domingo, 16 de dezembro de 2012

À mesa no café bar da Faculdade de Direito

Hoje temos connosco o Pedro, um homem  muito dado a Devaneios e que diariamente nos proporciona momentos de boa disposição desde o Oriente. 
Como não podia deixar de ser,a história do Pedro é bem disposta e vai provocar umas boas gargalhadas.Preparem-se




Para responder a mais um desafio do Carlos, não é acerca de um café que vou escrever.
Prefiro escrever acerca de um episódio rocambolesco que vivi pouco tempo depois de ter começado a frequentar o curso de Direito em Coimbra.
Confesso que era, juntamente com um amigo de longa data, um bom boémio.
Como não era obrigatório frequentar as aulas, nós éramos frequentadores assíduos…..do bar.
Ainda para mais tendo o bar de Direito uma “paisagem” muito famosa.
Para agravar, no nosso ano de caloiros, a “colheita” foi especialmente farta.
Em qualidade e em quantidade.
Assíduos frequentadores do bar, eu e o meu amigalhaço enfrentávamos corajosamente as “horas de ponta”, isto é, logo pela manhã, após o almoço e ao final da tarde.
Se não havia mesa desocupada, nem cadeira para nos sentarmos, ficávamos de pé nas escadas que davam acesso ao bar.
Até era um bom local porque, ficando no topo, ou no primeiro degrau, dava para admirar toda a “paisagem” logo abaixo.
Naquele dia, “caloiro a cheirar a leite” na linguagem de Coimbra, estava com esse meu amigalhaço, logo após um almoço muito frugal na cantina das Físicas no primeiro degrau das escadas.
Quer o bar, quer as escadas, estavam apinhados.Qual não é meu espanto, levo uma valente palmada no pescoço.
A princípio pensei que se tratava de um outro amigalhaço.Não era.Era um idoso que eu não conhecia e que, entre as dezenas de pessoas que ali estavam, resolveu que o meu pescoço seria o mais interessante para levar uma boa palmada.E escolheu-me a mim para berrar desabridamente exigindo que toda a gente saísse das escadas e o deixasse passar em paz.
Confrontado com a palmada e os berros, e não conhecendo o sujeito, fiquei atónito.E furioso.Mas não podia esmurrar um idoso.Idoso que, mais furioso que eu, me perguntava incessantemente – “sabe quem eu sou?”
Não fazia a mais pequena ideia. Nem eu, nem o meu amigalhaço.
Amigalhaço esse que, mais desbocado que eu, ria a bom rir e dizia – “Pedro, mando o velho pró c$%^&*!! O tipo dever ser daqueles doidinhos amigos do Tatonas!!” (Abra-se um parêntesis para explicar que o Tatonas era um indigente, com problemas mentais, que vagueava pela cidade, com um aspecto em tudo semelhante ao do “filho do Pinto da Costa”).
As bocas do meu amigalhaço e o seu riso trocista, mais enfureceram o idoso.E este continuava a  berrar, visivelmente alterado – “sabem quem é que eu sou, sabem quem é que eu sou??!!
Entretanto, o bar inteiro estava concentrado na cena e as reacções dos colegas variavam entre o espanto e o riso descontrolado.Indignado e já sem paciência, comecei a berrar com a pessoa e mandei-o a alguns locais que não vou agora aqui referir.
Foi então que chegou ao pé de mim, me agarrou no braço e me pediu para ir embora, o dono do bar, o Agostinho, irmão de um tio meu.
“Pedro, vai embora que eu depois falo contigo. Agora sai!”
Foi a minha vez de me exaltar a sério.
Sair dali porquê? Estava tranquilo, o velho deu-me uma palmada, desatou a berrar comigo, e eu é que vou embora?Nem pensar!!
O Agostinho insistia, agora puxando-me para fora – “anda embora, anda embora”.
Achei estranho, mas amigo do Agostinho como era, e porque tudo me estava a parecer muito estranho, lá fui com ele.
Já cá fora, na rua, o Agostinho diz-me – “porra, Pedro, não sabes quem é o gajo???”
Respondi-lhe que não e que não tinha obrigação de aturar velhos malucos.
O Agostinho, finalmente, desvendou-me quem era esse “velho maluco” – tão só o Professor Eduardo Correia, ilustre penalista, à época director da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Fiquei sem pinga de sangue!
Mas, mesmo assim, pouco tempo depois, ainda tive a lata de ir ao “local do crime”.
Agora guardado por dois funcionários, um da cada lado das escadas, os quais, juntamente com toda a malta que estava no bar (o Prof. Eduardo Correia já tinha ido embora) olhavam para mim e não conseguiam parar de rir.
Durante uns tempos, eu o meu amigalhaço ficámos célebres – os dois caloiros que mandaram o Eduardo Correia pró c#$%^&* e ainda lhe chamaram Tatonas!!
Moral da história?
Vão às aulas pá, vão às aulas!!
Nota do editor do blog: Está a ser bem recebida pelos leitores esta iniciativa das conversas à mesa do café e agradeço a todos os que já enviaram as suas colaborações.
Nas próximas duas semanas não me será possível estar presente nesta tertúlia ( e penso que com alguns leitores possa acontecer o mesmo) Assim,  as conversas de café de 23 e 30 de Dezembro serão preenchidas com memórias de cafés que fazem parte das minhas memórias, mas não poderei vir cá responder aos vossos comentários.
Estas conversas serão retomadas no dia 6 de Janeiro ( Dia de Reis) com uma história da Catarina, para a qual reclamo desde já a vossa presença. Depois de Macau, será a vez de viajarmos até ao Canadá.



