domingo, 10 de fevereiro de 2013

À mesa do café(?) em Saint Germain

O nosso convidado de hoje é o Kim. Irregular nas suas aparições pela blogosfera, escolheu um nome a condizer para o seu blog e, acredito,  com a sua forma de estar na vida: às vezes fim de semana.
A maioria dos leitores já conhece o blog dele, a estória que nos traz é bem ao estilo que lhe conhecemos: boa disposição e bom humor temperados com aventura. Vou publicando as estórias dos leitores por ordem de chegada, mas foi uma feliz coincidência a estória do Kim ser publicada em Domingo Gordo. Hoje, a nossa conversa tem um suplemento adicional ( o brinde de que vos falei na sexta-feira): Qual dos garbosos mancebos é o KIM?
Preparem-se, pois, para uma tarde bem disposta... Vamos a isso? 



"Vinte de Maio de mil novecentos e setenta! Dia do meu décimo nono aniversário!
Marie Claire era uma loira lindíssima. Vivia do que o desenrasca dava. Seu marido Bérnard, bandido de profissão, estava enclausurado havia algum tempo.
Gyslaine, não menos linda, morena, suiça de Genéve a estudar em Paris, era a sua companhia preferida.
Kim e Martin eram os amigos a quem não era possível dar o golpe, já que nada tinham para ser gamado. Loiro (eu) com loira, moreno (Martin) com morena, ditou o desejo. A espaços alteravam-se os pares, porque a ocasião faz o ladrão e porque era preciso demarcar a emancipação adquirida.
O encontro era habitualmente no Chez Jean Bart.
Naquela noite, Marie Claire, confidenciou-me:
- Kim, esta noite, para comemorar os teus 19 anos, vou levar-te ao local mais “in” de Paris. Fica em St Germain, um sítio com ambiente diferente daquele que estás habituado. E vou levar-te no meu novo carro.
- Por mim está tudo bem, leva-me onde quiseres - disse eu.
A “minha” (?) miúda dava muito nas vistas. O seu longo casaco de pele branca de arminho, cobria-lhe as botas, não menos alvas, rendilhadas de cordões entrelaçados.
Às vezes até tinha medo de sair com ela. Afinal, era a mulher de um diabo e andava com um anjo(inho), salvas as devidas proporções.
O medo duma navalha encostada ao pescoço assaltava-me regularmente.
Estacionada num obscuro canto duma rua cinzenta, a sua viatura era afinal uma velha carrinha Citröen, igual às utilizadas pela Gendarmerie. A dita, estava despida de tudo. Apenas tinha o banco do condutor, o volante e a “manete” das mudanças.
Entrámos os quatro naquele maravilhoso meio de transporte, talvez furtado, talvez não, e partimos à descoberta de uma noite mais.
No espólio de Marie Claire não havia melhor. Era aquela Citröen, ou nada.


Marie Claire confidencia-me que iríamos a um bar regularmente frequentado por artistas do cinema e da canção. Moustaki, Léo Ferré, Serge Lama, Johny Halliday, Sylvie Varten, Alain Delon, etc. eram visitantes assíduos. Quis o destino que mais tarde me viesse a tornar amigo de um outro cantor de sucesso, Gerard Lenorman.
Imbuídos de espírito vadio, ei-los que aí vão cheirar o mundo do sucesso.
Dentro da viatura, era hercúleo o esforço para nos segurarmos. Viajávamos em pé e sem nada onde nos pudéssemos agarrar.
Martin e Gyslaine lá iam barafustando com as condições de transporte e a certeza da ilegalidade ambulante, anuindo, no entanto, às refutações que Claire ia vociferando.
- Ou querem assim, ou vão a pé! - insistia.
Trinta minutos bastaram para chegarmos ao local.
Nos nossos bolsos o dinheiro não abundava, como de costume. Lá dentro, a média luz não ajudava na descoberta das espécies raras. “Cuba libre” para os quatro, era a bebida alcoólica mais barata que o nosso bolso suportava.
Assim fomos bebericando, fazendo render aquela bebida que teria de dar para toda a noite. De vez em quando o empregado vinha junto de nós perguntar se queríamos algo mais. Olhando para o copo, com se ainda estivesse meio, lá íamos dizendo - por enquanto não é preciso mais nada.
Dançámos que nem possuídos. Expirámos fumo que nem cacilheiros. Bebemos que nem forretas.
Da gente muito famosa, nem cheiro. Apenas a equipa B.
Ou a neblina das luzes opacas nos turvava a visão, ou os artistas haviam rumado a outras paragens.
Era já tarde para nós, cedo para outros, quando nos foi apresentada a conta.
Duzentos e trinta e dois francos, fizeram-nos pestanejar. Esvaziadas as carteiras, juntámos noventa e cinco francos, mais do que suficiente para passar uma belíssima noite noutro qualquer bar. Questionado o empregado sobre o montante exigido, este informou-nos que ali, cobrava-se à hora. Quer bebesse, quer não bebesse. 
Martin e Claire, mais batidos na noite, bem tentaram fazer valer a nossa ignorância. De nada valeu.
Claire olhou em redor, fitou uma presa, aconselhou calma e partiu em busca de alimento para os filhotes.
Voltámos a sentar-nos e de longe apenas tentávamos perceber qual o jogo de palavras que  estaria a utilizar junto de um desconhecido, ainda com idade de ser nosso pai e já com idade de poder ser nosso avô.
Dez minutos depois chega junto de nós, pega na mala, embrulha-se no falso arminho e desabafa: - pronto malta, podemos ir embora!
Assim fizemos. Olhar para trás, é coisa que não se faz quando o coração não pede.
Os noventa e cinco francos continuaram nos nossos bolsos. Em qualquer outra discoteca, chegariam de sobra para sorver várias bebidas.
Não soube qual a conversa havida. Penso hoje que terá sido um estratagema da Claire para sairmos, com calma e sem pagar.
Disse-nos que aquele desconhecido era seu amigo e que pagaria as nossas bebidas.
Fraca desculpa para quem não queria dar explicações a quem também as não queria receber.
Talvez ela lhe tenha pago no dia seguinte, nua e crua, mas despida de arminho.
Nada mais interessava.
Regressámos à casa de Gyslaine, onde esvaziámos os corpos, embriagados de vigor e sequiosos de desejo."
AVISO: Termina no dia 12, terça-feira o prazo para a recepção das vossas estórias. Portanto, as várias leitoras que manifestaram o seu interessse em participar nestas conversas, têm de se apressar..

