terça-feira, 12 de março de 2013

Artur, o irreverente




Conheci o Artur  em Tomar, em pleno PREC, estávamos ambos a cumprir serviço militar. A nossa amizade começou durante as campanhas de dinamização cultural e cimentou-se quando estabelecemos uma parceria profissional entre psicólogo e advogado -muito  avantgarde para a época-  que foi um relativo fracasso.
Seguimos  a partir daí rumos diferentes, mas continuámos ligados nas noites de farra, até eu partir para os Estados Unidos. 
Quando regressei a Portugal, depois de anos a vaguear pelo mundo, procurei-o. Era na altura um advogado com uma posição confortável numa empresa, acabado de se divorciar pela terceira vez.  Como eu continuava celibatário, foi num ápice que retomámos os prazeres da vida. Por essa altura, o meu dia de trabalho começava às quatro da tarde e acabava por volta da uma da manhã, muito a tempo de iniciar o dia. 
Foi um tempo curto, porque ambos arranjámos namoradas e  passamos a encontrar-nos apenas ao fim de semana em jantares de “família”.
 Em 2010 o Artur aceitou a rescisão amigável que a empresa em dificuldades lhe propôs  e, meia dúzia de meses depois,  entrou para um escritório de advogados. O mundo da advocacia tinha mudado e o Artur não se deu bem, pelo que acabou por regressar à função pública, depois de pedir a suspensão da licença sem vencimento.
No início as coisas correram mais ou menos bem, mas quando uma jovem  coelhinha assumiu a direcção do departamento onde ele trabalhava, as coisas começaram a azedar. Inexperiente, mas com o rei na barriga, a coelhinha começou a infernizar-lhe a vida, controlando-lhe todos os passos. 
No dia 1, data do seu aniversário, convidou uns amigos para almoçar e comunicou à chefe que chegaria um pouco mais tarde. Ela não levantou problemas e o bom do Artur interpretou isso como carta de alforria, até porque era sexta-feira.
Por volta das quatro da tarde, chegou ao serviço com um grãozinho na asa.  Tentámos convencê-lo a telefonar à chefe dizendo que iria meter a tarde, em compensação pelas horas que ao longo do mês dera a mais ao serviço. Alegando que queria terminar um parecer para poder passar o fim de semana descansado, Artur declinou o nosso conselho e foi trabalhar. Quando chegou ao serviço, tinha a secretária inundada de recados da chefe, que reclamava a sua presença com urgência.
Artur entrou no gabinete dela e foi recebido com pesporrência. Que era um valdevinos, um inconsciente irresponsável, porque  a tinha deixado pendurada. A directora geral pedira um parecer  urgente  sobre assunto a que ela não sabia responder  e ele não tinha o direito de a deixar ficar mal.
Se há coisa de que Artur não pode ser acusado é de ser irresponsável, por isso, reagiu mal à acusação e  dirigiu umas palavras azedas à jovem chefe. Resolveu o assunto em menos de uma hora, entregou-o à directora e desejou-lhe um bom fim de semana. 
Vê lá se  na segunda-feira estás cá ás nove! disse-lhe a chefe -com idade para ser sua filha- em tom emproado.
Artur passou-se dos carretos e perguntou o que poderia haver de tão urgente para ele não poder chegar às 10, como habitualmente.
A directora pode precisar de alguma coisa com urgência, não me vais obrigar a dizer-lhe outra vez que estás atrasado.
Artur olhou-a de soslaio e regressou ao gabinete, onde terminou o parecer que o levara a não pedir a dispensa da parte da tarde.
Na segunda-feira, chegou poucos minutos antes das 10. A secretária estava mais uma vez  inundada de post-it e a sua caixa de correio com vários e-mails reclamando a sua presença.
Artur foi ao gabinete da chefe perguntar o que se passava
Tinha-te dito para estares cá às nove, não tinha?
Tinhas, mas a minha hora de entrada é às 10, como mandam os regulamentos ! Passou-se alguma coisa?
Não se passou nada, mas estou farta de te dizer que te quero cá às nove, porque pode ser preciso alguma coisa.
Artur perdeu as estribeiras.
Olha lá! Tu gostas mais de cús do que de cabeças não é? Então toma!
Baixou as calças, mostrou-lhe o traseiro e saiu do gabinete com as calças na mão!
( O processo disciplinar segue dentro de momentos, obviamente, mas a um homem de 61 anos que é assim tratado por uma fedelha, perdoa-se a diatribe. Ou não?)

12 comentários:

  1. Com gente dessa laia, o melhor é não ligar pevide! Se o horário de trabalho dele é às 10, seja ela chefe ou não, não o pode alterar só porque lhe dá na veneta. Mas desconfio que depois dessa atitude "irreverente", o processo disciplinar seja pouco brando com ele...

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  2. Não há criaturas mais detestáveis do que os chefes prepotentes, cujo único prazer na vida é infernizar a dos seus subalternos. Que lhes caiam em cima as sete pragas do Egipto! :)))

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  3. Por vezes as fedelhas precisam mostrar trabalho com a sua teoria quando a sua prática não é nenhuma!
    Haja pachorra, vamos aguardar o processo disciplinar.

    beijinho e uma flor

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  4. Bem, tenho por principio nunca me baixar ao nível dos meus interlocutores desta laia.

    Mas, pode tudo.
    Não era necessário.

    Podia ser mais esperto e ter esperado pou uma altura em que a tramasse de verdade.

    Só a minha opinião.

    Não dizem que a vingança se serve fria?

    Um beijinho e boa sorte para o amigalhaço.

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  5. Eu se pudesse, perdoava, sim. Espero que o processo disciplinar não dê em nada...

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  6. Olá boa noite!
    Cá estou eu! Boa disposição e sentido de humor abunda por aqui...e é bom nos tempos que correm. Que "bela chefa"( parece que se advoga uso de presidenta!) tinha o seu amigo. Mas ele safa-se...advogado sabido!!
    Um abraço.
    M. Emília

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  7. Por aqui, com uma atitude dessas, estava feito ao bife, Carlos.
    Nem pensar!!

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  8. Graças a Deus que já estou deste lado porque muitas vezes me deu vontade de fazer o mesmo....

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  9. Não foi diabrite, mas falta de respeito!

    Os seus 60 anos já lhe deviam ter dado experiência para saber lidar com situações com "elegância".

    Beijinhos.

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