sábado, 15 de dezembro de 2012

Na varanda com Luís Sepúlveda


Sábado à tarde. Estou sentado na varanda "à conversa" com Luís Sepúlveda, relembrando passagens de "O Poder dos Sonhos". Diante de mim, a esplendorosa baía de Cascais. À esquerda, avisto o Bugio. Entre estes dois cenários, um pouco mais abaixo, uma extensa fila de automóveis, movendo-se lentamente em direcção a Cascais.
Não compreendo este amor dos portugueses pelas longas filas de trânsito, que os conduzem ordeiramente, ao fim de semana, até "lado nenhum". No final da década de 60 ia-se de Lisboa a Cascais só para comer um gelado do Santini. Uma geração preocupada com a guerra em África tinha, ali, uma das raras oportunidades de sorver um leve sabor da Europa: o verdadeiro gelado italiano. Hoje, creio que ninguém vai lá para isso. Não faltam locais, em Lisboa, onde os pais da geração da Coca Cola e do hamburguer, possam saciar os apetites importados de outras paragens. E quanto aos filhos, mais preocupados com os sons do i-pod do que com os sabores de um gelado, nem se fala.
Que levará então os lisboetas a enfrentar longas filas pachorrentas, onde "torram" algumas dezenas de euros em combustível, para uma visita furtiva a Cascais ao fim de semana?
Abandonada por reis a quem serviu de estância de veraneio ou de exílio, esfumada a aspiração de se transformar na Côte d'Azur portuguesa; com o "jet set" acantonado na Quinta da Marinha ou em condomínios privados inexpugnáveis; abarrotando de automóveis e sem oferta cultural relevante, Cascais é, hoje em dia, uma vila desinteresante que perdeu o "glamour" e se arrasta numa penosa decadência. Nenhuma operação de "lifting" poderá devolver a Cascais a beleza que José Luís Judas destruiu a golpes de "camartelo", saindo incólume de tão bárbara agressão à envolvente paisagística. Em Cascais, nem as místicas discotecas dos anos 60 e 7o, como o Vangogh ou o Palm Beach, resistiram. Do "glamour" da "Linha" ( para além do rochedo que é só meu), restam apenas alguns resquícios no Monte Estoril, escassos locais que me devolvem memórias da juventude, como o Muchaxo, ou o Oitavos, e esta casa onde me acoito, olhando a baía à espera que o declínio do Sol a torne ainda mais bela.
Das "novidades", para além do projecto falhado da Marina, e da requalificação do Tamariz em estertor, apenas me cativa aquele magnífico paredão entre S.Pedro e Cascais que calcorreio nas manhãs de fim de semana para ir comprar jornais a Cascais e depois tomar a"bica" e pôr a leitura em dia num daqueles ancoradouros que lhe servem de suporte. Quando a manhã se apresta a enlaçar-se com a hora do almoço e "hordas" de visitantes de fim de semana invadem ao paredão, regresso a casa e aí fico até horas tardias da noite, desfrutando da paisagem. Quando as filas de automóveis invertem o sentido, para o regresso a Lisboa, saio para jantar e "tomar um copo" com amigos. Falamos, com frequência, desta atracção dos lisboetas por uma "ida" a Cascais. Tenho uma explicação que não os convence, mas que continua a ser a minha. Os lisboetas não querem perder o hábito dos engarrafamentos e metem-se à estrada nas tardes de sábado e domingo, para cumprir o "passeio dos tristes". Consigo transportam recordações acumuladas de sonhos que se não cumpriram. Fazem o trajecto em silêncios intermináveis, apenas interrompidos por um choro, uma birra ou uma exclamação, proveniente do fruto de uma noite de amor que viaja no banco de trás. Por vezes, nem isso, apenas o "bruaaá" de um golo saído da telefonia do carro do lado, irrompe o pesado silêncio de uma marcha quase fúnebre. Os lisboetas que rumam a Cascais ( como acontece noutras cidades portuguesas, onde apenas muda o roteiro de destino) procuram apenas uma coisa: "matar o tempo", porque os fins de semana a dois são dolorosamente longos para serem vividos entre quatro paredes.

5 comentários:

  1. ...procuram apenas uma coisa: "matar o tempo", porque os fins de semana a dois são dolorosamente longos para serem vividos entre quatro paredes.

    Disseste tudo!

    Por isso, prefiro a solidão acompanhada do meu...

    Beijos.

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  2. Com a frase final, reproduzida no comentário anterior, parece mesmo dizer-se tudo, mas de uma realidade que espero tenha alternativas, e que por vezes nos possamos meter em engarrafamentos por amor ao outro, porque por exemplo ele/a quer ir comprar um livro que só têm na livaria de um Centro Comercial.
    um beijinho e um bom fim-de-semana

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  3. Essa é a ilação que tu tiras dessa insistência dos lisboetas suportarem as longas filas de carros na ida e volta a Cascais, a um sábado ou domingo, à tarde, Carlos!
    Pode haver, e há de certeza, muitas outras razões.
    Não me parece que as pessoas que consideram um fim de semana a dois, doloroso e difícil de suportar entre quatro paredes, se metam no carro para matar o tempo, ficando dolorosamente "encarcerados" no trânsito durante horas a fio.

    Se calhar, é justamente o contrário! Enquanto vão queimando lentamente o combustível, vão tendo tempo para pôr em dia aquelas conversas cúmplices, que a agitação da semana de trabalho não lhes permite ter. Ao mesmo tempo vão na esperança de respirar o ar puro e o cheiro a maresia, longe da poluição da cidade.

    Sabes, que isso de possuir um Rochedo, só nosso, onde possamos ficar admirando a baía, à espera do maravilhoso espectáculo que representa um pôr-de-sol, é um luxo e um prazer que nem todos os lisboetas se podem gabar de ter.
    Cada um sabe de si...

    Beijinhos, meu amigo.

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  4. Gostei do texto, mas não partilho a opinião! Quem não gosta de ir ver o mar e sentar-se numa esplanada a ler ou a conversar num dia de Sol de inverno? :)

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  5. Eu acho que é o Sol que faz as pessoas saírem de casa à procura de uma esplanada, tanto pode ser em Cascais como em qualquer outro lugar ao longo da marginal.
    A viagem é bonita.
    Pessoas que não estão bem juntas...estão mal em qualquer lugar!

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