domingo, 3 de março de 2013

À mesa do café... com um pêro podre


A nossa convidada de hoje é a Ematejoca. Vive na Alemanha, mas veio expressamente de Dusseldorf para participar nesta tertúlia dominical. A estória, porém, decorre no Porto- cidade que ela e eu amamos- e tem contornos rocambolescos e um final inesperado.
No blog dela há muitas referências a livros, música e também filmes.Ora é nesse registo que ela nos conta a sua estória. Leiam e depois passem pelo blog dela  em português( eu frequento também um blog dela alemão, mas ela não sabe...). Não sei se ainda haverá por lá resquícios de um aniversário  celebrado na sexta-feira, mas o melhor é mesmo irem lá ver...


As conversas na Rua dos Cafés não me trouxeram de volta as histórias e os encontros no Café "Piolho", o meu Café.
Nem aquela história de amor no Café Vienense em Düsseldorf.
Nem as conversas literárias nos Cafés de Praga, de Viena ou de Paris.
Meu Deus! Quem diria?
Mas como é que eu podia esquecer aquele episódio perdido no tempo?
Subitamente aparece à minha frente como uma sequência cinematográfica.
A minha mãe tinha casado nesse ano. Tinha eu oito anos.
O meu padrasto —  a quem, logo a seguir ao casamento, chamei pai, contra a vontade da minha mãe, que irritada me lembrou: "O teu pai encontra-se no céu" — era quase 11 anos mais velho do que ela e um pouco ciumento.
A minha mãe era uma mulher de 33 anos bela e elegante —  uma miniatura da Ingrid Bergman, a sueca tinha 1,80m de altura e era difícil actuar de sapatos altos, já que a maioria dos seus parceiros eram baixos. (Com a excepção de Gary Cooper, que tinha 1,90m de altura e foi para ela um alívio não precisar de tirar os sapatos ao interpretar a Maria em "Por quem os Sinos Dobram". Já em Casablanca, considerado como um dos melhores filmes da história do cinema americano, a Ingrid tirou os sapatos e o Humphrey subiu para cima de um banco para a poder beijar).
Passados tantos anos já não me lembro do nome do Café, lembro-me sim, que ficava situado ao fim da Rua de Sá da Bandeira, na Baixa do Porto. Não, não era o Café "A Brasileira" que continua em frente ao teatro; era sim, um Café que ficava um pouco mais para cima e que já não existe.
A minha mãe ali estava. Loira e fria. O vestido plissado de gorgete roxo era lindíssimo. Os tacões altíssimos dos sapatos davam-lhe uma altura que ela não tinha. A maquiagem perfeita valorizava a sua beleza.
Devagar, descia os quatro ou cinco degraus em direcção da nossa mesa habitual, enquanto um cavalheiro de meia-idade (naquela altura, qualquer pessoa com mais de trinta anos era para mim de meia-idade) vinha em sentido contrário. Ou, mais precisamente, um cavalheiro de quarenta e poucos anos subia os mesmos degraus em direcção da saída.
Ele pousa o seu olhar na minha mãe.
Ele pousa demoradamente o seu olhar na minha mãe.
Então, acontece aquela cena imprevista e caricata: o cavalheiro perde o equilíbrio e cai aos pés dela... como um pêro podre!

49 comentários:



  1. Divertida, esta estória! Tão "demoradamente" foi o olhar do cavalheiro, quanto rápida foi a queda :))

    Depois a comparação final está muito sugestiva!

    Obrigada Ematojoca (já lá fui hoje)!

    Beijinho para ambos

    Laura

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    1. Muito obrigada pela tua visita ao "ematejoca azul", Laura.

      Esta história ficou para sempre na memória da minha família, mais pela minha saída do que pelo trambolhão do cavalheiro.

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    2. Quase me apetece dizer que foi "tiro e queda" Laura
      Beijos

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  2. A beleza da mãe fez o tal senhor ficar com a cabeça à roda... perdeu o equilíbrio e zás :)

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    1. Luisa, muito obrigada pela tua visita ao "ematejoca azul", amanhã vou responder-te com mais calma.

