quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Culpa (2)



( Continuado daqui)

Manhã de segunda-feira.
A mãe da criança prepara a lancheira que a filha levará para a escola. Olha para o relógio e vê que está atrasada, mas ainda volta atrás para pegar num casaco de malha para a filha. Está frio, a escola não é aquecida e o reforço daquela peça de vestuário vai dar-lhe mais um pouco de conforto. Mete-se no carro e dirige-se para casa dos pais.
Toca à campainha. Volta a tocar. Nada. Terão adormecido? Prime o botão da campainha uma vez mais. Silêncio. Impacienta-se. Arromba a porta. Lá dentro, silêncio profundo. O coração começa a bater-lhe com mais força. Chama pelos pais e pela filha, enquanto sobe as escadas que dão acesso aos quartos. Vai directamente ao quarto da filha. Está a dormir profundamente. Abana-a com força. Escapa-se-lhe um grito de dor. A filha está morta!
Corre em pranto para o quarto dos pais. O pai está inanimado, toca o corpo gélido da mãe e confirma o que temia. É já cadáver. Não vai ao quarto do irmão, no quarto ao lado. Sai para a rua aos gritos. Acorrem os vizinhos a saber o que se passa. Não percebem uma palavra do que ela diz. Seguem o prolongamento do seu braço que aponta em direcção à porta da casa. Um homem mais afoito entra e vai ver o que se passa. Perante o cenário de morte que se lhe depara, telefona para os bombeiros. Poucos minutos depois chegam duas ambulâncias. Retiram dois cadáveres e procuram reanimar pai e filho que ainda dão sinais de vida. Levam-nos para o hospital.
Confirmados os óbitos, a explicação: avó e neta morreram por inalação excessiva de monóxido de carbono. A falta de ventilação não permitiu que o gás letal, libertado pelo gerador, se escapulisse para a atmosfera.
Criei esta história a partir de uma notícia que a televisão me serviu à hora do jantar de uma segunda-feira, relatando a morte de avó e neta numa casa em Vila da Feira.
Mas  a história não acaba aqui...
Ao final da tarde chegaram as televisões. Na impossibilidade de entrevistar os sobreviventes e a mãe da criança, interrogam os vizinhos, que confirmam a causa da morte, o arrombamento da porta, a presença da criança ali deixada pela mãe, que pela manhã a ia buscar para levar à escola, as cenas dramáticas vividas às primeiras horas daquela segunda-feira.
Os vizinhos têm mais para contar. Descobriram a culpada das mortes e por isso apressam-se a julgá-la em praça pública.Desengane-se quem pense que a culpa foi do descuido do(s) avó(s) que deixaram o gerador ligado, sem cuidar de permitir a ventilação do espaço. Ou do monóxido de carbono, gás assassino e inimigo público com quem todos convivemos diariamente nas filas de trânsito, no escritório, ou no restaurante. Não. A culpa, na opinião de uma senhora alcandorada a porta-voz improvisada, foi da EDP!
“Desde sábado de manhã que passámos a vida a telefonar para a EDP e a resposta era sempre a mesma. Que os piquetes andavam na rua a tentar reparar mas, como vê, ao fim de dois dias não arranjaram nada e nós sem luz, sem televisão e com a comida toda a estragar-se nas arcas congeladoras. Isto é inadmissível. Só me apetece perguntar: em que país vivemos?”.
( Conclui amanhã)

8 comentários:

  1. Soube deste caso pelas notícias... mas como não lhe conheci pormenores não reconheci os detalhes da primeira parte da narrativa.
    Presentia contudo que ela não teria um desfecho feliz... só que de histórias de morte hoje já tenho a minha conta.

    :(

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  2. Que importância tem o plágio de uma ministra, quando acontecem tragédias como esta? NUNHUMA!

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  3. ...num país transformado num "campo de concentração"!

    Beijinhos.

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  4. Havia culpado? Óptimo. Em Portugal a culpa costuma morrer solteira.

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  5. Bom, já conhecia a primeira parte da história, que sabia terminar mal. Fico a aguardar a conclusão...

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  6. Triste sina, a de quem espera. E quando desespera, já não há nada a fazer.
    Abraço amigo Carlos

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  7. E amanhã cá estarei para a conclusão.
    Reserve-me lugar, por favor, Carlos.

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  8. Estou sem pingo... Esta história foi real? Foi quando? Não conhecia :/

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