quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

"Entom, boa continuaçom"




A maioria dos escassos leitores que me visitam, sabe que continuo fiel ao Porto onde nasci. Não tenho saudades; não me arrependi nunca de ter trocado a Invicta por Lisboa e mais tarde por outras cidades mais cosmopolitas; a nostalgia com que por vezes a evoco deve-se mais ao facto de lamentar que no meu tempo a cidade e as pessoas não fossem mais abertas e menos bairristas- naquilo que de negativo a expressão “bairrista” encerra.
Retenho na memória imagens do Porto que me trucidam. Os jardins do palácio de Cristal; a marginal, da Ribeira até à Foz; os Guindais; a Ribeira vista do cais de Gaia; as ilhas… 
 Apesar da beleza natural que a cidade encerra, é das pessoas do Porto que eu sinto mais saudades. Porque são genuínas e dizem, sem salamaleques nem maneirismos, aquilo que lhes vai na alma. Isso explica, certamente, porque praticamente só no Porto fiz amigos para a vida.
Recordo-me disto a propósito de uma expressão peculiar do linguarejar tripeiro que me continua a fazer sorrir cada vez que a ouço: “ Continuaçom”- dizem os tripeiros quando nos entregam a factura do jornal, ou simplesmente se despedem de forma informal.
Gosto desta expressão vazia de significado, mas cheia de conteúdo. Ouço-a na boca do dono do Barril, quando me despeço ao final da noite, na tabacaria do Velasquez depois de receber o jornal, no empregado da Primazia onde vou buscar a fogaça, numa loja da baixa onde faço uma compra, no empregado do restaurante, no motorista de táxi que me conduz de Campanhã até às Antas. Quando ouço esta expressão, sei que estou a falar com um tripeiro que não se deixou corroer pelas onomatopeias sulistas.
Não há, no entanto, bela sem senão. Há dias tive de ir ao Montepio tratar de assuntos relacionados com a minha mãe, já incapaz de fazer a sua assinatura de forma a ser reconhecida pelo banco, como legítima.
Munido de uma declaração da minha mãe, devidamente assinada, que me autorizava a levantar o dinheiro,procurei, junto de uma colaboradora, ajuda para a solução do problema, identificando-me como filho da detentora da conta. A senhora olhou-me de soslaio, como se eu ali estivesse com o intuito de defraudar o banco. Colocou inúmeros entraves e insistia que só uma declaração, com assinatura reconhecida pelo banco, poderia permitir à minha mãe, receber aquilo a que tem direito.
Insisti que, sendo eu filho, não estava ali a tentar enganar o banco e muito menos a minha mãe, tendo obtido como resposta:
- Mas como é que eu sei que o senhor é filho desta senhora?- perguntou-me
- Já lhe mostrei o meu bilhete de identidade que o confirma. Além disso tem aqui esta declaração com uma assinatura que, embora não corresponda na perfeição à que  está na conta , é da minha mãe.
A senhora retirou-se por uns momentos. Quando voltou, disse-me do alto da sua imensa sabedoria:
- Não podemos aceitar esta declaração. Tem de vir reconhecida pelo notário e depois os serviços jurídicos do banco decidirão se a aceitam.
Sem me dar tempo a contra argumentar, virou-me as costas e chamou o número seguinte.
Despedi-me: “Entom, boa continuaçom, sim?” E lá vim para Lisboa onde, tudo indica, resolvi o problema sem necessidade de recorrer a um notário. 

15 comentários:

  1. Não há de facto "bela sem senão", Carlos !
    ... mas temos que concordar, bairrismos aparte, que a "gente do Porto" é muito especial ! :))

    Entom, boa continuaçom, caro Carlos ! rsrs
    .

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  2. A Ribeira vista do Jardim do Morro, a Ponte D. Luis como quem vai do Porto para Vila Nova de Gaia, O COSTA, o La Ricotta, a Inês do Aleixo, ouvir dizer "a menina"... LOL!

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  3. sabemos que a burocracia é exagerada, quando precisamos que um notário reconheça que somos filhos da mãe, da nossa mãe...

    Continuaçom

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  4. Continuaçom, no caso da dita funcionária, só se fosse do espírito mesquinho e burocrático que reina lá no sótão... Mas enfim, esse não se extingue em funcionários bancários, do Porto ou de Lisboa. Infelizmente!

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  5. Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, passou-se algo semelhante comigo. Como não consegui demover a zelosa funcionária, calei-me .

    Só que fui até a um café e ao saber da "bica" copiei tão fielmente a assinatura que a funcionária olhou para mim e comentou:"Isto foi feito com a senhora a segurar a mãi da sua mãe" , tendo eu confirmado, rrsss

    Folgo que , segundo anuncias no outro blogue, já estejas recuperado!

    Bom serão

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    1. ERRATA:


      SABOR

      MÂO

      peço desculpa pelas gralhas

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  6. Não sou do Porto nem de Lisboa, mas funcionárias assim, "ranhosas"...há em todo o lado!

    Já agora...boa continuaçom, Carlos.

    Beijinhos.

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  7. Oh páh... imperdoábel... não falaste das francesinhas!!

    (^^)

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  8. Carlos, Vou de vez em quando ao "seu" Porto e onde poderei almoçar a um preço super simpático :)))
    Esta foto está linda.
    xx

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  9. Pode ser que a senhora no Porto, realmente fosse de Lisboa e aquele que resolveu o problema em Lisboa, seja do Porto :)

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  10. Entrei para depois sair mais rica de conhecimentos.

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  11. Amanhã terá a oportunidade de ver o Dicionário do Porto no meu blogue.
    E num é gente cumo esta gaija desta banco, carago!

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  12. São casos pontuais, que se encontram em todo o lado; e olha que eu não sou do Porto...

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