domingo, 23 de dezembro de 2012

Na esplanada do "Les deux magots"




Na última semana do Ano, Paris deve ser parecido com a Black Friday do El Corte Inglês. Embora nunca tenha estado nesse evento que põe meia Lisboa de cabeça à roda sei, por alguns relatos, que por lá andam milhares de tugas eufóricos, com a oportunidade de compras a metade do preço. Em Paris não havia muitos turistas tugas, quem andava por lá não andava à procura de saldos, mas não faltavam italianos aos berros, em número suficiente para encher dois estádios de San Siro, russos alcoolizados e brasileiros bastantes para encher o Maracanã em dia de Fla-Flu.
Ora, nestas circunstâncias, visitar museus não é a melhor opção. As filas estendem-se por centenas de metros, desafiando a paciência dos turistas mais fleumáticos, que passam um dia inteiro entre as filas e uma visita a um museu. Já estive em Paris umas duas dezenas de vezes fora das época de grande afluxo turístico e, por isso, conheço razoavelmente bem a maioria dos museus mais emblemáticos. No entanto, uma visita ao Georges Pompidou é sempre obrigatória. Arrostei com uma fila de 300 metros que se movia a bom ritmo e lá fui cumprir o meu ritual.
O resto do tempo passei-o a desfrutar a cidade. S. Pedro esteve pelos ajustes, fechou as torneiras e, apesar das temperaturas gélidas durante a maior parte da minha estadia, pude passear por Montmartre, Saint Germain, Quartier Latin, Montparnasse, Grand Boulevards, Trocadero ou Champs Elysées.
Gosto de passear por cidades com história e os edifícios de Paris têm vida e guardam memórias que ajudaram a construir a História da Europa. Uma História diferente- porventura mais vivida- daquela que se guarda entre as paredes de um museu. Gosto de me sentar em cafés e esplanadas frequentadas noutros tempos por escritores, poetas ou filósofos, que fazem parte da cultura e da História ocidental.


Ao início de uma tarde sentei-me na esplanada do “Les Deux Magots", no preciosíssimo bairro de Saint Germain. Este emblemático local de Paris, fundado em 1813 uns quarteirões distantes da sua localização actual, era um estabelecimento comercial onde os parisienses procuravam “novidades”. Em 1873 transferiu-se para as actuais instalações, onde permaneceram bem visíveis as duas estátuas de madeira ( na foto) que lhe deram o nome.A partir dessa data, “Les Deux Magots” passou a ser um café/ casa de chá muito frequentado por intelectuais contando, entre os seus assíduos visitantes, nomes como André Malraux, André Gide, Anatole France, Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre ou Albert Camus. Também Hemingway aqui escreveu algumas das páginas dos seus livros e Picasso pintou alguns dos seus quadros.
A importância de “Les Deux Magots” na vida cultural parisiense está bem patente na criação, em 1933, do prémio literário Les Deux Magots que, ainda hoje, é uma referência incontornável no meio cultural da capital francesa.
Enquanto saboreava uma omelette aux trois saveurs, imaginei-me a viver naqueles tempos, compartilhando o espaço com alguns dos vultos que fizeram a História da Cultura Europeia. Saí de lá reconfortado e continuei o meu passeio por Saint Germain, até desaguar no Quartier Latin. No caminho descobri, numa placa de mármore, um pequeno pedaço de Portugal. 
Deixara para trás os Jardins du Luxembourg e caminhava pela rue Gay-Lussac em direcção ao coração do Quartier Latin, quando sou atraído por uma placa de mármore onde se lia:


DANS CET IMMEUBLE A VÉCU
DE 1969 À 1974

AMORIM DE CARVALHO

POÈTE ET PHILOSOPHE PORTUGAIS
MORT À PARIS LE 15 AVRIL 1976

Fiquei a magicar. Como era possível ter-me escapado esta placa em passeatas anteriores por esta rua?
 Já em Lisboa, fiquei a saber que a placa foi ali colocada apenas em 2008, por decisão do Perfeito de Paris, razão que explica a minha surpresa.
Confesso-vos ( ignorância minha) que não sabia quem era Amorim de Carvalho e foi a leitura daquela lápide que me levou a investigar. Descobri, graças ao amigo Google, que era bisneto do poeta Pinheiro Caldas e nasceu no Porto em 1904, tendo vivido em Lisboa entre 1953 e 1965, ano em que ,” desiludido com a situação intelectual da Pátria” emigrou para Paris, onde viria a falecer.
Autodidacta, viu reconhecido, pela Sorbonne, o grau de doutor. Se quiserem saber mais sobre esta curiosa personalidade basta seguirem este link, que vos conduzirá ao site da Casa Amorim de Carvalho, no Porto. Para mim foi um prazer descobri-lo e verificar, uma vez mais, que durante as nossas viagens lá por fora é sempre possível aprender um pouco sobre Portugal e os portugueses.
A curiosidade, porém, não acaba aqui. Amorim de Carvalho nasceu na Foz em 1904, na Rua Senhora da Luz, nº 224, quase pegado à casa onde nasceria a minha mãe 10 anos depois.
Adenda: a casa de Amorim de Carvalho o é hoje parte de um pequeno hotel que ocupa os nºs 50 a 52
Este post foi reeditado, a partir da narrativa que fiz em Janeiro de 2010, sobre a passagem de ano em Paris.

