terça-feira, 30 de abril de 2013

RM (9): Da Seara Nova ao sonho americano


Em Portugal partilha-se a euforia reinante na Europa. Surgem os primeiros night clubs, com epicentro no eixo Av. da Liberdade, Restauradores e Chiado. O Maxime é o expoente máximo das “noites loucas” dos lisboetas que incluíam doses generosas de cocaína. O seu consumo começou a ser visto com tal receio, que as autoridades decidiram afixar, à porta dos night clubs, listas de indivíduos considerados viciados a quem devia ser proibida a entrada. Em 1992 – um ano após Raul Proença, Jaime Cortesão e Câmara Reis terem lançado a Seara Nova- nasce o Parque Mayer.
No mundo das letras, a década começara com o lançamento do primeiro volume dos 
Ensaiosde António Sérgio- um dos mais brilhantes pensadores portugueses do primeiro quartel- eAquilino Ribeiro dá à estampa “O Malhadinhas” em 1922.
O ano de 1923 – que assinala a realização do 
I Congresso do Partido Comunista Português- é marcado em toda o mundo ocidental pela febre dos concursos de dança. Aliciados por prémios monetários encorajadores, os participantes são sujeitos a autênticas maratonas. Incitados pela assistência, só cedem à exaustão. Estava dado o primeiro passo para os desportos radicais e criado o tema de "Os Cavalos Também se Abatem" que viria a ser um enorme sucesso de bilheteira nos anos 60. Nesse mesmo ano, Johnny Weissmuller entra para a lenda ao bater os recordes mundiais de natação em 10, 200 e 400 metros. Estava encontrado o"Tarzan".
A sociedade de consumo entra em período de gestação com a abertura, em 
S.Francisco, do primeiro supermercado. E enquanto Hitler falha a sua primeira tentativa de assalto ao poder, é lançada a revista Time, inventado o relógio de pulso, o microfone e o aparelho para surdos.
No ano em que 
Pavo Nurmi ganha cinco medalhas nas Olimpíadas de Paris (1924) e morre Lenine, dois jovens de 19 anos, de famílias abastadas, raptam e assassinam um miúdo de 14 anos. Alegam tê-lo feito para testar a forma como a vítima reagia ao sofrimento e para testar a sua argúcia perante detectives da polícia, que consideravam de mente inferior. Os pais enxugam as lágrimas de desgosto com a mais recente invenção: os lenços Kleenex 
Para as donas de casa, a boa nova é a comercialização do 
secador de roupa centrífugo.

Chegada de imigrantes a Ellis Island


Os EUA contnuavam a abrir as suas fronteiras aos imigrantes, mas com algumas reticências. Ao chegarem a Ellis Island, a primeira coisa com que os emigrantes europeus deparavam era a estátua da Liberdade. Ali, podiam ler esta mensagem: “Vinde a mim, multidões cansadas e pobres com ânsia de respirar em Liberdade”. No entanto, antes de lhes ser concedida licença de permanência eram observados minuciosamente por médicos que, no caso de detectarem alguma doença, marcavam o ombro do imigrante a giz com uma letra que indicava a doença detectada. Para muitos, esse era o fim do sonho. Eram recambiados para as suas terras, acompanhados pelos analfabetos, pelos que tinham antecedentes criminais, ou ideias políticas consideradas radicais.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um pássaro em voo para o Sul



Estou fora do país desde sexta-feira e foi por essa razão que ontem faltei à nossa conversa de domingo.
Vou estar ausente por mais uns dias, mas deixei agendada a publicação diária de um post sobre o século XX. Não estranhem,por isso, a minha ausência dos vossos blogs nos próximos dias.
 Até breve!

domingo, 28 de abril de 2013

Permitam-me que vos apresente A Puta da Vida




“Como é Linda a Puta da Vida”  é o título do último livro de Miguel Esteves Cardoso, apresentado ontem, às 17 horas, nos jardins do Palácio de Cristal ( biblioteca municipal Almeida Garrett) no Porto. 
MEC já não é aquele escritor de escrita  deslumbrante e atrevida de outros tempos. A idade e a doença refrearam-lhe a verve, o amor pela Maria João adocicou-lhe os sentimentos. Tornou-se menos irreverente, as suas crónicas mais centradas nas coisas boas da vida.
MEC revolucionou a crónica nas páginas dos jornais, introduziu-lhe o calão e a irreverência com naturalidade. Muitos o tentaram imitar, mas sem sucesso. Aquele que mais se terá aproximado da linguagem e fina ironia do autor de “O Amor é Fodido”  é Carlos Morais José, ex-jornalista de "O Independente", a viver  há mais de duas décadas  em Macau e pouco conhecido por cá. 
Conheci  o MEC no início de 1986, em noites de boémia repartidas entre o Frágil e o Plateau. Regressara a Portugal em 1983 para desempenhar uma tarefa demasiado absorvente que concluí em final de 85.Estava completamente  alheado da noite lisboeta,  foi uma amiga que nos apresentou uma noite no Frágil  Depois eu voltei a partir, o Miguel adoeceu e não mais nos voltámos a encontrar. 
Quando há dias li a notícia de apresentação do seu novo livro, lamentei não estar em Portugal. Iria ao Porto para lhe dar um abraço e lembrar-lhe uma conversa que tivemos, no final de uma noite bem  molhada, sobre a puta da vida. Na altura eu dizia que a Puta da Vida era Linda mas ele, moído por um amor,  discordava.  Trinta anos depois ele concorda comigo. Eu, infelizmente, já não, mas não me importava nada que ele me convencesse que quem está enganado sou eu!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

RM (8): Os loucos anos 20



Enquanto o mapa da Europa pós guerra era redesenhado e o Império Otomano se desmembrava, as sufragistas conheciam vitórias em Inglaterra e nos Estados Unidos (1920) e assistia-se ao surgimento de movimentos revolucionários em vários países.

