguir os conselhos de um guia e tramei-me! O restaurante até é asseadinho, tem uma boa vista sobre o Douro, mas a ementa é trivial. O atendimento é simpático, mas bastante demorado, apesar de meia sala estar vazia ( ou meio cheia, depende da perspectiva do proprietário).
A truta era sensaborona e as batatas de qualidade sofrível. A salada mista era composta por duas rodelas de tomate verde e umas folhas de alface que até um grilo esfaimado recusaria. Carta de vinhos só com dois exemplares do Douro mexerucas, meias garrafas nem vê-las que isto do “se conduzir não beba” é só para quem faz as leis ter com que se entreter. Sugeriram-me que bebesse vinho a copo, perguntei se estava num daqueles restaurantes “finos” onde o vinho a copo ao preço de uma garrafa virou moda, ou numa taberna.
 A empregada – de leste e provavelmente paga a pataco- ruboresceu e virou-me as costas, afastando-se bamboleante,e despertando-me outros apetites. Contrariado, já tinha decidido pedir uma garrafa de água, quando o gerente, solícito, veio em meu socorro dizendo que escolhesse uma garrafa e só pagaria o que bebesse. Polidamente recusei.
O café, pedido há mais de 10 minutos, só agora chegou à mesa. (Pausa para não deixar arrefecer).
Saiu-me na rifa uma “italiana” ( isto quando se pede um café sem “livro de instruções” é como jogar no totoloto, tanto pode vir a transbordar, como a rasar o fundo da chávena…) mas bebi-a sem razões para reparo.
Olha, olha, a trazer a conta foram lestos… Mesmo sem ter de a pedir, já repousa ao meu lado num cofrezinho a preceito. Terão medo que me pire sem pagar?
Dou ou não gorjeta? A empregada não tem culpa, não é? Em tempos estourou uma discussão na blogosfera sobre esta magna questão da gorjeta. No CR também já tive uma conversa sobre isso com o Papalagui.
Sou um mole…toma lá gorjeta, para ver se amanhã me corre bem o dia de trabalho.

Boa opção. Ao afastar-se, a empregada refinou a sua passada bamboleante. Na próxima dou-lhe uma gorjeta maior. Pode ser que tenha direito a dança do ventre!

Em tempo: aproveito esta crónica para vos lembrar que no próximo domingo o Pedro Coimbra estará connosco à mesa do café e nos traz uma história muuuitooo divertida!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Concurso de Natal: Estrelas de Presépio


Seguindo a tradição,  A Barbearia do Senhor Luís organiza mais uma vez  o concurso de  Presépios e eu, habituado a estas lides, não poderia deixar de participar.
Este ano o tema é "Uma estrelinha que os guie" e o regulamento pode ser consultado aqui.
Uma vez que sou um habitual vencedor deste concurso, este ano decidi dar uma oportunidade aos outros concorrentes e concorro com a equipa B ( o On the rocks) já que a equipa A ( Crónicas do Rochedo) está voltada para outras lides.
Devo dizer que foi o Medvedev quem me inspirou na escolha desta estrela, ao afirmar ter provas de que existem extra-terrestres aos molhos espalhados pelo nosso planeta. Não foi nenhuma surpresa para mim esta confissão do líder russo, pois todos os dias os vejo na televisão a falar e percebi logo que quem faz afirmações perfeitamente desfasadas da realidade só pode ser extra-terrestre.
Vai daí, pensei...  se eles vieram até cá, foram certamente guiados por uma estrela e, assim, quem os trouxe também é capaz de os levar. Não para trás do sol posto, mas para a estratosfera.
Depois de aturadas buscas lá encontrei a estrela salvadora acantonada num presépio estratosférico. Como podem verificar pela imagem, já há um candidato a segui-la. Lamentavelmente, apesar de ter envidado todos os esforços, não fui capaz de o identificar.
Então aqui fica este belo exemplar que será de imediato enviado para a Barbearia pois o prazo termina amanhã. Aproveito para agradecer ao senhor Luís a oportunidade que deu ao On the Rocks de finalmente poder ganhar alguma coisa.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Naquele tempo...

