domingo, 31 de março de 2013

A Páscoa explicada a uma criança


Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta, vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era... era melhor, sim... ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?
- É.
- Que dia que ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
- (?? Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!
- Não, três dias depois.
- Então morreu na quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se Jesus morreu na sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Ui...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Ai coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!
(Que me desculpem os leitores que já leram este conto de Luís Fernando Veríssimo ano passado no CR, mas decidi republicá-lo este ano, para quem ainda não o conheça. Votos de uma Páscoa Feliz)


sexta-feira, 29 de março de 2013

A Terra das Mil Lendas



( Este foi o primeiro post que escrevi no On the rocks. Faz hoje um ano  e decidi recordá-lo, principalmente a pensar naqueles que ao longo deste primeiro ano se foram juntando aqui).


Do sul da Província de Buenos Aires até Ushuaia, estendendo-se da costa atlântica até à costa chilena do Pacífico, fica a Patagónia, terra por vezes inóspita, mas de extraordinária beleza, que tem deixado rendidos aos seus encantos cientistas, escritores, poetas e aventureiros.
Conhecida por  “Terra das Mil Lendas”, esta extensa região  que Domingos Cavallo, ministro das finanças de Menem, ponderou oferecer aos Estados Unidos para saldar a astronómica dívida da Argentina, faz jus ao epíteto.
A primeira lenda de que parece haver memória, está relacionada com o seu próprio nome.
Conta- se que  lhe terá sido atribuído em 1520 por  Fernão de Magalhães. Alguns historiadores, apoiados mais na lenda, do que em factos, defendem que quando o  navegador português  chegou à Baía de San Julian, terá ficado tão surpreendido com o tamanho superlativo dos pés dos índios Tehuelche, que resolveu apelidar a região de Patagónia.
 Quer Darwin, quer Bruce Chatwin, dão outras explicações para a origem do nome Patagónia, mas é uma constante encontrar versões diferentes sobre todas as histórias que ocorrem naquela extensa região. Veja-se, por exemplo, o número de versões- por vezes antagónicas- sobre a vida de Butch Cassidy e Sundance Kid. É inquestionável que lá viveram, mas essa é a única certeza sobre este duo de salteadores amantes de música erudita, que depois de um período sabático na região patagónica de Cholita terão assaltado um banco para custear uma viagem que lhes permitisse assistir ao festival de música de Beyruth. Sobre o local onde o assalto foi cometido, o seu propósito e as circunstâncias que o rodearam, é que as versões variam. Algumas pessoas que com  eles conviveram fizeram relatos sobre a sua vida, mas a partir de determinada altura percebeu-se que as histórias que eles contavam nem sempre eram coincidentes, variando de acordo com a época e os interlocutores que os escutavam.
Apreciador de paraísos distantes, cedendo com facilidade  aos prazeres de uma vida nómada  que me arranque do turbilhão da urbe, “perdi-me” durante vários meses a explorar a Patagónia e foi com dificuldade que resisti ao apelo de por ali ficar “perdido para sempre”.
Ao longo do vale do rio Chubut, por entre “estâncias”  com nomes optimistas (La Esperanza),  evocando efemérides (Primeiro de Janeiro), pagando tributo aos aborígenes (Pali Aike) ou simplesmente lembrando uma mulher (La Julia), fui ouvinte atento de relatos encantadores sobre heróis e heroínas que habitaram aquela extensa região. Paulatinamente fui –me deixando contagiar por aquele cenário de lendas e um dia percebi a razão deste desencontro de  narrativas que fazem parte da magia enigmática da Patagónia.