O êxito do Jazz estende-se à Europa, (com uma pléiade de intérpretes onde se destacaLouis Armstrong - Satchmo e as salas de baile animam-se ao som do charleston. No mundo das Artes, o surrealismo ganha um número crescente de adeptos e nas Letras surgem os nomes deHemingway, Pirandello, T.S.Elliot, James Joyce ou Thomas Mann.
O cinema conquista cada vez mais adeptos e Greta Garbo é a sua diva.
Década de contradições, os anos 20 vêem emergir a figura pacifista de Gandhi, mas também os sinistros Mussolini (1922) e Estaline (1927).
É a década do capitalismo do bem –estar, mas também a do desencanto da classe média; da Belle Époque mas da propagação da fome; da euforia, mas também da incerteza; do equilíbrio precário de uma paz que não se adivinhava duradoura.
O primeiro ano desta década serve de berço ao secador de cabelo, ao triunfo dos detergentese assiste ao nascimento das emissões radiofóniocas regulares nos E.U.A. A primeira emissão foi transmitida apenas para um milhar de aparelhos, mas o sucesso não tardaria. Sucesso, igualmente, foi o lançamento do primeiro livro de Agatha Christie que deu a conhecer ao mundo o inspector Poirot.
Em 1921 Coco Chanel lança a sua última criação, que será um êxito de vendas em todo o mundo- o perfume Chanel nº5- e na medicina a insulina traz uma mensagem de esperança para os diabéticos. Para os automobilistas a notícia do ano é a gasolina super. Mas, por agora, só para os americanos.
No ano em que é finalmente descoberto o túmulo de Tutankhamon e Mussolini marcha sobre Roma (1922), é descoberta a vitamina E.
No mundo da moda, o espartilho dá lugar ao soutien, a saia sobe até ao joelho, o chapéu de aba cede o seu lugar ao "cloche" e o corte de cabelo "à garçonne" faz furor. As marcas da Guerra estendem-se ao vestuário e a mulher começa a libertar-se, a pintar-se e a fumar. Mas de Chicago vem a surpresa, com a aplicação de multas de 10 dólares às mulheres que usem saias curtas.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

RM( 7):as feridas da Guerra



Em 1919 é assinado o Tratado de Versailles, pondo oficialmente termo à I Guerra Mundial. A Alemanha é fortemente penalizada e compromete-se a pagar indemnizações a vários países, pelos danos cuasados. Quase um século depois, algumas dessas dívidas continuam por pagar...
 Nasce a Sociedade das Nações, mas os Estados Unidos ficam de fora, porque se recusaram a assinar o Tratado. Começa a perceber-se que os Estados Unidos não vão fazer a vida fácil ao mundo durante o século XX, mas não nos adiantemos…

Na Europa, desmoronamento dos estados austro-húngaro e do Império Otomano deu lugar a uma série de pequenos Estados, com fronteiras ainda mal definidas.
É também neste ano que o Sinn Fein proclama a República Independente da Irlanda. Vai haver muita bordoada na ilha, mas não só…porque em Itália Mussolini funda a Liga Fascista, carimbando o prenúncio de tempos de barbárie.
O 
Exército Vermelho sai vitorioso, a Rússia invade a Ucrânia e Lenine acredita – depois da vitória da Revolução em 1917- que o exemplo pode alastrar a todo o mundo alcançando o triunfo do Movimento Operário. Nesse sentido convocou para Moscovo o Congresso da Internacional Comunista, base de sustentação para a vitória. Desiludido com o fracasso, acusará os partidos socialistas e sociais democratas de terem traído a revolução.
De outras traições foi vítima, este ano, 
Rosa Luxemburgo. O cadáver da “socialista exemplar” do início do século é encontrado num canal de Berlim. Mas não morreu afogada… foi  fuzilada pelas tropas alemãs que depois se desfizeram do corpo.

Poucos meses antes ( Janeiro) abortara a tentativa de instaurar a democracia na Alemanha. Apesar de os alemães terem votado massivamente pela democracia, a Assembleia Constituinte resultante das eleições não conseguiu reunir em Berlim… por oposição do Presidente americano Wilson que, pouco antes, invadira a Costa Rica!



Tudo isto tem uma explicação simples… Quando estava prestes a perder a guerra, a direita alemã, no poder, “entregou” o governo a socialistas e sociais democratas, mas a assinatura do Tratado de Versailles, que a direita criticou, impôs medidas draconianas à Alemanha. O desentendimento entre socialistas e sociais democratas levou ao fracasso e a uma crise sem precedentes, de que a direita se aproveitaria. Alheios ao fracasso da democracia alemã, não foram também os movimentos separatistas da Baviera e da Renânia, que aproveitavam a crise alemã para relembrar os tempos do império perdido e abrir caminho a Hitler.
O ano fica, no entanto, marcado por um surto de greves em toda a Europa. O movimento sindical cresce, ganha força e alcança algumas conquistas para os trabalhadores, como a jornada de trabalho de 8 horas ( Cerca de um século mais tarde, Sarkozy imporá em França a semana de 65 horas, sendo seguido por outros países europeus…Alguém por aí falou de progresso social?).

