quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Prova de paternidade



Ao final da noite, o jornalista está a petiscar com um amigo num restaurante discreto. Falam de outros tempos, vividos noutras paragens.
O jornalista está de frente para a porta, por isso estranha quando o amigo, de costas para a mesma, lhe anuncia a entrada de uma deusa. 
“Entrou por aquela portinha das traseiras…”- esclarece o amigo
O jornalista volta-se discretamente. Para ver a  deusa e descobrir a portinha. Lá estão as duas. Não estão sozinhas. A deusa vem pendurada no braço de uma figura pública, também comentador ocasional em rádios e televisões.  Cerca de 50 anos os separam. Mas não só isso os diferencia. Ela caminha numa postura vertical que lhe realça as formas, ele arrasta.se alquebrado, vergado ao peso de uma enorme bebedeira, apoiando-se no seu corpo para manter o equilíbrio. Sentam-se frente a frente. Pedem a lista e um café forte.
Jornalista e amigo continuam a conversa. Claro que o mote é o quadro deprimente que se lhes atravessou no campo de visão. 
Quando a conversa retomara o rumo inicial, ouvem um surpreendente ressonar. A figura pública adormecera e a deusa sentara-se ao seu lado. Abraçava-o e dava-lhe beijos na face, enquanto o tentava despertar passando-lhe pelo rosto o guardanapo embebido em água. A figura pública abriu os olhos que se  cruzaram com o olhar dos dois amigos. Pareceu surpreendido e procurou recuperar a compostura. Balbuciou umas palavras em surdina. A deusa nada terá percebido e encostou o ouvido à boca dele. Ele beijou-a na face e fez-lhe uma carícia. 
Os amigos retomaram a conversa. O jornalista ficou de costas para a cena e foi ouvindo o relato que o amigo lhe fazia, em surdina, do evoluir da situação. Estava em dupla situação difícil. Conhecia pessoalmente a figura pública e também não queria ser visto, para não lhe provocar maior embaraço.
Depois de sussurrar alguma coisa ao ouvido da deusa, dirigiu-se cambaleante para o quarto de banho. Ao passar pela mesa onde estavam os dois amigos deteve-se discretamente. O jornalista baixou os olhos e escondeu discretamente a cara. A figura seguiu. Passaram alguns minutos. A deusa trocou um sorriso com os amigos. De seguida levantou-se, dirigiu-se para a porta do toilette e, do corredor, gritou em voz bem audível:
“Papá! Papá!”
Esperou uns segundos. Aparentemente terá obtido uma resposta. Voltou para o seu lugar.
Ao passar pela mesa dos amigos disse num tom de voz esmaecido:
- Desculpem, mas o meu pai sentiu-se mal no escritório
Os amigos  responderam com um acenar de assentimento. Pediram a conta. A figura pública regressou à sua mesa. Aparentemente mais equilibrado.  Quando se sentou disse em voz pouco perceptível, mas propositadamente audível:
- Desculpa o incómodo, filha. Não digas nada à mãe que eu não a quero preocupar.
“ Se soubesses que eu namorei com a tua filha dois anos, tinhas pedido à deusa para te chamar avô!”- diz o jornalista para os seus botões
Pagaram a conta. O jornalista não tirou fotografias nem telefonou para um jornal de escândalos a contar a cena. O jornalista é da velha guarda e respeita a privacidade das figuras públicas. Mesmo que não as conheça pessoalmente, ou lhes tenha um ódio de morte.


6 comentários:

  1. Caramba, Carlos!

    Não gostaria de ter que passar por uma situação dessas...

    Um abraço

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  2. O jornalista é dos da velha guarda e gabo-lhe a nobreza de carácter, mas...caramba...aguentar um namoro de dois anos com uma deusa tão disfarçadona, devia estar muito apaixonado, logo, cego e então...era a ele que ela devia chamar pai e não ao outro!

    Como dizia o Jô Soares: tem pai que é cego...ele há cada situação!:)

    Vim dar uma vista de olhos e não resisti...:-))

    Boa viagem, Carlos!

    Beijinhos.

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  3. Ahahah, fartei-me de rir com esta cena! Independentemente de o homem poder ter ou não outras filhas mais novas, óbvio que a ideia era disfarçar... Porque se há coisa que não escapa a olhos bem treinados é a diferença entre o amor filial e... outros! :)))

    ps - Quando o Carlos regressar deste período natalício depois envio-lhe o meu texto sobre o café, OK? :)

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  4. A nobreza de caracter e a discrição do jornalista são de facto louváveis. Mas impedem-me de saber quem era a figura pública e agora nunca mais vou olhar para um comentador sem pensar na prole que pode ter... :)

    Carlos, se já não "falarmos" receba os votos de um excelente Natal em companhia dos que lhe são queridos. As prendas, como disse e bem, talvez só em 2014, mas que o próximo ano lhe traga saúde e alegrias, sucessos pessoais a profissionais e lhe mantenha essa acutilância de que tanto gostamos.
    Um beijinho e boas festas!

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  5. Fiquei curiosa.

    Jornalistas destes estão em vias de extinção.

    Feliz Natal e que 2013 te traga a concretização de muitos sonhos.

    Um beijinho.

    Irei para terras sem net.
    É impressionante como uns meses nos podem modificar.
    Vou sentir saudades até destas rochas e rochedos.

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