domingo, 6 de janeiro de 2013

À mesa do café Saudade

Neste Dia de Reis regressam as conversas à Rua dos Cafés. A Catarina é a primeira convidada do ano e traz-nos a história de um café dos seus tempos de estudante. Como ela já não se lembra do nome, não pude sacar a fotografia da Internet. Li a estória e decidi chamar-lhe Café Saudade. Depois fui à procura de um café com esse nome  e encontrei esta foto.
Feita a introdução, convido-vos a percorrer os caminhos da Contempladora Ocidental, que certamente se cruzarão com as memórias de muitos leitores.
 Depois visitem o seu belo blog sempre com fotografias excelentes e manjares de fazer crescer água na boca.

Café Saudade- Sintra

Pensei e tornei a pensar se haveria, no mais recôndito lugar da minha memória, alguma estória de café ou sobre um café, mesmo que cheia de poeira, que  pudesse reviver aqui e que valesse a pena contar. Não tenho e tanto que gosto de participar em desafios!
Mas ao  recordar-me daqueles cafés onde passei mais tempo, o primeiro que surge na "lista" é um em Lisboa, na Estrela, a sul ou sudoeste da Basílica.
Era um café pequeno, despretensioso, sem características arquitetónicas distintas, um café como tantos outros cafés de bairro. O que o distinguia era por ser “o nosso café”, o lugar onde os amigos e as amigas se encontravam quase todas as tardes, de livros debaixo do braço, na tentativa de passar algum tempo a estudar antes que alguém chegasse. Eventualmente, o grupo ia aumentando e as mesas iam-se juntando. Nem sempre eram grupos grandes e nem sempre havia muito cavaqueio porque não se podia descurar dos estudos. Para quem vinha da província, a estadia em Lisboa e as propinas representavam, na altura, um encargo financeiro para muitos pais.

A bebida de eleição era o carioca de limão e um bolo de arroz.  Quantos bolos de arroz não comi naquele tempo! É que, às vezes, sou de ideias fixas! Hoje, escolheria uma fatia de bolo de queijo... todos os dias!

Do grupo fazia parte um rapaz, o único alfacinha e o único que não era estudante. Andava sempre com um livro na mão. Quer fosse para o café ou para qualquer outro lugar. Nunca o vi sem um livro. Depois havia o Zé. O Zé também não era de Lisboa. Era do norte. Andava a tirar medicina veterinária. Era gago e adorava contar anedotas e nós parávamos de estudar para ouvir o Zé a contar as suas anedotas para as quais tinha tanto jeito!
Depois veio a separação ... Cada um foi para seu lado...

Nota do editor do blog: terminadas as festas, lembro os leitores que podem continuar a enviar as suas colaborações para esta tertúlia domingueira que gostaria se pudesse prolongar pelo menos até à Primavera.  O endereço, já sabem, é:
pracasdeverao@yahoo.com

32 comentários:

  1. Há sempre um "café" nas nossas memórias...

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  2. : )
    Obrigada, Carlos, por ter publicado a minha “estória” !

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    1. Eu - e os leitores do On the rocks- é que lhe agradecemos ter partilhado a sua estória, Catarina!
      Muito obrigado mesmo

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  3. É tão bom reviver os nossos tempos de juventude!
    Como muito bem diz o João há sempre um café nas nossas recordações.

    Catarina, esse teu amigo Zé que era gago, trouxe-me à memória o meu primeiro e grande amor. Chamava-se Zé Alberto, gaguejava um pouco, não era um rapaz bonito, mas nos meus 15 anos cheios de ilusão, eu amei aquele moço tímido como nunca mais amei ninguém!
    Um amor platónico, feito de olhares e danças no Clube "O Familiar" de Moscavide. Para além dos nove anos que nos separavam, separou-nos a mãe dele e a seguir a distância no espaço e no tempo.
    Nunca o esqueci e tenho a certeza que um dia nos encontraremos, no Paraíso!

    Meus amigos, gostei imenso desta nossa cavaqueira, do cafezinho acompanhado do bolo de arroz e estou aqui a debater-me com um dilema; apago ou não a parte em que falo daquilo que nunca confessei, nem às paredes? Vou deixar ficar! Afinal é à mesa dum café que se fala de tudo, inclusivé, confidenciamos segredos e abrimos o coração para os amigos.

    Obrigada Catarina!

    Beijinhos a todos os presentes nesta mesa de café e até ao próximo domingo.:)

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    1. : )))
      Ainda bem que não te arrependeste da tua confidência... E já agora a minha: foi neste café que me apaixonei, a sério (pensei eu na altura)... não pelo Zé... mas pelo rapaz do livro! : )

      E agora tb me debato com a mesma questão: envio ou não este comentário?!

      Aqui vai ele.

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    2. Faço minhas as palavras da Catarina, Janita. E no próximo domingo, cá estaremos para conhecer a tua história.

