quinta-feira, 18 de abril de 2013

RM (3): Um duelo à moda antiga, com Manifesto Futurista e Elektra de permeio




1909 é o primeiro ano do século terminado em 9.
Dizem os chineses que o 9 é símbolo de sorte, poder e riqueza. Stanley Ho – o magnata do jogo- gasta anualmente milhares de euros em Macau, para comprar as matrículas 99-99 para os seus carros, pois teme , se o não fizer, perder a preponderância que apesar de tudo ainda hoje tem no jogo daquele território.

No século XX, os anos terminados em 9 protagonizaram alguns dos acontecimentos mais marcantes do século, como o início da Segunda Guerra Mundial ( 1939) ou da Grande Depressão (1929). Como irá ser no século XXI?

Comecemos pelo ano de 1909 que, apesar de não ter sido um grande ano, proporcionou alguns acontecimentos dignos de registo.Assinale-se, para começar, que em Portugal o 25 de Abril desse ano fica marcado pela queda do governo. O motivo pode parecer-nos prosaico à luz dos dias de hoje mas, em 1909, era possível um deputado (Caeiro da Matta) acusar um ministro (Espergueira)  de burlão, por causa de um empréstimo feito aos Caminhos de Ferro do Estado e o assunto ser resolvido em duelo. O governo acaba por cair...

Um século mais tarde, o ministro Mário Lino irá reiterar a intenção do governo em avançar com o TGV, perante as críticas de Manuela Ferreira Leite, mas o assunto  resolveu-se com um duelo de palavras. A única ilacção que se pode tirar é que, um século depois daquele episódio, os portugueses continuam a ver passar os comboios.
D. Miguel renunciara à Coroa um mês antes e, em Benavente, no dia 23 de Abril, um terramoto provocara meia centena de mortos.


O mês de Abril fica ainda marcado pela realização, em Setúbal, do Congresso Republicano, de onde sairá um Directório composto por nomes ilustres como Teófilo Braga, José Relvas, Bernardino Machado, João Chagas e Afonso Costa. A queda da monarquia estava próxima e D. Manuel II é avisado por José Luciano, porque naquele tempo as revoluções ainda estavam sujeitas a aviso prévio.




O ano é marcado pelo lançamento, em Milão, do Manifesto Futurista de Marinetti. Apesar de ainda não haver desportos radicais, Marinetti invoca o amor pelo perigo e glorifica a guerra como higienizadora do mundo. As ideias de Marinetti chegarão a Portugal, anos mais tarde. Em 1917, Almada Negreiros e Santa - Rita Pintor lançarão, no teatro República, o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do século XX e, nesse mesmo ano, sairá a público a revista Portugal Futurista, onde emerge o nome de António Ferro.
O Manifesto fazia a apologia da velocidade e, embora ainda não houvesse Rali Dakar, nem circuitos de Fórmula 1, no Mónaco um barco a motor bate um record de velocidade, atingindo 66,42 kms/hora.
A revolução das ideias não se quedou pelo Manifesto. René de la Tour publica "Aphorismes de Politique Social", que serve de base ao corporativismo. A família, a oficina e as corporações são invocadas como a base de uma sociedade dependente de uma Lei de Deus. Como desgraçadamente sabemos, Salazar será um apreciador do modelo que ficará vertido na Constituição de 1933 e servirá de sustento ao Estado Novo.
Um século depois, o mundo aspira por novas ideias que ajudem à saída da crise social e de valores. O ano de 2009, porém, apenas acentuou uma crise que começara uns anos antes.
Como já referi, o Manifesto Futurista glorificava o perigo e, talvez movido por esses ideais,Robert E. Peary torna-se no primeiro homem a chegar ao pólo Norte, enquanto Louis Biérot é o primeiro a sobrevoar o canal da Mancha.
Passemos agora a acontecimentos mais prosaicos. Na Áustria, é inventado o isqueiro a gasolina com pedra. Uma invenção imprestável, como se pode reconhecer hoje, face às fundamentalistas leis anti-tabágicas.Mais útil foi a invenção da torradeira eléctrica, pois até que a União Europeia se lembre de decretar que as torradas fazem mal à saúde, ainda nos podemos deliciar com umas belas fatias de pão com manteiga, aquecidas e coradas naquele aparelho.
Nova Iorque assiste à estreia do primeiro filme a cores e em Dresden  estreia a Ópera Elektra de Richard Strauss


( Relembro os leitores que estes posts sobre a História século XX são a republicação de artigos publicados em 1999 em algumas revistas. Estão todos editados no CR)

6 comentários:

  1. Para quem ama História ( ao contrário do pacóvio Camilo Lourenço) estes posts são uma delícia.

    Por isso, o meu grato abraço, amigo.

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  2. Se calhar estamos a passar uma fase em que não seria mau aparecer um revolução de ideias.

    Duelos à antiga, será que seriam resolução para alguns dos problemas que temos hoje? Aparentemente actualmente tentar acusar pessoas de poder de roubos a grande escala parece uma utopia...

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  3. Belissimo!
    Mas caramba as letras são pequeninas e os meus olhitos começam a ficar fracos, tive dificuldade, mas li e adorei.
    E por falar na Manuela Ferreira Leite está a dar uma entrevista com ela neste momento na TV.

    beijinho e uma flor

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  4. O Stanley tem o 9 porque significa infinito, Carlos.
    Riqueza infinita.
    O número de sorte no cantonês é o 8, de fat, riqueza.

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  5. Estou a adorar estas tuas crónicas de história e cultura!

    Uma maravilha!

    Beijinhos.

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