domingo, 2 de dezembro de 2012

À mesa do Café dei Frari

Apresento-vos a primeira leitora a chegar à mesa para as nossas conversas nesta Rua dos Cafés.
Chama-se Safira e tem um blog muito catita. Pelo que escreve presumo-a pessoa bem disposta ou, pelo menos, capaz de pôr quem  passa pela House of the rising cats com boa disposição. Sugiro-vos, por isso, que passem por lá e confirmem.
Agora, que ela já está aqui sentada ao nosso lado, vejamos a hitória que ela tem para nos contar sobre o Café dei Frari, e uma viagem Veneza:



"Esta é a história de uma viagem de amigos que num fim de semana de 2007 decidiram rumar até Veneza. Não é uma história muito feliz. No fim da viagem, duas de nós estávamos de relações cortadas, e não nos falámos durante três anos.  Hoje, as 'tontices' já estão sanadas, mas esta foi sem dúvida a pior viagem da minha vida. Curiosamente, tudo começou à porta de um outro café, no qual não entrámos. O emblemático Florian. Eu queria muito ir ao Florian.  Queria muito sentar-me, beber um chocolate quente e contemplar a praça de S. Marcos, ao som de um quarteto ao serviço do café que tocava na esplanada. Infelizmente, só eu é que queria. Não fomos. A democraria é uma coisa penosa, por vezes. Fiquei contrariada. Os preços não são convidativos, é certo, mas quem vai a Veneza não se pode preocupar com os seis ou sete euros que vai gastar UMA vez num chocolate quente. Penso eu de que...Mas também só eu é que pensava assim, pelo que, seguramente, o problema será meu. O facto de também não termos entrado na Catedral foi mais um ‘pecado’ que me ficou atravessado. A verdade é que tínhamos interesses diferentes. Nunca é boa ideia viajar assim.
Daí em diante tudo correu pior. A história é demasiado densa e penosa para que sobre ela me alongue. Direi apenas que, farta de andar a reboque de humores e a deambular sem rumo, apenas com paragens em lojas de souvenirs, fiz finca pé. Separámo-nos. Eu para um lado, os outros três para outro. Lembro-me de correr (literalmente!) de mapa na mão, para tentar chegar antes das cinco à bilheteira da Scuola Grande di San Rocco. Após uma visita relâmpago (mas maravilhosa) , segui em direcção à basílica de Santa Maria Gloriosa dei Frari, infelizmente já fechada, para minha grande frustração. Ainda tinha uma hora só para mim, mas já era tarde para visitar museus ou monumentos. Olhei em volta e, mesmo em frente da igreja, vejo um cafézinho com montra de vidro. Entrei. Creio que não estava mais ninguém, ou talvez uma mesa estivesse ocupada, mas lembro-me de uma quietude e tranquilidade pouco comuns naquela cidade. Sentei-me numa mesa à janela.  Pedi um cappuccino e uma tarte de pêssego. Comi-a devagar, olhando pela janela, sentindo-me viva e feliz pela primeira vez desde que chegara, orgulhosa do meu grito do Ipiranga.
 Ao mesmo tempo (se é que se pode ser feliz e triste em simultâneo) tive consciência de uma profundíssima solidão naquele momento. Não era uma solidão desesperante, contudo; mais uma nostalgia ao pensar que outras pessoas  poderiam estar ali a vibrar comigo. Pessoas com quem poderia partilhar a emoção da visita ao museu e, no fundo, celebrar a vida. É sempre bom sentirmo-nos gratos pelas oportuniddes que a vida nos concede, mas perde-se um pouco do efeito quando não podemos ver a nossa felicidade reflectida nos olhos de quem nos é próximo. E, inversamente, que é sempre mágico ver o sorriso entusiasmado de quem está connosco e se sente feliz por estar ali e em mais lugar nenhum. Neste misto de emoções, este café ficou-me no coração como um bálsamo quando precisei de conforto e de paz espiritual. Durante pouco menos de uma hora fui, como o Malato, muito feliz em Veneza. E, até hoje, não encontrei uma tarte de pêssego igual. 
Como tudo correu mal nessa viagem, descobri recentemente que perdi todas as fotos que tirei. Ironia do destino? Talvez. Estou a planear voltar lá assim que possível. Com a(s) pessoa(as) certa(s), claro."


Aviso: Talvez a época não seja a mais propícia para estar sentado à mesa de um café a conversar, mas já vejo na Rua dos Cafés algumas pessoas que trazem histórias para  contar. Algumas que já conheço, porque são clientes frequentes, outras que vêm pela primeira vez. O João, que será o próximo convidado, trouxe dois amigos. Cá ficarei à espera das vossas histórias, que deverão ser enviadas para:
pracasdeverao@yahoo.com
Até domingo, à hora habitual

21 comentários:

  1. Uma primeira estória que gostei imenso de ler. Ainda não participei neste desafio por falta de uma estória que valha a pena contar. Mas, quem sabe... se me recordar de algum pequeno pormenor que tivesse acontecido num café algures...

