domingo, 27 de janeiro de 2013

À mesa do café "Entulho" (Pastelaria Fina...)


A convidada de hoje quase não precisa de apresentação, pois quase todos os que por aqui passam a conhecem. É a Teté, do blog Quiproquo, onde podemos ter momentos de boa disposição ( quando a Teté está para aí virada, presenteia-nos com belíssimas e bem humoradas séries de cartoons) discutir livros e filmes e, last but not the least, participar em desafios sempre imaginativos mas, por vezes, também algo trabalhosos...
Sem mais delongas, vamos até ao café Entulho "ouvir" a estória da Teté.


"Assentei malas e bagagens naquele café de bairro de Benfica em finais de 1977, decorria então o primeiro ano do famigerado propedêutico, inventado pelo ministro da Educação da época - Sottomayor Cardia - que não servia rigorosamente para nada, para lá de atrasar o ingresso na universidade. 
As aulas eram leccionadas via televisão, das 9 horas ao meio-dia e picos, os programas das disciplinas ainda estavam a ser engendrados, os “alunos” sabiam apenas que existia uma longa lista de livros para ler a Língua Portuguesa (comum a todos) e dois exames em datas a estipular. De cuja média ponderada com a do liceu daria a nossa nota de acesso à faculdade que pretendíamos frequentar, que a outra novidade inventada pelo ministro era a dos numerus clausus.
 Certo é que para evitar preguicites de levantar cedo para ver televisão em casa - com escasso interesse por matérias que eram quase uma recapitulação - combinei com algumas amigas reunirmo-nos todas as manhãs para assistir às aulas: um dia em casa de uma, outro na de outra e assim sucessivamente. Encontrávamo-nos para beber o café lá no estaminé, antes de seguirmos para a frente do televisor. Ou de um baralho de cartas. O que nunca faltava era um reconfortante chá com torradas lá para o final da manhã e muitas conversetas e risotas. Adiante!
 Embora o local mais parecesse uma leitaria de bairro, os patrões ostentavam no toldo amarelo os dizeres "Pastelaria fina", a par de um nome comercial igualmente pomposo, mas que mais tarde alcunhámos carinhosamente de "Entulho".
 Apesar dessa pretensão dos donos, o ambiente era soturno: de um lado a única montra e a porta de entrada, um pequeno balcão alto e metálico logo ali a tapar parcialmente a luz do corredor estreito que se seguia; do outro lado uma vitrine onde se exibiam caixas de bombons, chocolates, caramelos e boiões de rebuçados, a separar as mesas iniciais das restantes onde era permitido estudar; ao fundo e a toda a largura uma espécie de janela junto ao teto, de vidro martelado e num tom lilás, mas que nem a um jogador de basquete permitia ver o exterior; também ao fundo duas casas de banho de um lado e uma porta de acesso a um armazém na cave do outro; e as paredes forradas a linóleo azul acinzentado não contribuíam em nada para a luminosidade do ambiente, as múltiplas manchas acumuladas de infiltrações ou outros pequenos incidentes também não.
 Teriam passado talvez uns 11/12 anos desde que me tornara cliente habitual - foi lá que estudei durante todo o curso, mas, acima de tudo, tornou-se ponto de encontro com grupos de amigos (estudantes ou não) dessa época - quando num sábado à tarde cheguei lá e bati com o nariz na porta. Já trabalhava na altura e a assiduidade diminuíra, mas rara era a noite que não passava por lá, daí não entender o desconhecimento da novidade. O que tinha acontecido? Um qualquer antepassado da ASAE visitou o estabelecimento e alvitrou que necessitava de grandes obras para manter o alvará (ou coisa), quando não seria encerrado. E entraram em obras durante largos meses, pelo menos durante todo o verão desse ano, salvo erro só reabriram lá para outubro ou novembro.
 Óbvio que não perdi o contacto com os amigos mais próximos, mas de outros fui perdendo o rasto. Até que  o "Entulho" reabriu luminoso como nunca, dada a multiplicidade de luzes, o longo balcão envidraçado (e frigorífico) ao longo de quase todo o corredor, as superfícíes espelhadas na parede detrás dele onde se exibiam garrafas para venda, mesas e cadeiras novas mais confortáveis, quase tudo tinha mudado. Muito mais moderno, mas efetivamente a lembrar um pouco uma árvore de Natal...
 O que não mudou? A dimensão da montra, obviamente, a espécie de janela ao fundo (embora tenha a vaga sensação que os vidros martelados foram substituídos por outros idênticos e sem cor) e a vitrine dos chocolates e companhia, que continuava a dividir as quatro mesas da entrada das restantes agora no lado oposto, mas só lá mais para as dos fundos é que se podia estudar, o número total de mesas reduzira significativamente. Nos meses seguintes continuou a ser ponto de encontro costumeiro, senão diário, pelo menos nas noites de sexta-feira e sábado, mais convidativas para novas borgas ou noitadas.
 Numa dessas noites, apareceu lá um cliente desconhecido, a querer apresentar uma reclamação no livro: comprara uns chocolates na semana anterior, para oferecer aos filhos de um amigo que morava ali perto e o convidara para jantar, para descobrir, estupefacto, que as tabletes estavam bichosas! O patrão de serviço demorou a acalmar a irritação do cliente, a nós só dava para rir: raramente abriam aquela vitrine, antes ou depois das obras, facto é que apesar do investimento avultado na renovação da decoração, o stock da chocolataria devia ser o mesmo de sempre...
 Igualmente e como é hábito neste país, o tal ano propedêutico de outrora - inútil em termos de conhecimentos - mantém-se até hoje. Só mudou de nome para 12º ano de escolaridade!"

