domingo, 9 de dezembro de 2012

À mesa do Café Monte Carlo


O nosso segundo convidado para estas tertúlias dominicais é o João Roque que muitos dos leitores já conhecem. Habitual participante nas iniciativas promovidas aqui ou no CR, o João é o administrador do blog  whynotnow e traz-nos recordações de um café e de uma época que muitos de nós recordamos. Respondendo ao meu convite, o João trouxe consigo dois amigos ( a Margarida e o Francisco) que também   virão aqui contar-nos uma história.
O João já está sentado ao nosso lado, por isso é altura de ficarmos a saber o que tem para nos contar sobre  o  Monte Carlo ( café de que também eu fui frequentador) um local mítico de Lisboa... bem dêmos a palavra ao João.




"Sou do tempo em que se frequentavam os cafés e em muitos, havia estudantes a qualquer hora do dia ou da noite; eu próprio fiz algumas das cadeiras de Económicas num simpático café perto de minha casa e que ficava a 100 metros do Instituto Britânico – o “Big Ben”.
Mas o meu café de Lisboa era bem longe das minhas duas primeiras casas lisboetas, ficava no Saldanha (mais propriamente no final da Fontes Pereira de Melo) e era sem dúvida um dos mais emblemáticos cafés de Lisboa – o “Monte Carlo”.
Eu sei, Carlos que também foi o teu café e quem sabe não nos cruzámos várias vezes por lá…
Comecei a ir ao Monte Carlo, porque a malta da Covilhã que estudava em Lisboa fez ali o seu poiso e ali nos encontrávamos todas as noites e quantas tardes…Mesmo em frente da “Paulistana”, onde pontuavam os alentejanos e os estudantes de Veterinária, ficava mesmo ao lado de outro café bem conhecido, o “Monumental”.
Mas o Monte Carlo era uma instituição e chamavam-lhe a “catedral”. Havia à entrada, do lado de fora à direita, a tabacaria (vê-se na foto) e logo depois de franqueada a porta, do lado esquerdo, antes do restaurante, a pastelaria.
Geralmente encontrava-se por lá um cão, velho e gordissimo, o Benfica, que adorava queques e tanta gente lhe comprava esses bolos para sua delícia…
O restaurante, não me perguntem pela ementa, pois para mim, só existia o “bife à Monte Carlo”, com molho de café e que quase se trinchava com o garfo. Mais tarde, quando fui para a tropa, para Mafra, o meu fim de semana só começava depois de ali comer o bife, acompanhado de meia garrafa de Dão Grão Vasco. Presença assídua ali no restaurante, quase sempre só, era Laura Alves, com o seu lenço verde na cabeça e os enormes óculos de sol, sempre aparentando tristeza.
Depois do corredor, com mesas, chegava-se à parte mais baixa e maior do café, onde geralmente nós abancávamos; a afabilidade dos empregados de mesa era tal, que quando chegava à mesa, tinha o café já à espera.
Nesse corredor prontificava a tertúlia dos forcados com o Salvação Barreto à cabeça. Depois havia os actores, vários, embora alguns também frequentassem o Monumental e havia os escritores e os “revolucionários”.
Sim, ali havia de tudo e até muito boa gente de variados gostos sexuais.
E depois havia as “traseiras”; por de trás dos bilhares havia um pequeno bar e as célebres mesas do dominó e dos cavalinhos, e não só… Havia um cabeleireiro de homens e o WC.
Era um mundo, que começava à porta, na cavaqueira e que prosseguia lá dentro, no estudo, na escrita, no jogo, nas conversas, no início de tantas ideias de esquerda, tudo ali coabitava.
Hoje é mais uma loja da Zara, que tristeza…”

Realmente é uma tristeza, João. Passar à porta da Zara e recordar o Monte Carlo, ou entrar no Monumental e lembrar - me do café com o mesmo nome, é algo que me acontece com muita frequência, pois o meu gabinete de trabalho é no Saldanha. Obrigado pela tua evocação e por estes minutos de conversa. 
Contamos com a tua presença e dos teus amigos no próximo domingo. O convidado é o Pedro Coimbra e vai contar-nos uma história hilariante.
Entretanto renovo o convite a todos os que por aqui passam, para enviarem as vossas histórias sobre episódios vividos em cafés ( como a Safira) ou sobre  um café ( como o João)
O endereço , já sabem, é:
pracasdeverao@yahoo.com

15 comentários:

  1. Pois é Carlos, mas fica-nos a lembrança desses sítios como eram, e essa imagem jamais se apagará.

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    1. Uma das boas coisas da vida é podermos recordar os bons momentos que ela nos proporciona, João.
      Obrigado por teres contribuído para isso com a tua participação

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  2. Olá Carlos, olá João! Que, por enquanto, são os amigos que cá estão!
    Foi com prazer que reli estas memórias do João, uma vez que ele já as havia publicado no seu blog.
    O João escreve muito bem e consegue passar-nos todas as emoções por ele vividas e sentidas.

