quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

E elas...pimba!


Num final de tarde primaveril  de 2008,  cavaqueva na esplanada do Clube de Jornalistas com um grupo de amigos. Uma então jovem jornalista por quem nutro grande consideração - um dia vão ouvir falar dela, garanto-vos-  surpreendeu-me ao dizer que tinha bastante apreço por Tony Carreira. Dias depois um post da Patti no Ares da Minha Graça, colocava a questão mais ou menos nestes temos: porquê não gostar de Tony Carreira?
Dei comigo a matutar no assunto. Seria preconceito meu detestar Tony Carreira?
Digo desde já que em termos musicais os meus gostos divergem da maioria. Sou francófono assumido e, para além de Katie Melua, Aimee Mann e algum jazz e soul, no meu carro só entra música francesa e latino-americana. Em casa os meus gostos são mais ecléticos, a música anglo-saxónica tem uma presença mais assídua, mas limitada a uma dúzia de nomes. E, claro, há também espaço para a música portuguesa.( Não para o Fado, de que gosto, mas apenas ao vivo e nos locais apropriados).
Num fim de semana decidi, no remanso do meu Rochedo, ouvir Tony Carreira e tentar perceber se era preconceito ou mero desconhecimento que me levava a não ver nele mais do que um cantor pimba. Assunto arrumado: não gosto e ponto final!
Dias depois ( coincidência?...)  Tony Carreira era a figura evocada no programa "Em Reportagem" da RTP 1. Decidi ver. Confirmei a minha opinião, mas passei a admitir que provavelmente o problema é meu.
Um homem que põe as mulheres em delírio e lágrimas, lhes alivia o sofrimento, que as faz felizes como muitos maridos não as conseguem fazer em casa, só pode ser alguém com um magnetismo muito especial. Que me escapa, é certo, mas que existe. Vi também muitos jovens e adultos embalados por aquelas canções dengosas com letras romântico- estapafúrdias.
Realmente, o problema deve ser meu. Não tenciono voltar a ouvir Tony Carreira, mas uma coisa é certa: ninguém mais me ouvirá chamar-lhe "pimba".
Adenda: recupero este post  de 2008, depois de o reeditar, na sequência do que ontem escrevi sobre António Variações. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

António Variações


Tornei-me admirador de António Variações, quando o ouvi, pela primeira vez, num bar em Genève. Não o posso afirmar com toda a certeza, mas creio que na altura, em Portugal, poucos se atreviam a elogiar o barbeiro-cantor. Eu fi-lo várias vezes contra a corrente. Lembro-me de uma noite, durante uma daquelas tertúlias que tinham lugar no “Botequim”, ter sido quase trucidado quando afirmei que gostava do Variações.
A Natália Correia saiu em minha defesa e apoiou a minha opinião. Depois de todos terem saído fiquei só com uma amiga, a Natália e o Dórdio. O assunto voltou naturalmente à conversa e a Natália virou-se para nós e disse:
“ Podem crer que o Variações vai ser um dos grandes nomes da música portuguesa, mas para isso acontecer, primeiro terá de morrer”.
Hoje, o papel de António Variações na transformação da música popular portuguesa é aceite de forma consensual. Pergunto-me se o mesmo aconteceria se ainda fosse vivo, ou não tivesse morrido envolto naquela áurea de mistério.
Não sei se Tony Carreira virá a ficar na história da música como outro Marco Paulo, ou alguns degraus acima. Sei  que o cantor romântico em Portugal é normalmente visto com pouco apreço. Talvez por isso me lembre de Tony de Matos. Muitos dos que o criticaram, hoje elogiam-no e chegam a compará-lo com Charles Aznavour .
Do oito ao oitenta, como é apanágio do português cinzento, sorumbático, volúvel, com opinião sobre tudo e sobre nada, com uma mórbida tendência necrófita, que o leva a pôr nos píncaros, depois da morte, quem muito criticou durante a vida.


Era uma vez...

Há dias escrevi aqui sobre canetas. Foi com uma destas que aprendi a escrever. E o tinteiro também era assim...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Serei um vouyeur?


Apesar de considerar que as revistas cor de rosa exploram apenas a pior faceta do voyeurismo, nada tenho contra os leitores de revistas cor de rosa e muito menos contra os cabeleireiros- pessoas estimáveis que muito considero- que as disponibilizam em profusão aos  seus clientes.
O voyeurismo que transformou em sucesso as revistas cor de rosa, não é exclusivo de quem as lê, ou de quem as faz. Devo confessar-vos que também tenho uma faceta de voyeur que não se manifesta através da leitura de revistas cor de rosa mas sim pelo prazer que sinto na leitura de biografias. Concedo que estas leituras também revelam uma faceta voyeurista, mas há uma pequena diferença. Estou-me borrifando se a Cinha Jardim passa férias em Porto Rico com a cadela ou em Alcabideche com a porca Pepa, mas já me desperta alguma curiosidade saber pormenores da vida de um político como Churchill ou Fidel de Castro, por exemplo. Ao ler as suas biografias, fico a conhecer melhor a História Contemporânea, o que de alguma forma me enriquece.
Mais difícil será explicar-vos a razão de ter ficado empolgado ao ler  a autobiografia de André Agassi, que há tempos repousava na minha secretária, à espera de vez. Talvez o meu empolgamento se deva ao facto de Agassi ser um campeão contranatura, obrigado pelo pai a “trabalhos” forçados para atingir o estrelato. Agassi conseguiu-o mas, por trás do sucesso, há uma história de ódio ao ténis que me interessou.
Até que ponto os pais podem condicionar os desejos dos filhos em prol da sua própria vaidade?Será legítimo um pai obrigar um filho a ser vedeta, contrariando a sua vontade? 
No mundo do desporto ou do espectáculo há centenas de casos como o de Agassi, mas gostava de saber a vossa opinião sobre as dúvidas que aqui coloco.