Os sindicatos conhecem outras vitórias importantíssimas, durante os anos 20, como o direito de voto universal, o direito de reunião e a criação obrigatória do fundo de desemprego, mas a sua força não se prolongará durante muito tempo. A grave crise económica lança milhares de trabalhadores para o desemprego e os salários reais descem assustadoramente. À guisa de exemplo, refira-se que na Alemanha os salários representavam, em 1919, apenas 70 por cento do valor dos salários em 1913. A direita europeia estava nas suas sete quintas.

Mas nem tudo eram más notícias. Volta a ser possível viajar no o 
Expresso do Oriente, de Paris a Istambul e o arquitecto Walter Gropius funda a Bauhaus que irá marcar e influenciar a as artes europeias durante décadas.
Data deste ano, também, a criação da United Artists, por iniciativa de alguns dos maiores nomes da 7ª Arte, onde despontam 
Charles Chaplin e Mary Pickford.

Erik Sati compõe Sócrates, um drama sinfónico que haveria de chegar a Portugal, em versão estereofónica. E continuava, claro, a loucura das velocidades, porque ainda não se tinham esgotado os ecos do Manifesto Futurista. Entre os records estabelecidos neste ano, destaque para o de Erma Murray, nos 100 m bruços, com 1m 33s e 2 décimos.
Em Portugal os governos sucedem-se a um ritmo alucinante e 1919 ficará assinalado por diversos movimentos revolucionários. O mais importante terá sido a derrota da monarquia do Norte. Nos anos 80, porém, vai surgir um novo rei no Norte, que abrasará o país. Chama-se Pinto da Costa e conseguirá inúmeras vitórias para os azuis e brancos, destronando os Vermelhos que se tinham sentado na cadeira do poder, com o beneplácito do Estado Novo.
Ainda durante este ano foram construídos os bairros sociais do Arco do Cego ( Lisboa) e Sidónio Pais ( Porto).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

RM (6): A geração de Orpheu



Esta década, caracterizada a nível mundial por fortes rupturas na expressão artística e pelo aparecimento de valores que marcaram profundamente o século XX, é também rica em valores na arte e cultura portuguesas. Malhoa, Fernando Pessoa, Columbano, Santa-Rita, Almada Negreiros, Stuart, ou Mário de Sá Carneiro ( que se suicidará em Paris em 1916) são alguns dos nomes mais expressivos da arte e da cultura portuguesa do Modernismo, iniludivelmente marcados pelas correntes de vanguarada europeias, pelos valores da República e pelo entusiasmo e vontade de mudança que ela arrastou, apelando nomeadamente ao empenhamento cívico e cultural. Com o intuito de "fazer abanar" a sociedade portuguesa criaram em 1915 a revista Orpheu cuja função- segundo as suas próprias palavras -"era abanar as águas, agitar, subverter, escandalizar o burguês e pôr todas as convenções sociais em causa".
Em 1919 os Estados Unidos recusam-se a assinar o Tratado de Versailles e a integrar a Sociedade das Nações e Mussolini funda, em Milão, a Liga Fascista, dois meses antes de a socialista Rosa Luxemburgo ser encontrada morta em Berlim. Nessa altura, já era visível o fortalecimento do movimento operário que consolidava a sua luta, conquistando direitos para a classe trabalhadora. Avizinhava-se, porém, uma época de retrocesso, com a crise económica que assolará a Europa na década seguinte.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Mulher sofre!



Faltam poucos minutos para as 10 da manhã. Acabei de fazer a minha caminhada pelo paredão.  Fui a Cascais, comprei o jornal e empreendi o regresso à base. Estou sentado na esplanada a tomar a bica e a ler as gordas dos jornais, preparando-me para prolongar a manhã junto ao mar na companhia de um livro, porque só à tarde vou trabalhar.
Começo a ouvir respirações ofegantes. Desvio o olhar. Três mulheres na casa dos trinta aproximam-se. Atiram as mochilas para o chão, sentam-se e libertam  suspiros de alívio. Vêm do ginásio e estão cansadas.
- Ano passado as primeiras aulas não me custaram tanto- diz uma
- A idade não perdoa - diz a segunda
- Uma gaja depois deste esforço todo logo pela manhã ainda tem de ir para Lisboa trabalhar? Porra de vida esta!- vocifera a terceira
- Prefiro fazer dieta a suportar esta violência- insiste a primeira
- Deixa-te de merdas! Fazes dieta e depois à noite pões-te a comer chocolates? Prefiro as aulas de ginástica- volta a segunda
- Gaja sofre para se poder meter num bikini...- replica a primeira 
- Gaja sofre mas é por ter de ir trabalhar! - insiste a terceira
-  Ainda por cima sem pode ver a luz do sol, encafoadas naquela m...- reforça a segunda
(Chega o empregado)
- Muito bom dia! Então o que é que vai ser?
- Três sumos de laranja, dois croissants torrados com muita manteiga e uma mariazinha com fiambre, um garibaldi e dois éclairs de chocolate. No fim vamos querer três cafés. 
Estamos com um bocadinho de pressa, porque estamos atrasadas, ok?- adverte uma
- Garibaldi e éclairs não temos...
( As mulheres entreolham-se, desconsoladas)
- Tem queques? - pergunta a de rosa vestido
- Mufins, muffins! Tem muffins!- pergunta a mulher de negro em alvoroço
(As outtras duas acedem de pronto)
- Então são três? De chocolate?
 (As mulheres entreolham-se novamente até sair fumo branco)
- De chocolate
- Para mim é de morango...
O empregado regista o pedido
O "Je" falando com os seus botões:
Mas para que é que elas andam a fazer ginástica? Para emagrecer mesmo? Deve ser... depois do pequeno almoço ainda vão a pé até Lisboa!
Levanto-me e vou a casa buscar a bicicleta. Troco a leitura por um passeio até ao Guincho. 


