segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Maladie d'Amour




Não tenho palavras par definir “Amour”. Palma de Ouro em Cannes, vencedor do Prémio do Cinema Europeu e forte candidato a algumas estatuetas em Hollywood, “Amour” entrou directamente para o restrito rol de “filmes da minha vida que nunca irei esquecer”...enquanto memória tiver! 
Esmagadoramente belo? Avassaladoramente perturbador? Cruelmente violento?  Perfidamente acusador? Tudo isso, mas muito mais.
Não é apenas um filme sobre o amor. É um filme sobre a vida, a morte, a decrepitude e o envelhecimento . É um filme sobre a tragédia humana, a decadência, a perda  dos valores e  da dignidade.  Parece feito à medida do “Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade Entre Gerações” que este ano se assinala.
É um filme passado num “laboratório” ( ou será num sarcófago?) onde um casal octogenário ( interpretações magistrais de Jean Loius Trintignant e Emmanuelle Riva) está sempre em cena a servir de cobaia, mas a principal protagonista é na verdade a filha (Isabelle Hupert) com escassas e curtas aparições. Confusos?  Eu explico.
Embora o filme se centre no casal e na forma como vive a decrepitude, a verdade é que nos está sempre a falar da ausência. Dos adiamentos. Das pequenas coisas sem importância. Dos detalhes que deixamos escapar e nos vão sugando a vida. Tudo isto é personificado em Isabelle  Hupert, a filha ausente, mas também no porteiro e sua mulher, ou na enfermeira incompetente e oportunista que trata os velhos sem profissionalismo, com sobranceria e sem respeito pela sua dignidade.
O filme  parece ser uma amálgama de pequenos pormenores, detalhes sem importância, mas é precisamente nos detalhes que toda a trama se constrói até nos esmagar e deixar presos à cadeira, à espera que as luzes se acendam. ( Raras vezes tenho assistido a um filme onde a pessoas permaneçam duas horas em silêncio. Sem murmúrios. Sem tosses. Nada! Absolutamente nada!) Depois de a luzes se acenderem fiquei a observar as caras de quem saía. Eram rostos esmagados. De encantamento? De remorso? De amargura? A viver os efeitos de uma catarse consentida, mas não programada? Não vos sei dizer. 
Talvez um somatório de todos estes sentimentos. Que, tal como no filme, se foram construindo reactivamente, nos pequenos detalhes da trama. 
O filme não tem qualquer suspense, pois a primeira cena revela-nos o final. Só que, até lá chegarmos, Haneke no obriga a percorrer o doloroso caminho até à morte, chamando-nos a meditar em cada detalhe, em cada cena, porque só a  análise individualizada permite captar os sinais das múltiplas mensagens que o filme transmite. Onde não há vítimas e culpados, porque todos o são em simultâneo.
A última palavra de  Emmanuelle Riva é dói! Repetidamente a ouvimos dizer dói! dói!dói! dói! E nós sentimos essa dor como um punhal que se vai cravando na nossa consciência. Tão humilhada, como o casal  impotente para evitar a humilhação da decrepitude. Tão violenta, que Jean Louis Trintignant a pretende afastar da visão da filha. Tão vil, quanto o amor às vezes pode ser.
Encontrei, finalmente, uma palavra para definir “Amour”. Soberbo! Mas de uma soberba que dói. Muito! De forma quase brutal!
Havia muito mais coisa a escrever sobe este filme, mas a prosa já vai demasiado longa.
Fico a torcer para que saia de Hollywood carregado de estatuetas. Seria uma vitória do realismo do cinema europeu sobre a ficção americana. Seria a vitória da  Vida sobre o reality show de autómatos em que transformamos a nossa existência.

15 comentários:

  1. Este seu desabafo é exactamente o que eu esperaria de um filme destes (de que só vi excertos ainda). Tenho algum receio, como acabei de dizer no blogue da Teté, de ser confrontada com a brutal realidade. Claro que acabarei por ver, mas no recato do lar, onde posso fazer uma pausa ou chorar baba e ranho sem me preocupar com a compostura. Também acho que este filme é dos que ficam com a pessoa durante muito tempo...

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    1. Safira, outra vantagem de veres em casa, é que não fazes as figuras tristes de ressonar em público... se for o caso! :)

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    2. :) olha que mesmo em casa há sempre quem nos apanhe em momentos menos compostos. E goze o prato à conta disso...

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  2. Amor por Amor fui á sala ao lado, Anna Karenina/Keira Knightley já tinha lido Tolstoy em português e inglês, sim está lá TUDO ...

    Cada cena, é AQUELA CENA, os close up, os campos, as cores, os vestidos, o backstage do teatro, as jóias. óh good gostei mesmo.


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  3. Vou ver amanhã! Já li todas as críticas possíveis, e agora o teu texto excelente! Não há nada que chegue ao cinema europeu, apesar da Europa estar a afundar-se:))

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  4. Estou dividida quanto a ir ou não ver este filme, já tinha imaginado que deveria ser um filme diferente e difícil...

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  5. Com a tua bela narrativa e discrição até fiquei com receio de ver o filme.

    Essas dores de que falam doem em demasia.

    De qualquer das formas aguardo oportunidade.

    beijo

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  6. Michael Hanekes é um dos meus realizadores favoritos e, os actores são de primeira água.
    "Amour" vai ganhar o Óscar como o melhor filme estrangeiro.

    Hoje ao fim da tarde vi a história da Anna, que é para mim, a melhor versão de todas as que até hoje vi.

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  7. Bom, Carlos, como sabe nem tenho opinião: adormeci no início e acordei já estavam as legendas a passar... :)))

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  8. Bem… por enquanto não vou ver – e até duvido que o chegue a ver - apesar de considerar a análise do filme excelente.

    Não é a altura apropriada para mim. Não quero enfrentar ainda todas as fases por que todos passamos mais tarde ou mais cedo. Tenho exemplos em meu redor. Necessito, neste momento, de filmes que me ponham bem disposta e que não conduzam a análises deprimentes embora realistas.

    A seguir... Anna Karenina?

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  9. Depois desta tua belíssima narrativa, sei que é um filme que vou gostar de ver, mas não agora...nesta altura, neste momento!
    Sinto-me demasiado fragilizada para esse tipo de "realismos"...talvez um dia mais tarde. Quem sabe?

    Beijinhos.

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  10. Não sei se alguma vez o irei ver, no entanto acho que pode ser interessante, mas não para eu ver no momento que estou a passar.
    Boa semana Carlos

    beijinho e uma flor

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  11. Cada vez mais curioso para ver o filme.
    Será que vai passar aqui em Macau?
    Não é "americanada", tenho receio que não passe.

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  12. Já espreitei (fora do circuito), Carlos, e é, realmente, muito bom!

    É o amor!

    Abraço

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  13. Ai, ai, ainda não o assisti, talvez mesmo pelo medo da dor.Porque tenho uma tendência a ficar dolorida com as questões da alma.
    Tenho acompanhado o envelhecimento dos meus pais bem de perto e por melhor que seja é algo que nos abala.Cada nova limitação vai os colocando no papel inverso do que deveria ser a relação pai e filho(a).É um esquecimento aqui, é uma dor alí, um objeto derrubado acolá, as mãos que vão perdendo a força, as pernas que vão perdendo a firmeza e principalmente aqueles momentos em que pensar cansa, ou dói, ou ainda quando não querem mais discutir...
    Estou esperando um bom momento para assistí-lo.
    Bjo

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