Pausa para publicidade


domingo, 27 de janeiro de 2013

À mesa do café "Entulho" (Pastelaria Fina...)


A convidada de hoje quase não precisa de apresentação, pois quase todos os que por aqui passam a conhecem. É a Teté, do blog Quiproquo, onde podemos ter momentos de boa disposição ( quando a Teté está para aí virada, presenteia-nos com belíssimas e bem humoradas séries de cartoons) discutir livros e filmes e, last but not the least, participar em desafios sempre imaginativos mas, por vezes, também algo trabalhosos...
Sem mais delongas, vamos até ao café Entulho "ouvir" a estória da Teté.


"Assentei malas e bagagens naquele café de bairro de Benfica em finais de 1977, decorria então o primeiro ano do famigerado propedêutico, inventado pelo ministro da Educação da época - Sottomayor Cardia - que não servia rigorosamente para nada, para lá de atrasar o ingresso na universidade. 
As aulas eram leccionadas via televisão, das 9 horas ao meio-dia e picos, os programas das disciplinas ainda estavam a ser engendrados, os “alunos” sabiam apenas que existia uma longa lista de livros para ler a Língua Portuguesa (comum a todos) e dois exames em datas a estipular. De cuja média ponderada com a do liceu daria a nossa nota de acesso à faculdade que pretendíamos frequentar, que a outra novidade inventada pelo ministro era a dos numerus clausus.
 Certo é que para evitar preguicites de levantar cedo para ver televisão em casa - com escasso interesse por matérias que eram quase uma recapitulação - combinei com algumas amigas reunirmo-nos todas as manhãs para assistir às aulas: um dia em casa de uma, outro na de outra e assim sucessivamente. Encontrávamo-nos para beber o café lá no estaminé, antes de seguirmos para a frente do televisor. Ou de um baralho de cartas. O que nunca faltava era um reconfortante chá com torradas lá para o final da manhã e muitas conversetas e risotas. Adiante!
 Embora o local mais parecesse uma leitaria de bairro, os patrões ostentavam no toldo amarelo os dizeres "Pastelaria fina", a par de um nome comercial igualmente pomposo, mas que mais tarde alcunhámos carinhosamente de "Entulho".
 Apesar dessa pretensão dos donos, o ambiente era soturno: de um lado a única montra e a porta de entrada, um pequeno balcão alto e metálico logo ali a tapar parcialmente a luz do corredor estreito que se seguia; do outro lado uma vitrine onde se exibiam caixas de bombons, chocolates, caramelos e boiões de rebuçados, a separar as mesas iniciais das restantes onde era permitido estudar; ao fundo e a toda a largura uma espécie de janela junto ao teto, de vidro martelado e num tom lilás, mas que nem a um jogador de basquete permitia ver o exterior; também ao fundo duas casas de banho de um lado e uma porta de acesso a um armazém na cave do outro; e as paredes forradas a linóleo azul acinzentado não contribuíam em nada para a luminosidade do ambiente, as múltiplas manchas acumuladas de infiltrações ou outros pequenos incidentes também não.
 Teriam passado talvez uns 11/12 anos desde que me tornara cliente habitual - foi lá que estudei durante todo o curso, mas, acima de tudo, tornou-se ponto de encontro com grupos de amigos (estudantes ou não) dessa época - quando num sábado à tarde cheguei lá e bati com o nariz na porta. Já trabalhava na altura e a assiduidade diminuíra, mas rara era a noite que não passava por lá, daí não entender o desconhecimento da novidade. O que tinha acontecido? Um qualquer antepassado da ASAE visitou o estabelecimento e alvitrou que necessitava de grandes obras para manter o alvará (ou coisa), quando não seria encerrado. E entraram em obras durante largos meses, pelo menos durante todo o verão desse ano, salvo erro só reabriram lá para outubro ou novembro.
 Óbvio que não perdi o contacto com os amigos mais próximos, mas de outros fui perdendo o rasto. Até que  o "Entulho" reabriu luminoso como nunca, dada a multiplicidade de luzes, o longo balcão envidraçado (e frigorífico) ao longo de quase todo o corredor, as superfícíes espelhadas na parede detrás dele onde se exibiam garrafas para venda, mesas e cadeiras novas mais confortáveis, quase tudo tinha mudado. Muito mais moderno, mas efetivamente a lembrar um pouco uma árvore de Natal...
 O que não mudou? A dimensão da montra, obviamente, a espécie de janela ao fundo (embora tenha a vaga sensação que os vidros martelados foram substituídos por outros idênticos e sem cor) e a vitrine dos chocolates e companhia, que continuava a dividir as quatro mesas da entrada das restantes agora no lado oposto, mas só lá mais para as dos fundos é que se podia estudar, o número total de mesas reduzira significativamente. Nos meses seguintes continuou a ser ponto de encontro costumeiro, senão diário, pelo menos nas noites de sexta-feira e sábado, mais convidativas para novas borgas ou noitadas.
 Numa dessas noites, apareceu lá um cliente desconhecido, a querer apresentar uma reclamação no livro: comprara uns chocolates na semana anterior, para oferecer aos filhos de um amigo que morava ali perto e o convidara para jantar, para descobrir, estupefacto, que as tabletes estavam bichosas! O patrão de serviço demorou a acalmar a irritação do cliente, a nós só dava para rir: raramente abriam aquela vitrine, antes ou depois das obras, facto é que apesar do investimento avultado na renovação da decoração, o stock da chocolataria devia ser o mesmo de sempre...
 Igualmente e como é hábito neste país, o tal ano propedêutico de outrora - inútil em termos de conhecimentos - mantém-se até hoje. Só mudou de nome para 12º ano de escolaridade!"