45 comentários:

  1. Só a mim, Carlos, só a mim :))))
    Aquele abraço!!!!

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    1. Não sei se é só a si, Pedro...Como sabe bem melhor do que eu, que só por lá passei uns meses, Coimbra está recheada de histórias hilariantes de estudantes.
      Esta é digna de figurar num compêndio de histórias da universidade coimbrã. Obrigado por tê-la partilhado connosco e nos ter alegrado a tarde de domingo

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  2. Ahahah!
    Imagino como estes caloiros ficaram célebres! Aposto que ainda há quem se lembre do sucedido!
    Abraço

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    1. De certeza absoluta, Catarina. Não só os que a presenciaram, mas também alguns que por aquele tempo dela terão sabido.
      Abraço

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  3. Vá lá uma pessoa fiar-se nas aparências! Eu, a pensar que o Pedro Coimbra tivesse sido, desde sempre, uma pessoa muito "certinha e cumpridora dos seus deveres".:))
    Oxalá as filhotas não saibam que o pai, quando caloiro, matava as aulas para ficar a apreciar a «paisagem»...vai ser um caso sério para manter a ordem e a disciplina.:-)
    Oh, juventude!!
    Mas também, que direito tinha o raio do velhote, fosse lá ele director da Faculdade ou Presidente da República, de começar à cachaçada ao aluno, que lhe tolhia o passo? Foi muito bem feito ter ouvido das que "os cães não gostam". lol

    Estou aqui a pensar no tal Tatonas que era parecido com o "filho" do Pintinho! Imagino que o Pedro se refira ao célebre emplastro, não será? Ahhhh, mas ele agora está todo jeitoso com o seu sorriso Pepsodente...;)
    Beijinho a ambos!:-)


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    1. Não sei há quanto tempo segues o Pedro mas eu, que o sigo há uns anos, já sabia há muito que ele não tinha essa imagem certinha na juventude.
      Beijinhos

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    2. Janita,
      Gozei (muito!!) a minha juventude.
      Ficaram episódios únicos no meu álbum de memórias.
      Que partilho com a minha mulher e as minhas filhas.
      Hoje, com uma vida pacata, a minha filha mais velha (tem quase 15 anos) diz exactamente o que a Janita diz - "até custa a acreditar" :)))

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  4. Só tenho a dizer que o fulano só ouviu o que mereceu! Aliás, é sempre de desconfiar de gente que faz essa pergunta de "sabe quem eu sou?". Normalmente são trastes, que só sabem puxar de "galões", merecidos ou nem tanto. E que se dão ao luxo de achar que os outros (todos) são seus inferiores... :)))

    Mas achei um piadão à história! :D

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    1. Também me irrita solenemente essa pergunta. Infelizmente, já a ouvi na boca de alguns políticos medíocres.

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  5. Não sei porquê, mas esta história tem mesmo a cara do Pedro :)

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    1. Se tem a cara do Pedro, não sei, agora que é uma bela história, não tenho dúvidas...

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  6. Não foi esse que foi Ministro da Educação e da Justiça ? rsrsrs
    Bem mereceu os insultos.
    Sempre me irritaram solenemente aqueles que "tiveram" qu perguntar : "Sabe quem eu sou" ? ... é muito mau sinal ! :(((
    .

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  7. Ora o que eu tenho andado a perder! :-))
    É mesmo de Prof. Dr. de Coimbra esta pergunta!
    Penso que ainda por lá andam rançosos destes!
    Tenho que começar a ir até Macau!

    Abraço

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    1. E já agora, passe a ser também cliente destas conversas dominicais, Rosa.

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  8. E que seria da vida sem o perfume das recordações?

    Bem que gostaria de viajar.
    Preciso de ver novas caras, sentir novos cheiros.
    O ambiente bafiento deste país está-me a deixar enlouquecida.

    Boas festas, de todo o género.

    Beijinho e boa viagem.

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    1. As recordações ( boas ou más) são o sal da vida.
      Ainda não parto agora, Pérola. Antes, ainda espero deixar-vos aqui alguns posts e votos de Boas Festas

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  9. Às vezes, este tipo de estudantes "práfrentex" (eu também assim fui) fica com a grata recordação do sucedido e lembra-a com saudade. Outras, não podendo recuar no que se fez ou disse, pode alterar todo o rumo duma vida.
    Ainda assim, prefiro o primeiro
    Abraço amigo

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  10. Não tem preço o nosso baú de recordações!

