segunda-feira, 8 de abril de 2013

El último cuplé de Sarita





Morreu hoje, aos 85 anos, a sensual Sara Montiel, que muitos ficaram a conhecer através de "La Violetera" ou "El último cuplé". Em sua homenagem, republico este post , escrito no CR em 2008

 Dança maldita, ou elixir da juventude?

Habituei-me, desde tenra idade, a conviver paredes meias com o fado e o samba, como símbolos musicais das duas pátrias que me conceberam e pariram.
O tango era encarado, no meio social portuense, como um género menor, uma “dança maldita” praticada nas “boîtes” por mulheres de mau porte, em missão de sedução libidinosa a clientes ocasionais. Enquanto jovem, descodificava o tango como uma dança erótica que acabava inevitavelmente na cama de uma qualquer pensão esconsa.
Claro que também o Povo dançava o tango nas sociedades recreativas... mas esse Povo, diziam-me, era “pobre e inculto”, tinha formas “animalescas” de se expressar e o tango mais não era do que a demonstração dessa realidade.
“Pobre Povo ignorante que não tem cultura para dançar coisas nobres como a valsa!”- lucubrava eu nos meus recatados momentos de reflexão, enquanto diante da pantalha assistia às aproximações entre o Poppey e a Olívia Palito.
A verdade é que nem sabia bem o que era o tango. Dançar “aquilo” era pecado e ponto final, invocava o pároco da minha freguesia que procurava cativar-me para o reino de Deus.
Foi aos 14 ou 15 anos que o tango entrou pela primeira vez na minha vida.
A par de Gardel, os discos de Sara Montiel entraram em profusão lá em casa e, ao ouvi-los, rapidamente percebi o sentido das palavras do velho pároco. Cada canção da “diva” me atiçava o rubor da adolescência. Percorrendo-me da cabeça aos pés, como um frémito, despertava-me os sentidos que as capas de alguns discos, de onde despontavam os seus seios nus, ainda mais acalentavam. Não havia dúvida...o tango era mesmo pecado! E as minhas visitas ao pároco, para a confissão mensal, começaram a ser mais espaçadas e esquivas.
Outros ritmos fizeram parte da minha adolescência. Arrecadei a Sara Montiel e o tango no baú das recordações com o rótulo “Música para velhos” ( ignorando deliberadamente os efeitos pecaminosos que pode provocar em adolescentes), e parti para outra.
Muitos anos mais tarde, já entrado na casa dos 40, razões profissionais levaram-me à Argentina, onde resolvi ficar seis meses, para além do 15 dias programados. O calor do povo argentino, aliado à inigualável presença das porteñas, fizeram-me remexer no baú das recordações e desenterrar as memórias sobre o tango.
Tornei-me cliente habitual da Feria de San Telmo - que todos os domingos anima a Plaza Dorrego - , onde vários pares levam os turistas a reviver a história do tango. Tornei-me frequentador do El Viejo Almacen, ponto de passagem obrigatório para qualquer turista que visite Buenos Aires e não seja indiferente ao tango. Assisti a espectáculos no velho café Tortoni, entrei nos teatros da Avenida Corrientes para ver todas as peças que havia sobre tango, afoito mergulhei na noite “proibida” de La Boca , pela entrada nobre do Camiñito. Perdi noites em tascas escondidas em vielas esconsas, onde “turista não entra”. Mas eu entrei...
A Laura, sabedora da minha paixão por tudo o que tem rótulo argentino e presenciando as minhas reacções durante as milongas a que me levou, convenceu-me que deveria ter umas aulas numa das muitas escolas de Buenos Aires. Fez o favor de me acompanhar ao longo de quatro ou cinco penosas sessões, ao fim das quais percebeu que o meu “pé de chumbo” se recusava a acompanhar o ritmo. Nunca mais ensaiei um único passo ( a não ser com a Laura que alguns conhecerão de posts anteriores escritos em Buenos Aires) mas todos os anos, quando regresso à Argentina, a minha preocupação é conhecer os novos locais onde há tangos e milongas.
Nos últimos anos, essa é uma tarefa ciclópica, pois o tango canta-se e dança-se em toda a parte, como se fosse tão essencial à vida dos porteños, como o simples acto de respirar. Ao entrar nesses locais sinto-me quase como um voyeur, pois nunca danço, mas renova-se em mim a frescura de uma adolescência perdida. O sangue ferve-me nas veias como quando ouvia os discos da Sara Montiel. Numa perfeita simbiose, sinto-me parte integrante de uma milonga. Numa palavra: rejuvenesço.
Será que o pároco da minha freguesia tinha mesmo razão, ou o tango é, apenas, o elixir da juventude? Talvez um bom psicanalista me saiba dar a resposta...

