quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Leituras e Coca Cola



Lembro-me vagamente  de ver lá em casa, na minha infância, um livro intitulado “Maravilhas do Conto Japonês”. Não me recordo de um único desses contos, nem tenho sequer memória de me ter alguma vez empolgado com a literatura japonesa.
Quando Kenzaburo Oe ganhou o Nobel da literatura em 1994, eu andava mais interessado em explorar autores desconhecidos da literatura sul americana e não lhe dei qualquer importância.
Um dia, em Barcelona, encontrei um livro intitulado “Kafka à beira mar” de um autor que me era totalmente desconhecido: Haruki Murakami. Tinha lido nesse fim de semana uma crítica elogiosa ao livro na revista do El Pais, mas não o comprei. Só alguns meses mais tarde, numa das minhas rondas pelas livrarias,  dei de caras com o livro que, tal cão à espera de ser adoptado, se insinuava aos meus olhos. Comprei-o. Quando cheguei  a casa depositei-o no monte, junto de outros que aguardam a sua vez em lista de espera.
A sua vez chegou, durante uma viagem de comboio. Li-o de um fôlego e, quando regressei a Lisboa, comprei “ O Carneiro Selvagem”. Melhor ainda do que “Kafka à beira mar” dissera-me alguém durante uma tertúlia. Confirmei. E assim fui comprando todos os livros de Murakami, incluindo a triologia IQ 84, cujo terceiro volume acabei de ler nos primeiros dias de Janeiro.
Entretanto,  graças a Murakami,  decidi “descobrir” outros autores japoneses. Já aqui escrevi sobre Yukio Mishima e hoje é  a vez de vos falar de Hiromi Kawakami,  autora de Manazuru,  minha primeira descoberta de 2013.
Uma mulher com uma filha de três anos. Um marido desaparecido, ou uma mulher abandonada? Uma  palavra num diário: Manazuru.
É a partir desta descoberta que a história se desenrola. Cheia de interrogações. De descobertas. De trocas de emoções. De viagens de comboio entre Tóquio e a península de Manazuru.
Depressão ou uma relação mal resolvida? Amor ou ódio?  Perguntas que nos vamos colocando à medida que avançamos na leitura. Sedutora. Doce. Envolvente.  Como acontece com Murakami ou Mishima, também em Kavakami  a narrativa nos transporta, de forma mais ou menos subtil, para um mundo  paralelo sobre o qual pensamos, mas cuja existência rejeitamos.
Manazuru não é uma história de amor.  Digamos que é sobre o amor mas, acima de tudo, é uma elegia à memória do amor. Ao princípio, estranha-se, mas depois…entranha-se. Como aconteceu comigo em relação à literatura japonesa, mas não à Coca Cola.

21 comentários:

  1. Parabéns, Carlos ! Muitíssimo bem escrito ! Bela introdução, a descoberta, a procura e exploração, a constatação, até chegar ao Kawakami !

    Abraço !
    .

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estou absolutamente de acordo com o Rui.

      Uma fantástica crónica.
      São crónicas como esta que me fazem voltar sempre aqui, mesmo quando a minha segunda pátria é maltratada.

      Eliminar
  2. Também "descobri" Murakami recentemente, mais propriamente em finais de 2008, e se gostei do primeiro livro que li - "Sputnik, meu amor" - ainda gostei mais do segundo: "A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol". E agora ao ler o primeiro volume da trilogia "1Q84" o encanto de ler as suas páginas ainda está longe de terminar... :)

    Mas pronto, a literatura japonesa não começa nem acaba com Murakami, pelos vistos existem outros bons escritores nipónicos. Sugestões a ponderar nas próximas leituras, que muito agradeço! :D

    ResponderEliminar
  3. Já lá vai um bom tempo que Murakami me chegou às mãos através da sugestão de uma amiga com o "Sputnik, meu amor", nunca mais procurei ler nenhum livro do autor porque quanto às leituras por vezes passo por períodos de abstinência demasiado longos, os orçamentos andam apertados e confesso que há muito que não compro livros para grande desgosto meu. Estou a pensar redescobrir o maravilhoso mundo das bibliotecas, já que foi pelas bibliotecas que eu sempre li muitos livros, vicio cultivado pelo meu pai e pelo meu avô que sempre recorreram muito à biblioteca, não ter dinheiro não é desculpa para não ler.

    Espero brevemente ler os livros desse autor porque vão-me aguçando a curiosidade e a vontade, e sim ele escreve de um modo que convida à leitura quase compulsiva :)

    Pronto, é disto que eu falo em relação aos meus comentários... O que é que ir à biblioteca, ou o meu orçamento (e julgo que o de toda a gente) andar mais limitado tem a ver com Murakami, tudo e talvez nada :p

    Abraços :)*

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As bibliotecas são o meu mundo, não há um dia que não dê lá um pulo.

      A maior parte dos livros que leio são emprestados das bibliotecas; como também trabalho uma vez por mês na biblioteca católica tenho sempre as últimas novidades ao meu alcance.

      Claro que certos livros só os consigo arranjar nas bibliotecas das Unis de Düsseldorf ou de Duisburg.

      É como tu dizes, Poppy, não ter dinheiro ou não ter tempo não é desculpa para não ler.

      Eliminar
  4. Só de te ler já fiquei curiosa.
    Não tens nenhum livro editado?
    Pergunto, porque tens imaginação e uma escrita fluente que nos prende!

    Já anotei. Antes de comprar irei ver se a minha irmã mais nova os tem.

    É lá que me abasteço.

    Poppy, que mal tem ser sincera?
    Os livros tornaram-se um luxo para o comum mortal.

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mona Lisa, é precisamente a isto que me refiro naquele post dos comentários :p Divaguei um pouco, acabou por ser um desabafo.