    Li o texto com um sorriso e ainda mais sorri quando li "Tatonas".

    Conheci-o não quando estudei um ano em Coimbra, mas já depois de 75, regressada de Luanda.
    Via-o várias vezes perto de casa dos meus pais(Café Trianon). Uma figura ímpar!

    Boas Festas...boas férias...

    Beijinhos.

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    1. Só conheci o Tatonas de nome, nunca o vi, mas ao que sei era uma "figura".
      Ainda falta quase uma semana para ir de férias, Mona Lisa. Até lá ainda vou escrever alguns posts. Especilamente sobre um filme que fui ver hoje e me deixou arrasado.
      Beijinhos

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    2. Curioso que refira o Trianon, Rosa dos Ventos.
      Durante alguns anos fui frequentador assíduo da discoteca ali ao lado, a Oui.
      E do Trianon também.
      Tanto que, do outro lado da rua, numa noitada na discoteca, assaltaram o meu Fiat 600.
      Onde tinham ficado guardados ........17 casacos!!
      Recuperei-os quase todos, numa pensão muito esquisita, numa cave ao pé da sede da AAC/OAF.
      Já ouviu falar na "vassourinha"?
      Uma colher de bica, partida pela parte mais fina, que abria os carros todos.
      Foi assim que abriram, e fecharam !!!!, o meu.
      Os casacos foram então todos levados para uma boite em Tentugal, onde "trabalhavam" as meninas que ficaram encarregues de os guardar antes de serem vendidos.
      Nao tiveram tempo disso.
      Isto de ter muitos amigos, até na Policia, e muito bom.

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    3. Mona Lisa, desculpe, troquei o nome :)))

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  11. Carlos,
    Deixe-me acrescentar mais um bocado de tempero ao episódio.
    Imaginem agora o dito cujo, nervoso, provavelmente a tentar tirar os cartões de visita do bolso do casaco, a dar uma valente palmada nos óculos, os quais voaram até meio do bar.
    E aquela malta toda sem saber se devia apanhar os óculos e entregar-lhos, ou ficar quietinha.
    Optaram pela segunda.
    E lá andou ele de rabo no ar a procurar os óculos no meio do bar.
    Memórias que ficam para sempre :)))

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    1. Um episódio de um prof de rabo para o ar na cantina, perante o ar impávido e gozão da malta, aconteceu também na Faculdade de Direito aqui em Lisboa, com o meu ódio de estimação que dá pelo nome de Pedro Soares Martinez.
      Ver aquele pedaço de sebo de rabo para o ar na cantina a apanhar os cacos das lentes, deu-me um gozo supremo.
      Como bem diz, Pedro, são memórias que ficam para sempre

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  12. Que bom rir, nos tempos que correm...
    Um obrigado ao Pedro.

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    1. Com o Pedro a boa disposição está sempre garantida, João. Não conheço ninguém na blogosfera que tenha um tão vasto manancial de anedotas e episódios picarescos como ele.

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  13. Detesto pessoas que puxam pelos galões! Ainda por cima tive o azar de me relacionar, no passado, com uma c*bra dessas! Mas a história tem piada sim senhor! Gostei de ler! :)))))

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    1. E nós gostamos de o ver sentado pela primeira vez à mesa do nosso café Luciano. Volte mais vezes.

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  14. Estava a ler o relato do Pedro e a imaginar o velhote apoplético a esbracejar e os dois caloiros muito inocentes sem perceberem nada:) Muito divertida a história. Também me irritam solenemente os 'sabem quem eu sou?. Acho que nunca me aconteceu mas se alguma vez me perguntarem, já levo daqui umas hipóteses de resposta ;)
    Boa semana!

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    1. Aprende-se sempre alguma coisa à mesa deste café, não é verdade, Safira?
      Boa semana também para si

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  15. Uma gira estória de caloiros dos anos... do século passado.

    Feliz Natal ao dono deste agradável espaço bem como a todos os serus visitantes

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    1. Um Feliz Natal também para ti e obrigado pela visita e pelas palavras.

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  16. O eterno problema de não "irmos" às aulas, Pedro! :DDD

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    1. Seja bem vindo a esta mesa, Ricardo. Apareça mais vezes!

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    2. Caro Carlos,

      eu apareço sempre, no entanto, nem sempre comento!

      Abraço

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  17. Dá nisto, Ricardo, dá nisto :))
    E em muito mais, acredite!

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  18. OMG! Pedro por esta história é que eu não esperava :) Que boas gargalhadas que já soltei!

    Beijinhos

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  19. Poppy,
    Se eu começar a desenrolar o caderno das memórias, escrevo mais livros que a J. K. Rowling, Poppy:))))

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  20. Ir às aulas é uma boa ideia. Eu fui a poucas e deixei a llicenciatura pendurada...mas tenho muitas recordações do bar e da FDUC por onde vou passando agora que frequento a faculdade que está ao lado :)
    Gosto destas crónicas variadas ...

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