RM (5): Lawrence da Arábia e a Revolução Russa



Em tempo de guerra, ainda houve tempo para inaugurar o canal do Panamá, surgir a primeira linha telefónica transcontinental e para ser apresentado, em Inglaterra, o primeiro aparelho de televisão.
Da América, onde inspirada pelo filme o "Nascimento de Uma Nação" ( de David Griffith), renasce em 1915 a Ku Klux Klan, vêm dois inventos que ficarão para a História: o fecho éclair (1915) e a curvilínea garrafa de Coca Cola (1916). O êxito do FORD T implica também o aparecimento dos semáforos e as fadas do lar conhecem os primeiros detergentes e o chá em saquetas.
Durante a Guerra, em 1916, são assassinados Mata –Hari e Rasputine, a monarquia russa colapsa e dá- se a Revolução Russa ( 1917) da qual emerge um nome: Vladimir Ilych (Lenine). A implantação do primeiro Estado Marxista irá modificar o curso da História.
Em 1918 é fundada a Jugoslávia e enquanto TE Lawrence ( o Lawrence da Arábia que o cinema viria a popularizar décadas mais tarde na figura de Peter O’Toole) entra triunfalmente em Damasco, o carismático Sidónio Pais – que ficará conhecido na História de Portugal como o Presidente – Rei- é alvo de um atentado na estação do Rossio. Ainda nesse ano morre Amadeo Sousa Cardoso, o pintor amarantino cujo legado só quase um século mais tarde seria devidamente apreciado pelos portugueses, que fazem filas pela noite dentro à porta da Gulbenkian, para ver a sua obra.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O tal canal




Hoje assinala-se o "Dia da Terra". Muitos já saberão o que penso sobre os "Dias de..." mas, que diabo, a Terra é  a nossa mãe, a nossa casa e ao longo de milhões de anos tem-se esforçado para nos providenciar tudo o que necessitamos para viver felizes. Se somos mal agradecidos e não retribuimos tratando-a bem, pelo menos lembremos de vez em quando que não a poderemos substituir.
Em homenagem a essa coisa mailinda que é a Terra, evoco um episódio que me ajudou a respeitála mais

Quando andava no 3º ano do liceu (actual 7º ano), o meu professor de Geografia falou, numa aula, das vantagens que adviriam para a navegação - e para o comércio - em encontrar uma passagem navegável e comercialmente rentável que permitisse passar da Ásia à Europa através do Árctico. Não foi, porém, esta informação que despertou a nossa curiosidade. Foi o que se seguiu.
O professor Portocarrero contou, nessa aula, algumas tentativas que já tinham sido feitas para atravessar o Árctico- a maioria delas mal sucedidas- e terminou dizendo mais ou menos isto:
“Felizmente, a marinha mercante não poderá utilizar essa rota. No dia em que o conseguir, todos vocês se devem preocupar, porque isso significa que os gelos do Árctico estão a derreter e a Terra corre perigo”.
Em Setembro de 2009 os jornais noticiavam com grande destaque:
 “NAVIOS JÁ PASSAM O ÁRCTICO. As alterações climáticas permitiram a dois navios alemães ligar a Ásia à Europa através do Oceano Árctico, uma rota que poupa sete mil quilómetros à viagem tradicional com passagem pelo canal do Suez”.
 As notícias salientavam que a travessia só se tornou possível devido ao degelo provocado pelo aquecimento global e que vários armadores já anunciaram a intenção de adoptar este trajecto.Imagino que, por todo o mundo, muitos predadores tenham aberto garrafas de champagne para celebrar a proeza. Pessoalmente, estou preocupado, mas grato ao professor Portocarrero por ter feito aquele aviso numa aula há mais de 40 anos.