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  3. Uma mulher bonita faz sempre um homem cair de podre (às vezes de amor).
    Oh Teresa, as voltas que a vida dá! Um homem de meia idade, nesse tempo, teria idade de ser filho de qualquer um de nós, hoje.
    Também eu pensava que o meu pai era velho quando ele tinha cinquenta anos.
    Esta tua estória é duplamente feliz pois além de ser uma estória de café é também uma estória de amor, nunca consumado.
    Muito bem, quando voltar a Neuss, dou-te um toque.
    Beijinho

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    1. A minha avó morreu aos 54 anos e a minha mãe costuma dizer que na altura, comentava com a irmã: A mamã, já tinha 54 anos!
      Como aumentou a longevidade e o conceito de velhice nas últimas décadas.
      Abraço

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    2. História de amor?
      Acreditas em amor à primeira vista, Quim?

      Neuss fica mesmo muito perto de Düsseldorf; costumo lá ir ao teatro e às exposições no museu.
      Sei também, que vivem lá muitos portugueses, mas até hoje nunca encontrei lá um.

      No próximo concurso do nosso amigo Carlos, vou contar a minha história em Paris com o Jean-François, mas cuidado, é uma história para maiores de 18 anos.

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  4. Muito interessante a história.
    Um homem nuca fica mal ao cair (mesmo de podre) aos pés de uma bonita mulher.

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    1. Ora bem! lembro-me daquele filme " Mourir d'aimer"...

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    2. Olá João Roque!

      Não pode um homem cair aos pés de uma mulher
      inteligente, tem de ser sempre uma mulher bonita?


      "Mourir d'aimer" não me estranho. Vou investigar como nos manda o Rui.

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    3. Claro que pode...e deve.
      Mas neste caso, como está no texto, trata-se de uma bela Mulher.

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  5. Que história tão bonita! Parece mesmo do cinema dos anos 40/50.
    Também gosto de ir ao blog da ematejoca, mas ela não me liga nenhuma... E tenho pena. (Uma mimalha, eu. Ou serei mesmo piegas?!...)

    Beijinhos

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    1. Mimalha? Piegas? Olha que o Pedrinho castiga-te...
      Beijinhos

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    2. Gracinha, tu não és mimalha, és sim, injusta!

      Estou sempre a mandar-te mensagens através dos blogues da Teté e da Rosa dos Ventos, só que no teu blogue não posso deixar mensagens por lá não consigo entrar.

      Vou tentar mais uma vez.

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  6. Cenas dessas estão em extinção!

    Adorei o conto e o fabuloso final!

    Beijinhos.

    Lisa

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    1. É verdade, Lisa... hoje ficam-se pelas palpitações!
      Beijinhos

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    2. Ainda bem que gostou desta história verdadeira, Mona Lisa.
      Estas cenas estão em extinção, porque a mulher do século XXI não se pode dar ao luxo de ser uma "boneca de luxo"; embora a minha mãe não tinha nada de boneca.

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  7. Antes de responder aos vossos comentários — pois está na hora de ver o filme policial de domingo — quero esclarecer "o pêro podre":

    Impávida e serena, a minha mãe dirigiu-se para a nossa mesa habitual, seguida pelo meu padrasto — roído de ciúmes — e por mim, ainda apalermada.

    Quebrei o silêncio ao acabar de beber o meu mazagran; olhando para a minha mãe disse em voz alta:

    — O senhor de há bocado caíu no chão como um pêro podre!

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    1. Com que então também gosta de mazagran? Játemos mais um ponto em comum :-)))

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    2. Nós até temos muitos pontos em comum, só que o Carlos ainda não se apercebeu disso.
      Em Setembro, quando o Peer aparecer no palco político europeu, o Carlos ainda vai chorar pela Angie.

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    3. Não pense que tenho grandes expectativas com o Peer, Teresa! E, se as tivesse, tê-las-ia perdido depois dos comentários que ele fez às eleições italianas.