30 comentários:

  1. Esta é que é uma história bestial, Kim!!!
    Uma história mais empolgante do que um filme policial. BRAVO!

    O Kim é o mais bonito da fotografia, não é verdade?

    DÜSSELDORF HELAU!!!

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    1. Boa maneira de não falhar a identificação, Ematejoca ! :-)))
      Quanto à estória, eu já tinha avisado...

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  2. : )
    Vida de boémia que nunca se esquece!
    E tantas outras estórias que o Kim terá para contar e que nós gostaríamos de ler.

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    1. Há momentos que nos ficam gravados para sempre e acredito que o KIM tenha muitos mais para partilhar connosco

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  3. Os nossos rapazes são muito apreciados pelas suecas, alemãs e francesas, mas só agora é que fiquei a saber a razão: os nossos rapazes esvaziam os seus corpos, embriagados de vigor e sequiosos de desejo.

    Um último DÜSSELDORF HELAU, antes de me vestir de abelha!

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  4. Esta é mais uma, das dezenas, centenas ou milhares de estórias que tens para contar, Kim!
    Se não levares a mal - sei que não - devo dizer-te que já li melhores, lá no teu "Às vezes- fim de semana", mas esta não conhecia!
    Tiveste uma juventude cheia de aventuras, em toda a acepção da palavra, foste e és feliz, mas o melhor de tudo é que nunca perdeste o sentido de humor nem deixaste de saber valorizar uma verdadeira amizade.
    És um herói, querido Kim!:))

    Ah, o Kim é o jovem que se encontra no centro da foto, não se vê logo?
    O mais charmoso (olhos azuis) o mais elegante, e pelo seu "ar" humilde aquele que nos inspira um enorme carinho.
    Basta olhar para ele!

    Beijinhos.



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    1. Olá Janita!

      Que o Kim seja o mais charmoso, o mais elegante, concordo contigo em absoluto.

      Mas onde está escondido o seu "ar" humilde?

      A mim o Kim não me inspira carinho, inspira-me sim, uma outra coisa...

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    2. Olá Ematejoca!
      Por acaso notas no "ar" do Kim, na foto, algum convencimento, vulgo peneiras?
      Para mim, a cândura de expressão que eu lhe noto é que fez e faz dele um homem muito atractivo.

      Quanto ao sentimento que ele te inspira, não sei, uma vez que não o dizes. A mim, inspira-me carinho e ternura, próprias de uma boa e sã amizade, que é o que sinto por ele e tenho a certeza que ele pos mim.

      De resto, se lerem bem o que eu escrevi, vêem que eu já tinha referido que o Kim era o jovem do meio e também nunca usei o adjectivo "bonito" e sim charmoso e elegante. Lá está, o mal das más interpretações é não se ler atentamente aquilo que os outros escrevem.
      Tenho dito!

      Abraço, Ematejoca.
      Beijinhos, Kim!

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    3. Pois é, Janita, as precipitações de leitura às vezes provocam erros lamentáveis...

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    4. Meus queridos amigos Janita e Carlos, eu NUNCA me precipito nas leituras, por isso não foi um erro lamentável, mas sim uma brincadeira.

      Hoje é CARNAVAL e eu sou uma abelha folgazã, "flotte Biene".

      HELAU e PROST!!!