13 comentários:

  1. Que belo passeio! Não me importava nada...
    Também nunca tinha ouvido falar desse senhor Amorim de Carvalho. As coisas que uma pessoa aprende com os amigos!

    Beijinhos parisienses e Bom Natal!

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  2. Não conhecia Carlos, obrigado pela partilha!
    E graças ao S. Pedro que fechou as torneiras que o meu amigo fez um belissimo passeio.

    Feliz Natal e todos os dias para o Carlos e todos aqueles que lhe são queridos.

    beijinho e uma flor

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  3. Moi, j´adore Paris!« e conheço muito bem a cidade!
    Estou sempre disposta a voltar lá...houvesse dinheiro!
    Não vou lá há uns tempos mas queria ver se não passava de 2013 porque vai ser o ano da retoma! :-))
    Beber café nessa esplanada e ver o mundo a passar é qualquer de fabuloso!
    Também não conhecia o poeta nem a placa e Paris é uma cidade cheia delas!
    Obrigada pela informação!

    Abraço

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  4. Uma passeata muito didática, porque confesso também o meu desconhecimento sobre Amorim de Carvalho! Mas é sempre agradável conhecermos um pouco mais da nossa terra e gentes, quando passeamos por cantos e recantos do mundo... :)

    Gostei deste café! :D

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  5. Nunca tinha ouvido falar de Amorim de Carvalho, mas isso é um pouco como uma visita a um museu. Conheço bastantes museus fora de Portugal e por cá, se calhar, ainda não visitei metade deles.
    A única explicação que encontro para isso é que, julgo sempre ter mais oportunidades de os visitar aqui do que lá fora.
    Um dia destes mando-te a minha "estória" também em Paris, não muito longe do Deux Magots
    um grande abraço amigo Carlos e um Feliz Natal

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  6. Excelente o post, com certeza valeu a pena a reedição do mesmo.

    Aproveito para lhe desejar um Feliz Natal. Mesmo que não seja em Paris.

    Abraço,

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  7. Excelente "passeio" por uma cidade que adoro e já não visito há bastante tempo.
    Obrigado pelo tepo passado por esse emblemático café, onde já estive e principalmente, por ter ficado, como parece aconteceu a toda a gente, a conhecer um português que também procurou lá fora a liberdade que aqui não tinha.

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  8. E eu fiquei a imaginar-me em Paris.
    Outra vez.
    Porque nunca cansa.

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  9. Ai que saudades de Paris... mesmo não sendo das zonas que mais frequentei enquanto lá vivi (nem em visitas subsequentes), esta sua esplanada de St Germain faz-me pensar em coisas muito boas. E saio daqui a saber mais sobre Amorim de Carvalho, de quem também nunca tinha ouvido falar. E, se o Carlos for 'rapaz' de se comover com as bizarrias do destino, deve ter ficado no mínimo intrigado com a coincidência que veio a descobrir depois. Eu sei que ficaria :)
    Continuação de boas festas!

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  10. Que bem me fez ler este post. Recordei todos esses locais que visitei, por onde também passeei e onde me sentei. Nessa esplanada pedi um crêpe simples! O preço do crêpe de certo de certo incluiu a paisagem, o local nobre onde o café se situa!

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  11. A primeira vez que li esta crónica, em 2010, também não sabia quem era o Amorim de Carvalho.

    Como "Les Deux Magots" tinha sido a segunda casa dos meus ídolos, Simone e Jean-Paul, foi para mim, ainda muito jovem, uma visita obrigatória ao chegar a Paris.. e fiquei arruinada.

    Mais tarde, quando visitei este local, já achei tudo muito mais barato do que noutros locais em Düsseldorf (conhecido pelo "pequeno Paris").

    É tudo uma questão de perspectiva.
    Mas a Simone de Beauvoir continua a mulher que eu gostava de ser!

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  12. Por vezes sentimos vergonha pelo que desconhecemos...
    Nao conheço Paris e não conheço o Amorim de Carvalho ... um dia vou passear essa rua e lembrar-me deste texto :)

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