32 comentários:

  1. Carlos
    podem chamar-me o que quiserem: lamechas, pegas,idiota, não importa.
    Mas hoje sinto-me imensamente triste.
    Sarita foi o ídolo da minha adolescência; perdi o conto às vezes que vi e revi "La Violetera" e sabia todas as canções de cor e salteado.
    Todos os outros filmes dela me encantaram, principalmente "O Último Couplet".
    E como era linda, a Sarita, Deus meu.
    Estava com 85 anos, um pouco "louca", mas ela sempre foi assim, era uma deusa.
    Hoje sinto-me já saudoso.
    Adiós, "Nena, nenita"...

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    1. Sarita não foi o meu ídolo de juventude, João, ( foi a Françoise Hardy) mas como terás depreendido pelo meu post, partilho da tua opinião sobre a sua beleza. E também sabia algumas das suas canções de cor e salteado aos 14/15 anos.
      Abraço

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  2. Um texto que li pela primeira vez.
    Magnífico, permita que o diga.

    Sarita era o charme, a doçura, o encanto daquela geração.
    Nada há a acrescentar.

    R.I.P.

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    1. Subscrevo as suas palavras em relação à Sarita, Observador. Não sei se foi algum recalcamento que me levou a escolher o nome de Sara para a minha primeira afilhada, mas sei que ao redescobri-la, depois de a ter "abandonado" durante muitos anos, ficou sempre com um lugar reservado nas minhas memórias musicais e não só.
      Obrigado pelas palavras em relação ao texto.
      Abraço

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    2. A Sara Montiel morreu mesmo, ou foi mais uma brincadeira de algum jornal brasileiro, como foi a notícia da morte do actor americano?

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    3. Ó Ematejoca! Então acha que eu era capaz de brincar com coisas tão sérias?

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  3. Depois do Krimi, volto aqui para ler e comentar o texto.

    Até já!

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  4. Sara era a fama pela forma mais simples. Vi várias entrevistas e a maneira simples como ela falava era admirável. Uma linda mulher que queria ser feliz e viver. Um exemplo para muitas mulheres

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    1. Confesso que não conheço muito da vida de Sara Montiel, mas lembro-me que os meus pais também diziam que ela era uma mulher simples e até a comparavam à Amália, por isso...

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  5. A minha mãe sempre adorou música espanhola, Sara Montiel não era exceção! Mas nunca dancei o tango, na época da minha juventude já uma "cotice", quando primeiro os Beatles e depois os Bee Gees, os Pink Floyd ou os Genesis é que estavam na berra... ;)

    Mas tenho pena de não saber dançar o tango ou a valsa! E adorei o "recuerdo" patente no seu texto...

    Beijocas!

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    1. Dançar o tango, também nunca dancei, Teté, mas esforcei-me... depois dos 40:-))!
      Já quanto à valsa, apesar de ser "pé de chumbo" , diziam que eu tinha jeito, mas provavelmente era simpatia das minhas amigas.
      Estes recuerdos da Argentina mata-me aos poucos...
      Beijinhos

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  6. Também não sei dançar o tango... mas gosto de ver quem o dança :)

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    1. Também eu, Luísa. É uma dança de uma sensualidade extrema,cuja coreografia encaixa perfeitamente nas letras.

