sexta-feira, 29 de março de 2013

A Terra das Mil Lendas



( Este foi o primeiro post que escrevi no On the rocks. Faz hoje um ano  e decidi recordá-lo, principalmente a pensar naqueles que ao longo deste primeiro ano se foram juntando aqui).


Do sul da Província de Buenos Aires até Ushuaia, estendendo-se da costa atlântica até à costa chilena do Pacífico, fica a Patagónia, terra por vezes inóspita, mas de extraordinária beleza, que tem deixado rendidos aos seus encantos cientistas, escritores, poetas e aventureiros.
Conhecida por  “Terra das Mil Lendas”, esta extensa região  que Domingos Cavallo, ministro das finanças de Menem, ponderou oferecer aos Estados Unidos para saldar a astronómica dívida da Argentina, faz jus ao epíteto.
A primeira lenda de que parece haver memória, está relacionada com o seu próprio nome.
Conta- se que  lhe terá sido atribuído em 1520 por  Fernão de Magalhães. Alguns historiadores, apoiados mais na lenda, do que em factos, defendem que quando o  navegador português  chegou à Baía de San Julian, terá ficado tão surpreendido com o tamanho superlativo dos pés dos índios Tehuelche, que resolveu apelidar a região de Patagónia.
 Quer Darwin, quer Bruce Chatwin, dão outras explicações para a origem do nome Patagónia, mas é uma constante encontrar versões diferentes sobre todas as histórias que ocorrem naquela extensa região. Veja-se, por exemplo, o número de versões- por vezes antagónicas- sobre a vida de Butch Cassidy e Sundance Kid. É inquestionável que lá viveram, mas essa é a única certeza sobre este duo de salteadores amantes de música erudita, que depois de um período sabático na região patagónica de Cholita terão assaltado um banco para custear uma viagem que lhes permitisse assistir ao festival de música de Beyruth. Sobre o local onde o assalto foi cometido, o seu propósito e as circunstâncias que o rodearam, é que as versões variam. Algumas pessoas que com  eles conviveram fizeram relatos sobre a sua vida, mas a partir de determinada altura percebeu-se que as histórias que eles contavam nem sempre eram coincidentes, variando de acordo com a época e os interlocutores que os escutavam.
Apreciador de paraísos distantes, cedendo com facilidade  aos prazeres de uma vida nómada  que me arranque do turbilhão da urbe, “perdi-me” durante vários meses a explorar a Patagónia e foi com dificuldade que resisti ao apelo de por ali ficar “perdido para sempre”.
Ao longo do vale do rio Chubut, por entre “estâncias”  com nomes optimistas (La Esperanza),  evocando efemérides (Primeiro de Janeiro), pagando tributo aos aborígenes (Pali Aike) ou simplesmente lembrando uma mulher (La Julia), fui ouvinte atento de relatos encantadores sobre heróis e heroínas que habitaram aquela extensa região. Paulatinamente fui –me deixando contagiar por aquele cenário de lendas e um dia percebi a razão deste desencontro de  narrativas que fazem parte da magia enigmática da Patagónia.

Estava na Patagónia apenas há duas semanas. Caminhando pelas cercanias de Epuyen, apreciava a magia  dos lagos e bosques da região, onde nem sequer falta um lendário Nessie - réplica argentina do monstro escocês - e perdi a noção do tempo.
A tarde seca e cálida convidava a uma sesta  e a leve brisa começara a soprar com mais força. A água do cantil  já se esgotara e estava sedento. Não tendo nas imediações nenhum lugar onde saciar a sede, olhei em volta e vislumbrei, a umas centenas de metros, uma pequena casa perdida na paisagem.  Segui até lá por um caminho serpenteado bordejado por flores silvestres, de onde se desprendiam fragrâncias açoitadas pelo vento.
A escassos metros da casa, o ladrar de um cão anunciou-me e o rosto de um homem com vincados traços mapuche assomou por entre as sebes. Saudei-o e pedi para encher o cantil. Convidou-me a entrar para o jardim e acompanhá-lo num mate.
Sentámo-nos junto de um canteiro de hidranjas multicolores.Bebi  um longo  trago da cabaça e, acalmada a sede, começámos a conversar, acompanhando o mate em goles lentos, com umas tortas fritas que a mulher, entretanto,diligentemente providenciara.
 Falei-lhe sobre a minha viagem sem prazo ou itinerário certo, que fluiria ao sabor das circunstâncias, mas manifestei-lhe a minha vontade de rumar a Esquel, para conhecer o local onde vivera Butch Cassidy. O meu propósito era entabular conversa com Aladin Sepúlveda- o homem que então habitava a casa- e de quem esperava ouvir algumas histórias sobre os bandidos mais conhecidos da História recente.
- Muito interessantes as histórias de Butch Cassidy e Sundance Kid- disse-me com visível enfado.
-Certamente haverá muitas histórias e lendas de outras pessoas que habitaram a região- retorqui. Espero ouvir algumas enquanto por aqui andar...
- Não há lendas, amigo. Há é maneiras diferentes de contar histórias. Uns contam-nas como poetas, outros como doutores. Aqui na Patagónia, contamo-las como poetas. Desconfia de quem te contar histórias como doutor, porque esses estão a mentir-te.
- A mentir? Porquê?
- Porque contam as histórias à maneira que mais convém aos gringos. É assim que se fazem os compêndios de História, não te parece Carlitos?
- E tens alguma para me contar antes de partir?
Lihue olhou para o céu, em direcção ao sol, como quem consulta o relógio e disse:
- Ainda tenho algum tempo antes de ir  recolher o gado. Já ouviste falar de Maria Ancapichun?
- Não!
Então escuta. Vou-te contar toda a verdade sobre esta mulher mapuche. Como um poeta, não como um juiz...

Adenda: Para quem não leu, a história de Maria Ancapichun, pode ser lida  aqui ( o gringo do cavalo branco), e aqui (entre fadas e duendes)

9 comentários:

  1. Prefiro as palvras dos poetas ás do letrados.

    Parabéns pelo primeiro aninho e qye venham assim muitos mais, interessantes e felizes.

    Desejo també, meu amigo Carlos, uma Páscoa doce e serena.

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  2. parabéns por este ano. fui ler os posts, agora quero conhecer a patagónia...
    bjs.

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  3. Muitos parabéns Carlos!
    Não tinha lido os posts publicados, só consigo entrar comoPC do Rodrigo, como já falei!
    Não sabia que as hortênsias se chamavam de hidranjas.
    Boa continuação.

    beijinho e uma flor

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  4. Parabéns por este primeiro aniversário e pela excelente Crónica que lhe deu o primeiro impulso!
    Desejo que a leitura destas aventuras passadas na Patagónia, concretize o teu desejo de reunir mais e mais leitores, à volta do "On the Rocks". Ele merece!

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  5. Fez muito bem em voltar a publicar este primeiro post... que eu não tinha lido.
    Parabéns ao Crónicas on the Rocks :)
    E Boa Páscoa!

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  6. Oi Carlos!
    Adoro a Patagônia. A dias vi um belo documentário sobre a "Terra do Fogo" - dentro da Patagônia.
    Feliz aniversário e vida longa ao blog. Tenha uma páscoa tranquila.
    Um abração sul americano.

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  7. Parabéns pelos magníficos posts com que me deliciaste desde que te conheci.

    Adorei ler este...Patagónia...o meu sonho!

    Espero continuar a ler-te por muitos mais anos!

    Beijinhos.

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  8. É o binómio ciência versus poesia... E a Patagónia é terreno da segunda!
    Um beijo

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