Adenda do administrador do blog: Como já vos disse, gostaria que a Rua dos Cafés se mantivesse pelo menos até  à Primavera. Está quase garantido esse objectivo... mas alguns leitores (as) que manifestaram interesse em enviar  histórias ainda não o fizeram. Assim, decidi pôr como data limite para recepção dos vossos textos o dia 12 de Fevereiro ( Terça-feira de Carnaval). 
Para quem tenha dúvidas, aqui fica de novo o endereço para onde devem enviar as vossas histórias e fotos:
pracasdeverao@yahoo.com

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ó Evaristo! Tens cá disto?

Não sei se ainda se vendem Bombocas nas pastelarias e cafés. Ou guarda-chuvas de chocolate. Ou mesmo chocolates da Favorita.  Provavelmente não... mas se sentem a falta destes produtos, talvez os encontrem num café a que a Teté nos vai levar no próximo domingo. Contou-me ela, que naquele café/pastelaria fina gostam muito de guardar preciosidades raras.
Bem, mas mais não digo. Se quiserem saber passem por aqui no domingo, porque a Teté conta-vos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pecadilhos consumistas


Não sou consumista. Nunca corro atrás das novidades, não faço fila para ser o primeiro a adquirir o último sucesso de um escritor ou de um músico, só compro roupa por necessidade, não compro por impulso excepto... quando entro numa livraria. Tenho a casa cheia de livros que ainda não li, não sei se algum dia chegarei a ler, mas raramente resisto a comprar um livro.
 Tenho, no entanto, os meus pecadilhos consumistas. Sou vidrado em relógios ( de pulso e de parede) e tarado por canetas. Não sou coleccionador- longe disso!- mas tenho uma razoável colecção de relógios, cuja maioria foi adquirida em mercados de rua na Tailândia. Ao olhar de não especialistas na matéria- que é o meu caso- estes relógios contrafeitos ombreiam condignamente com relógios de marcas conceituadas. Não valem nada, mas dão-me prazer à vista.
 Diferente é o caso das canetas, cuja "colecção" foi construída graças a amigos e familiares. Nunca comprei uma caneta de contrafação, por isso, a maioria das vezes limito-me a olhar para elas com ar embevecido, sem coragem para pagar umas largas centenas de euros por um objecto que quase já não uso. Ontem, estive quase a comprar uma belíssima Pelikan mas perguntei-me quantas vezes teria a oportunidade de a usar. Acabei por deixá-la na montra e quando regressei a casa escrevi este post directamente no computador. Ao contrário do que seria desejável, não fiquei satisfeito por ter resistido à tentação. Fiquei triste pelo facto de as canetas serem um objecto em vias de extinção.
 Vá, confessem lá... quais são os vossos pecadilhos consumistas?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Leituras e Coca Cola



Lembro-me vagamente  de ver lá em casa, na minha infância, um livro intitulado “Maravilhas do Conto Japonês”. Não me recordo de um único desses contos, nem tenho sequer memória de me ter alguma vez empolgado com a literatura japonesa.
Quando Kenzaburo Oe ganhou o Nobel da literatura em 1994, eu andava mais interessado em explorar autores desconhecidos da literatura sul americana e não lhe dei qualquer importância.
Um dia, em Barcelona, encontrei um livro intitulado “Kafka à beira mar” de um autor que me era totalmente desconhecido: Haruki Murakami. Tinha lido nesse fim de semana uma crítica elogiosa ao livro na revista do El Pais, mas não o comprei. Só alguns meses mais tarde, numa das minhas rondas pelas livrarias,  dei de caras com o livro que, tal cão à espera de ser adoptado, se insinuava aos meus olhos. Comprei-o. Quando cheguei  a casa depositei-o no monte, junto de outros que aguardam a sua vez em lista de espera.
A sua vez chegou, durante uma viagem de comboio. Li-o de um fôlego e, quando regressei a Lisboa, comprei “ O Carneiro Selvagem”. Melhor ainda do que “Kafka à beira mar” dissera-me alguém durante uma tertúlia. Confirmei. E assim fui comprando todos os livros de Murakami, incluindo a triologia IQ 84, cujo terceiro volume acabei de ler nos primeiros dias de Janeiro.
Entretanto,  graças a Murakami,  decidi “descobrir” outros autores japoneses. Já aqui escrevi sobre Yukio Mishima e hoje é  a vez de vos falar de Hiromi Kawakami,  autora de Manazuru,  minha primeira descoberta de 2013.
Uma mulher com uma filha de três anos. Um marido desaparecido, ou uma mulher abandonada? Uma  palavra num diário: Manazuru.
É a partir desta descoberta que a história se desenrola. Cheia de interrogações. De descobertas. De trocas de emoções. De viagens de comboio entre Tóquio e a península de Manazuru.
Depressão ou uma relação mal resolvida? Amor ou ódio?  Perguntas que nos vamos colocando à medida que avançamos na leitura. Sedutora. Doce. Envolvente.  Como acontece com Murakami ou Mishima, também em Kavakami  a narrativa nos transporta, de forma mais ou menos subtil, para um mundo  paralelo sobre o qual pensamos, mas cuja existência rejeitamos.
Manazuru não é uma história de amor.  Digamos que é sobre o amor mas, acima de tudo, é uma elegia à memória do amor. Ao princípio, estranha-se, mas depois…entranha-se. Como aconteceu comigo em relação à literatura japonesa, mas não à Coca Cola.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Let's fall in love?