Estava na Patagónia apenas há duas semanas. Caminhando pelas cercanias de Epuyen, apreciava a magia  dos lagos e bosques da região, onde nem sequer falta um lendário Nessie - réplica argentina do monstro escocês - e perdi a noção do tempo.
A tarde seca e cálida convidava a uma sesta  e a leve brisa começara a soprar com mais força. A água do cantil  já se esgotara e estava sedento. Não tendo nas imediações nenhum lugar onde saciar a sede, olhei em volta e vislumbrei, a umas centenas de metros, uma pequena casa perdida na paisagem.  Segui até lá por um caminho serpenteado bordejado por flores silvestres, de onde se desprendiam fragrâncias açoitadas pelo vento.
A escassos metros da casa, o ladrar de um cão anunciou-me e o rosto de um homem com vincados traços mapuche assomou por entre as sebes. Saudei-o e pedi para encher o cantil. Convidou-me a entrar para o jardim e acompanhá-lo num mate.
Sentámo-nos junto de um canteiro de hidranjas multicolores.Bebi  um longo  trago da cabaça e, acalmada a sede, começámos a conversar, acompanhando o mate em goles lentos, com umas tortas fritas que a mulher, entretanto,diligentemente providenciara.
 Falei-lhe sobre a minha viagem sem prazo ou itinerário certo, que fluiria ao sabor das circunstâncias, mas manifestei-lhe a minha vontade de rumar a Esquel, para conhecer o local onde vivera Butch Cassidy. O meu propósito era entabular conversa com Aladin Sepúlveda- o homem que então habitava a casa- e de quem esperava ouvir algumas histórias sobre os bandidos mais conhecidos da História recente.
- Muito interessantes as histórias de Butch Cassidy e Sundance Kid- disse-me com visível enfado.
-Certamente haverá muitas histórias e lendas de outras pessoas que habitaram a região- retorqui. Espero ouvir algumas enquanto por aqui andar...
- Não há lendas, amigo. Há é maneiras diferentes de contar histórias. Uns contam-nas como poetas, outros como doutores. Aqui na Patagónia, contamo-las como poetas. Desconfia de quem te contar histórias como doutor, porque esses estão a mentir-te.
- A mentir? Porquê?
- Porque contam as histórias à maneira que mais convém aos gringos. É assim que se fazem os compêndios de História, não te parece Carlitos?
- E tens alguma para me contar antes de partir?
Lihue olhou para o céu, em direcção ao sol, como quem consulta o relógio e disse:
- Ainda tenho algum tempo antes de ir  recolher o gado. Já ouviste falar de Maria Ancapichun?
- Não!
Então escuta. Vou-te contar toda a verdade sobre esta mulher mapuche. Como um poeta, não como um juiz...

Adenda: Para quem não leu, a história de Maria Ancapichun, pode ser lida  aqui ( o gringo do cavalo branco), e aqui (entre fadas e duendes)

quinta-feira, 28 de março de 2013

E-mail a S. Pedro



S. Pedro
Ouvi dizer que és tu quem manda no tempo, por isso venho lembrar-te que a Primavera já começou há uma semana e está na altura de  regulares o tempómetro.
Provavelmente andas distraído , mas é altura de te dizer que esta malta por aqui já tem chatices que cheguem para andar deprimida e precisava de uns raiozinhos de sol para arrebitar.
Eu sei que mandaste um recado pelo Borda d’Água avisando que, este ano, sol  a sério só lá para Julho. Não sei se foi o tempómetro celeste que avariou, ou foi decisão tua privares-nos também do sol, mas eu movo-me a energia solar e já tenho privações que cheguem.
Por isso, antes que se esgotem as minhas reservas, vê lá se mandas uma semanita de sol para recarregar as baterias.
Agradecido
PS: No caso de não atenderes este pedido, vou lançar uma petição na Internet a pedir que sejas destituído do cargo.

quarta-feira, 27 de março de 2013

No Dia Internacional do Teatro



Palmira Bastos
(1875-1967)
Assinala-se hoje o Dia Internacional do Teatro. Poderia evocar aqui uma das peças a que assisti recentemente ( vou cada vez menos ao teatro, porque os bilhetes são caros e o dinheiro não estica), mas optei por recordar uma actriz que terá sido a primeira responsável pela minha paixão por esta nobre Arte. 
Filha de espanhóis, nasceu em Portugal ( Alenquer) porque os seus pais faziam parte de uma “trupe” que apresentava peças de teatro de terra em terra.
Nasceu no teatro e representou quase até ao fim da vida. Não terá sido a maior actriz portuguesa de todos os tempos ( embora se encontre indiscutivelmente entre as maiores), mas trago-a aqui porque ela era a figura principal da primeira peça de teatro "adulto" a que assisti ao vivo. Foi no teatro Monumental e a peça era “As Árvores Morrem de Pé”.
Ainda hoje sinto um arrepio percorrer-me de alto a baixo quando lembro aquela noite.No momento em que Palmira Bastos, batendo vigorosamente com a bengala no chão, diz “ As árvores morrem de pé!”, todo o público se levantou, empolgado, numa estrondosa salva de palmas. Percebi, pela primeira vez, a grande força do teatro. Arrepiante!
Palmira Bastos trabalhou no teatro até Dezembro de 1966, falecendo no ano seguinte
( Texto roubado à minha galeria de homenagens às mulheres portuguesas)

Os meus pecados (6)

E agora, que  abriu uma quase à porta de casa, como vou resistir a este pecado capital?

terça-feira, 26 de março de 2013

Bingo!