    Deste café não me recordo senão do nome, mas lembro-me bem do Teatro Monumental e do café, na Praça Duque de Saldanha.
    Primeiro foram os Bancos a usurpar esses locais de convívio, depois, os grandes ou médios franchisings nas mais diversas áreas.
    Ficaram, as recordações...

    O meu café irá retratar algo mais actual.:-))

    Beijinhos a ambos.

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  3. Carlos, gostei, igualmente, deste pedaço de história que o João tão bem descreveu, embora não seja do meu tempo.
    ainda não escrevi a história, não tive muito tempo e a inspiração tem que me envolver :)
    mas como há um convidado para a semana, fico mais descansada. mas irei enviar o conto para o email. só depois de publicado aqui é que publico no meu blogue.
    bjs.

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    1. Obrigado, Margarida. Pelo que tenho lido no seu cantinho, tenho a certeza que será uma bela história
      Bjs

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  4. Olá amigo Carlos!
    Já nem me lembrava destes nomes todos. Foram poucas as vezes que frequentei esses cafés e quando ia para esses lados era mais para o Porão da Nau.
    É uma ideia bem gira, esta das estórias de café. Um dia destes mando-te uma das minhas, passadas num café-bar.
    Grande abraço amigo Carlos

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    1. Amigo Kim
      Também conhecia o Porão da Nau, mas entrei lá pouquíssimas vezes.
      Fico a aguardar a história. Cafés-bar ( com múscica ao vivo!) também frequentei alguns. Um que tenho bem na memória foi dos últimos a desaparecer. Lembra-se do "Quando o Piano Toca"?
      Grande abraço

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  5. Começando pelo fim: já alinhavei um texto, mas está um pouco longo, ainda precisa de reduzir mais um pouco. Ainda lho envio esta semana! :)

    Fui uma ou duas vezes ao Monte Carlo, mas não me calhava muito em caminho, só tenho uma vaga recordação do local. Do que me lembro é que estava sempre cheio de gente... Mas gostei deste cafezinho com o João, embora já chegasse atrasada para o paleio! :)

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    1. Mas ainda chegou a tempo de "ouvir" a história e isso é que é importante, Teté.
      Ficamos então à espera da sua história que de certeza nos irá agradar a todos.

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  6. Gostei do texto, embora não frequentasse o café - até porque nunca vivi em Lisboa.


    Posso enviar mesmo um texto acerca de uma situação verídica ?

    Amigo Carlos, boa semana

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  7. Vivi cada "passinho" das memórias passadas no café Monte Carlo.

    Adoro estes "recordares"...são desfiares do baú das memórias.

    Assim vou conhecendo cais , para mim, desconhecidos.

    Beijos.

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  8. Ainda bem que teve esta ideia da rua dos cafés, Carlos, pois graças ao João fiquei a conhecer o Monte Carlo, de que ignorava a existência. Tenho contudo um reparo a fazer: os frequentadores eram todos benfiquistas, não? Tenho de confessar que com um petit nom como "a Catedral" e um porteiro canino chamdado "Benfica" eu, sportinguista ferrenha, não sei se me atreveria a entrar :)

    beijinho e boa semana

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  9. Como não consigo accionar as respostas aos comentários, aqui ficam as respostas à São, Mona Lisa e Safira
    São:
    Claro que pode. Aliás, apetecia-me mesmo dizer DEVE! Uma boa semana e cá fico à espera do seu preciosos contributo.
    Uma boa semana

    Mona Lisa
    E não nos quer desvendar um dos seus?
    Beijinhos e boa semana

    Safira
    Podia entrar à vontade. Até eu, portista, bicho raro nos anos 60 em Lisboa podia lá entrar!
    Beijinho e boa semana

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  10. Carlos,
    Quantos cafés, cinemas, deram lugar a lojas da Zara?
    Aqui é mais perfumarias e lojas de bolinhos very typical.
    Se isto é progresso.....

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