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    5. Ó Teresa, eu não me estava a referir a si, mas sim às pessoas que se precipitam a fazer leituras, ou não as percebem, e depois mandam palpites. Isto é válido , obviamente, para a blogosfera e para a vida real...
      Agora vá lá gozar o Carnaval, mas não dê muitas ferroadas, tá?

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  5. Excelente história... Eu, dez anos mais tarde também costumava beber cuba libre mas não vivi aventuras tão boémias :)

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    1. Nunca fui de beber Cuba Libre, porque o meu fígado sempre se deu mal com o rum, mas aventuras boémias também tenho a minha conta, Luísa. Quem começou a viver sozinho muito jovem, não pode deixar de as ter tido. O difícil é contá-las como o KIM

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  6. Que giros!
    Bons tempos e boa vida é sempre bom recordar e reviver. Adorei.
    Agora vou conhecer o blog do Kim.
    Ainda ninguém respondeu qual dos três é o Kim ...:)

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    1. A Ematejoca já deu a resposta, papoila. Faz muito bem em ir visitar o blog do KIM, porque encontra por lá outras belas estórias.

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  7. Quando cheguei a Paris, com 18 anos, se alguém me perguntasse, se eu me queria encontrar com o Jean-Paul Sartre ou com Kim, e diria imediatamente, com o Kim.

    O Kim era ainda mais bonito do que o meu francês, o Jean-François.

    Agora é que tenho de dizer pela última vez HELAU!!!

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  8. Oh minhas queridas amigas! Há quanto tempo não ouvia isso de ser "bonito". Já nem lembrava.
    Pois é, passaram muitos anos e depois só somos bonitos se o que está dentro de nós for disso merecedor e é apenas isso que eu tento hoje ser.
    É claro que um jovem Kim, tinha e tem montanhas de estórias para contar, já que foram três anos errantes (dos 18 aos 21) a viver sozinho e sem qualquer família em Paris e em Amsterdam, onde vivi, apesar de nunca mais ter parado de viajar. E quando assim acontece, acontecem também muitas aventuras. Hoje conheço 52 países e ainda chego ao mundo com olhos de quem não existe.
    Com todas elas eu aprendi, até porque naquela idade pensamos ser os donos do mundo e só muito tarde entendemos que afinal não sabíamos nada da vida e quando já sabemos alguma coisa, está na hora de partir.
    O Carlos conseguiu aqui reproduzir o veículo que nos transportou para o tal "café".
    Efectivamente, como ele disse, sou um voyeur de fim de semana e visito-vos mais do que comento.
    O meu obrigado pelas palavras simpáticas.
    Um beijinho às meninas e um abraço ao Carlos

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    1. Muito obrigada por tão prontamente me dizerem qual deles era o Kim! Gostei de saber e já o fui visitar fico com a esperança que ele nos conte as suas aventuras desses "loucos" anos cheios irresponsabilidade e bom humor.
      beijinhos para todos.

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  9. Oh Teresa, mais uma vez obrigado, mas agora fico com curiosidade de saber algo mais do teu Jean Francois. Vá lá .... conta!
    O Sartre, naquela já tinha idade para ser teu avô, daí que fazias bem em optar por mim, além de que a grande Simone, do Segundo Sexo, não iria achar piada à tua intrusão.
    À minha querida Janita - o beijinho do costume.
    À Catarina, à Papoila, à Luisa, a minha admiração

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    1. Peço desculpa por ter chegado bastante atrasado a esta conversa, amigo Kim mas, por vezes, a vida prega-nos partidas e impede-nos de cumprir os compromissos.
      Muito obrigado pela participação nesta tertúlia e um grande abraço

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  10. Um belo café, sim senhor!

    E rápido, não esteja por aí alguém pronto para cobrar pelo tempo...

    :)

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    1. Cobrar pelo tempo? Esta é uma estória para "ouvir" e pedir um encore! Esteja descansada porque os tipos da EMEL aqui não entram...:-)

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  11. As aventuras da vida boémia do Kim, na juventude! Parece que o estratagema funcionou, tenha ela pago ou não a conta... :)

    Gostei da história! ;)

    Quanto à foto, suponho que será o do meio! Mas sem certezas, evidentemente... :D

    Beijocas para ambos!

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    1. Uma bela aventura, sem dúvida, Teté. E sim, o KIM é mesmo o do meio.
      Beijocas

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  12. Um filme...intenso!

    Pela descrição, o KIM é o do meio!Um GATO!

    Beijinhos.

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  13. Um belo filme de aventuras cheio de emoção, realmente...
    Beijinhos

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  14. rrrss rrsssss

    Belos anos e que saudade, né?

    Divertido Carnaval para ambos,

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  15. Gostei imenso desta divertida história do Kim.
    E como somos (presumo), mais ou menos da mesma idade, também nessa altura visitei Paris e tive uma noite belíssimanum daqueles famosos "caveux" onde se ouvia jazz e era pssível encontrar, com alguma sorte, a Juliette Greco.
    Mas nada de tão divertido como esta noite dos 19 anos do Kim.

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