A manhã corria célere, no encalço de pessoas apressadas para apanharem o transporte, que os conduza a mais um dia de trabalho rotineiro.
Enquanto tomava uma bica, encavalitado num balcão de vozes imprecisas acotovelando-se para chegar primeiro ao ouvido de um empregado atordoado, acabara de deixar escapar por entre os dedos mais um dos seus pedaços.
Ao pôr o pé na rua, quase sou atropelado por uma mulher magra, em passo estugado, cujo cabelo cobreado esvoaçando ao ritmo da leve brisa que soprava, me fez lembrar uma chama que pretende libertar-se do fósforo que a mantém refém.
Ainda na soleira da porta, vejo folhas de papel arrumadas em forma de revista, desprender-se do seu corpo.
Vá lá saber-se porquê, um jovem que passava, numa de cavalheiro, apanhou a revista do chão e, pressuroso, foi entregá-la à sua – ainda que provisória- proprietária, pensando certamente que estava a fazer uma boa acção. 
“ Desculpe, a senhora deixou cair isto”- ouvi-o dizer- enquanto se aprestava para devolver o tesouro de letras encapadas, quiçá em troca de um sorriso esforçado de agradecimento.
A reacção da mulher ter-lhe-á gorado as expectativas...
“Eu? Não deixei, não. Não quero é isso para nada.”
“Ah bom! Então podia ter deitado num caixote do lixo ou deixado na tabacaria onde a comprou, porque isto é um suplemento do jornal que leva aí...”
“Mas quem é você para me estar a dar lições? A Câmara tem gente para fazer a limpeza, que eu saiba! Mas se está tão preocupado vá lá você por isso no lixo, que foi você quem apanhou isso do chão. Eu não quero isso para nada, já lhe disse...”
Apressada, lá continuou o seu caminho, vociferando entre dentes, mas de forma audível “estes gajos são uns metediços! Os pretextos que arranjam para meter conversa!... Os paizinhos não têm tempo para os educar e a gente que os ature. P´ra onde é que isto vai, meu Deus?”
Entrevi o jovem a ruborescer, e ouvi-o atirar um pedido de desculpas por ser civilizado. Voltou para trás e colocou diligentemente o destacável no recipiente apropriado: BINGO! Em linguagem de basquete, seria um cesto de 3 pontos...

segunda-feira, 25 de março de 2013

O descarrilamento


Para quem não leu o que escrevi sobre este livro, recomendo uma visita aqui, antes de continuar a ler o post.
Posto isto, resta-me dizer que o filme é uma enorme xaropada e até custa a acreditar como é possível um elenco com Jeremy Irons, Charlotte Rampling, Christopher Lee ou Melanie Laurent, produzir um filme tão chato e execrável. Também o realizador Billie August ( A Casa dos Espíritos) me decepcionou. Em suma, o "Comboio Nocturno para Lisboa" descarrilou e ninguém se salvou.
Fica provado, uma vez mais, que nem sempre é boa ideia ir ver um filme realizado a partir de um livro de que se gostou muito. 

domingo, 24 de março de 2013

À mesa do café com... Os Heróis do Mar



Esta é a última conversa da Rua dos Cafés.  Quero começar por agradecer a todos que me felicitaram pelo 1º aniversário do Crónicas on the rocks e prometer que tentarei fazer o melhor possível, para que no próximo ano sejam muitos mais a frequentar este espaço.
 Hoje não haverá estória, mas sim os meus agradecimentos a todos/as leitores/as  que abrilhantaram as tardes de domingo aqui no On the rocks durante mais de três meses, com os seus comentários às estórias que aqui foram contadas por quem participou neste desafio e cujos nomes abaixo recordo.
No entanto, para que a chamada não se faça em silêncio, trouxe hoje a música dos Heróis do Mar para abrilhantar esta despedida.
Já seguiram o link e começaram a ouvir a música?
 O café de que  nos fala tanto pode ser em Itália, como em França ou em Angola; em Lisboa, ou no Porto; em Coimbra ou no Algarve; numa pequena aldeia, ou numa grande metrópole. Ao longo de mais de três meses, foi a esses locais que nos levaram as estórias que vocês tão amavelmente partilharam connosco e, tenho a certeza, animaram as tardes de domingo.
Então agora vou fazer a chamada ao palco, por ordem de entrada em cena, para agradecimentos individualizados:
Safira
João Roque
Pedro Coimbra
Catarina
Janita
Margarida
Teté
São
Kim
Dona Redonda
Laura
Ematejoca
Luísa

Um grande aplauso para todos/as (clap, clap, clap) e muito obrigado pela vossa colaboração.Espero que continuem a visitar o On the Rocks nas tardes de domingo pois, mesmo sem Rua dos Cafés, haverá aqui crónicas de vida, ou de viagens. À hora habitual deixarei aqui a estória e depois venho conversar convosco. Valeu?

sexta-feira, 22 de março de 2013

Olha quem faz anos hoje!