domingo, 21 de abril de 2013

Prantelhana


Quando li este post da Teté, lembrei-me da história de uma amiga da minha irmã, baptizada Prantelhana!
Sabia pela minha irmã que o nome da miúda ( para mim já muito crescida, pois a minha irmã era 12 anos mais velha do que eu) era causa de alguma chacota e muitas interrogações no colégio. Afinal que ideia deu aos pais para baptizarem a  miúda com nome tão singular?
Muitas vezes  a rapariga foi interrogada sobre as origens do seu nome. Inicialmente dizia desconhecer, mas um dia lá confessou que perguntara aos pais e que eles lhe explicaram que esse era o nome de uma bisavó açoriana.
A explicação parece ter sido aceite no liceu e nunca mais ninguém terá seringado os ouvidos de Prantelhana  com a pergunta sobre a origem do seu nome.
Não vos estaria aqui a contar esta estória, se uma rara coincidência em que a vida afinal é fértil, não me tivesse colocado no caminho, anos mais tarde, uma outra Prantelhana, que me fez pôr em dúvida a explicação dada pela amiga da minha irmã.
Já eu vivia em Lisboa, quando um dia cheguei a casa para passar um fim de semana e conheci a nova empregada doméstica, uma  atraente minhota de 24 anos cujo nome  era… pois esse mesmo que estão a pensar…. PRANTELHANA!
De imediato tive vontade de lhe perguntar se o seu nome era de origem açoriana, mas mandava o recato que me abstivesse. Interroguei a minha mãe sobre tão magna questão e obtive como resposta “ quero lá saber disso! O importante é que seja boa empregada”.
Comuniquei então à minha mãe que eu mesmo lhe faria a pergunta, mas recebi logo uma reprimenda e um conselho para “deixar a rapariga em paz”.
Nas férias de Natal , porém,  não resisti à curiosidade ( eu sou escorpião e vocês sabem o que isso significa, não sabem?) e, à hora do almoço, aproveitei para lhe perguntar:
- Diga-me lá, Prantelhana, tem parentes nos Açores?
Não estou certo que Prantelhana soubesse exactamente onde ficam os Açores, mas a resposta foi peremptória:
- Não,  não tenho…  os meus pais são do Arco de Baúlhe e os meus tios vivem todos em Braga- respondeu  num balbúcio, que me fez acreditar que ela sabia a pergunta seguinte.
 A minha mãe cravou-me  um olhar ameaçador, prometedor de  represálias se eu ousasse prosseguir com o interrogatório, mas eu já decidira  não fazer mais perguntas  a Prantelhana nesse dia, para não a embaraçar. Apenas acrescentei:
- Sabe, é que a minha irmã tem uma amiga com esse nome e a avó dela era dos Açores, foi por isso que perguntei... desculpe a curiosidade!
O almoço prosseguiu sem incidentes, mas a questão continuava a atiçar-me os neurónios e um deles, mais teimoso e irreverente, quiçá tão curioso quanto eu, insistia:
- Pergunta! Pergunta! Pergunta!
Mandei o neurónio bugiar e fui à minha vida ( que àquela época, em tempo de férias natalícias, significava mais tempo para namoriscar, obviamente…)
Nas vésperas  de Natal , Prantelhana  foi de férias  para passar a quadra com a família.
Quando regressou, por altura do fim de ano, vinha muito bem disposta  e com muito mais à vontade do que até aí lhe notara. Um dia, terminado o jantar, enquanto servia o café, Prantelhana perguntou à minha mâe se podia falar  ( Os leitores mais jovens talvez estranhem estes hábitos, mas era assim mesmo a vida naquele tempo, quando os cravos  de Abril ainda não tinham florido nos canos das espingardas e as empregadas domésticas davam pelo nome de criada de servir, criada de quarto,  cozinheira ou mesmo... sopeira!)
Autorizada, Prantelhana uniu as mãos e, com os dedos em torvelinho e um rubor a espraiar-se-lhe na face, balbuciou:
- Eu disse aos meus pais que os senhores queriam saber porque é que eu tenho este nome e eu não lhes sabia dizer, porque eles também nunca me disseram
- Que ideia é essa, Prantelhana? Resmungou o meu pai, que desconhecia o que se passara ao almoço uns dias antes. Ninguém aqui lhe ia fazer uma pergunta dessas. Esse nome para nós não é desconhecido, uma amiga da menina Maria José também tem esse nome…
Os dedos de Prantelhana redemoinharam agitados num bailado nervoso, a face trigueira inundada por um mar vermelho descaiu sobre o seu peito e os olhos fixaram-se no chão. Envergonhados ou arrependidos? Não sei responder…
O meu pai, apercebendo-se da situação, emendou a trajectória a tempo…
-  Se quiser contar-nos nós apreciamos muito a sua confiança, Prantelhana, mas não se sinta na obrigação de nos dar explicações…
Os olhos  negros de Prantelhana voltaram a erguer-se  e, de uma assentada, Prantelhana explicou:
-  A minha mãe queria que eu me chamasse Maria do Amparo, mas o meu pai é muito esquecido e, quando foi  ao registo para botar o nome já não se lembrava do nome que a minha mãe lhe tinha dito. Quando lá lhe perguntaram ( na verdade Prantelhana dizia preguntaram) qual era o nome ele ficou atrapalhado e disse  “prante-lhe”* Ana, que é o nome da minha avó, mas a senhora do registo não percebeu bem e botou tudo junto. Foi por isso que fiquei Prantelhana…
Voltou a baixar os olhos, como que desculpando-se do seu próprio nome,  e pressenti uma lágrima rolar-lhe pela face. Pediu licença e foi para a cozinha.
Prantelhana  trabalhou em casa dos meus pais 35 anos.Teve namorado durante algum tempo mas nunca casou, porque descobriu que ele já era casado. Enganada, passou a "enxotar" qualquer homem que lhe fizesse a corte.  Tratou-me sempre por "menino", chorou a morte do meu pai e dos meus irmãos, como se de seus irmãos se tratassem. Cozinhava maravilhosamente e ainda hoje, na minha já pequena família, se recordam os seus dotes culinários. Sempre que eu ia ao Porto, fazia os pratos que eu mais gostava, invariavelmente dizia " hoje não me saiu bem" enquanto eu lambia os beiços deleitado. Prantelhana ( que  a seu pedido passou a ser  tratada por Ana) teve um fim trágico... 
Todos os anos passava as férias de verão na sua terra natal, próximo de Felgueiras, onde recebia os irmãos, emigrantes em França. Em 2003 foi passear com eles de automóvel e não regressou a casa.
Chorei a  sua morte como a de uma pessoa de família e ainda hoje penso como seria diferente a vida da minha mãe, na sua doença, se ela ainda fosse viva.
Esteja onde estiver, senhora Ana, os anjos devem estar deliciados com os seus pitéus. Se algum lhe fizer a corte, não o enjeite. Os anjos nunca se casam!
Um grande beijinho para si

