terça-feira, 5 de março de 2013

O meu amor inventado


Então como está a menina comunista para quem eu fiz os carapins?
Não é comunista, Mãe! É imigrante moldava. E já é uma mulher, não é menina...
Moldava? Onde é que fica isso?
Na Europa de Leste, ao pé da Roménia
Ah, pois, já me tinhas dito... fugiu dos comunistas, não foi?
Não, Mãe, já não há países comunistas na Europa...
Ai não? Que lhes aconteceu?
Outra vez, Mãe?
E o menino como está?
Está bom.
É parecido contigo, ou com ela?
Tantas vezes me irritei com essas perguntas e agora tenho saudades dos dias em que tu as repetias até à exaustão. 
Não sei se quando me olhas, dessa cama onde estás deitada, suplicando pela morte,  continuas a ver-me como o garanhão que nunca fui, a não ser na tua imaginação. Lembro-me das estórias que contavas às tuas amigas, sobre as minhas aventuras amorosas. "Imaginem que agora arranjou uma namorada comunista!- dizias tu num tom que era um misto de reprovação e compaixão. E eu, com ar umas vezes encabulado, outras refreando  uma raiva a crescer dentro de mim, ouvia-te contar  façanhas amorosas que eu nunca vivi, porque ainda chorava o desaparecimento da Patty  e à memória só me vinham imagens de Península Valdez,  ela a ser levada pela polícia no aeroporto de Ezeiza, a Laura desfeita em lágrimas a aterrar em Ljubliana para me dar a notícia. Era por isso que eu por vezes me irritava quando davas de mim a imagem do que eu não sou. Nem imaginas como isso me doía!
 Lembro-me que tudo isso começou no dia em que vim a correr para o Porto porque acabaras de ser internada. Quando cheguei ao hospital tinhas os carapins para a Sílvia prontos e entregaste-mos orgulhosa. Foram os últimos que fizeste, mas nesse dia ainda não sabias.
 Talvez um dia eu venha a perceber a razão dessa fixação na Sílvia, quando tantas vezes te pedi carapins para amigas minhas que nunca viste como minhas namoradas. Talvez seja um daqueles segredos que cada um de nós nunca partilhou com ninguém e leva consigo na hora da morte ... mas o que eu queria mesmo neste momento em que tu me olhas com esse ar de quem pede socorro à morte ( como se eu próprio fosse a Morte que te pode aliviar o sofrimento), era que  me dissesses que sempre soubeste que a Sílvia era um amor que me inventaste para aliviar a minha perda. E que me perdoasses as vezes em que fui brusco e rechacei as tuas estórias inventadas com palavras duras.
Sempre tive essa esperança, mas receio que a Morte  leve contigo esse "segredo".
A noite já transpira madrugada. Acabas de me chamar do teu leito de martírio, pedindo-me que te leve para a cama. Um sorriso amargurado distorce-me o rosto, ao aperceber-me que já nem consegues perceber onde estás. Digo-te, com a (quase) certeza de que me estás a ouvir, que a Sílvia voltou para Portugal, porque na Moldávia a vida ainda é mais dura do que cá. Continua a servir no mesmo restaurante. Tem o mesmo sorriso triste que sempre lhe conheci. E tem um novo amor. Sou eu!
É mentira, mas talvez assim morras mais tranquila. Aliviada, porque não casei com aquela  vietnamita que um dia trouxe cá a casa e logo te imaginaste a ter netos com os olhos em bico , nem com a "preta" que te deixava angustiada e escondias das tuas amigas.
Pelo menos a Sílvia, apesar de comunista, sempre é branca e loirinha. E isso tranquiliza-te, não é, Mãe?

15 comentários:

  1. Meu amigo, como as mães podem ser tão diferentes de nós...

    Que Deus alivie a tua do sofrimento!

    Para ti, Carlos, o meu abraço solidário nestes dolorosos momentos

    ResponderEliminar
  2. Emocionante história de um "internacional". E indiana, houve alguma? Foi ao dicionário ver o que eram carapins e concluí que em tempos eram meus companheiros de cama em invernosos dias.

    Um desejo, se não forem possíveis as melhoras da sua mãe que seja leve o seu sofrimento. Que Deus a guarde.

    Um abraço.

    ResponderEliminar
  3. É muito triste ver a degradação física e mental daqueles que amamos, quando estamos ao lado sem poder fazer nada para minorar o seu sofrimento e/ou desencanto. Espero que corra tudo pelo melhor possível, pela sua mãe e por si, Carlos...

    Quanto ao resto, aos amores inventados e aos escondidos, são ideias de outras épocas que não mudam nas pessoas mais idosas. Esperemos que as novas gerações vão perdendo esses preconceitos...

    Um beijinho, Carlos!

    ResponderEliminar
  4. Não tenho palavras!

    Abraço-te apertadinho! Força!

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  5. Que nada de bom fique por dizer e que os bons momentos prevaleçam para sempre.
    Tranquilidade e sabedoria...
    Um beijinho

    ResponderEliminar
  6. Carlos não consigo controlar as lágrimas!
    Já senti dores muito fortes, vivi o sofrimento e a degradação de alguém que amei muito, o meu falecido marido que tinha 43 anos quando faleceu de cancro, e o meu netinho com 6 mesinhos, o meu pai com 65 e minha irmã com 38 anos.
    A minha mãe tem 86 anos sofreu um AVC muito profundo, mas está no seu puro juizo, ela abandonou-me tinha eu 8 aninhos, nunca quiz saber de mim, hoje tenho 56 anos e estou sempre, mas sempre ao lado dela num lar aqui perto de nossa casa, só o meu "folha seca" pode testemunhar o quanto ando a sofrer ao vê-la numa cadeira de rodas.
    Desculpe a extenção Carlos.
    deixo o meu abraço solidário.

    beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  7. Calma , Carlos.

    Nada acontece por acaso!Nada é como queremos!
    Tudo tem o seu tempo!
    Mima-a até ao fim!

    Uma abraço apertadinho!

    Beijinhos.


    ResponderEliminar
  8. Estou solidário contigo, pois assistir à degradação de uma pessoa que amamos, além de triste é extremamente penoso.
    Curiosamente, faz hoje 24 anos que meu Pai faleceu; apenas sobreviveu uma semana a uma doença súbita e isso poupou-o a ele e a nós de um maior sofrimento.
    Só a saudade não morre nunca.

    ResponderEliminar
  9. Que texto tão bonito, Carlos, e tão cheio de dor e saudade! Mas também tão cheio de amor...
    Coragem nesse acompanhamento tão duro que é o de levar quem amamos até à morte.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  10. E agora estou com um nó na garganta e um aperto no peito.
    Um grande abraço, Carlos!!

    ResponderEliminar
  11. Há momentos na vida que são tão brutais que uma pessoa interroga-se se haverá mesmo necessidade de tanto sofrimento.
    Nem sei que dizer, Carlos... estou comovida. É um assunto que me apoquenta amiúde este de perdermos os nossos. Temo o dia em que estarei na sua posição. Temo não estar, também. É horrível, seja de que perpectiva for.
    Muita força e serenidade é o que lhe desejo.
    Um beijinho.

    ResponderEliminar
  12. Difícil saber o que dizer perante palavras tão comoventes... Deixo um abraço

    ResponderEliminar
  13. Já não sei quantas vezes li esta sua crónica, Carlos, mas comentar ainda não consigo.

    O meu pensamento está com com a sua mãe.

    ResponderEliminar