Faz hoje um ano que anunciei, neste post, a criação do "Crónicas on the rocks", espaço alternativo ao Crónicas do Rochedo, a caminho de completar seis anos de existência.
Mantive-me fiel ao princípio de que aqui política não entra e assim quero continuar. Com o "On the rocks" procurei recuperar o espírito que me trouxe para a blogosfera, fazendo destes espaço um ponto de convívio entre os/as leitores/as que me visitam. Daí que tenha lançado, ao longo deste primeiro ano, alguns desafios que tiveram um excelente acolhimento da vossa parte e por isso vos agradeço.
Especialmente com  A Rua dos Cafés, criou-se aqui um espaço de tertúlia nas tardes de domingo que creio ter marcado o primeiro ano de existência do On the Rocks
A audiência deste espaço é muito inferior à do CR que há meses atingiu os 500 mil visitantes e quase 1 milhão de page views. Por aqui, o primeiro ano saldou-se por pouco mais de 20 mil visitantes.
Costumo dizer que o On the rocks é o clube privado onde só entram os amigos, enquanto o CR é um espaço aberto aos amigos, mas também a toda a gente que lá queira entrar. Devo dizer que não estou nada arrependido de ter feito esta separação. Lamento apenas não ter podido, como desejava, responder sempre aos vossos comentários. Tentarei, na medida do possível, corrigir essa falha no segundo ano.
Não estamos em tempo de festas e grandes celebrações, por isso este ano não haverá limousines para ir buscar os convidados, nem um grande banquete
Ofereço-vos apenas uma taça de champagne e uma fatia de bolo, para respeitar as medidas de austeridade. MAS................................................ no próximo domingo - dia em que encerra a Rua dos Cafés- haverá  uma surpise party, para a qual estão todos convidados. E podem também trazer um/a amigo/a que - como muitos se lembrarão- era também um dos objectivos do desafio.
Finalmente, como a publicação do primeiro post foi no dia 29 de Março ( este ano sexta-feira santa) durante a próxima semana talvez continuem as celebrações. 
Agradeço uma vez mais toda a vossa simpatia e amizade e espero ter-vos aqui a todos no próximo domingo, para o encerramento da Rua dos Cafés.
Um bom fim de semana e até lá!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Do valor das coisas

Há certos objectos a que só damos verdadeiro valor, quando necessitamos deles. Estejam descansados... ainda não comprei um para mim.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Aromas


Estou proibido de tomar café desde quarta-feira da semana passada. Os apreciadores de café sabem o que isso significa, especialmente para alguém como eu, habituado a beber quatro a cinco cafés por dia. Nessas circunstâncias, a privação assume proporções dantescas ( pronto, está bem, eu sei que os homens reagem assim sempre que estão doentes…)
É certo que nos primeiros dias, apesar das dores de cabeça, o desejo de um café era nenhum, mas desde domingo que  uma chávena de café povoa as minhas noites em sonhos e pesadelos.
Sou, normalmente, cumpridor das prescrições médicas mas esta manhã, durante um sonho em que um mazagran foi artista convidado, acordei com um incessante salivar e não resisti. Levantei-me e fui fazer um café com os rituais a que me habituei, para acompanhar o pequeno almoço.
Embora ande a comer pouco, os aromas provenientes do balão despertaram-me o apetite e comi mais do que o habitual. Não pensem que me alambazei em café. Bebi apenas uma chávena pequena. Como as que nos servem em restaurantes e pastelarias e com a vantagem de não ser “expresso”.
Enquanto sorvia o café em pequenos goles inspirava, deliciado, os aromas que inundavam a cozinha.
Não tinham ainda passado cinco minutos, quando os efeitos da transgressão se fizeram sentir e o café fez o percurso inverso à entrada, espojando-se na sanita.
Pronto, estou convencido. Os médicos têm sempre razão e, durante uns tempos, vou contentar-me em aspirar o aroma do café. Sou um cafeinodependente!

segunda-feira, 18 de março de 2013

As minhas desculpas

Peço desculpa a todos os leitores, especialmente ao Kim, por não ter comparecido ontem à conversa na Rua dos Cafés, mas afinal o Gaspar não me curou.
De qualquer modo hoje as coisas já estão melhor e muito em breve espero voltar ao vosso convívio. Até porque na sexta-feira há festa de aniversário e quero estar presente...

domingo, 17 de março de 2013

À mesa do café...

O convidado de hoje é reincidente e não precisa de apresentações. É o Kim! Depois de uma estória passada em Paris, de que todos certamente se recordam, enviou agora esta que desde já lhe agradeço. Aviso, desde já, que  não é recomendável a pessoas sensíveis...!
Depois de recompostos vão ao blog dele, porque está lá uma outra história magnífica, tendo como protgonista Júlio Amaro que, garanto-vos eu que já a li, é de ir às lágrimas!