Os portugueses andam tristes, cabisbaixos, vergados sob o efeito da crise.  Se pertence a esse grupo que pensa que já nada o diverte, anda com medo de ser despedido(a) e que não lhe renovem o contrato, ou está chateado (a) porque o emprego seu de cada dia é uma apagada e vil tristeza, dou-lhe um conselho: apaixone-se!
É bom estar apaixonado, sabem? A gente perde aquele ar sisudo de quem saiu da Repartição de Finanças, depois de volatilizar o subsídio de férias num imposto e fica com aquele olhar dengoso e quebrado, mirando-se ao espelho, enquanto sonha com a felicidade eterna.
Quando estamos apaixonados tudo é diferente. Ser “atropelado” por dois chineses, mais meia dúzia de putos mal educados na fila do autocarro, e ter de esperar pelo seguinte sob chuva torrencial, torna-se subitamente um pretexto para um arrolhar amoroso, de fazer inveja às gastas histórias de amor dos anos 30.
Encontrar a casa invadida pelo fumo emanado do andar do vizinho que decidiu assar sardinhas na varanda, é um óptimo pretexto para convidar o(a) parceiro(a) para um jantar romântico.
Tropeçar num monte de sacos de lixo descuidadamente deixados na rua, por preguiça de alguém em os colocar no contentor, ou apanhar um banho provocado pelo descuido de um condutor que não evitou a poça de água, são histórias que se arquivam no sótão das nossas memórias para mais tarde recordar.
Um monstruoso engarrafamento que enfurece qualquer mortal, transforma-se em algo insignificante, pretexto sublime para trocar promessas de amor eterno, se estivermos irremediavelmente apaixonados.
Para quê protestar contra o trânsito caótico, a indisciplina nas filas do autocarro, o lixo acumulado nas ruas, o ruído das obras que nos acordam às sete da manhã, o chefe que é grunho, o salário que é escasso, a televisão que não presta, o governo que não consegue debelar a crise, o ToZé que tem solução para todos os problemas mas faz caixinha, se a solução é tão fácil? Apaixonem-se e verão que nada disto tem importância!
O amor é o remédio mais barato contra a crise e nem precisa de ser aviado na farmácia. Tomem uma embalagem inteira. Ficarão com os vossos problemas resolvidos e acabarão a dizer: Que bom é viver em Portugal!
Se por acaso não quiserem seguir este conselho, então façam como eu: pirem-se durante uns dias e recarreguem baterias.


Those were the days (3)

" O lugar da mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza"
( Revista Querida 1955)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Gran Torino

A RTP 2 retomou a rubrica "Cinco Noites, Cinco Filmes". Na sexta-feira aproveitei para rever "Gran Torino", um filme que considerei, na altura, um dos melhores de Clint Eastwood. Cheguei a pensar que entraria facilmente na lista dos 50 melhores filmes da minha vida.
No final, tive uma surpresa. Aquele filme que durante quatro anos considerei "um grande filme" pareceu-me desta vez um filme apenas bom, com um final hollywoodesco. 
Poderá haver várias explicações para isso, que deixo à vossa reflexão. Parece-me, no entanto, poder concluir que a mudança de opinião sobre um filme  significa que afinal não se trata de um "grande filme". Os grandes filmes resistem ao tempo e aos humores dos espectadores. É isso, em minha opinião, que distingue um bom filme de um clássico.
Espero que discordem de mim e me digam se já vos aconteceu o mesmo alguma vez com um filme e que explicação encontraram para mudarem de opinião. 


domingo, 20 de janeiro de 2013

À Mesa do Café da Aldeia

Já na sexta feira vos apresentei   a Margarida, nossa convidada de hoje. O que não vos disse é que ela tem um blog  com um nome muito sugestivo: mas tu és tudo e tivesse eu casa tu passarias à minha porta.
Igualmente sugestiva é uma rubrica do blog chamada " contos de 250 palavras".  A receptividade dos bloguistas que a visitam aos contos  foi tão positiva, que a Margarida  decidiu dedicar-lhos e editá-los em livro. Eu já os li todos e recomendo, mas por agora não vou dizer mais nada, porque a estória que ela nos traz hoje merece ser lida e comentada, antes de a visitarem. Ora "oiçam" lá!....
( A foto é da Net, por razões óbvias...)





"Descíamos o outeiro, passávamos a ponte, descíamos mais uma ladeira e virávamos à direita. Abríamos o desengonçado portão de ferro, de um verde azeitona descolorido pela passagem do tempo, mas vibrante da energia de milhares de mãos que, ao longo dos anos, o agarraram.
Era a entrada num novo mundo, o do café. A avó não saía do outeiro nos dias de semana, pois a caminhada era longa, e aguardava pelo regresso da filha à aldeia, aos fins-de-semana. 
Nessas alturas, íamos todos ao café, a avó, a mãe, o tio, eu, o meu irmão, os dois netos da tia-avó Adozinda e, muitas vezes, um casal de irmãos da quinta em frente à nossa casa, os nossos companheiros de aventuras na infância.
Aí, os adultos colocavam a conversa em dia, entre a fumarada dos mata-ratos dos velhotes que, compenetrados, jogavam à sueca, e nós saíamos para a esplanada, após choramingarmos por caramelos e algumas moedas de cinquenta centavos. Felizes com a boca cheia de doces, que se prendiam nos dentes banhados de saliva, circundávamos, excitados, a velha mesa de matraquilhos.
Aquelas chapas castanhas enormes valiam uma fortuna. Com cada uma, tínhamos direito a cinco bolas brancas de chumbo, sujas por anos de manuseamento. Com as mãos crispadas e o sobrolho franzido, defendíamos a baliza ou atacávamos a meio campo e, de um golpe ágil do punho e manobras dignas de Chalanas de nove anos, cinzelávamos para a eternidade momentos brilhantes de risos e gritos de vitória."
Agora, que já conhecem a estória da Margarida é hora de irem visitar o seu blog.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Fogaças