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  4. No meu tempo de estudante também tomava por vezes carioca de limão :) Nunca pude beber demasiado café, apesar de gostar muito... E é verdade que há sempre um café que, em dado momento, é cenário de instantes da nossa vida :)

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    1. Talvez os jovens ( pelo menos os que vivem em Lisboa) não guardem no futuro memórias destes locais que estão em vias de extinção ou perderam as suas características, mas os cafés marcaram uma geração...

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  5. Fiquei com vontade de verificar in loco se ainda há este café! :-))
    Bela narrativa a da nossa Contempladora...
    O meu era ali no Campo Grande e ainda lá está!
    Já que o prazo é tão alargado vou pensar nisso!

    Abraço

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    1. E nós ficamos a aguardar com curiosidade a sua história, Rosa.
      Abraço

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    2. Fiquei agora com curiosidade de saber se esse café ainda existe. Fui lá tomar um café há uns dez anos talvez e embora quando estou em Lisboa visite a Estrela (este verão fui de novo ao jardim da Estrela e visitei a Basílica – uma prima “obrigou-me” a subir a Calçada da Estrela deste S. Bento, imagina!) nunca mais pensei nesse café.

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    3. Vou tentar passar por lá ainda esta semana.Lembro-me de um café que lá existe e vou tirar uma fotografia. Depois a Catarina fará o favor de confirmar se é esse, está bem?

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  6. Carlos, O Café Saudade em Sintra foi todo recuperado e vale a pena ser visitado.
    Antes de ser Café foi Fábrica das Queijadas SAPA e a recuperação do espaço está muito gira as pessoas são muito simpáticas e eficientes.
    Quem sabe se um dia não passará por lá!
    x

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    1. Quando descobri esta fotografia fiquei com vontade de lá ir e espero poder fazê-lo em breve, porque me parece um local muito aprazível.

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  7. Gostei da memória , até porque me lembro de frequentar , com as colegas, um café(acho que ainda existe) ao pé da Escola Superior de Educação João de DEus, onde tirei o curso de Educação de Infância. Será o mesmo?

    Acabeo de enviar o prometido texto e aqui renovo os meus pedidos de desculpa pela demora.

    Amigo Carlos, bom resto de Dia de Reis e feliz ano!

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    1. Ainda não li, São, porque cheguei a Lisboa atrasado e vim de mediato para aqui, mas desdejá agradeço a tu colaboração.
      Quanto ao café da Cataria, penso que sei qual é, mas não tive oportunidade ainda de confirmar. Tenciono fazê-lo por estes dias.
      Bom dia de Reis também para ti e renovo os votos de um Feliz 2013.

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  8. Mais um Domingo...passei por cá e vi balanças, conheci provérbios e foi-me apresentada a Catarina e as suas belas recordações...com um cafésinho e um biscoito para acompanhar.
    Boa semana!

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    1. E para quando a sua estória?
      Boa semana também para si

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  9. Café(s). Também tenho o meu. Posso enviar?

    Beijo

    Laura

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    1. Claro que sim, Laura! Ficamos todos a aguardar. O endereço, já abes qual é...
      Beijo

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  10. Gostei muito desta história do café da Catarina.

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    1. Eu também, Gabi.Mais uma boa história para estas conversas de domingo à mesa do café.

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  11. A história da Catarina tem um parágrafo bem actual...

    "Para quem vinha da província, a estadia em Lisboa e as propinas representavam, na altura, um encargo financeiro para muitos pais".

    Hoje passa-se o mesmo...e não só para quem vem da província.

    Adoro estas crónicas!

    Beijos.

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    1. Eu também e fico à espera que partilhes connosco a tua estória. Valeu?
      Beijos

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  12. Fora o facto de ser na Estrela, esse café assemelha-se ao meu antigo "Entulho". Se calhar é porque quase todos os cafés de bairro serem tão dentro do mesmo estilo. Pelo menos antigamente! :)

    Gostei do recuerdo, Catarina! :D

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    1. E a estória do seu Entulho, Teté, também vai animar bastante uma tarde de domingo!
      Acho curioso que,apesar de em Lisboa se ter perdido bastante a tradição da ida ao café a seguir ao almoço, ou de manhã, no Porto essa tradição continua bastante arreigada.

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  13. Ao ler a estória da Catarina, lembrei-me do meu padrinho e do Quim Tomé, ambos já falecidos, por causa do carioca de limão.
    Eles também adoravam o "carião de limoca", a "Somás de ananol", o "bafé com cagaço", enfim "tocadalhos do carilho"!! :)))

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    1. Lembro-me bem desses trocadilhos, Pedro. Fizeram época...

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  14. Vou enviar também a minha 1ª história com um café :)

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  15. Catarina!
    Um bolo de arroz, naquele tempo, correspondia a um cozido à portuguesa! Comi muitos cozidos desses.

    É gira a iniciativa, Carlos!

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