terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Culpa



Manhã de sábado

Poderia ser o começo de um fim de semana feliz, se S. Pedro estivesse pelos ajustes. Mas, infelizmente, o santo sinaleiro da meteorologia ordenou que o céu se desfaça em água sobre a terra e destrancou as amarras ao vento, para que ele possa vaguear, tal cão faminto, à procura de uma presa. Fruto do seu mau humor e do espírito pouco colaborante, naquela manhã de sábado, a chuva cai, persistente, batida por um vento forte, com rajadas a ultrapassar os 150 kms/hora. Por todo o país a intempérie vai provocando estragos. Estradas interrompidas, telhas roubadas aos telhados, árvores arrancadas e postes derrubados. Nalguns locais falta a água. Noutros a electricidade. Noutros ainda, faltam ambas.
Na Vila da Feira, distrito de Aveiro, há uma casa sem electricidade. Os proprietários telefonam para a EDP. Alguém lhes responde que andam os piquetes todos na rua, há muitas avarias, o equipamento está seriamente afectado e não sabem quando será possível restabelecer o abastecimento. Ao final do dia, perante a ameaça de deterioração dos bens armazenados na arca congeladora, o casal decide instalar um gerador na cave da habitação. Salvaguardados os bens alimentares, é tempo de garantir a satisfação de outros prazeres. Liga-se a televisão para ele ver o futebol. Ela suspira diante da telenovela.
Passa a noite. Na manhã de domingo, a filha do casal toca a campainha. Traz consigo a filha, que ficará à guarda dos avós. Na manhã de segunda-feira, a mãe virá buscar a criança para a levar à escola, a caminho do emprego. Está um domingo frio. Ligam o aquecimento. Novo telefonema para a EDP. Não há novidades. Os técnicos estão a fazer os (im)possíveis para devolver a electricidade aos inúmeros queixosos que começam a desesperar. Naquela casa de Vila da Feira, os proprietários suspiram resignados. A presença da neta alivia a contrariedade. O gerador faz o resto. O frio aconselha a ter tudo bem fechado, para que nem uma brisa daquele ar frio entre por uma qualquer fresta.
Terminado o jantar a avó vai deitar a neta. Conta-lhe uma história e a criança adormece com um sorriso nos lábios. A avó fica, durante alguns minutos, a olhá-la embevecida. Deposita-lhe um beijo na face, ajusta-lhe os lençóis ao corpo, assegura-se que a luz de presença está ligada, porque a neta não consegue dormir na escuridão. Sai, pé ante pé, para não a acordar.Ajeita o xaile e vai até à sala, onde o marido está a ver televisão. Terminada a novela, vão-se deitar.
( Continua amanhã)

8 comentários:


  1. A leitura deste teu conto/relato trouxe-me à memória tempos idos em que o fornecimento de energia era tão periclitante que bastava uma chuva de maior intensidade e trovoada para ficarmos sem luz. O meu pai tinha um Petromax que ligava e colocava no centro da mesa da sala e a minha mãe na cozinha acendia todas as velas que tinha à mão.
    Curiosamente nós (eu e a minha irmã) achávamos um piadão à coisa e fazíamos da situação uma festa! Se queríamos ir à casa de banho levávamos uma pilha (nessa altura ainda não sabia utilizar a palavra lanterna) pois para uma criança era perigoso andarmos pela casa de vela na mão.

    E pronto, foi o momento nostálgico do dia :))
    Fico à espera da continuação...


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  2. Parece-me que isto vai acabar mal!
    Há já alguns indícios...

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  3. Aguardo a continuação!
    No entanto vi-me neste texto em certas circunstâncias naquele maldito fim de semana que deu para pensar bem o que nós somos!
    Amanhã é o dia de tirar a arvore que me caiu na casa, espero eu, assim está combinado.

    beijinho e uma flor

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  4. Não aguardo a continuação! Sei como esta historia acaba, se bem me lembro li-a nos jornais... :(((

    ps. pode ser outra parecida... mas não me parece, pelo que já foi avançado!

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  5. Uma história real...

    Espero o final!

    Beijinhos.

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  6. E eu cá estarei para acompanhar atentamente.

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