As salas de cinema eram livres de pipocas e as pessoas tinham alguma compostura e não se comportavam como se estivessem em casa a ver um filme.
Não foi esse, porém, o segredo de sucesso do Apolo 70. Acima de tudo, foi a novidade do "drugstore" onde, antes de ir ao cinema se podia jogar uma partida de bowling ou cortar o cabelo e à saída discutir o filme com os amigos  à mesa do snack bar,enquanto se comia um combinado e esperava pela sessão seguinte.
Nessa época chegava a ver três filmes num só dia.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Amor e dedinhos de pé



Não, não vou escrever  sobre esse doce romance de Henrique  Senna Fernandes que Luís Filipe Rocha verteu para o cinema.
O meu propósito é discorrer sobre os relatos de  algumas mulheres que descrevem o martírio e tortura que é enfiar os delicados pezinhos em sapatos que lhes acrescentam alguns centímetros à altura. 
Quero dizer-vos, amigas leitoras lusas, que as americanas já descobriram a forma de se livrar desse incómodo, continuando a desfrutar do prazer de caminhar 10 centímetros acima do seu nível normal.
 Como?- perguntarão algumas leitoras entusiasmadas
Simples, minhas amigas. Cortando literalmente o mal pela raiz. Ou, dito por outras palavras, amputando ou encurtando o dedo mindinho, essa inutilidade anatómica que o Criador, desconhecendo os ditames da moda, acrescentou ao pé, com o intuito de nos dotar os membros superiores e inferiores, com um número igual de dedos. ( Confirma-se que a mania da igualdade e a utilização de folhas Excel, quando se trata de seres humanos, nunca dá bom resultado...)
A Associação Americana de Podologia garante que estas cirurgias só são efectuadas em pacientes que têm problemas de saúde. Acredito que falem verdade. Com efeito, só uma pessoa com problemas de saúde   (mental) pretende amputar um dedo, para poder andar com sapatos de tacão alto.


domingo, 9 de dezembro de 2012

À mesa do Café Monte Carlo


O nosso segundo convidado para estas tertúlias dominicais é o João Roque que muitos dos leitores já conhecem. Habitual participante nas iniciativas promovidas aqui ou no CR, o João é o administrador do blog  whynotnow e traz-nos recordações de um café e de uma época que muitos de nós recordamos. Respondendo ao meu convite, o João trouxe consigo dois amigos ( a Margarida e o Francisco) que também   virão aqui contar-nos uma história.
O João já está sentado ao nosso lado, por isso é altura de ficarmos a saber o que tem para nos contar sobre  o  Monte Carlo ( café de que também eu fui frequentador) um local mítico de Lisboa... bem dêmos a palavra ao João.




"Sou do tempo em que se frequentavam os cafés e em muitos, havia estudantes a qualquer hora do dia ou da noite; eu próprio fiz algumas das cadeiras de Económicas num simpático café perto de minha casa e que ficava a 100 metros do Instituto Britânico – o “Big Ben”.
Mas o meu café de Lisboa era bem longe das minhas duas primeiras casas lisboetas, ficava no Saldanha (mais propriamente no final da Fontes Pereira de Melo) e era sem dúvida um dos mais emblemáticos cafés de Lisboa – o “Monte Carlo”.
Eu sei, Carlos que também foi o teu café e quem sabe não nos cruzámos várias vezes por lá…
Comecei a ir ao Monte Carlo, porque a malta da Covilhã que estudava em Lisboa fez ali o seu poiso e ali nos encontrávamos todas as noites e quantas tardes…Mesmo em frente da “Paulistana”, onde pontuavam os alentejanos e os estudantes de Veterinária, ficava mesmo ao lado de outro café bem conhecido, o “Monumental”.
Mas o Monte Carlo era uma instituição e chamavam-lhe a “catedral”. Havia à entrada, do lado de fora à direita, a tabacaria (vê-se na foto) e logo depois de franqueada a porta, do lado esquerdo, antes do restaurante, a pastelaria.
Geralmente encontrava-se por lá um cão, velho e gordissimo, o Benfica, que adorava queques e tanta gente lhe comprava esses bolos para sua delícia…
O restaurante, não me perguntem pela ementa, pois para mim, só existia o “bife à Monte Carlo”, com molho de café e que quase se trinchava com o garfo. Mais tarde, quando fui para a tropa, para Mafra, o meu fim de semana só começava depois de ali comer o bife, acompanhado de meia garrafa de Dão Grão Vasco. Presença assídua ali no restaurante, quase sempre só, era Laura Alves, com o seu lenço verde na cabeça e os enormes óculos de sol, sempre aparentando tristeza.
Depois do corredor, com mesas, chegava-se à parte mais baixa e maior do café, onde geralmente nós abancávamos; a afabilidade dos empregados de mesa era tal, que quando chegava à mesa, tinha o café já à espera.
Nesse corredor prontificava a tertúlia dos forcados com o Salvação Barreto à cabeça. Depois havia os actores, vários, embora alguns também frequentassem o Monumental e havia os escritores e os “revolucionários”.
Sim, ali havia de tudo e até muito boa gente de variados gostos sexuais.
E depois havia as “traseiras”; por de trás dos bilhares havia um pequeno bar e as célebres mesas do dominó e dos cavalinhos, e não só… Havia um cabeleireiro de homens e o WC.
Era um mundo, que começava à porta, na cavaqueira e que prosseguia lá dentro, no estudo, na escrita, no jogo, nas conversas, no início de tantas ideias de esquerda, tudo ali coabitava.
Hoje é mais uma loja da Zara, que tristeza…”

