terça-feira, 26 de março de 2013

Bingo!


A manhã corria célere, no encalço de pessoas apressadas para apanharem o transporte, que os conduza a mais um dia de trabalho rotineiro.
Enquanto tomava uma bica, encavalitado num balcão de vozes imprecisas acotovelando-se para chegar primeiro ao ouvido de um empregado atordoado, acabara de deixar escapar por entre os dedos mais um dos seus pedaços.
Ao pôr o pé na rua, quase sou atropelado por uma mulher magra, em passo estugado, cujo cabelo cobreado esvoaçando ao ritmo da leve brisa que soprava, me fez lembrar uma chama que pretende libertar-se do fósforo que a mantém refém.
Ainda na soleira da porta, vejo folhas de papel arrumadas em forma de revista, desprender-se do seu corpo.
Vá lá saber-se porquê, um jovem que passava, numa de cavalheiro, apanhou a revista do chão e, pressuroso, foi entregá-la à sua – ainda que provisória- proprietária, pensando certamente que estava a fazer uma boa acção. 
“ Desculpe, a senhora deixou cair isto”- ouvi-o dizer- enquanto se aprestava para devolver o tesouro de letras encapadas, quiçá em troca de um sorriso esforçado de agradecimento.
A reacção da mulher ter-lhe-á gorado as expectativas...
“Eu? Não deixei, não. Não quero é isso para nada.”
“Ah bom! Então podia ter deitado num caixote do lixo ou deixado na tabacaria onde a comprou, porque isto é um suplemento do jornal que leva aí...”
“Mas quem é você para me estar a dar lições? A Câmara tem gente para fazer a limpeza, que eu saiba! Mas se está tão preocupado vá lá você por isso no lixo, que foi você quem apanhou isso do chão. Eu não quero isso para nada, já lhe disse...”
Apressada, lá continuou o seu caminho, vociferando entre dentes, mas de forma audível “estes gajos são uns metediços! Os pretextos que arranjam para meter conversa!... Os paizinhos não têm tempo para os educar e a gente que os ature. P´ra onde é que isto vai, meu Deus?”
Entrevi o jovem a ruborescer, e ouvi-o atirar um pedido de desculpas por ser civilizado. Voltou para trás e colocou diligentemente o destacável no recipiente apropriado: BINGO! Em linguagem de basquete, seria um cesto de 3 pontos...

10 comentários:

  1. Pior do que deixar o lixo em local inapropriado será a presunção pior pecado?
    Talvez...

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  2. Se calhar, o local apropriado deveria ser outro... talvez aprendesse a lição.

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  3. Já me aconteceu algo semelhante, dentro da garagem do Colombo! Diga-se em abono da verdade, era um grupo de malta dos seus 20 e muitos anos, mas com aspecto de ser das barracas. Também não era uma revista ou jornal, mas uma caixa de plástico, que atiraram para o chão da garagem. E chamei-lhes a atenção, olhem os senhores deixaram cair aquilo e apontei para o local. Miraram-me de alto abaixo, talvez naquela de verificar se eu era boa de peixeirada. E depois disseram que não, que não tinham deixado cair, tinham "deitado fora". Para além de todo o ar de desprezo que consegui com o olhar, não acrescentei mais nada. Pôr-me a discutir com gente ordinária e sem pingo de educação, não leva a nada. Mas uma multa não era bem aplicada a estes cromos, que ainda por cima têm a mania que os outros é que têm de limpar a porcaria que fazem?

    Enfim, civismo precisa-se!

    Beijocas!

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  4. Falta de civismo, educação e excesso de arrogância!

    Tudo isso, infelizmente, ABUNDA!

    Obrigada pelo teu carinho, Carlos.

    Beijinhos.

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  5. Que bonitinho, Carlos! Espero que ela não tenha minimizado o encanto do rapaz com tanta grosseria, e que ele continue a ser o que é.
    Abraço brasileiro.

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  6. Mas que monumental par de estalos que a senhora merecia. Essa, os condutores que atiram as beatas para fora da janela, os individuos que cospem no chão, os que põem as botifarras no banco da frente quando viajam em transportes públicos, os senhores que passeiam os lulus na rua (não a deles, claro) e a deixam pejada de 'minas'. A lista é infindável...
    É o que temos, digo eu com fatalismo :)
    Bjs

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  7. Terrível...mas por outro lado é bom saber que não é só aqui que presenciamos esta total falta de educação e respeito.

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