* Para quem não saiba, "Prante-lhe"  é uma expressão que, pelo menos em algumas zonas do Norte, significa ponha aí, bote, etc. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Quem se expõe à chuva, molha-se!

imagem do Vilhena


Em Penacova, um sexagenário  reformado criou um e-mail falso com o nome de Mickael Carreira e convenceu várias mulheres entre os 20 e os 30 anos a despirem-se para uma webcam, em poses eróticas.
Durante dois anos, dezenas de mulheres  solteiras, casadas e divorciadas acederam ( O DN diz que caíram no engodo, o que me parece distorcido e abusivo, mas já lá irei...). 
O sexagenário, de 64 anos, foi apanhado pela PJ e ficou sujeito a termo de identidade e residência porque, a partir de deteminada altura, começou a ameaçar as jovens que se não se deixassem filmar em poses mais atrevidas e explícitas, publicaria na Internet o material já recolhido.
Não sei se o homem virá a ser condenado mas, se isso vier a acontecer, parece-me uma injustiça já que, inicialmente, as mulheres despiram-se por opção, não tendo sido coagidas a fazê-lo. Sendo mulheres adultas- algumas delas casadas- sabiam perfeitamente os riscos que corriam e só elas saberão explicar porque aceitaram a proposta. 
O que mais me preocupa nesta estória não são as vítimas(?), é o facto de o homem ter 64 anos e esta sua atitude poder vir a servir de pretexto para o governo aumentar a idade da reforma. Parece-me que já estou a ouvir Gaspar num conselho de ministros:
- Estão a ver como isto de pagar reformas só serve para criar vícios? Se o homem tem capacidade para atrair mulheres jovens, também tem capacidade para trabalhar. A partir de agora, as reformas devem passar para os 70 anos e só serão pagas a quem não tiver computador e provar que vai gozá-la num lar ou num banco de jardim. 



RM 4: Do cometa Halley à Primeira Guerra Mundial





A segunda década do século XX vai marcar o fim da superioridade da Europa no mundo e começa com a visita do cometa Halley (1910), como que anunciando as mudanças que irão ocorrer. As sufragistas começam a agitar-se ao ritmo do crescimento económico dos E.U.A., embaladas pela onda de euforia provocada pelo jazz e nem dão grande importância à invenção da batedeira eléctrica.



Em Portugal é implantada a República. D. Manuel II foge e Teófilo Braga é nomeado para a chefia de um governo provisório. Apesar das melhorias sociais, a República traz instabilidade ao País, com os governos a sucederem-se a um ritmo vertiginosos. Até 1926 o país assistirá a 20 revoluções e golpes de Estado, conhecerá 8 presidentes e 44 Governos.

Em África nasce um novo País denominado União Sul Africana que haverá de marcar a História com o regime de "apartheid" e no México Emiliano Zapata e Pancho Villa põem fim à ditadura de Porfírio Diaz .Entretanto, a China põe fim ao domínio dos Manchús e Sun Yat-Sen é indigitado primeiro-ministro.



Estávamos em 1911- ano em que Ronald Amundsen chega ao Pólo Sul e Strauss completava a ópera “O Cavaleiro da Rosa”- quando o Tango, nascido nos bordéis e bairros pobres deBuenos Aires, chega à Europa e deixa os franceses em êxtase. Os moralistas defenderam de imediato a sua proibição, por considerarem o tango uma música maldita. Enquanto a polémica alastrava pela Europa, com o Papa a considerar o tango imoral , o Kaiser a proibir os oficiais de a dançarem e a moda a revelar a influência do tango nas suas criações, ocorre a tragédia do Titanic e a descoberta da escultura de Nefertiti, no Egipto

Nesse ano de 1912,a iluminação das cidades conhecerá o néon, Jung irá pôr em causa a teoria da psicanálise deFreud e na Alemanha começa a ser escrita a novela Abelha Maia que se tornará um best sellermundial. Na China, Pu-Yi- o pequeno imperador que subira ao trono em 1908, com apenas três anos- abdica. Terá sido, provavelmente, o único grande líder mundial que ascendeu ao Poder e dele abdicou, sem nunca se ter apercebido do que estava a fazer. 
No ano seguinte (1913) , quando Marcel Proust publica o primeiro volume de “ A la Recherche du Temps Perdu” está o movimento sufragista no auge, o que justifica que num acesso temperamental, provocado por um pedido para que cortasse as batatas fritas mais finas, o cozinheiro francês Cartier"invente" as batatas fritas às rodelas. Mas as donas de casa têm outra razão para sorrir, pois nesse mesmo ano inicia-se o fabrico dos frigoríficos domésticos. O preço era ainda elevadíssimo e só algumas bolsas o alcançavam.