Realmente é uma tristeza, João. Passar à porta da Zara e recordar o Monte Carlo, ou entrar no Monumental e lembrar - me do café com o mesmo nome, é algo que me acontece com muita frequência, pois o meu gabinete de trabalho é no Saldanha. Obrigado pela tua evocação e por estes minutos de conversa. 
Contamos com a tua presença e dos teus amigos no próximo domingo. O convidado é o Pedro Coimbra e vai contar-nos uma história hilariante.
Entretanto renovo o convite a todos os que por aqui passam, para enviarem as vossas histórias sobre episódios vividos em cafés ( como a Safira) ou sobre  um café ( como o João)
O endereço , já sabem, é:
pracasdeverao@yahoo.com

sábado, 8 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Os nomes das coisas

Esta rua serviu de tema a uma canção dos Beatles. As perguntas são:
1- Qual o nome da canção?
2-Qual o nome da cidade onde fica esta rua?
3- Qual o nome da rua?

Tenham um bom fim de semana e no domingo, não se esqueçam, há conversa à mesa do café. O convidado é o João que nos vem falar de um café emblemático, infelizmente já desaparecido, que evocará recordações a muita gente. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

De Palermo com amor...



Diante do teclado, com um  trabalho para produzir sobre matéria tão excêntrica como os direitos dos consumidores vulneráveis, o meu pensamento insiste em atravessar o Atlântico e partir à descoberta, como se fosse a primeira vez, dos recantos de Palermo.
Imagino-me a percorrer a Corrientes, derivar pela Lavalle, entrar em Santa Fé e mergulhar no “viejo Palermo",esventrando vielas esconsas, parando no acolhedor Pani para o desayuno, espiolhando  o que se esconde por detrás de uma vereda.
Imagino-me a escutar, através das típicas ventanas de uma "cantina", ecos de um tango de Gardel e imagino Borges a verter para o papel, como uma epopeia, uma cena de facadas ao ritmo de uma milonga.
Sentado num banco do jardim recupero a doçura do teu olhar, o sabor dos teus beijos, a sensação de percorrer suavemente  as curvas do teu corpo.
Pela noite convido-te para jantar no “El Último Beso”? Não… esse foi no aeroporto, no dia em que partiste para sempre, mas ainda hoje guardo  o calor dos teus lábios.  Há dias, ao ler que iam começar a ser julgados os canalhas dos voos da morte, passou-me uma coisa pela cabeça…  Estupidez! Não pode ter  sido assim. Finjo acreditar que não foi.
Lá fora continua a chover. Acendo a luz  e regresso a Lisboa. Tenho de continuar a escrever sobre os consumidores vulneráveis. Afinal é fácil. Vou escrever sobre mim.

Provérbios do mundo (1)

"Todos os homens são feitos do mesmo barro, mas não do mesmo molde" (México)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pena de Talião




De visita à ilha da Páscoa, um turista francês cortou um pedaço de orelha a um moai* para levar de recordação.
O edil local , de etnia rapanui, não esteve com meias medidas e propôs, como castigo, que fosse cortado um bocado da orelha ao turista.
Para sorte do cidadão francês, a lei dos rapanui não se aplica na ilha da Páscoa. Embora esteja preso e vá ser julgado, será a lei chilena que irá determinar a pena a aplicar a este turista fanático pelos “souvenirs”. Uma multa ( talvez uns dias de prisão) deverá ser a punição aplicada.
* As estátuas que se vêem na foto.