Foi assim, mais ou menos nesta figura, que um dia entrei com o meu grupo de amigos na Cervejaria Algo – na Av de Roma, em Lisboa e perguntei ao empregado, se tinha pudins em copo de alumínio, já que esta era uma prática corrente do meu grupo.
Este respondeu que sim. Mediante tal constatação, disse-lhe para trazer todos os pudins que tivesse.
Eram p’raí uns cinquenta – os pudins. Uns seis ou sete - os amigos.
A brincadeira era entornar o pudim no prato e depois chupá-lo inteiro, sem o estragar.
Depois de chupado, tinha de ser vomitado inteirinho no prato e voltar a ser chupado.
Ganhava quem chupasse mais pudins e que mais vezes o vomitasse inteiro.
O Gigi estava a ganhar. Já tinha comido e vomitado o pudim vinte e sete vezes. Mas … descuidou-se e quando olhou para o lado, o Mula, numa voracidade e rapidez felina, chupou-lhe o pudim, já tantas vezes chupado e vomitado, e comeu-o.
O Gigi perdeu e teve de pagar a rodada, de cinquenta pudins.
O ano passado (2012) voltei lá e o restaurante ainda existe, apesar de já não ter o mesmo aspecto, e … questionados os presentes, não havia ninguém que se lembrasse deste episódio.

quinta-feira, 14 de março de 2013

terça-feira, 12 de março de 2013

Artur, o irreverente




Conheci o Artur  em Tomar, em pleno PREC, estávamos ambos a cumprir serviço militar. A nossa amizade começou durante as campanhas de dinamização cultural e cimentou-se quando estabelecemos uma parceria profissional entre psicólogo e advogado -muito  avantgarde para a época-  que foi um relativo fracasso.
Seguimos  a partir daí rumos diferentes, mas continuámos ligados nas noites de farra, até eu partir para os Estados Unidos. 
Quando regressei a Portugal, depois de anos a vaguear pelo mundo, procurei-o. Era na altura um advogado com uma posição confortável numa empresa, acabado de se divorciar pela terceira vez.  Como eu continuava celibatário, foi num ápice que retomámos os prazeres da vida. Por essa altura, o meu dia de trabalho começava às quatro da tarde e acabava por volta da uma da manhã, muito a tempo de iniciar o dia. 
Foi um tempo curto, porque ambos arranjámos namoradas e  passamos a encontrar-nos apenas ao fim de semana em jantares de “família”.
 Em 2010 o Artur aceitou a rescisão amigável que a empresa em dificuldades lhe propôs  e, meia dúzia de meses depois,  entrou para um escritório de advogados. O mundo da advocacia tinha mudado e o Artur não se deu bem, pelo que acabou por regressar à função pública, depois de pedir a suspensão da licença sem vencimento.
No início as coisas correram mais ou menos bem, mas quando uma jovem  coelhinha assumiu a direcção do departamento onde ele trabalhava, as coisas começaram a azedar. Inexperiente, mas com o rei na barriga, a coelhinha começou a infernizar-lhe a vida, controlando-lhe todos os passos. 
No dia 1, data do seu aniversário, convidou uns amigos para almoçar e comunicou à chefe que chegaria um pouco mais tarde. Ela não levantou problemas e o bom do Artur interpretou isso como carta de alforria, até porque era sexta-feira.
Por volta das quatro da tarde, chegou ao serviço com um grãozinho na asa.  Tentámos convencê-lo a telefonar à chefe dizendo que iria meter a tarde, em compensação pelas horas que ao longo do mês dera a mais ao serviço. Alegando que queria terminar um parecer para poder passar o fim de semana descansado, Artur declinou o nosso conselho e foi trabalhar. Quando chegou ao serviço, tinha a secretária inundada de recados da chefe, que reclamava a sua presença com urgência.
Artur entrou no gabinete dela e foi recebido com pesporrência. Que era um valdevinos, um inconsciente irresponsável, porque  a tinha deixado pendurada. A directora geral pedira um parecer  urgente  sobre assunto a que ela não sabia responder  e ele não tinha o direito de a deixar ficar mal.
Se há coisa de que Artur não pode ser acusado é de ser irresponsável, por isso, reagiu mal à acusação e  dirigiu umas palavras azedas à jovem chefe. Resolveu o assunto em menos de uma hora, entregou-o à directora e desejou-lhe um bom fim de semana. 
Vê lá se  na segunda-feira estás cá ás nove! disse-lhe a chefe -com idade para ser sua filha- em tom emproado.
Artur passou-se dos carretos e perguntou o que poderia haver de tão urgente para ele não poder chegar às 10, como habitualmente.
A directora pode precisar de alguma coisa com urgência, não me vais obrigar a dizer-lhe outra vez que estás atrasado.
Artur olhou-a de soslaio e regressou ao gabinete, onde terminou o parecer que o levara a não pedir a dispensa da parte da tarde.
Na segunda-feira, chegou poucos minutos antes das 10. A secretária estava mais uma vez  inundada de post-it e a sua caixa de correio com vários e-mails reclamando a sua presença.
Artur foi ao gabinete da chefe perguntar o que se passava
Tinha-te dito para estares cá às nove, não tinha?
Tinhas, mas a minha hora de entrada é às 10, como mandam os regulamentos ! Passou-se alguma coisa?
Não se passou nada, mas estou farta de te dizer que te quero cá às nove, porque pode ser preciso alguma coisa.
Artur perdeu as estribeiras.
Olha lá! Tu gostas mais de cús do que de cabeças não é? Então toma!
Baixou as calças, mostrou-lhe o traseiro e saiu do gabinete com as calças na mão!
( O processo disciplinar segue dentro de momentos, obviamente, mas a um homem de 61 anos que é assim tratado por uma fedelha, perdoa-se a diatribe. Ou não?)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Canção da Primavera