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  8. Já aqui disseram que foi "tiro e queda", mas cá pra mim foi o Cuopido a fazer das suas, cegueta (ou nem tanto) a disparar setas em direções indeterminadas. A vida tem destas coisas... :)))

    Também achei piada às histórias da Ingrid Bergman, a ter de se "encolher" para o parceiro parecer mais alto... Que por sinal é preconceito que se mantém, mas nem só em parceiros amorosos. O Joaquim de Almeida contou numa entrevista que também tiveram de lhe arranjar um banquinho, num filme em que era o mau da fita e dava um soquete em Harrisson Ford. Problema é que o outro é alto e ele baixote, para conferir realismo à coisa não podia ser um vilão de pernas curtas, que mal alcançava o nariz do outro... :D

    Beijocas a ambos, adorei o cafezinho! :)

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    1. O cafezinho aqui é sempre bem servido, Teté! Neste estabelecimento não se enganam os clientes :-)
      Beijocas

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    2. Vi esse filme. Não sabia que tinha necessitado do banquinho! : )

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    3. A história da minha mãe é verdadeira, Teté, a da Ingrid será ou não.
      Li também numa biografia que ela tinha um pavor em beijar o Humphrey, porque ele cheirava muito mal da boca.

      O Joaquim de Almeida é assim tão pequeno que alcança não o nariz do Harrisson Ford?
      Não importa, o nosso Quim é mais bonito do que o americano e mais novo.

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    4. Que "não" traiçoeiro que fugiu para o nariz do Harrisson, embora o lugar dele fosse entre o "que" e o "alcança".

      Perdão!

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  9. Não esperava este final e escangalhei-me a rir!
    Soube-me bem este "café"! :-))

    Abraço

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    1. Eu tinha avisado que o final era surpreendente!

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    2. Rir é o melhor medicamento, Rosa dos Ventos, contra a depressão de inverno.

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  10. Uma grande história num café e muito bem contada, pareceu-me que estava a ver o que sucedia :) e fiquei com vontade que continuasse, que fosse um capítulo de um livro.

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    1. Hoje já é difícil assistir a uma estória assim, Gabi. Já nenhum homem desmaia ao ver uma mulher de cortar a respiração. O máximo que lhe pode acontecer é arranjar um torcicolo :-)

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    2. Tenho uma casa cheia de histórias, Gabi, por isso, fico eternamente grata ao Carlos por me deixar contar para os frequentadores do seu Café ON THE ROCKS esta história perdida no tempo.

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  11. Gostei da estória. Estou a imaginar a cena! : )

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    1. Embora eu só tivesse 8 anos, nunca mais esqueci aquela cena; mas nunca a contaria, se o nosso amigo, não se lembrasse da Rua dos Cafés.

      Não estou podre como um pêro, mas vaidosa como um pavão, por ter a honra de participar.

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  12. Estou a responder aos vossos comentários cronológicamente, só que algumas das minhas respostas são publicadas e outras não.

    Vou tentar mais uma vez!!!

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  13. Teresa - fizeste bem em falar do Jean Francois. Estou curioso!

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    1. Vamos lá ver, Kim, qual é o tema do próximo desafio do Carlos.

      Verdade é, que o Jean-François não caíu, quando me foi buscar à Estação de Austerlitz, mas eu também não sou bonita de morrer como a minha mãe o era.

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    2. Ora aí está uma pergunta a que não sei responder! Mas como se aproxima o primeiro aniversário do Crónicas On the Rocks, talvez tenha alguma ideia para comemorar!

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  14. Teresa,
    O amor estava no ar...
    Adoro amores impossíveis que nos fazem sonhar!
    xx

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    1. Olá papoila!

      O cavalheiro foi um felizardo de só dar com as trombas no chão, pior tinha sido, se o amor fosse possível.
      A minha mãe era linda de morrer, mas difícil de aturar.

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    2. Gosta de amores impossíveis, Papoila? Então creio que vai gostar de um conto que vou começar a publicar lá para o final do mês, se para isso tiver tempo, emgenho e arte. A ideia já está na cabeça, só falta passá-la ao papel...

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  15. Há as que fazem parar o trânsito e há aquelas que nos fazem cair de quatro:))
    A sua mãe faria parte destas últimas.

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    1. Cair de quatro! Uma expressão que eu um dia destes já não posso utilizar porque daqui a nada estou a andar de bengala :-)))

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  16. Wooow Gostei mesmo muito! Que história bonita :D

    beijooo*
    IV

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    1. Seja bem vinda ao On the rocks e à Rua dos Cafés. Daqui a nada vou visitá-la.

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  17. Que bela e divertida história :) Das que não se esquecem!

    Beijinhos

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