quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A culpa: epílogo




( Continuado daqui)

Do lado de cá do televisor dou-lhe a resposta:
Vivemos num país, como tantos outros mais ricos e civilizados, que não está preparado para fenómenos meteorológicos violentos, onde não se pode exigir às autoridades competentes ( neste caso a EDP) que dêem respostas céleres em tempo de tormenta excepcional. ( Lembra-se do que aconteceu há meses em Nova Iorque, minha senhora? Ou na Austrália' Ou mesmo em Inglaterra? Foram muitos dias sem luz e sem água, sem que as autoridades pudessem repor o serviço, apesar de terem outros meios  de que Portugal não dispõe)
Vivemos num país onde as pessoas estão sempre a exigir que os outros cumpram, mas são negligentes e esquecem-se de cumprir a sua parte, respeitando as mais elementares regras de segurança.
Numa coisa a senhora tem razão. Pedia-se às autoridades que, nestas circunstâncias, avisassem a população para tomar cuidados especiais e evitar situações de risco como esta. Isso é, na verdade, a sua obrigação. Seja num país de gente evoluída, seja num país como o nosso onde as pessoas cresceram de forma desigual e ( apesar de todas as contrariedades da crise) o nível de vida não aumentou na mesma proporção da consciência cidadã.
Vivemos num país, minha senhora, com uma elevada taxa de analfabetismo funcional e ninguém faz nada para a combater. Neste país embevecido pelas novas tecnologias, esqueceram-se de avisar os cidadãos que elas por si não resolvem nada, se as pessoas não forem educadas para as utilizar na melhoria da sua qualidade de vida.
Vivemos num país, minha senhora, que fica à espera que a renovação geracional transforme as novas tecnologias num bem essencial, mas esquece que o número de velhos e de pessoas com escolaridade reduzida são o grosso da população. E essa gente, minha senhora, não está familiarizada com as novas tecnologias, nem sabe que um gerador liberta monóxido de carbono, capaz de matar.
Por isso, minha senhora, a sua pergunta reflecte apenas a tendência actual de fazer julgamentos em praça pública e de cada um se eximir às suas responsabilidades, procurando desesperadamente um culpado.
É neste país que a senhora e eu vivemos. Se queremos que alguma coisa mude, a primeira coisa a fazer é mudarmos o nosso comportamento. Não lhe parece?".

9 comentários:

  1. Vivemos num país onde estamos sempre à espera que os outros cumpram, onde a responsabilidade é sempre do outro... Vivemos num país onde acontecem histórias tristes como esta :(

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  2. Olha Carlos, não creio que as pessoas, mesmo as analfabetas e/ou as que não sabem lidar com as novas tecnologias, sejam ignorantes ao ponto de não saber dos perigos do monóxido de carbono (o assassino silencioso e invisível) que um gerador produz ou dos perigos de um esquentador que teimosamente se monta numa dependência onde se toma banho.
    Sabem sim... mas por facilitismo e por comodismo vão-se cometendo sempre o mesmo tipo de erros.

    As pessoas são prevaricadoras por natureza porque temos sempre aquela fé que o mal só acontece aos outros e nós estamos sempre a salvo da desgraça.
    Dou-te só este exemplo que presenciei agora de manhã: deslocando-me a pé, tive de atravessar uma via rápida com muito movimento num local onde foi construída uma passagem superior para peões. À hora em que lá passei, o movimento era bastante mas para meu espanto constatei que apenas eu utilizei aquela infraestrutura que foi construída com o erário público para segurança de nós todos... porque as outras pessoas que tinham de atravessar para o outro lado preferiram fazê-lo pela estrada.

    (desculpa o "testamento")

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  3. É mais fácil culpar seja quem for do que mudarmos os nossos comportamentes, infelizmente!

    Bom resto de dia.

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  4. E continuam a morrer por afogamento, pois metem-se à água sem saber nadar e/ou conhecer o local, morre-se por asfixia, porque se brinca com sacos de plástico e/ou não se controlam lareiras e esquentadores, morre-se, atrapalhando o tráfego, por excessos de velocidade e/ou bebida a mais, morre-se por eletrocussão porque se utilizam aparelhos sem cuidar das mais elementares normas de precaução ou apenas porque se junta eletricidade e água, morre-se por descuido, incúria, desleixo e até distração, mas ficará sempre alguém que atribuirá culpas a terceiros, como se os que morrem, ao fazê-lo, ficassem por isso absolvidos de toda a culpa.

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  5. E a vontade que toda a gente tem de apontar a dedo um culpado, quando é um conjunto de fatores que determina um determinado acontecimento ou acidente? Enfim, é óbvio que a EDP devia ser mais célere a reparar avarias, que grassa o analfabetismo funcional, que há normas de segurança básicas, mas triste é quando todos os fatores se conjugam e dão origem a desfechos destes...

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  6. Cada caso é um caso, no ano passado passou um tornado pela minha rua, por acaso passou ao lado da minha casa mas....arrancou pinheiros, derrubou muros partiu postes e nesse dia e durante toda a noite estiveram a limpar e a reparar de modo exemplar!
    Carlos, se puder passe pela Papoila para ver fotos do Café Saudade (lembra-se de que lhe falei nele).
    xx

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  7. Vivemos num país sem "rei nem roque"!

    Beijinhos.

    Lisa


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  8. Efetivamente, temos que mudar mentalidades.

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  9. Quando leio crónicas como esta, Carlos, não há diferenças na nossa maneira de pensar.
    Esta crónica podia ter sido escrita por mim, mas ferindo a língua Camões.

    Se queremos que alguma coisa mude, seja qual for o país onde vivemos, a primeira coisa a fazer é mudarmos o nosso comportamento!!!

    HELAU!

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