Ontem encontrei a Primavera.Estava chorona, alagando a estrada e furiosa, derrubando árvores e telhados, com a força do vento que a acompanhava.
Já sei há muito que a Primavera tem mau feitio e é bipolar mas todos os anos, quando me reencontro com ela, traz-me a alegria roubada pelo Inverno e um sinal de esperança : Como este!

domingo, 10 de março de 2013

À mesa do café... Delfim


A nossa convidada de hoje vem do Algarve.É a Luísa. Conta-nos como começou a gostar de café e fala-nos de alguns cafés que eu também frequentei, especialmente um que era ponto de partida para algumas noites de folia na Praia da Oura.
Bem, mas o melhor é lerem o que ela tem para nos contar e depois encontrem-se com ela À Esquina da Tecla, para mais dois dedos de conversa, ou partilharem o seu sempre bem documentado passeio de domingo.

Gosto de café. Sempre gostei do aroma enérgico desta bebida mas até aos 16 ou 17 anos apenas o tomava bem diluído e com leite, ao pequeno-almoço ou ao lanche. Até essa idade não frequentava cafés e a “bica” era coisa que não conhecia, até porque não vivia ainda em Portugal. 
Cá chegada e começando a frequentar a escola secundária, conheci novos amigos e novos hábitos. Os furos que por vezes tínhamos entre aulas ou os tempos de espera pelo autocarro para regressar a casa acabaram por inevitavelmente me conduzir a uma mesa de café. 
Um dia, para acompanhar os amigos, pedi uma bica. Soube-me bem. O pior foi depois. Depois senti o efeito da cafeína num organismo praticamente ignorante da mesma. Fiquei até mal disposta. De tal modo que jurei a mim própria que não voltava a tomar uma bica na minha vida. É claro que a jura não foi cumprida e continuo a tomar café, embora com moderação porque o facto é que, se por acaso exagero na dose, sinto logo o coração a querer saltar boca fora.
Se bem me lembro essa primeira bica foi tomada à mesa do café Delfim, em Loulé. Depois disso muitas outras mesas de café se seguiram, em espaços certamente mais marcantes, quer pelo seu interesse arquitetónico como foi o caso da Mexicana, perto da praça de Londres, quando me tornei estudante universitária em Lisboa, quer por questões sentimentais como foi o caso da Martinique, na Oura – Albufeira, por onde passava religiosamente antes de seguir para a discoteca nos tempos da febre de sábado à noite. 

sábado, 9 de março de 2013

Provérbios do mundo (12)



“Somente após a última árvore ser cortada.
Somente após o último rio ser envenenado.
Somente após o último peixe ser pescado.
O homem descobrirá que dinheiro não pode ser comido!!”
Provérbio Indígena Americano

sexta-feira, 8 de março de 2013

Primeiro estranha-se...


Alguns leitores, habituados a que à sexta feira seja dia de anunciar a Rua dos Cafés, já estarão a pensar que a conversa de domingo se vai desenrolar na Brasileira. Errado!
Se aqui trago Fernando Pessoa, é porque a estória que a Luísa nos vem contar, me lembrou o slogan que ele criou para a Coca Cola e o governo proibiu: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".
Não é que a estória que a Luísa nos traz seja proibida ou só recomendada para adultos! Nada disso... tem é a ver com a maneira como nos habituamos a coisas e/ou lugares. E mais não digo...
Tenham um bom fim de semana e até domingo!