Sempre que vou ao Porto, não falta fogaça ao meu pequeno almoço. Fresquinha, barrada com manteiga e acompanhada de chá preto, a fogaça é um pitéu que me anima as manhãs nortenhas. Quando regresso a Lisboa trago sempre uma ou duas fogaças da "Primazia" porque, depois de perder a frescura, continua a ser deliciosa. Cortada em fatias generosas, torradas, é um acompanhamento perfeito para o “mate” num final de tarde invernoso.
Lembrei-me disto, porque se está a celebrar, esta semana, a “Festa das Fogaceiras” em santa Maria da Feira.
Esta festa centenária ( iniciou-se em 1505) é uma homenagem a S. Sebastião- terá livrado o povo desta zona da peste -e atinge o seu ponto alto no dia 20 de Janeiro, com uma procissão onde meninas trajadas de branco desfilam com fogaças à cabeça, seguindo-se a bênção de fogaças.
Ora fogaça abençoada  foi, para mim, estreia absoluta há dois ou três anos. Esta boca pecaminosa, porém, certamente as conspurcou,  com o pecado da gula...
Agora vou ali buscar um guardanapo, porque está a escorrer-me manteiga das beiçolas. Hmmm!

Lembrete: aproveito para vos lembrar que no próximo domingo há conversas à mesa do café ( que podem acompanhar com uma bela fatia de fogaça). Estará aqui a Margarida - uma amiga chegada às nossas tertúlias pela mão amiga do João Roque-  que traz uma bela história. Venham conhecê-la e dar as boas vindas à nossa convidada. Já agora (re)lembro que cada leitor pode trazer os amigos que quiser, pois todos serão bem vindos.
Tenham um excelente sábado.
E provem lá um bocadinho de fogaça, vá...



Se bem me lembro...

no meu tempo não havia nenhum lar português onde não se encontrasse uma malinha destas...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

I'm SAD

Sofro de Seasonal Affective Disorder ( Distúrbio Afectivo Sazonal) que me provoca sono, perda de energia e mau humor.
A criatividade? Emigrou para o hemisfério sul!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Onze Minutos



A propósito deste post, lembrei-me de um outro que escrevi no CR há uns anos. A maioria dos leitores já o terá lido, mas recuperei-o para quem ainda não o leu.




Não, não vou falar daquele livro do Paulo Coelho em que a protagonista é uma miúda que foi para Genève, porque acreditava que ganhar a vida na horizontal entre um abrir e fechar de pernas era “fixe”.

O título deste post reproduz um facto real, que ocorre na minha vida, e por vezes me provoca mais incómodos e transtornos do que à protagonista de Paulo Coelho, que ganha a vida em Genéve entre um bar de alterne e quartos de pensões esconsas. ( Se lerem até ao fim, verão que a minha estória, tem um final feliz...)Acreditem ou não, onze minutos é o tempo que dura a viagem de metropolitano entre minha casa e o meu gabinete de trabalho. O tempo exacto que demora Maria ( na versão de Paulo Coelho) a abrir e fechar as pernas, a troco de umas centenas de francos suíços.

Nesse tempo que dura a minha viagem - cronometrei várias vezes e deu sempre certo- não ganho um chavo ( isso fica para os ceguinhos que andam a pedir esmola entre ladainhas e toques de acordeão, ou para crianças-mendigas acompanhadas de cãezinhos amestrados) , mas passo momentos tão desagradáveis como os da Maria. Não levo com nenhum gajo em cima a arfar , é certo, mas ...ouço conversas indiscretas; aturo telemóveis a tocar; levo com jovens generosos que colocam os i-pod nos ouvidos em altos berros, para que os vizinhos possam partilhar a sua música; senhoras com carteiras gigantescas que a meio da viagem decidem procurar um qualquer objecto no meio da bagunçada que deve ser aquele espaço; jovens de mochila às costas que se esquecem que não viajam sozinhos e a cada movimento que fazem atingem o vizinho; crianças romenas ranhosas a pedir esmola; crianças portuguesas a fazer birras, perante o ar complacente das mamãs; ucranianas de decotes generosos e saias justas a fazer lembrar a Maria; sovacos suados a pedir uns esguichos de desodorizante... enfim, uma parafernália de protagonistas que confundem uma viagem de metropolitano com o sofá da sala, onde se esparramam diante do televisor a ver um filme, enquanto comem pipocas e libertam fluidos.

No verão, quando pernoito em Lisboa, costumo fazer o trajecto a pé, mas hoje estava atrasado para mais uma daquelas sessões do Portugal Sentado* e por isso vim de metro. A viagem começou mal. Logo na Quinta das Conchas, senta-se ao meu lado um fulano, na casa dos 50 e muitos , artilhado com i-pod de onde saía, em doses generosas de decibéis, música dos MetalliKa!!! Em pé, junto a mim, um jovem ouvia música que não consegui identificar. Levantei os olhos do jornal, na busca de um lugar mais sossegado. Reparei que vários jovens iam de auscultadores enfiados nos ouvidos, outros faziam exercícios físicos, ginasticando os dedos em teclas de telemóveis e outros acumulavam as duas funções. Havia também gente com olhar distante e algumas jovens lendo livros.Fiquei onde estava. Entre o Campo Grande e Entre Campos, começou o recital dos telemóveis a tocar. Fim de concentração na leitura. Senhoras a remexer nas carteiras à procura do aparelho e, depois, as conversas. Uma senhora dizia em altos berros ( para a filha, presumo) o que devia fazer para o almoço; outra, mesmo em frente a mim, telefonava para a empresa a dizer que estava atrasada, porque a camioneta que a devia ter trazido até ao Campo Grande avariara; um jovem mandava beijinhos sonoros ( presumo que à namorada, mas nos tempos que correm nunca se sabe...); outro, nervoso, anunciava à mãe que ia ter com ela ao local de trabalho porque “20 euros para almoçar e ir ao cinema não dá para nada, mãe!”.Já em Entre Campos o ceguinho - que pessoa amiga afiança ter encontrado a passar férias no ALLGARVE- irrompeu pela minha carruagem na sua lenga-lenga quase milenar. A escassos metros, seguia uma velhota, que conheço há anos, exibindo uma receita. Pede, também há anos, que os passageiros comparticipem em despesas que deveriam ser suportadas pelo Estado.