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  7. Sem dúvida, o elixir da juventude!

    Talvez em Luanda não fosse PECADO, pois fartei-me de o dançar.

    Adoro a sua sensualidade.

    Sara Montiel fez as delícias da minha juventude em noites quentes, nos bailes de garagem.

    Beijinhos.

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    1. Nos meus bailes de garagem, a música era outra e a Sarita não entrava. Era mais parecida com a música dosbailes da Teté... Também adoro a sensualidade do tango, Elisa, e tenho muita pena de nunca o ter conseguido dançar. Pé de chumbo não tem emenda, né?
      Beijinhos

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  8. Adoro ver dançar o Tango, então aqueles cruzamentos de pernas entre as pernas do cavalheiro...
    É tudo paixão.
    Curiosamente, faz hoje 12 anos que morreu uma pessoa, um alentejano muito especial que muito sabia de Tango...se fosse vivo teria sentido tristeza pela morte dela.
    xx

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    1. Aqueles cruzamentos de pernas, aqueles arrebiques de corpos abandonados em quase êxtase. Uff, Papoila, que já estou a transpirar! :-)

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  9. Também assinalei a sua partida no facebook!
    Até cheguei a cantar La Violetera! :-))

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    1. Eu "assassinei" muitas vezes La Violetera, Rosa. Quando estava no duche, para não se notar muito :-)

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  10. Não tenho ido aos treinos, mas o tango é coisa para não esquecer, e eu dançava-o muito bem, vaidade à parte.
    boa semana Carlos

    beijinhos e uma flor

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    1. Eu, como já disse, sou pé de chumbo, por isso, as minhas memórias tangueras são mais de observação, do que de prática, Flor
      Beijinhos e uma boa semana

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  11. Pensei que Sara Montiel fosse espanhola. O Carlos refere-se a ela como mexicana. Era mexicana?

    Que mulher bonita.

    Vou ouvir agora a “La Violetera”

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    1. Realmente era espanhola, Catarina ( nasceu perto de Ciudar Real). Isto de nem sempr rever os textos às vezes dá bronca. Fez grande parte da sua carreira no México e lá residiu, mas era espanhola. Obrigado pelo reparo.

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  12. Além de linda, era boa cantora esta espanhola.

    Que esteja em paz!

    Quanto a Thatcher não me regozigo com a sua morte , mas não a lamento e acho que a esta hora deverá estar junto a Pinochet e Reagan festejando as atrocidades que fizeram em vida.

    Uma serena noite, Carlos.

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    1. Também não me regozijo com a morte da Thtcher, São. Achei aliás de muito mau gosto os festejos que ocorreram em Inglaterra, mas não esqueço que foi ela a mãe da crise e que chamou terrorista a Mandela. Já devia ser um bocado deficiente mental, antes de ser atacada pelo Alzheimer. Por cá também temos políticos assim...
      Um bom dia, amiga São

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  13. Cada uma à sua maneira deixaram marcas, Carlos.

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    1. É verdade, Pedro. Margareth deixou marcas de morte e fome, Sarita mensagens de alegria e vida.

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  14. Percorreste a tua vida...ao som do tango...

    Um encanto!

    Beijinho

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  15. Só de nome conhecia Sara Montiel e quando tiver um bocadinho vou tentar ouvir as sugestões que retive do seu inspirado texto. Partilho do seu entusiasmo pelo tango, mas como mera espectadora pois, lamentavelmente, eu estava fora da cidade no dia em que Deus Nosso Senhor distribuiu a graciosidade para a dança. Não se pode ser perfeito ;)

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    1. Eu também sou apenas espectador, porque como bailarino sou um fiasco :-)
      Ao contrário de si, eu estava na cidade, mas Deus esqueceu-se de mim. Ele não pode atender a todos, né?
      Beijinho

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