Já só restam as flores ( actualização)



Hoje comemora-se mais um Dia Internacional da Mulher.
Entre 2008 e 2011, no Crónicas do Rochedo, dediquei o mês de Março à mulher. Escolhi as mulheres nacionais e internacionais que mais admirei, contei histórias de mulheres vítimas de violência doméstica, escrevi uma carta à mulher portuguesa e muitos posts sobre as mulheres.
Ano passado, assinalei o dia  publicando posts de 2 em 2 horas, dedicados às mulheres.
Este ano, já só me restam flores para oferecer  a todas as leitoras que continuam a visitar-me.
Tenham um feliz Dia da Mulher!
Em actualização (afinal ainda consegui encontrar alguns motivos para escrever sobre mulheres hoje mas, como aqui política não entra, terão de fazer uma visita à sede. a partir das 15h30m.O último post será publicado às 22h40m)

quinta-feira, 7 de março de 2013

A tristeza de CR 7


Todos se lembram que Cristiano Ronaldo andou triste durante uns tempos e foram muitas as causas apontadas pela imprensa para a sua tristeza. 
Hoje, finalmente, estou em condições de vos dizer qual a causa verdadeira da tristeza do jogador madeirense, que contraria todas as aventadas até ao momento.. 
O que aconteceu, foi que no Verão passado CR 7 foi contactado por dirigentes do Paris Saint Germain, propondo-lhe que trocasse Madrid por Paris. O jogador reuniu-se com a família, mas desde logo a mãe  e as irmãs descartaram essa hipótese, por não saberem falar francês. De imediato CR7 se prontificou a pagar cursos intensivos de francês a toda a  família. Só que ele não imaginava o que vinha a seguir...
Logo nos primeiros dias de aulas, a mãe e irmãs começaram a praticar em casa, mas sempre que pretendiam agradecer qualquer coisa, CR 7 ouvia:
Messi, mon fils! Messi, mon frère!  

Ainda se lembram dela?


terça-feira, 5 de março de 2013

O meu amor inventado


Então como está a menina comunista para quem eu fiz os carapins?
Não é comunista, Mãe! É imigrante moldava. E já é uma mulher, não é menina...
Moldava? Onde é que fica isso?
Na Europa de Leste, ao pé da Roménia
Ah, pois, já me tinhas dito... fugiu dos comunistas, não foi?
Não, Mãe, já não há países comunistas na Europa...
Ai não? Que lhes aconteceu?
Outra vez, Mãe?
E o menino como está?
Está bom.
É parecido contigo, ou com ela?
Tantas vezes me irritei com essas perguntas e agora tenho saudades dos dias em que tu as repetias até à exaustão. 
Não sei se quando me olhas, dessa cama onde estás deitada, suplicando pela morte,  continuas a ver-me como o garanhão que nunca fui, a não ser na tua imaginação. Lembro-me das estórias que contavas às tuas amigas, sobre as minhas aventuras amorosas. "Imaginem que agora arranjou uma namorada comunista!- dizias tu num tom que era um misto de reprovação e compaixão. E eu, com ar umas vezes encabulado, outras refreando  uma raiva a crescer dentro de mim, ouvia-te contar  façanhas amorosas que eu nunca vivi, porque ainda chorava o desaparecimento da Patty  e à memória só me vinham imagens de Península Valdez,  ela a ser levada pela polícia no aeroporto de Ezeiza, a Laura desfeita em lágrimas a aterrar em Ljubliana para me dar a notícia. Era por isso que eu por vezes me irritava quando davas de mim a imagem do que eu não sou. Nem imaginas como isso me doía!
 Lembro-me que tudo isso começou no dia em que vim a correr para o Porto porque acabaras de ser internada. Quando cheguei ao hospital tinhas os carapins para a Sílvia prontos e entregaste-mos orgulhosa. Foram os últimos que fizeste, mas nesse dia ainda não sabias.
 Talvez um dia eu venha a perceber a razão dessa fixação na Sílvia, quando tantas vezes te pedi carapins para amigas minhas que nunca viste como minhas namoradas. Talvez seja um daqueles segredos que cada um de nós nunca partilhou com ninguém e leva consigo na hora da morte ... mas o que eu queria mesmo neste momento em que tu me olhas com esse ar de quem pede socorro à morte ( como se eu próprio fosse a Morte que te pode aliviar o sofrimento), era que  me dissesses que sempre soubeste que a Sílvia era um amor que me inventaste para aliviar a minha perda. E que me perdoasses as vezes em que fui brusco e rechacei as tuas estórias inventadas com palavras duras.
Sempre tive essa esperança, mas receio que a Morte  leve contigo esse "segredo".
A noite já transpira madrugada. Acabas de me chamar do teu leito de martírio, pedindo-me que te leve para a cama. Um sorriso amargurado distorce-me o rosto, ao aperceber-me que já nem consegues perceber onde estás. Digo-te, com a (quase) certeza de que me estás a ouvir, que a Sílvia voltou para Portugal, porque na Moldávia a vida ainda é mais dura do que cá. Continua a servir no mesmo restaurante. Tem o mesmo sorriso triste que sempre lhe conheci. E tem um novo amor. Sou eu!
É mentira, mas talvez assim morras mais tranquila. Aliviada, porque não casei com aquela  vietnamita que um dia trouxe cá a casa e logo te imaginaste a ter netos com os olhos em bico , nem com a "preta" que te deixava angustiada e escondias das tuas amigas.
Pelo menos a Sílvia, apesar de comunista, sempre é branca e loirinha. E isso tranquiliza-te, não é, Mãe?