Chegámos finalmente ao Saldanha. Já não posso mais...Estou na fila para passar a cancela onde devo colocar o passe a oscular a célula fotoelectrica . Vai chegar a minha vez. O Portugal Sentado* espera por mim. À minha frente só há uma senhora. De súbito, uma “murraça” no olho direito. A senhora à minha frente trazia o seu passe na carteira e, para o ir buscar, lançou inadvertidamente a carteira para trás, levando uma daquelas peças metálicas a atingir-me com violência.

É então que me lembro dos “Onze Minutos”. Fico na dúvida. Afinal, Maria é capaz de ter razão. Aguentar cenas destas todos os dias, e ainda ter de pagar por cima, é capaz de ser mais doloroso do que apanhar com um gajo em cima a arfar, a troco de umas centenas de francos suíços.Garanto que não vou tirar a prova, mas que fiquei a pensar na Maria, lá isso fiquei.
O olho direito, infllamado, ainda me dói! A imagem de aflição da senhora e os sucessivos pedidos de desculpas, não me aliviam a dor.Logo à noite, quando for jantar com ela, talvez a dor passe...* Para quem não saiba o que é o Portugal Sentado: ler aqui aqui

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Em tempo de Paris/Dakar

Os tempos mudaram e a geografia também. O Paris Dakar já não se corre entre aquelas duas cidades, mas sim na América do Sul. problemas da globalização, certamente...
No entanto, se o mundo mudou e a geografia também, há algumas memórias que vão ficando destas provas automobilísticas. É o caso do Renault Gordini, um carro que foi um ícone dos anos 60.

Não é caracol quem quer!


Eu não tenho nada contra quem leva o almoço na marmita. O que me chateia é que  nos transportes públicos as pessoas se esqueçam que levam uma mochila às costas com a marmita. Não é por nada, mas estar descansado a ler um livro e apanhar com uma marmita nas trombas logo pela manhã, chateia-me, pá! E que essas bestas não peçam sequer desculpa ainda me chateia mais...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um livro simples e prático

Foi lançado há dias o primeiro volume do guia  "Como entender as mulheres"
Ao vê-lo, uma amiga disse de imediato: muito bom! simples e prático!


domingo, 13 de janeiro de 2013

À mesa do Café Lopes

Hoje é dia de conhecermos a história da nossa amiga Janita, apreciadora de António Aleixo, que sempre nos presenteia com belos poemas e canções no seu Cantinho.
Tive de improvisar as fotografias, ( ou seja, sacá-las da Net) porque  problemas técnicos  me impediram de colocar as fotos que ela enviou com o texto. Mas isso não é o mais importante... o que interessa é saber as razões que levaram a Janita a escolher este café. Entre elas está um pitéu que sabe melhor acompanhado de uma cervejinha, por isso hoje o café fica para rematar a história.



Este é um Café igual a tantos outros que existem na cidade do Porto.
Embora não esteja situado num Bairro é frequentado essencialmente por pessoas que vivem naquela rua. Aqui toda a gente se conhece e muito raramente aparecem caras desconhecidas.
Situa-se na Rua Costa Cabral, perto da Praça Marquês de Pombal,  e há vários anos que o frequento…semanalmente!
 Não é um Café com tradições históricas, mas é lá que eu tenho ouvido muitas histórias de vida, desabafos, e vou também desabafando com as amigas/os, as minhas alegrias e tristezas.
O Café, Confeitaria, Snack-Bar Lopes, fica paredes-meias com o Salão de Cabeleireiro aonde costumo ir «alindar-me» todos os sábados, há mais de quinze anos. Isto já se tornou uma espécie de ritual e não tanto uma necessidade… é mais um pretexto para a convivência com pessoas a quem me afeiçoei e que se afeiçoaram a mim.
Entre as clientes, as funcionárias do salão, o casal que dirige o Café e a clientela habitual deste, criaram-se laços de amizade e cumplicidade muito fortes. Somos como uma grande família. 
No Café Lopes comem-se as melhores “francesinhas” de toda a cidade. O molho especial, ligeiramente apimentado, não é industrializado e sim, confeccionado pela D. Ju, esposa do Sr. Raul, com um esmero e arte que ela teima em manter no segredo dos deuses. Uma iguaria que faz as delícias dos apreciadores deste pitéu tripeiro e que é a especialidade da casa.
O Sr. Raúl assobia tão melodiosamente, como canta um canário. Não raras vezes, quando ficamos no Café só os clientes mais chegados, eu e a minha amiga Divina, manicura/pedicura do Salão, ao lado, cantamos, ao som do seu assobio, ora as canções brasileiras do seu país, ora outras, que vão do tango argentino ao fado. 
Mas, bonito mesmo de se ver, é quando ela dança o samba requebrado…isso, eu ainda não sei dançar, mas lá chegarei…
Há duas ou três semanas atrás, fartámo-nos de rir, quando eu pedi o meu café cheio e um copo de água ao jovem e divertido Marcelo, que aos sábados vai ajudar os pais, e este grita para o pai que estava na parte interior do balcão:
“Sai um cimbalino com vista para o mar, para a Titi Janita”.
Já avisei a minha filhota, que vive a cerca de 200 metros do Café: mesmo que ela mude de residência eu manter-me-ei fiel ao Salão de Cabeleireiro W. e ao Café Lopes…já que eu vivo na periferia!
Nota do editor do blog: agora que já conhecemos a estória da Janita  e salivámos a pensar na francesinha ( pelo menos eu...) é altura de vos dizer que podem continuar a enviar as vossas histórias para estas tertúlias domingueiras, para o seguinte endereço:
pracasdeverao@yahoo.com
Na próxima semana cá estaremos para receber mais uma convidada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Memórias coloridas

Estiveram na moda, lembram-se? Se procurarem nas gavetas, talvez ainda encontrem algum exemplar esquecido. Sugiro-vos que o tragam no próximo domingo para a Rua dos Cafés, que terá como convidada a Janita. Aviso-vos, desde já, que a Janita  traz uma história que inclui um produto gourmet, destinado a apreciadores da boa gastronomia. Por isso, não comam muito ao almoço...
Um bom fds e até domingo!

