quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Noite de Natal em Pinamar



O Sol escondeu-se há pouco para além dos Andes. Alguns pedaços de “asado de tira” e de “lechon” jazem ainda no churrasco do jardim, rescaldo de uma ceia farta.
Acabo o gelado de dulce de leche com raspas de limão e afasto-me discretamente para um recanto do jardim, com um copo de cidra.
Ali fico durante uns minutos apanhando o ar fresco da noite, olhar fixo nas estrelas, à espera que me envies um sinal.
Um avião cruza o céu, sem fazer ruído, piscando as luzes. Sigo-lhe o rasto e aterro na esplanada do café de S. João do Estoril onde te vi pela última vez.
Estremeço. Sinto-te a respiração. Pressinto o calor do teu afago. Ouço a tua voz, em surdina, pedir –me um beijo, enquanto te preparo o “mate” com rum.
Lá dentro as crianças, em reboliço, desembrulham as prendas do Menino Jesú.
Não sabem que os algozes que há anos lançaram o avô sobre o Atlântico de Península Valdés, foram libertados por ordem da Justiça argentina.
Ignoram que a tia Patty desapareceu no aeroporto de Ezeiza, levada por militares, perante o desespero e a impotência da irmã, que a esperava para a felicitar pelo casamento.
Sinto a mão de Laura pousar, firme, no meu ombro. Os nossos olhares cruzam-se. Estão marejados de lágrimas. Prenhes de dor e revolta. Recordam uma família destroçada por uma ditadura infame. Sonham uma família que nunca chegou a ser, porque militares filhos da puta lhe negaram o direito de existir.
“Não sabemos se está morta” – diz Laura num sussurro tantas vezes repetido.
A Mercedes interrompe-nos o silêncio cúmplice.

Mummy, Mummy mira! Bolas de sabão desprendem-se –lhe da boquita, entre sorrisos. 
Vejo-te subir no ar dentro de uma dessas bolas coloridas. Não consigo perceber se estás feliz. Sei que não estás aqui. Que não poderemos repetir a noite de Natal em Ushuaia, onde passámos o último Natal das nossas vidas. Que não voltarei a passear contigo no Parque Nacional de Los Alerces. Que não voltarei a abraçar-te ao pôr do sol naquele rochedo do Guincho. Que não voltarei a preparar-te o mate com rum. Que não deixarei de pensar que tudo poderia ter sido diferente se tivesse partido contigo naquela tarde em que te despediste de mim, na esplanada do café de S. João do Estoril, felicidade estampada no rosto. Partias para dar a boa nova à tua família. Lamentavas apenas que o teu pai, amante de Portugal, do Fado, do Estoril e das touradas, já não pudesse ter a felicidade de te ver casada com um português. Ignorávamos que partias ao encontro da morte, seguindo o destino do teu pai.
Que mal fizeste? Lutar contra a ditadura é crime? Como se chamarão aqueles que lutam para nos negar a Liberdade?
É quase meia- noite. Dentro de alguns minutos o fogo de artifício irá iluminar o mar, abafando o som das ondas a derramar-se na praia.
Cá em cima atearemos fogo ao espantalho da Ditadura, que ficará a arder até ser dia. Um dia havemos de nos reencontrar. Seja quando for, havemos de regressar, numa noite de Natal, à nossa casa de Pinamar. Dançaremos um tango e viveremos uma noite de milongas. Apenas com a Lua como testemunha, iluminando os nossos corpos nus, gritaremos enfim, AMERICA LATINA LIBRE!

11 comentários:

  1. Nem sei o que escrever. As palavras não se ajustam, o que sinto sim.

    Beijinho

    Laura

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  2. Amigo, face a um texto deste só sou capaz de lhe deixar, em silêncio, um comovido abraço - desejando , sim, que esse grito se ouça bem alto e breve!

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  3. Há recordações dolorosas que nos fazem bem lembrar, porque nos trazem sentimentos e fantasmas, que já pensávamos ter exorcizado...

    Fizeste-me recordar uma canção de Lucho Gatica, Carlos, que também deves conhecer:

    "Espérame en el cielo, corazón,
    si es que te vas primero.

    Espérame que pronto yo me iré
    allí donde tú estés...

    Nuestro amor es tan grande
    y tan grande que nunca termina

    Por eso yo te pido, corazón
    espérame en el cielo.

    Que allí entre nubes de algodón
    haremos nuestro nido..."

    São partes soltas porque já não me lembro de tudo, nas vivi muito esta canção, com um sofrimento muito semelhante ao teu.
    Hoje sei que um dia nos encontraremos no Céu!

    Um dia também vós vos encontrareis en el cielo!

    Beijinhos, meu amigo!


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  4. Abriste o baú das recordações dolorosas e emocionei-me.

    Apenas consigo dar-te um abraço apertadinho!

    Beijos.

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  5. Essa dor, Carlos, essa dor que não passa nem abranda :(

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  6. Impossível não sentir contigo esta dor!

    Abraço solidário

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  7. Saio comovida e em silêncio respeitoso, Carlos. Lamento...

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  8. Também não encontro palavras para deixar, porque um grito destes nos cala...
    É um texto muito comovente, e agradeço a generosidade de o partilhar connosco.
    Abraço

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  9. Comecei a escrever um mail porque queria escrever mais do que um comentário, mas depois acho que também fiquei sem palavras. Por isso vou só deixar ficar aqui um abraço.
    Gábi

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  10. Uma história muito comovente.

    O Carlos tem de acabar de escrever o livro, porque não se trata de uma simples história de amor, mas sim, de uma história de amor profundamente política.

    TODAS as ditaduras são infames.

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