quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

À procura de Sana



“Conheci Sana no meu terceiro dia em Perth na tarde de 9 de fevereiro de 2000”
Ao ler esta frase com que se inicia o prefacio deste livro de Richard Zimmler, decidi logo comprá-lo. Porque gosto imenso de RZ, mas também porque  imediatamente pensei que o livro fazia parte da história da minha vida. Ou vice versa... É que, por coincidência, nesse mesmo dia eu aterrara em Perth! Ou seja… não podia ficar indiferente a um livro cuja narrativa começa no dia em que eu aterrei no local onde se desenrola a acção.
Li o livro de um fôlego. Numa viagem de comboio entre Lisboa e Porto foi mais de metade e acabei de o ler nessa mesma noite.
Não se trata propriamente de um romance. É uma mescla de investigação jornalística com ficção. As personagens existem e a maioria dos factos ali relatados são reais.
Aqui fica um resumo breve: 
Em Perth, para participar num encontro de escritores, Richard Zimmler conhece Sana, uma mulher com um comportamento estranho que se apresenta como sendo brasileira e bailarina.
Sana confessa-lhe que o desejava conhecer desde que lera o seu romance “ O Último Cabalista de Lisboa”, que a marcara profundamente. Mais tarde, pede-lhe um autógrafo e uma dedicatória e oferece-lhe sabonetes.
Não voltam a falar mas, no dia seguinte, está Zimmler sentado na esplanada do hotel, quando um corpo se projecta de um dos quartos e se estatela no chão. É Sana!
O episódio impressiona o autor mas, só num encontro de escritores em Paris, meses mais tarde, ele vai querer profundar as razões da morte da bailarina, na sequência de um encontro com Helena- amiga de infância de Sana- que pensou ser fruto de uma coincidência. 
A partir do momento em que a conhece e fica a saber que o livro autografado em Perth, está nas mãos de Helena, Richard Zimmler torna-se personagem do seu próprio livro e parte na busca sem tréguas da verdade: Sana suicidou-se, ou foi vítima de um crime hediondo? 
Avançar mais com a narrativa, seria retirar muito interesse à leitura, que a partir de determinada altura se torna absorvente, tal é o ritmo. o encadear de acontecimentos e revelações surpreendentes, que conferem à investigação do autor ( também jornalista)  um cariz  policial.
Dir-vos-ei apenas que entre Paris, Bolonha e Haifa, o leitor é atraído para um emaranhado de relações onde se misturam amor,ódio e vingança,no contexto político da guerra israelo-árabe e do terrorismo internacional.
Vale ainda a pena salientar a forma burilada como Zimmler desenha cada uma das personagens e o seu engenho em nos transmitir o extremar de posições (por vezes contraditórias) para que  as relações entre as pessoas podem resvalar. Ao ponto de nos sentirmos sentados ao seu lado numa casa em Bolonha, ou num café em Paris, a sugerir-lhe as questões que deve colocar aos seus interlocutores.
Como já escrevi acima, apesar de em determinado momento o livro parecer entrar num novelo sem saída, que lhe quebra o ritmo, foi-me impossível adormecer sem o terminar. Depois, passei dias a reflectir sobre ele, antes de escrever este post.
O extraordinário e comovente “Meia Noite ou o Princípio do Mundo” continua a ser, para mim, o melhor livro de Zimmler mas não posso deixar de manifestar a minha gratidão à D. Quixote por ter reeditado " À procura de Sana" que me tinha passado despercebido aquando da sua publicação em 2007. 
Duas semanas depois de ter terminado a sua leitura, continua presente na minha cabeça. De uma forma tão forte, que nem o livro que li a seguir ( Ian Mc Ewan- O Fardo do Amor), nem o que estou neste momento a ler ( Ismail Kadaré -Os Tambores da Chuva) me conseguem desviar da sua memória.

14 comentários:

  1. Gosto muito do autor e já li o "O Último Cabalista de Lisboa" e “Meia Noite ou o Princípio do Mundo”.

    Então "À procura de Sana"... lá terá que ser!

    Beijo

    Laura



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    1. Também gosto muito de RZ e Meia Noite é fabuloso.
      Espero que não te desiludas com a Sana, Laura
      Beijos

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  2. Ainda não li este romance do Richard Zimmler.
    Cheira a intriga politica.
    Curioso foi ela oferecer-lhe sabonetes.
    Confesso, nunca li um livro deste escritor americano, que é tão fácil encontrar nas ruas ou nos cafés do Porto.
    A minha melhor amiga portuguesa diz é uma falha intelectual minha, ainda não ter lido nenhum romance dele. Ela gosta, muito em especial, do seu romance "O Último Cabalista de Lisboa".
    A última vez que estive no Porto tencionava comprar o seu romance "Teresa", mas acabei por não comprar.

    Li sim, de Ian Mc Ewan "O Fardo do Amor". Gostei, mas para mim, o melhor romance deste autor é ainda "Saturday".

    Esta sua crónica, Carlos, é absorvente e também a li de um fôlego. Só desejo que a sua história em Perth tenha sido com uma outra Sana mais feliz.

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    1. A sua amiga tem razão!
      Quanto a Perth, não tive nenhuma história digna de ser recordada nessa matéria,mas tenho pena :-)

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  3. Ando há anos para ler um livro de Zimmler, mas ainda não tive oportunidade. Será que é desta? O livro pareceu-me deveras interessante, pelo seu relato... :)

    Obrigada pela sugestão! :D

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    1. Se quer uma sugestão, Teté, comece por Meia Noite ou o Principio do Mundo. Fantástico
      Beijinhos

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  4. Há livros que nos enchem de tal maneira que precisamos de fazer um luto até podermos ler outro que quase sempre nos parece inferior....
    Gostei do post.

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    1. Como já escrevi há dias, por vezes é o momento que nos faz gostar ou detestar um livro. Por isso é que escrevo pouco sobre eles...

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  5. Abriste-me o "apetite".

    Neste momento estou a ler Auschwitz (Laurence Rees) e A Mão do Diabo (J. R. dos Santos).
    Tenho na fila...Enquanto Salazar Dormia (Domingos Amaral).

    Ahhhhhh...a foto é das traseiras de um hotel.

    Beijinhos.

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    1. Espero que gostes do livro, Elisa. Também ainda tenho bastantes em fila de espera.
      Obrigado pelo esclarecimento
      Beijinhos

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  6. Aceito a sugestão.
    Vou ver se está à venda na Livraria Portuguesa.

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    1. Mas se não gostar não me peça a devolução do dinheiro, Pedro! :-))

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