Those were the days(2)


"A mulher deve fazer descansar o marido nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas".
( Jornal das Moças 1959)



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Coincidências...


No post de ontem, sugeri a hipótese de o Pedro Coimbra  ter uma "estória" para nos contar sobre leiteiros. Obviamente que tinha e deixou-a na caixa de comentários de onde a repesquei para  partilhar com os leitores:

"A senhora já experimentou tratar o leiteiro com várias amabilidades;está desesperada por ele não reparar nela!

É sempre a mesma coisa:

Bom dia, senhor Manuel; e ele: Bom dia, minha senhora!

É o meio litrinho do costume, não é verdade?..até amanhã!

O raio do homem, envergonhado não repara em mim!

Vou apresentar-me de blusa decotada e saia curta..."Bom dia senhor Manuel".

Bom dia, minha senhora! É o meio litrinho do costume, não é verdade? Até amanhã!

Ela faz nova tentativa, só com a combinação vestida!...O resultado é o mesmo!

Bom dia...É o meio litrinho do costume....Até amanhã!

Nesse dia apresentou-se nua.....Bom dia senhor Manuel!

É o meio litrinho do costume, não é verdade?...Bom dia, minha senhora e até amanhã!

Sabe, senhor Manuel?...Eu gosto muito de homens!


Responde-lhe o leiteiro!
Também eu, minha senhora.....Também eu!"

Agradecimento: Obrigado, Pedro, por mais esta contribuição. Eu sabia que no seu imenso reportório tinha de haver uma estória sobre leiteiros. Aliás.... haverá alguma matéria em que o Pedro não conheça uma estória bem humorada? 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Quando não havia ASAE

Quando não havia ASAE, havia bilhas de leite na rua, leiteiros protagonistas de muitas anedotas ( espero que o Pedro Coimbra tenha uma para nos contar...) e muita falta de higiene.
Não havia educação alimentar e ninguém se preocupava que fossemos bacteriologicamente puros.
Hoje acabaram-se os leiteiros, o leite compra-se nos supermercados em pacotinhos UHT superhigienizados e vivemos mais tempo. Talvez apenas para recordarmos coisas, profissões e hábitos que deixaram de existir.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Lígia e as Hot pants

Sou do tempo em que as hot pants surgiram como alternativa às minisaias. Causadoras de inúmeros torcicolos e estimulação masculina, tiveram vida mais ou menos efémera na década de 60.
Recentemente voltaram e, neste Inverno, parecem estar muito em voga.
Vem isto a propósito de uma jovem funcionária que a editora contratou no Verão. Elegante e desinibida, a Lígia veste habitualmente de forma discreta. Foi por isso, com surpresa, que ontem a encontrei no metro envergando uns ousados hotpants que lhe realçavam as formas, sob um casaco de malha comprido. Não comentei, mas interroguei-me como ela aguentava aquela vestimenta, com o frio que estava.
Ao final da tarde tive de ir ao gabinete dela. A temperatura era sufocante e constatei que o ar condicionado estava regulado para os 35%, condizentes com as paisagens caribenhas que decoram o seu gabinete.
Comentei o facto, sem nenhuma ponta de recriminação, mas ela  parece ter percebido o meu desconforto com o calor e respondeu-me com uma gargalhada franca:
- Está a ver o que eu sou capaz de fazer para estimular a produção da editora, Carlos? Hoje tem sido um corropio de homens aqui no gabinete a pedir a minha opinião sobre os mais variados assuntos.
Esta tarde, foi a vez de a Lígia me devolver a visita. Como nunca ligo o ar condicionado, quando ela entrou no meu gabinete sentiu frio. 
- Como é que pode estar aqui sem aquecimento?-perguntou. Não posso voltar aqui, senão constipo-me!
Foi a minha vez de lhe devolver a picada de escorpião.
- Tem razão, Lígia, mas diga-me uma coisa. Se quando anda na rua em hot pants não sente frio, isso significa que tem aquecimento central?
Pensava eu que com esta pergunta arrematava o assunto, mas a Lígia não é pessoa para se ficar sem dar resposta, por isso respondeu-me à letra:
- Nunca tinha pensado nisso, mas se calhar tem razão! Devem ser os holofotes dos que não tiram os olhos de cima de mim que me aquecem...
Moral da história: Depois dos 60, nunca penses que podes ficar por cima de  uma miúda de 22...




Se bem me lembro...


Ainda se lembram para que servia este objecto?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Those were the days!

"Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar os carinhos e provas de afecto, sem questioná-lo nunca"
( Revista Cláudia, 1962)

domingo, 6 de janeiro de 2013

À mesa do café Saudade

Neste Dia de Reis regressam as conversas à Rua dos Cafés. A Catarina é a primeira convidada do ano e traz-nos a história de um café dos seus tempos de estudante. Como ela já não se lembra do nome, não pude sacar a fotografia da Internet. Li a estória e decidi chamar-lhe Café Saudade. Depois fui à procura de um café com esse nome  e encontrei esta foto.
Feita a introdução, convido-vos a percorrer os caminhos da Contempladora Ocidental, que certamente se cruzarão com as memórias de muitos leitores.
 Depois visitem o seu belo blog sempre com fotografias excelentes e manjares de fazer crescer água na boca.

