terça-feira, 2 de abril de 2013

Terra Prometida

Qual é o teu preço?



Ao contrário do que já li por aí, Terra Prometida, de Gus Van Sant, não é um filme sobre questões ambientais, embora elas estejam no centro de toda a trama.
Quando  Matt Damon chega a uma esconsa localidade da Pensilvânia, com o intuito de aliciar os habitantes a concederem licenças à  empresa onde trabalha, para exploração do gás natural, não são questões ambientais que inicialmente se colocam. É o espelho da sociedade em que vivemos, dominada pela ganância e pelo poder do dinheiro. Cada habitante tem o seu preço e a função de quem compra é perceber por quanto estará disposto a vender-se.
A questão ambiental coloca-se quando um engenheiro reformado alerta  a população para os efeitos nefastos da exploração do gás natural, na produção das suas terras.
A partir daí começa o jogo duplo.  Das multinacionais que, conhecendo o terreno que pisam e as dificuldades que se podem deparar,  recorrem a estratagemas sofisticados para desmascarar os ambientalistas e por em causa a sua credibilidade, em proveito próprio. Dos amores de uma professora repartidos entre um ambientalista forjado  e um vendedor de ilusões. Da frieza e realismo  profissional de Frances Mc Dormand ( a colega de Matt Damon que com ele tenta convencer os habitantes locais) e das incertezas crescente do protagonista. 
De tudo isto poderia resultar uma xaropada ( é essa a opinião de alguns críticos do filme), mais um daqueles filmes onde os maus são vencidos pelos bons, onde a sensibilidade  vence a racionalidade. 
Só que, em minha opinião, o filme é bastante mais do que isso.
O que de mais importante nos traz é aquilo que lá está, mas Gus Van Sant não quis explorar de forma mais aprofundada: o modelo de desenvolvimento insustentável  assente na exploração de pessoas desinformadas que, seduzidas por lucros fáceis, se deixam facilmente enredar nos argumentos do vendedor que lhes promete um futuro radioso.  Nada de novo, se pensarmos que os mesmos problemas se colocaram quando emergiu, em força, o turismo de massas e milhares de localidades paradisíacas, por esse mundo fora, foram descaracterizadas pela invasão do betão, sem cuidar das suas implicações. Ah, pois, o Algarve! 
Sim, mas também  as ilhas gregas, os paraísos asiáticos da Tailândia, das Maldivas ou das Filipinas; o Nordeste do Brasil, a Patagónia, a costa espanhola, os campos de golfe a crescerem como cogumelos e tudo onde a indústria do turismo encontrou um manancial de lucro. Quantas paisagens foram destruídas, quantas aldeias, vilas e lugares foram descaracterizados em nome do progresso? Que restou de tantas delas após alguns anos de desenvolvimento e enriquecimento?  
Hoje já todos percebemos que a indústria do turismo arruinou inúmeras  paisagens,  destruiu milhões de hectares de terrenos agrícolas, tradições, actividades artesanais e negócios  em troca do prazer de um guarda sol à beira mar.  Ainda estaremos longe de perceber que o modelo de desenvolvimento , por vezes assente em promessas de  sustentabilidade, esconde  resultados insustentáveis e nem tudo o que se anuncia  verde e ecologicamente puro é verdade.
Estas questões estão no filme, mas Gus van Sant preferiu ( talvez porque o argumento não seja dele, mas sim de Matt Damon)  abordá-los pela rama e reduzir a questão a um jogo de duplicidades. Depois misturou-lhe uma pitada de  romance de cordel ( que final mais infeliz, santo Deus!) e impingir-nos a ideia de que afinal, foram felizes para sempre. O embuste passou pela rama e isso é pena, mas ele está lá para quem o quiser ver, discutir e aprofundar. Só por isso, vale a pena ver.

6 comentários:

  1. Convenceu-me! Mesmo que os temas possam não ter sido aprofundados, já é bom que se foquem, sem falsos pudores. No fundo, do seu relato, o que me pareceu é que o filme trata de uma vertente negativa do capitalismo... ;)

    Irei ver!

    Beijocas!

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  2. Oi Carlos!
    Não vi o filme (o cineminha daqui...)
    Por sua bela reflexão fiquei curiosa.
    Quanto ao turismo, parece que todas as facas possuem dois gumes: a procura desenfreada dos turistas por novas "Terras Prometidas", e a procura de locais por novas fontes de renda.
    Abraço do sudeste brasileiro.

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  3. Já fui um viciado cinéfilo. Hoje estou reformado!
    Um grande abraço amigo Carlos

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  4. Para ver quando aqui passar.
    E, depois, comentar.

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  5. Esta coisa de termos sempre um preço é coisa que me aflige.

    Quanto ao tema do filme, a maioria não gosta de finais infelizes, que espravas?

    Mas, se te deu que pensar e ir mais além cumpriu a sua função.

    Beijinho

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