Adenda do administrador do blog: Como já vos disse, gostaria que a Rua dos Cafés se mantivesse pelo menos até  à Primavera. Está quase garantido esse objectivo... mas alguns leitores (as) que manifestaram interesse em enviar  histórias ainda não o fizeram. Assim, decidi pôr como data limite para recepção dos vossos textos o dia 12 de Fevereiro ( Terça-feira de Carnaval). 
Para quem tenha dúvidas, aqui fica de novo o endereço para onde devem enviar as vossas histórias e fotos:
pracasdeverao@yahoo.com

33 comentários:

  1. A ASAE, afinal, cumpriu a missão para a qual foi criada! Mas proprietário que se preze tem que velar pelos seus interesses e manter, como quem não quer a coisa, o stock que não foi sujeito a vistoria. Há sempre clientes mais incautos... Com este teve azar!

    Gostei de ler a estória e “viver” as experiências de uma lisboeta que não teve que se deslocar para a capital para estudar! : )

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    1. Muito pertinente o seu comentário Catarina. Não só em relação à ASAE, mas também quanto ao que escreve no último parágrafo. Naquele tempo, quem quisesse tirar uma licenciatura e não vivesse em Lisboa, Porto ou Coimbra, era obrigado a pagar muito mais do que as actuais propinas. As pessoas já se esquecram disso e foi bom recordá-lo aqui

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  2. Diverti-me imenso! Sobretudo com a descrição. E gostei dos chocolates...

    Beijo

    Laura

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    1. Gostaste dos chocolates, Laura? Não te souberam a mofo? :-))
      Beijos

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  3. A história da Teté está lindamente bem contada, com seria de esperar!

    Agora, no que respeita à Pastelaria Fina, a alcunha de "Entulho" assenta-lhe como uma luva...
    Então, as tabletes Favorita ficaram "entulhadas", enquanto duraram as obras, até ganharem bicho?!?:))
    Nessa altura é que a ASAE devia ter entrado em acção e encerrado o estabelecimento para uma boa inspecção!
    Lá está! Nem tudo o que luz é ouro...:)

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    1. Segundo depreendi, nessa altura não havia ASAE, Janita. Existia uma Inspecção Geral das Actividades Económicas, onde grassava a corrupção.

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  4. A antepassada da ASAE só mandou remodelar as instalações, não o conteúdo....rrrssssss

    Um abraço para a Teté e para o Carlos.

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  5. E ainda existe esse café-pastelaria? Fiquei curiosa e era capaz de lá ir espreitar... mas pensaria duas vezes antes de comprar chocolates :))

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    1. A Teté já respondeu no comentário dela. Felizmente, esse "Entulho" foi varrido, apesar de ainda por aí existirem muitos outros entulhos...

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  6. Gostei da história e como vivi um ano num prédio na Estrada de Benfica, fiquei a pensar se já terei passado perto deste Café :)

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    1. Quem sabe, Gabi! Espero é que se lá entrou não tenha comprado chocolates...

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  7. Sempre que vou a Lisboa tomo café com a minha irmã mais nova e amigas no centro comercial "Fonte Nova". Será que o "Entulho" ficará por esses lados?

    A ASAE não "vasculhou" os chocolates!

    Beijinhos.