Café Saudade- Sintra

Pensei e tornei a pensar se haveria, no mais recôndito lugar da minha memória, alguma estória de café ou sobre um café, mesmo que cheia de poeira, que  pudesse reviver aqui e que valesse a pena contar. Não tenho e tanto que gosto de participar em desafios!
Mas ao  recordar-me daqueles cafés onde passei mais tempo, o primeiro que surge na "lista" é um em Lisboa, na Estrela, a sul ou sudoeste da Basílica.
Era um café pequeno, despretensioso, sem características arquitetónicas distintas, um café como tantos outros cafés de bairro. O que o distinguia era por ser “o nosso café”, o lugar onde os amigos e as amigas se encontravam quase todas as tardes, de livros debaixo do braço, na tentativa de passar algum tempo a estudar antes que alguém chegasse. Eventualmente, o grupo ia aumentando e as mesas iam-se juntando. Nem sempre eram grupos grandes e nem sempre havia muito cavaqueio porque não se podia descurar dos estudos. Para quem vinha da província, a estadia em Lisboa e as propinas representavam, na altura, um encargo financeiro para muitos pais.

A bebida de eleição era o carioca de limão e um bolo de arroz.  Quantos bolos de arroz não comi naquele tempo! É que, às vezes, sou de ideias fixas! Hoje, escolheria uma fatia de bolo de queijo... todos os dias!

Do grupo fazia parte um rapaz, o único alfacinha e o único que não era estudante. Andava sempre com um livro na mão. Quer fosse para o café ou para qualquer outro lugar. Nunca o vi sem um livro. Depois havia o Zé. O Zé também não era de Lisboa. Era do norte. Andava a tirar medicina veterinária. Era gago e adorava contar anedotas e nós parávamos de estudar para ouvir o Zé a contar as suas anedotas para as quais tinha tanto jeito!
Depois veio a separação ... Cada um foi para seu lado...

Nota do editor do blog: terminadas as festas, lembro os leitores que podem continuar a enviar as suas colaborações para esta tertúlia domingueira que gostaria se pudesse prolongar pelo menos até à Primavera.  O endereço, já sabem, é:
pracasdeverao@yahoo.com

sábado, 5 de janeiro de 2013

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Balanças

Havia balanças bem bonitas. Algumas são, hoje, peças de colecção. Na Justiça, as balanças deixaram de ter  qualquer simbologia. Há sempre dois pesos e duas mediadas, consoante o peso de quem está a ser julgado.
Adenda: Estarei de regresso a Lisboa no domingo, a tempo de participar nas conversas de café. Esta semana a convidada é a Catarina. Lá vos espero! Tenham um bom fds.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

De novo as Memórias

Como prometido no final do Verão, volto à série de "Memórias" de objectos que se perderam com o tempo, mas fazem parte das recordações de muitos dos leitores. Para começar, um objecto bem apropriado   para o nome deste blog.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Passaram dias, passaram meses, passou mais um ano



Felizmente, Dezembro já lá vai. Dias curtos, frios e chuvosos significam, para mim, a antítese da felicidade. Diria mesmo, a antítese da Vida...
 Dezembro é um mês “sui generis”. As ruas aparecem iluminadas e assistimos à chegada dos Pais Natal, como aves de arribação anunciando a chegada do Inverno. Começa a azáfama das compras natalícias, com pessoas atarantadas nas lojas à procura da inutilidade mais barata ou do presente mais sofisticado. Corpos vergados ao peso de sacos, arfando como se a morte lhes estivesse a bater à porta, desaguam na noite do dia 24 em casa de familiares que – não raras vezes- são “obrigados a aturar” uma vez por ano, em nome da “Festa da Família”.
Dezembro significa também horas a discutir o local ideal para passar o “reveillon”, doze passas às doze badaladas da meia -noite, listas imensas de intenções a realizar no ano seguinte, alegria tão falsa como um par de mamas de silicone, uma festa abrilhantada por uma banda que se reúne anualmente para tocar música brasileira do tempo da“Maria Cachucha”, grandes “bezanas” e ressacas no dia seguinte, acalmadas à custa de “Guronsan”. 
Mesmo para aqueles que se escapam a mais uma reunião familiar no primeiro dia do ano, Janeiro não deixa de ser patético. Cortes no orçamento para compensar os gastos do mês anterior, lamentos pelo aumento dos transportes, da luz, da água, do salário da empregada de limpeza , do seguro do carro, da prestação da casa, da bica e do rissol com que aconchegam o estômago num qualquer "come em pé"de ocasião. Idas ao médico para vigiar o colesterol que subiu graças aos excessos gastronómicos, escapadelas até aos saldos para “compras de ocasião” e a promessa de que é esta semana que finalmente vamos deixar de comprar “O Expresso” .
No final do mês, constatamos que as promessas feitas entre dois golos de “champagne made in Mealhada” não foram mais uma vez cumpridas. A Odete não fez dieta e está cada vez mais gorda e parecida com um elefante de Jardim Zoológico, as idas ao ginásio ficaram mais uma vez adiadas por incompatibilidades financeiras, ou falta de vontade, e a promessa de que finalmente iríamos trocar o carro pelos transportes públicos ou uma caminhada a pé até ao local de trabalho, fica aprazada para quando a Primavera se fizer anunciar com os seus retemperadores raios de sol.
Dezembro, felizmente, já lá vai! Confortemo-nos com a ideia de que este ano, no final de Janeiro, voltamos a não cumprir as promessas da noite de reveillon. É sinal de que o mundo pula e avança mas, no essencial, tudo se mantém na mesma ao fim de cada ciclo de 365(ou 366 em anos bissextos). E se no final de 2013 pudermos dizer que pelo menos o ano não foi pior do que o anterior, já não é nada mau!