segunda-feira, 4 de março de 2013

Constatações


Percebes que estás a ficar velho, quando deixas de ter vontade de conhecer novos países e apenas queres despedir-te daqueles que mais amaste.
Eu já só quero conhecer mais três países ( Cazaquistão, Costa Rica e Islândia). E vocês?

domingo, 3 de março de 2013

À mesa do café... com um pêro podre


A nossa convidada de hoje é a Ematejoca. Vive na Alemanha, mas veio expressamente de Dusseldorf para participar nesta tertúlia dominical. A estória, porém, decorre no Porto- cidade que ela e eu amamos- e tem contornos rocambolescos e um final inesperado.
No blog dela há muitas referências a livros, música e também filmes.Ora é nesse registo que ela nos conta a sua estória. Leiam e depois passem pelo blog dela  em português( eu frequento também um blog dela alemão, mas ela não sabe...). Não sei se ainda haverá por lá resquícios de um aniversário  celebrado na sexta-feira, mas o melhor é mesmo irem lá ver...


As conversas na Rua dos Cafés não me trouxeram de volta as histórias e os encontros no Café "Piolho", o meu Café.
Nem aquela história de amor no Café Vienense em Düsseldorf.
Nem as conversas literárias nos Cafés de Praga, de Viena ou de Paris.
Meu Deus! Quem diria?
Mas como é que eu podia esquecer aquele episódio perdido no tempo?
Subitamente aparece à minha frente como uma sequência cinematográfica.
A minha mãe tinha casado nesse ano. Tinha eu oito anos.
O meu padrasto —  a quem, logo a seguir ao casamento, chamei pai, contra a vontade da minha mãe, que irritada me lembrou: "O teu pai encontra-se no céu" — era quase 11 anos mais velho do que ela e um pouco ciumento.
A minha mãe era uma mulher de 33 anos bela e elegante —  uma miniatura da Ingrid Bergman, a sueca tinha 1,80m de altura e era difícil actuar de sapatos altos, já que a maioria dos seus parceiros eram baixos. (Com a excepção de Gary Cooper, que tinha 1,90m de altura e foi para ela um alívio não precisar de tirar os sapatos ao interpretar a Maria em "Por quem os Sinos Dobram". Já em Casablanca, considerado como um dos melhores filmes da história do cinema americano, a Ingrid tirou os sapatos e o Humphrey subiu para cima de um banco para a poder beijar).
Passados tantos anos já não me lembro do nome do Café, lembro-me sim, que ficava situado ao fim da Rua de Sá da Bandeira, na Baixa do Porto. Não, não era o Café "A Brasileira" que continua em frente ao teatro; era sim, um Café que ficava um pouco mais para cima e que já não existe.
A minha mãe ali estava. Loira e fria. O vestido plissado de gorgete roxo era lindíssimo. Os tacões altíssimos dos sapatos davam-lhe uma altura que ela não tinha. A maquiagem perfeita valorizava a sua beleza.
Devagar, descia os quatro ou cinco degraus em direcção da nossa mesa habitual, enquanto um cavalheiro de meia-idade (naquela altura, qualquer pessoa com mais de trinta anos era para mim de meia-idade) vinha em sentido contrário. Ou, mais precisamente, um cavalheiro de quarenta e poucos anos subia os mesmos degraus em direcção da saída.
Ele pousa o seu olhar na minha mãe.
Ele pousa demoradamente o seu olhar na minha mãe.
Então, acontece aquela cena imprevista e caricata: o cavalheiro perde o equilíbrio e cai aos pés dela... como um pêro podre!

sábado, 2 de março de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Anjo Azul


Confesso que, quando comecei a escrever este post para anunciar a conversa da Rua dos Cafés do próximo domingo, o primeiro título que me ocorreu foi "Berlin, Alexanderplatz".O livro de Alfred  Döblin empolgou-me e a versão para cinema foi realizada por esse monstro da realização, Rainer Werner Fassbinder, que nos deu a conhecer  a voluptuosa loira Hanna Schygulla, protagonista de alguns dos seus maiores êxitos.
Depois, li mais uma vez a conversa que a Ematejoca nos vai trazer no domingo e optei por este "Anjo Azul" porque Marlene Dietrich  me parece ter características  semelhantes às da protagonista da estória.
Digo-vos, desde já, que tal como acontece em Anjo Azul, o final é, no mínimo, surpreendente. 
E mais não digo! Tenham um excelente sábado e cá vos espero no domingo à hora habitual, para dois dedos de conversa.