quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Onze Minutos



A propósito deste post, lembrei-me de um outro que escrevi no CR há uns anos. A maioria dos leitores já o terá lido, mas recuperei-o para quem ainda não o leu.




Não, não vou falar daquele livro do Paulo Coelho em que a protagonista é uma miúda que foi para Genève, porque acreditava que ganhar a vida na horizontal entre um abrir e fechar de pernas era “fixe”.

O título deste post reproduz um facto real, que ocorre na minha vida, e por vezes me provoca mais incómodos e transtornos do que à protagonista de Paulo Coelho, que ganha a vida em Genéve entre um bar de alterne e quartos de pensões esconsas. ( Se lerem até ao fim, verão que a minha estória, tem um final feliz...)Acreditem ou não, onze minutos é o tempo que dura a viagem de metropolitano entre minha casa e o meu gabinete de trabalho. O tempo exacto que demora Maria ( na versão de Paulo Coelho) a abrir e fechar as pernas, a troco de umas centenas de francos suíços.

Nesse tempo que dura a minha viagem - cronometrei várias vezes e deu sempre certo- não ganho um chavo ( isso fica para os ceguinhos que andam a pedir esmola entre ladainhas e toques de acordeão, ou para crianças-mendigas acompanhadas de cãezinhos amestrados) , mas passo momentos tão desagradáveis como os da Maria. Não levo com nenhum gajo em cima a arfar , é certo, mas ...ouço conversas indiscretas; aturo telemóveis a tocar; levo com jovens generosos que colocam os i-pod nos ouvidos em altos berros, para que os vizinhos possam partilhar a sua música; senhoras com carteiras gigantescas que a meio da viagem decidem procurar um qualquer objecto no meio da bagunçada que deve ser aquele espaço; jovens de mochila às costas que se esquecem que não viajam sozinhos e a cada movimento que fazem atingem o vizinho; crianças romenas ranhosas a pedir esmola; crianças portuguesas a fazer birras, perante o ar complacente das mamãs; ucranianas de decotes generosos e saias justas a fazer lembrar a Maria; sovacos suados a pedir uns esguichos de desodorizante... enfim, uma parafernália de protagonistas que confundem uma viagem de metropolitano com o sofá da sala, onde se esparramam diante do televisor a ver um filme, enquanto comem pipocas e libertam fluidos.

No verão, quando pernoito em Lisboa, costumo fazer o trajecto a pé, mas hoje estava atrasado para mais uma daquelas sessões do Portugal Sentado* e por isso vim de metro. A viagem começou mal. Logo na Quinta das Conchas, senta-se ao meu lado um fulano, na casa dos 50 e muitos , artilhado com i-pod de onde saía, em doses generosas de decibéis, música dos MetalliKa!!! Em pé, junto a mim, um jovem ouvia música que não consegui identificar. Levantei os olhos do jornal, na busca de um lugar mais sossegado. Reparei que vários jovens iam de auscultadores enfiados nos ouvidos, outros faziam exercícios físicos, ginasticando os dedos em teclas de telemóveis e outros acumulavam as duas funções. Havia também gente com olhar distante e algumas jovens lendo livros.Fiquei onde estava. Entre o Campo Grande e Entre Campos, começou o recital dos telemóveis a tocar. Fim de concentração na leitura. Senhoras a remexer nas carteiras à procura do aparelho e, depois, as conversas. Uma senhora dizia em altos berros ( para a filha, presumo) o que devia fazer para o almoço; outra, mesmo em frente a mim, telefonava para a empresa a dizer que estava atrasada, porque a camioneta que a devia ter trazido até ao Campo Grande avariara; um jovem mandava beijinhos sonoros ( presumo que à namorada, mas nos tempos que correm nunca se sabe...); outro, nervoso, anunciava à mãe que ia ter com ela ao local de trabalho porque “20 euros para almoçar e ir ao cinema não dá para nada, mãe!”.Já em Entre Campos o ceguinho - que pessoa amiga afiança ter encontrado a passar férias no ALLGARVE- irrompeu pela minha carruagem na sua lenga-lenga quase milenar. A escassos metros, seguia uma velhota, que conheço há anos, exibindo uma receita. Pede, também há anos, que os passageiros comparticipem em despesas que deveriam ser suportadas pelo Estado.

Chegámos finalmente ao Saldanha. Já não posso mais...Estou na fila para passar a cancela onde devo colocar o passe a oscular a célula fotoelectrica . Vai chegar a minha vez. O Portugal Sentado* espera por mim. À minha frente só há uma senhora. De súbito, uma “murraça” no olho direito. A senhora à minha frente trazia o seu passe na carteira e, para o ir buscar, lançou inadvertidamente a carteira para trás, levando uma daquelas peças metálicas a atingir-me com violência.