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    1. No Fonte Nova não se corre esse risco, Mona Lisa, embora em tempos, uma pastelaria que por lá existiu tivesse sido obrigada a encerrar as suas portas
      Beijinho

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  8. Essas "reuniões" para estudo, nos cafés de antigamente, era um hábito radicado, no meu tempo ! Julgo que já não o seja tanto hoje.
    Devo-lhes dizer que muito raramente estudava em casa. Aproveitava os "furos" e todo o tempo livre para estudar das 9 à uma e das 2 às 6 assim, e não sozinho, em casa. Isto, porque fazia por tirar partido dessas situações de estudo em conjunto. Eu gostava de estudar alto, "ensinando" aos colegas, como que a explicar a "matéria" na aula, ao professor (os meus colegas agradeciam) e assim conseguia óptimos resultados! :)))
    Relato muito interessante Teté ! Fez-me bem recordar, embora eu fosse anterior ao propedêutico e ao 12º, mas havia exame de aptidão (depois do antigo 7º), ao qual, por acaso, dispensei ! rsrs
    .

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    1. Também estudava em grupo, Rui, mas normalmente em casa. Quando ia estudar para o café, normalmente os livros não se abriam :-)))

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  9. O Entulho estava mesmo a pedir chocolates entulhados de bicho. Logo ...!
    Parece-me que esse movimento estudantil se perdeu um pouco. É raro ver agora os grupos de estudantes que antes se encontravam nos cafés, à volta dum copo de água e dum bica.
    Mudam-se os tempo, mudam-se os entulhos.
    Abreijos Teté e Carlos!

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    1. Em Lisboa perdeu-se esse hábito e também se perderam os cafés, Kim.
      Já no Porto, os cafés continuam a estar cheios ( pelo menos o Velasquez, ao pé de minha casa). É certo que não vejo lá gente a estudar, como no meu tempo, mas o hábito de ir tomar café depois do almoço ( e principalmente depois do jantar), permanece. Tal como ir lanchar ou reunir à volta da mesa em cavaqueira.
      Abraço

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  10. Uma excelente viagem ao passado na companhia sempre agradável da Teté!
    Sendo mais velha também estudei em cafés, o pior mesmo é lançar-me ao texto! :-))

    Abraço

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    1. Pois é Rosa, mas ficamos todos à espera que acabe com a "preguiça" e nos conte a sua estória!
      Abraço

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  11. Obrigada a todos por "visitarem" o meu café, nesta amena cavaqueira domingueira proposta pelos Carlos! :)

    O café/pastelaria fina já não existe há muito, atualmente é uma casa de artigos elétricos/iluminação ou coisa. Não ficava na estrada de Benfica, mas numa transversal, a cerca de 3 minutos a pé do "Fonte Nova". Isto para quem porventura quiser comprar um chocolate na zona, não ficar com receio de o encontrar bichoso... :)))

    Abraços e beijocas a todos!

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    1. Obrigado pelo esclarecimento, Teté. Pela localização, estou em crer que devo ter passado por lá, mas mesmo quando por lá vivi eu não parava muito nos cafés de Benfica ( excepto na Califa)
      Hoje cheguei atrasado à conversa, porque vinha em viagem, mas ainda bem a tempo de cavaquear com todos.
      Obrigado por ter partilhado connosco a sua estória.
      Eu fico com uma bejoca. Pode ser?

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    2. Foi com grande prazer que me sentei contigo à mesa do café "Entulho", mas sem comer chocolates, coisa de que não gosto muito (felizmente, neste caso).

      Adorei ler a tua história, Teté, que além de ser bem divertida está muito bem escrita.

      Já que o "Entulho" não existe, talvez nos encontremos da próxima vez à mesa do café "Piolho", o meu café.

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  12. O que eu gostei do café Entulho!
    Já do propedêutico, no meu caso 12º ano, nem por isso.

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    1. Propedêutico sempre me soou a medicamento, Pedro. Quanto ao café Entulho, não sei se o terei conhecido...

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  13. a asae retirou o encanto todo aos cafés de bairro :)

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  14. Posso participar nestas conversas de café, mesmo quando o Carlos cortou relações diplomáticas comigo?

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    1. Claro que pode, Ematejoca. Mesmo que tivesse cortado relações diplomáticas consigo, saudaria a sua presença. Como isso não aconteceu, é com redobrado prazer que a recebo à mesa. Do Piolho, ou de qualquer outro...

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  15. Se a minha memória não me trair um dos primeiros posts que li no Quiropró relatava uma situação engraçada que se passou nesse café... A situação do moço a limpar os vidros com detergente para outra coisa qualquer... Se estiver confundida esqueçam, mas é que a discrição não me é estranha :)

    Ainda não encontrei ninguém que falasse bem desse tal propedêutico... Ninguém!

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    1. Esse de propedêutico, ao que sei, era um empata...mas já não é do meu tempo. Ainda sou dos tempos do exame de Aptidão...

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  16. É caso para dizer que só mudaram as moscas...

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