Caro era também o FORD T, mas mesmo assim o número de pedidos era inusitado. O tempo necessário para o fabricar - mais de 12 horas- dificulta a satisfação de muitos pedidos, mas Henry Ford, num passe de mágica, engendra a solução: aumenta os salários dos trabalhadores de 2 para 5 dólares diários e cria a linha de montagem contínua. Consegue produzir um carro em cada 93 minutos e reduzir o preço para metade. Estava dado o mote para "Tempos Modernos" de Charles Chaplin.
Mas antes de podermos ver esse prodígio do cinema, a Europa irá ouvir, durante quatro anos, o eco de um tiro disparado em Sarajevo. Eclodia a Primeira Guerra Mundial.
Nota: reedição. Ler etiqueta Avisos


quinta-feira, 18 de abril de 2013

RM (3): Um duelo à moda antiga, com Manifesto Futurista e Elektra de permeio




1909 é o primeiro ano do século terminado em 9.
Dizem os chineses que o 9 é símbolo de sorte, poder e riqueza. Stanley Ho – o magnata do jogo- gasta anualmente milhares de euros em Macau, para comprar as matrículas 99-99 para os seus carros, pois teme , se o não fizer, perder a preponderância que apesar de tudo ainda hoje tem no jogo daquele território.

No século XX, os anos terminados em 9 protagonizaram alguns dos acontecimentos mais marcantes do século, como o início da Segunda Guerra Mundial ( 1939) ou da Grande Depressão (1929). Como irá ser no século XXI?

Comecemos pelo ano de 1909 que, apesar de não ter sido um grande ano, proporcionou alguns acontecimentos dignos de registo.Assinale-se, para começar, que em Portugal o 25 de Abril desse ano fica marcado pela queda do governo. O motivo pode parecer-nos prosaico à luz dos dias de hoje mas, em 1909, era possível um deputado (Caeiro da Matta) acusar um ministro (Espergueira)  de burlão, por causa de um empréstimo feito aos Caminhos de Ferro do Estado e o assunto ser resolvido em duelo. O governo acaba por cair...

Um século mais tarde, o ministro Mário Lino irá reiterar a intenção do governo em avançar com o TGV, perante as críticas de Manuela Ferreira Leite, mas o assunto  resolveu-se com um duelo de palavras. A única ilacção que se pode tirar é que, um século depois daquele episódio, os portugueses continuam a ver passar os comboios.
D. Miguel renunciara à Coroa um mês antes e, em Benavente, no dia 23 de Abril, um terramoto provocara meia centena de mortos.


O mês de Abril fica ainda marcado pela realização, em Setúbal, do Congresso Republicano, de onde sairá um Directório composto por nomes ilustres como Teófilo Braga, José Relvas, Bernardino Machado, João Chagas e Afonso Costa. A queda da monarquia estava próxima e D. Manuel II é avisado por José Luciano, porque naquele tempo as revoluções ainda estavam sujeitas a aviso prévio.




O ano é marcado pelo lançamento, em Milão, do Manifesto Futurista de Marinetti. Apesar de ainda não haver desportos radicais, Marinetti invoca o amor pelo perigo e glorifica a guerra como higienizadora do mundo. As ideias de Marinetti chegarão a Portugal, anos mais tarde. Em 1917, Almada Negreiros e Santa - Rita Pintor lançarão, no teatro República, o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do século XX e, nesse mesmo ano, sairá a público a revista Portugal Futurista, onde emerge o nome de António Ferro.
O Manifesto fazia a apologia da velocidade e, embora ainda não houvesse Rali Dakar, nem circuitos de Fórmula 1, no Mónaco um barco a motor bate um record de velocidade, atingindo 66,42 kms/hora.
A revolução das ideias não se quedou pelo Manifesto. René de la Tour publica "Aphorismes de Politique Social", que serve de base ao corporativismo. A família, a oficina e as corporações são invocadas como a base de uma sociedade dependente de uma Lei de Deus. Como desgraçadamente sabemos, Salazar será um apreciador do modelo que ficará vertido na Constituição de 1933 e servirá de sustento ao Estado Novo.
Um século depois, o mundo aspira por novas ideias que ajudem à saída da crise social e de valores. O ano de 2009, porém, apenas acentuou uma crise que começara uns anos antes.
Como já referi, o Manifesto Futurista glorificava o perigo e, talvez movido por esses ideais,Robert E. Peary torna-se no primeiro homem a chegar ao pólo Norte, enquanto Louis Biérot é o primeiro a sobrevoar o canal da Mancha.
Passemos agora a acontecimentos mais prosaicos. Na Áustria, é inventado o isqueiro a gasolina com pedra. Uma invenção imprestável, como se pode reconhecer hoje, face às fundamentalistas leis anti-tabágicas.Mais útil foi a invenção da torradeira eléctrica, pois até que a União Europeia se lembre de decretar que as torradas fazem mal à saúde, ainda nos podemos deliciar com umas belas fatias de pão com manteiga, aquecidas e coradas naquele aparelho.
Nova Iorque assiste à estreia do primeiro filme a cores e em Dresden  estreia a Ópera Elektra de Richard Strauss


( Relembro os leitores que estes posts sobre a História século XX são a republicação de artigos publicados em 1999 em algumas revistas. Estão todos editados no CR)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Se queres conhecer o vilão...