É então que me lembro dos “Onze Minutos”. Fico na dúvida. Afinal, Maria é capaz de ter razão. Aguentar cenas destas todos os dias, e ainda ter de pagar por cima, é capaz de ser mais doloroso do que apanhar com um gajo em cima a arfar, a troco de umas centenas de francos suíços.Garanto que não vou tirar a prova, mas que fiquei a pensar na Maria, lá isso fiquei.
O olho direito, infllamado, ainda me dói! A imagem de aflição da senhora e os sucessivos pedidos de desculpas, não me aliviam a dor.Logo à noite, quando for jantar com ela, talvez a dor passe...* Para quem não saiba o que é o Portugal Sentado: ler aqui aqui

12 comentários:

  1. Estou a fazer um esforço descomunal para me tentar lembrar quanto levava de Alvalade até ao Campo Grande, esse belo e diário percurso que comecei a fazer com frequência quando começaram as chuvas (quando não estava a chover ia a pé, 30 minutos de caminhada para começar o dia :p)mas devia andar pelos 11 minutos também.

    O que eu gostava de fazer no metropolitano era sobretudo observar enquanto lia (fazer duas coisas ao mesmo tempo é canja para uma mulher) gostava de observar, pois o metropolitano é o sítio onde se concentra a maior variedade de pessoas que já vi, e eu gostava disso, felizmente nunca levei com nenhuma marmita na cara :p

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  2. Ainda vai a tempo de se mudar para Genéve :)

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  3. "Logo à noite, quando for jantar com ela, talvez a dor passe..."

    Abençoada "murraça" :))

    Beijinho

    Laura

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  4. A vida da Maria em Géneve deve ser pior, sem dúvida. Preferia os teus 11 minutos

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  5. Espero que a dor e a inflamação no olho já tenha passado por esta altura... :)

    Essas cenas que relata são o pão nosso de cada dia para quem viaja de transportes públicos. Ainda hoje ouvi uma brasileira a falar ao telemóvel e a pedir a outra pessoa para lhe indagar as condições de crédito num banco brasileiro, e outro fulano de piercing no nariz a convidar outro para ir ao concerto que ia dar no sábado na Voz do Operário... Resumindo: mesmo não querendo levamos com detalhes das vidas alheias, com os quais nada temos a ver! ;)

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  6. Loucos onze minutos!

    Hummmmmm...abençoada murraça:)

    Vives em Telheiras ou Lumiar?

    Beijos.

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  7. Fiquei absolutamente estafada com estes 11 minutos!
    É obra! :-))

    Abraço

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  8. Não ando em tranportes públicos, mas essa sua viagem é o pão nosso de cada dia por estas bandas, mesmo na rua,pastelarias e até em hospitais que fiquei de boca aberta a ver estas cenas nas salas de espera!
    Belo murro, espero que valesse a pena e que o jantar seja melhor.

    beijinho e uma flor

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  9. A quantidade de coisas que podem acontecer em 11 minutos! E não, não me refiro à brasileira que vai ao engano para Genéve e depois não tem outro remédio senão dar o corpinho ao manifesto, até recuerar a documentação. Só que depois começa a trabalhar por conta prória, já que os onze minutos eram bastante lucrativos....
    Refiro-me à tua odisseia de viajar de Metro onde até uma murraça no olho levas...
    Bolas! As coisas que se aturam para se poder estar "Sentado em Potugal"!
    A Maria ainda voltou para o Brasil e comprou uma chácara.:-))

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  10. Já li o 11 Minutos há alguns anos, mas acho que pelo menos a Maria não ficou com o olho negro :)

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  11. Tem a certeza que isso tudo não se passou nos elevadores do Edifício China Plaza, em Macau, em hora de ponta?

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  12. 11 minutos...quem me dera. Eu tenho essas cenas em quatro transportes diferentes (estou a contar com o carro, que também assisto a coisas inacreditáveis na estrada), num total de 360 minutos por dia. Que vou reduzir em breve com o regresso a LIsboa. Mas concordo consigo, o Metro não tem rival no que tocaao festival de fenómenos sociais a estudar. A não ser talvez na CP e Carris, mas essas (felizmente) não frequento.
    Anda com azar, Carlos, no outro dia a mochila, agora a carteira XXL...:( As melhoras, e tenha paciência. Ou arranje um taser :) (sim, tenho estas ideias recorrentemente...)
    Beijinho

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