Rebuçados Victória


Lembram-se dos rebuçados Victoria? Dois ou três custavam um tostão e a malta coleccionava os papelinhos com os animais. Quando a colecção  ( 180!) estivesse completa, recebíamos um prémio. Salvo erro era uma bola de futebol.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A Feira dos Capões



Realiza-se por estes dias, em Freamunde, a tradicional Feira dos Capões , uma tradição iniciada no século XV que atrai à localidade muitos forasteiros em busca da sua carne suculenta, substituta do ancestral perú no almoço de Natal em muitos lares portugueses.
Não resisto, a propósito, recordar um episódio passado em minha casa, ainda era eu criança.
Era habitual, ao domingo, jogar-se canasta lá em casa. Quando o tempo o permitia, a tarde iniciava-se com um “cimbalino”, na Póvoa de Varzim, tomado mais ou menos à pressa, porque cavalheiros e damas ansiavam o momento de regressar ao Porto para se reunirem à volta da mesa, somando pontos e celebrando “rovers”, cuja receita era consumida em fartos almoços de confraternização. Entre os jogadores, era presença habitual um comerciante de peles que possuía um estabelecimento muito conceituado, onde muitas senhoras da alta roda portuense escaqueiravam anualmente chorudas maquias na compra de “visons”, casacos e outras iguarias da indumentária feminina.
Numa dessas tardes, o meu pai anunciou que, realizando-se na semana seguinte a Feira dos Capões, iria a Freamunde para comprar dois exemplares daquele precioso animal, que nos iriam animar o almoço do dia 25. Alguns dos convivas dispuseram-se de imediato a acompanhá-lo. O referido comerciante alvitrou à neófita esposa, uma senhora alemã, que nesse ano o perú fosse substituído pela carne do capão, a cuja excelência e predicados teceu exaltadas loas. A princípio renitente, a senhora acabou por sucumbir ao discurso laudatório do marido e restantes comparsas. Feitas as contas aos comensais que iria receber no dia de Natal, perguntou ao marido se dois exemplares seriam suficientes. Tendo recebido um aceno afirmativo do consorte, no momento em que este acabava de completar uma “canasta” que iria fechar um “rover” a seu favor, a senhora voltou-se para o meu pai e disse:
- Então, se não for maçada, agradecia que me trouxesse um casal!
O meu pai ainda conteve o riso, mas a restante audiência rebentou numa sonora gargalhada. Eu, que à época só tinha o estatuto de assistente, por ser demasiado jovem para aquelas lides, também me fartei de rir. Uma gargalhada mimética, fruto de contágio, porque na realidade não sabia que a deliciosa carne que comia no dia de Natal era proveniente de galos capados, a quem estava vedado o galanteio das apetitosas galinhas que, inexoravelmente, acabavam no tacho em deliciosa canja.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

E Barcelona aqui tão perto!

Às pessoas que me perguntam se uma vida repartida entre Lisboa e Barcelona não me faz confusão, nem me deixa extenuado, respondo apenas: Chega-se mais depressa de avião de Lisboa a Barcelona, do que a  Bragança por estrada ( hoje em dia, aliás, única forma de chegar à capital transmontana). 
Ninguém vai de Lisboa a Bragança em menos de 6 horas. Eu chego a Barcelona em duas, o que me permite, quando isso é preciso, sair de Lisboa pela manhã e estar  de regresso à noite.

domingo, 2 de dezembro de 2012

À mesa do Café dei Frari

Apresento-vos a primeira leitora a chegar à mesa para as nossas conversas nesta Rua dos Cafés.
Chama-se Safira e tem um blog muito catita. Pelo que escreve presumo-a pessoa bem disposta ou, pelo menos, capaz de pôr quem  passa pela House of the rising cats com boa disposição. Sugiro-vos, por isso, que passem por lá e confirmem.
Agora, que ela já está aqui sentada ao nosso lado, vejamos a hitória que ela tem para nos contar sobre o Café dei Frari, e uma viagem Veneza:



"Esta é a história de uma viagem de amigos que num fim de semana de 2007 decidiram rumar até Veneza. Não é uma história muito feliz. No fim da viagem, duas de nós estávamos de relações cortadas, e não nos falámos durante três anos.  Hoje, as 'tontices' já estão sanadas, mas esta foi sem dúvida a pior viagem da minha vida. Curiosamente, tudo começou à porta de um outro café, no qual não entrámos. O emblemático Florian. Eu queria muito ir ao Florian.  Queria muito sentar-me, beber um chocolate quente e contemplar a praça de S. Marcos, ao som de um quarteto ao serviço do café que tocava na esplanada. Infelizmente, só eu é que queria. Não fomos. A democraria é uma coisa penosa, por vezes. Fiquei contrariada. Os preços não são convidativos, é certo, mas quem vai a Veneza não se pode preocupar com os seis ou sete euros que vai gastar UMA vez num chocolate quente. Penso eu de que...Mas também só eu é que pensava assim, pelo que, seguramente, o problema será meu. O facto de também não termos entrado na Catedral foi mais um ‘pecado’ que me ficou atravessado. A verdade é que tínhamos interesses diferentes. Nunca é boa ideia viajar assim.
Daí em diante tudo correu pior. A história é demasiado densa e penosa para que sobre ela me alongue. Direi apenas que, farta de andar a reboque de humores e a deambular sem rumo, apenas com paragens em lojas de souvenirs, fiz finca pé. Separámo-nos. Eu para um lado, os outros três para outro. Lembro-me de correr (literalmente!) de mapa na mão, para tentar chegar antes das cinco à bilheteira da Scuola Grande di San Rocco. Após uma visita relâmpago (mas maravilhosa) , segui em direcção à basílica de Santa Maria Gloriosa dei Frari, infelizmente já fechada, para minha grande frustração. Ainda tinha uma hora só para mim, mas já era tarde para visitar museus ou monumentos. Olhei em volta e, mesmo em frente da igreja, vejo um cafézinho com montra de vidro. Entrei. Creio que não estava mais ninguém, ou talvez uma mesa estivesse ocupada, mas lembro-me de uma quietude e tranquilidade pouco comuns naquela cidade. Sentei-me numa mesa à janela.  Pedi um cappuccino e uma tarte de pêssego. Comi-a devagar, olhando pela janela, sentindo-me viva e feliz pela primeira vez desde que chegara, orgulhosa do meu grito do Ipiranga.
 Ao mesmo tempo (se é que se pode ser feliz e triste em simultâneo) tive consciência de uma profundíssima solidão naquele momento. Não era uma solidão desesperante, contudo; mais uma nostalgia ao pensar que outras pessoas  poderiam estar ali a vibrar comigo. Pessoas com quem poderia partilhar a emoção da visita ao museu e, no fundo, celebrar a vida. É sempre bom sentirmo-nos gratos pelas oportuniddes que a vida nos concede, mas perde-se um pouco do efeito quando não podemos ver a nossa felicidade reflectida nos olhos de quem nos é próximo. E, inversamente, que é sempre mágico ver o sorriso entusiasmado de quem está connosco e se sente feliz por estar ali e em mais lugar nenhum. Neste misto de emoções, este café ficou-me no coração como um bálsamo quando precisei de conforto e de paz espiritual. Durante pouco menos de uma hora fui, como o Malato, muito feliz em Veneza. E, até hoje, não encontrei uma tarte de pêssego igual. 
Como tudo correu mal nessa viagem, descobri recentemente que perdi todas as fotos que tirei. Ironia do destino? Talvez. Estou a planear voltar lá assim que possível. Com a(s) pessoa(as) certa(s), claro."


Aviso: Talvez a época não seja a mais propícia para estar sentado à mesa de um café a conversar, mas já vejo na Rua dos Cafés algumas pessoas que trazem histórias para  contar. Algumas que já conheço, porque são clientes frequentes, outras que vêm pela primeira vez. O João, que será o próximo convidado, trouxe dois amigos. Cá ficarei à espera das vossas histórias, que deverão ser enviadas para:
pracasdeverao@yahoo.com
Até domingo, à hora habitual

sábado, 1 de dezembro de 2012

Porque hoje é sábado

"Todas as respostas que a filosofia dá à religião não me interessam, porque não são essas as perguntas"
( Wittgenstein)

 LEMBRETE: Amanhã temos encontro marcado para tomar café, com uma convidada especial!