( ou, parafraseando Gasset, cada um é a sua circunstância)

Maria de Lurdes viajava sempre de metro, porque tinha estação à porta de casa e à porta do local de trabalho.
Não mudou de casa, nem de emprego, mas agora faz exactamente o mesmo percurso conduzindo o seu automóvel.
O que mudou?- perguntam alguns leitores.
Não, não foi nenhum problema de saúde.  Também não mudou de horário, embora agora chegue mais tarde. Apenas mudou a sua circunstância.
Maria de Lurdes foi promovida em Fevereiro. Agora é  directora e (digo eu, à falta de explicação plausível…) não parece bem chegar de metro  ao trabalho. Director(a) que se preze tem de andar de cu tremido. De preferência com motorista e carro pago pelos contribuintes ( o que ainda não é o caso).
Há pequenos pormenores que definem as pessoas, não vos parece?

RM(2): Das Demoiselles d'Avignon ao Ford T


Em1906, ano em que a cidade de S. Francisco é abalada por forte terramoto e o Vesúvioentra em erupção, a noite de Natal vai ficar para a história da Humanidade - é nessa noite que, inesperadamente, nasce a rádio. A bordo de um barco, ao largo da costa de Nova Inglaterra, a tripulação escuta, atónita, um excerto do Evangelho de Lucas e uma gravação de Händel, acompanhada pelos votos de um Feliz Natal. O autor da proeza é Reginald Fessenden,um inventor canadiano que há muito sonhava com a proeza.
O estrondoso êxito da rádio, que haveria de marcar gerações ao longo do século, começa numa fria noite de Natal, mas aquecerá o Planeta durante décadas. Até ao aparecimento da televisão. Ao mesmo tempo,do outro lado do Atlântico, em Inglaterra, procede-se ao primeiro registo sonoro em filme, mas o ano não termina sem que a primeira máquina de fotocópiasveja a luz do dia e os pequenos almoços tenham outro sabor, com o aparecimento dos cereaisKellogs.
1907 vê nascer a máquina eléctrica de lavar roupa, mais uma invenção proveniente dos E.U.A., que recebe uma invasão de emigrantes da Europa do sul oriental. Ao chegarem a Nova Iorque, deparam com a Estátua da Liberdade onde está escrita a seguinte mensagem: “Vinde a mim, multidões cansadas e pobres com ânsia de respirar em Liberdade!” . Nascia assim, a publicidade à escala global. Mas o acontecimento do ano dá-se ainda em Paris, com a apresentação de um quadro de Picasso. O arrojo de Demoiselles d'Avignon provoca uma ruptura no mundo das Artes. Ali mesmo ao lado, um belga inventa um material revolucionário:a baquelite.
É chegada a altura de lembrar que a primeira década do século XX , apesar de alguma violência, foi bastante pacífica, com o fim da guerra dos Boeres e o fracasso da revolta dosBoxers. Ao contrário do que virá a acontecer um século depois, os europeus vivem em euforia e com desmesurada esperança no futuro, o que acabará por se reflectir no desenvolvimento das artes e das letras. Este período que mais tarde virá a ser apelidado de “Belle Époque”,terminará com a I Guerra Mundial, mas até lá Freud ainda tem tempo para desvendar os segredos do subconsciente.
Entretanto, enquanto a China se curva perante Pu Yi- o pequeno imperador que ainda não tem três anos quando sobe ao trono- , jovens turcos se sublevam contra o sultão Abdulhamit II e a Bósnia –Hergzovina é anexada pelo Império Austro-Húngaro, Portugal chora a morte do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe, assassinados pelos republicanos Buíça e Costa,dando lugar à subida ao trono do jovem D.Manuel II. Adivinhava-se o fim da monarquia com a ascensão da Carbonária a conquista da Câmara de Lisboa pelo Partido Republicano.



Estamos em 1908- cinco anos após ter nascido a Harley Davidson - e Henry Ford lança o FORD T, o primeiro automóvel para o homem comum. No mundo da moda é grande a agitação: as saias sobem até ao tornozelo, e os smokings e fraques destronam a velha casaca. Entretanto, um novo material para embalar alimentos aparece na Suíça- o celofane.Talvez não por acaso, é também neste ano que se assiste ao triunfo de Hollywood, onde Cecil B.de Mille roda o primeiro filme: “The Squaw Man”. Já tinha então nascido do outro lado do Atlântico e estava prestes a despontar para o estrelato um actor que viria a marcar uma época: Charles Chaplin dar-se-ia a conhecer ao mundo em 1915. A década termina com mais um invento destinado a facilitar a vida doméstica- a torradeira eléctrica. Não sem que antes um oficial americano ( Robert Peary) chegue ao Pólo Norte, o betão revolucione a arquitectura e as mulheres continuem a lutar pelo direito ao voto, o acesso ao trabalho e ao ensino superior. Mas isso faz parte de outra história, a que voltarei mais tarde.