quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

De Palermo com amor...



Diante do teclado, com um  trabalho para produzir sobre matéria tão excêntrica como os direitos dos consumidores vulneráveis, o meu pensamento insiste em atravessar o Atlântico e partir à descoberta, como se fosse a primeira vez, dos recantos de Palermo.
Imagino-me a percorrer a Corrientes, derivar pela Lavalle, entrar em Santa Fé e mergulhar no “viejo Palermo",esventrando vielas esconsas, parando no acolhedor Pani para o desayuno, espiolhando  o que se esconde por detrás de uma vereda.
Imagino-me a escutar, através das típicas ventanas de uma "cantina", ecos de um tango de Gardel e imagino Borges a verter para o papel, como uma epopeia, uma cena de facadas ao ritmo de uma milonga.
Sentado num banco do jardim recupero a doçura do teu olhar, o sabor dos teus beijos, a sensação de percorrer suavemente  as curvas do teu corpo.
Pela noite convido-te para jantar no “El Último Beso”? Não… esse foi no aeroporto, no dia em que partiste para sempre, mas ainda hoje guardo  o calor dos teus lábios.  Há dias, ao ler que iam começar a ser julgados os canalhas dos voos da morte, passou-me uma coisa pela cabeça…  Estupidez! Não pode ter  sido assim. Finjo acreditar que não foi.
Lá fora continua a chover. Acendo a luz  e regresso a Lisboa. Tenho de continuar a escrever sobre os consumidores vulneráveis. Afinal é fácil. Vou escrever sobre mim.

5 comentários:

  1. Et Violá!

    O óbvio iluminou-se.

    Uma divagação linda com sotaque italiano.

    Beijinho e boa viagem.

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  2. Um texto intimista e lindo...

    O meu abraço, amigo

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  3. Quando as memórias, docemente amargas, já vividas, interferem com as ideias para realizar um trabalho, o resultado só pode ser este!
    Um belo e sentido texto que nos toca bem fundo na alma.
    Nós é que somos os consumidores vulneráveis destas tuas crónicas, Carlos!

    Beijinhos.

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  4. Fiquei arrepiada! Como é possível que esses voos da morte possam ter acontecido? Os seres humanos ainda me conseguem surpreender, pelas piores razões...

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