      Infelizmente em 3 anos que eu tenho do mundo dos crescidos (vulgo trabalhadora), consegui ter um cheirinho do que é ter um bom ordenado até chegar aos dias de hoje, a área da Farmácia (área em que me formei) era uma área com elevados índices de empregabilidade e assegurava ordenados razoáveis hoje em dia está em declínio como talvez tudo neste país, é triste, mas é o que temos e as queixas neste domínio devem ser gerais, tudo isto para dizer que em tempos comprar livros era o meu luxo, os livros já eram caros o meu poder de compra é que era diferente.

      Mas não me incomoda nada voltar a ter um cartão da biblioteca :) Pior pior era se não houvesse biblioteca! :D

      Beijinhos

      Eliminar
    2. Poppy, a vida está a ficar um caos, para todos.

      Gosto de pessoas frontais!
      Porque havia de te incomodar?
      Eu quase não os compro, porque são caros, tenho uma filha para ajudar (adoptou um menino doente) e sirvo-me da biblioteca da minha irmã. O importante é ler!

      Já deves ter visto no meu perfil que sou professora (antigo ensino primário).
      No próximo mês já vou sentir novos cortes na aposentação.
      Haja saúde!

      beijinhos.

      Eliminar
    3. É verdade :) Haja saúde, porque quando essa falta é que é pior!

      Beijinhos

      Eliminar
  5. Voltei...

    Apesar de ter crescido lado a lado com a coca-cola ainda não a entranhei!!!

    beijinhos.

    ResponderEliminar
  6. Li apenas "A Sul da Fronteira" mas foi-me emprestado por uma amiga, hoje mais que nunca não vou conseguir comprar livros.

    beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  7. Já comecei a ler um livro de Kenzaburo Oe, Uma Questão pessoal, cuja leitura depois interrompi, apesar de estar a gostar de como escrevia, o tema é que era difícil. E gosto muito do Yasunai Kawabata. Li todos os livros dele que foram traduzidos e publicados cá.

    ResponderEliminar
  8. Morte em Pleno Verão e outros contos de Yukio Mishima foi uma sugestão do Carlos como leitura de Verão e fiquei tão encantada, que continuei a ler outros livros deste autor.

    Encontrei "Kafka à beira mar" numa livraria no Porto.
    Fiquei muito entusiasmada, porque pensei que se tratava de um dos meus escritores preferidos: Franz Kafka.

    1Q84 ainda não li, mas depois de ler a crítica da Teté e a do Carlos, não posso deixar de o ler em breve.

    Só a questão da Coca-Cola é que não compreendi, o que o Carlos queria dizer, mas como não gosto desta bebida, não tem importância.

    ResponderEliminar
  9. Voltei!

    Adorei saber que vai haver publicação!

    Esse vou comprá-lo ,com toda a certeza! Vai ser uma honra!
    Gosto da elegância e simplicidade com que escreves.

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  10. Obrigada pela informação.

    Quanto ao regresso aos benditos mercados, estou muito contente , porque - dada a euforia do Governo e dos comentadores com acesso aos meios de comunicação social - decerto temos todos os problemas do país resolvidos.

    De verdade que não percebo como, mas a burrice deve ser minha...

    Um abraço, amigo meu

    ResponderEliminar
  11. Parabéns por tão elogiosos comentários, Carlos! : )

    ResponderEliminar
  12. Aceito a sugestão de leitura.
    Dispenso a Coca-Cola :))

    ResponderEliminar
  13. boa hora este post, Carlos, Murakami é um dos meus escritores favoritos. já leu o 'after dark, passageiros da noite'?, fantástico. excepto o 'underground', o livro de não ficção de HM, os restantes romances li-os e tenho-os todos. e agora Hiromi Kawakami aguçou-me a curiosidade. vou procurar :)

    ResponderEliminar
  14. Gosto de Coca-cola e provavelmente também irei gostar deste romance que aqui apresenta!

    Abraço

    ResponderEliminar
  15. Se a literatura japonesa for do tipo Coca Cola, que primeiro se estranha e depois se entranha, vai ser difícil eu aderir a ela.
    Quando algo me é estranho, dificilmente dou espaço a que se entranhe
    Pois é verdade! Nunca li nada de nenhum autor japonês, pelo menos que me lembre.
    Fiquei, no entanto com vontade de ler Haruki Murakami e a trilogia IQ84 que só no primeiro mês de lançamento vendeu um milhão de exemplares no Japão. Como já leste o 3º volume sabes que o livro combina uma narrativa realista com uma espécie de surrealismo maluco - relógios que levitam, cães que explodem, uma entidade chamada "Povinho" que emerge pela boca de uma cabra morta, etc.
    Andei a pesquisar e fiquei curiosa. Pode ser que um dia vá até à FNAC e faça como fazia antes de ter o blog...dedique mais tempo, àquilo que sempre me deu um imenso prazer: LER!

    E a aposentadoria que nunca mais vem...:)
    Tenho imensos livros em lista de espera, desde Daniel Silva a Elizabeth George, mas a blogosfera ocupa-me quase todos os momentos que tenho disponíveis.:(

    ResponderEliminar
  16. Uma sugestão registada.

    A coca-cola é coisa que nunca consegui entranhar e parece-me que vai ser assim até morrer.
    Por mim a 'Fábrica da felicidade' como se chama sempre que passo por ela já teria ido à falência há muito.

    A Fábrica da Coca-Cola que me refiro situa-se perto de Setúbal, em Cabanas, Palmela. Aquele placar com a boneca e a expressão 'Fábrica da felicidade' revolve-me as entranhas.

    Irei procurar um desses japoneses para ler. Aguçaste-me o apetite.

    Beijo

    ResponderEliminar