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    1. Não precisa de ser uma história, Catarina. Basta que nos fale de um café de que gostou e nos explique porquê.
      Ficamos à espera!

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  2. Enquanto fui bebericando o meu «cimbalino com vista pró mar»
    - como bom portuense que és, deves saber ao que me refiro - fui ouvindo extasiada a história da Safira...

    Ah, que maravilha! Logo eu, que nunca estive em Veneza! Ter sido feliz lá, nem que fosse por meia-hora, já me teria bastado!...

    Continuação de amena cavaqueira.

    Beijinhos.

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    1. Então eu não havia de saber o que é um cimbalino, Janita?
      Cá ficamos na cavaqueira e à espera do teu contributo.

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  3. Bebendo, não um café, mas um chá quentinho "saboreio" as tuas palavras...

    Sempre que viajo em grupo, nunca vejo o que gosto...

    Conheço Veneza e sua magia. Voltava lá, se pudesse!

    Beijinhos e boa conversa...

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    1. Também não gosto de viajar em grupo e Veneza... gosto ma nonn troppo
      Beijinhos

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  4. A Safira é uma grande contadora de histórias. E uma bem disposta, embora por estes dias de Veneza a disposição não deva ter sido a melhor: pudera, quem não ficaria, com companheiros de viagem que só queriam ir a lojas de "recuerdos" em Veneza?!? :)

    De qualquer forma, acontece a todos, pelo menos uma vez na vida, haver disparidade de opiniões sobre como gozar as férias. O que acaba por ser uma experiência útil: passamos a escolher melhor os companheiros de férias! :D

    E pronto, foi abrir em beleza as conversas de café... :)))

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    1. Se me tivesse acontecido o mesmo, ainda ficaria pior do que a Safira. ( Na verdade já aconteceu e é mais uma razão porque adoro viajar sozinho...)

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  5. Gostei da história. Vou seguir o link :)

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  6. Viajar em grupo tem, como tudo, desvantagens e vantagens.

    Se puder , irei pela terceira vez à Serenissima andar de gôndola...

    Carlos, bons sonhos

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  7. A historia da Safira comento mais tarde; antes quero saber se o blogue dela é tão catita como o nome "House of the rising cats", que é um nome mesmo muito giro.

    Há prazo de entrega para entrar nestas conversas de café, Carlos?

    A história tem de ser verdadeira ou chega que seja "quase" verdadeira?

    Pode ser uma história de natal ou policial, onde o café seja o lugar do crime ou da festa de natal?

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    1. Não há prazo, Ematejoca. As conversas de café durarão enquanto houver leitores que queiram contar histórias , ou falar de cafés de que têm boas ( ou mesmo más...) memórias.
      Eu também contarei por aqui algumas das minhas

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  8. A Teté tem razão, a Safira é uma grande contadora de histórias.

    Aconteceu o mesmo comigo em Praga, mas ninguém se zangou, quando eu fui sózinha à minha vida. Encontramo-nos mais tarde num restaurante para jantar.

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  9. Carlos,
    Nas viagens oficiais (Maria vai com as outras) é raro não me pirar.
    Até porque, ir para Banguecoque comer comida da Cantão não faz muito sentido na minha cabeça.
    Esta semana vai receber a minha história.

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    1. Fico à espera, Pedro. De certeza que será uma bela história

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  10. Já me aconteceu, mas uma única vez, não estar em sintonia com os meus companheiros de viagem; e só aconteceu por ter viajado com três amigos, num mini, durante um mês inteiro, por terras de Espanha, França e Inglaterra. Gostos diferentes, espaços apertados, gente amiga mas "chata" levaram a que um dia em Londres, me desse a mim mesmo 24 horas de liberdade.
    Como compreendo pois a Safira, com a sua bela história sobre Veneza.

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    1. Realmente, João, nessas circunstâncias tinha tudo para dar errado :-)

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  11. Atrasada, como sempre. Compromissos académicos e domésticos impediram-me de vir cá mais cedo, mas não queria deixar de agradecer-lhe, a si e aos leitores, as simpáticas palavras. Esta situação de contrariedades em férias acaba por ser frequente, como se vê pelos testemunhos de alguns comentadores. Já não me sinto tão sozinha no meu pequeno drama. E, bem vistas as coisas, voltava a fazer tudo igual. Não me chateava era tanto:)
    Se não for mais cedo, (será com certeza) até ao próximo domingo para mais uma história de cafés.
    Beijinho e boa semana!

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  12. Eu e os leitores é que agradecemos a sua presença nesta tertúlia e ter partilhado esta história connosco, Safira.
    Obrigado!

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