domingo, 14 de abril de 2013

Vidas Cruzadas


Quando a meio da manhã liguei o telemóvel tinha uma mensagem urgente do Jaime.
Liguei-lhe
- Podes almoçar comigo hoje? Tinha urgência em falar contigo.
- Ok. Pode ser por volta das duas?
- Está bem. Encontramo-nos na Casa do Refúgio?
-Tás maluco? Achas que vou para o Alentejo a esta hora para almoçar contigo? Ainda por cima parto amanhã para Buenos Aires!
(Gargalhadas do lado de lá)
- Eh, pá! Não conheces a Casa do Refúgio no Bairro Azul?
Não conhecia, mas o Jaime lá me deu as coordenadas e às duas horas, pontualmente, estávamos os dois a chegar à porta.
Devo dizer-vos que, para mim, a Casa do Refúgio era um segredo bem guardado de Lisboa. Entra-se por uma pequena porta , descem-se alguns degraus , do lado direito há duas ou três mesas e à esquerda um bar que serve de antecâmara à sala de repastos, de decoração agradável , àquela hora ainda praticamente cheia.
 A lista é pequena,  os pratos do dia ( 3 de peixe e outros tantos de carne) a um preço módico e a frequência maioritariamente  composta por advogados  dos escritórios adjacentes.
Bem, mas não é para fazer publicidade ao restaurante, nem falar da amesendagem, que escrevo este post.
Acontece é que, assim que entrei no restaurante, percebi que conhecia o homem que estava atrás do bar e fiz o Jaime saber disso, esperando que ele me desse uma pista. Ele apenas me soube informar que era o proprietário do espaço.
Como  pressentira, a urgência  do Jaime era falar-me sobre o período difícil que o seu casamento atravessa. Já estou habituado a que maridos de amigas minhas me escolham para confidente em período de crise...
Conversámos  durante quase duas horas e, na altura da conta, foi o proprietário que a trouxe. Reparei que me olhou fixamente, como quem procurava localizar-me noutro local e noutro período da vida.
Quando regressou, perguntou-me:
- Desculpe a pergunta, mas o senhor não é irmão do Manuel de Oliveira?
- Sou.
- Bem me parecia! Eu sou o Nélson, empregado do Alemerindo’s.  Lembro-me perfeitamente de ir lá com o seu irmão.
- Sim, quando calhava estarmos os dois em Lisboa ao domingo, era lá que íamos jantar…
- E comiam sempre o bife, bebiam uma garrafa de Esteva e depois ficavam a beber uns copos e a conversar naquele ambiente familiar que é a imagem de marca das noites de domingo do Almerindo’s.
Fiquei estupefacto. O meu irmão morreu há 20 anos e, desde então, nunca mais entrei naquele bar, porque me traz recordações amargas. Como é que ele se lembrava de mim?
Só que ele não se lembrava apenas de mim. Lembrava-se das pessoas que estavam lá connosco. As que eram figuras públicas, como o Solnado, o Nicolau, ou o Aventino, mas também namoradas  anónimas que por vezes nos acompanhavam naqueles serões de domingo.
O Jaime tinha de se ir embora mas eu tinha a tarde por minha conta e o Nelson convidou-me para beber um uísque.
 Durante o dia não costumo beber mais do que o copo de vinho ao almoço, mas a conversa  cheia de recordações ( algumas delas  estavam completamente varridas  para debaixo do tapete da minha memória) estava a agradar-me e aceitei. Ficámos a conversar durante quase duas horas. Quando  estava quase a despedir-me ele disse-me:
- Sabe quem costuma ir ao Armindo's muitas vezes?
-…?
- A Gracinha!
- Quem, a Graça S?
- Sim, essa mesmo. Ainda se lembra dela, não lembra?
- Claro que lembro. Ainda é uma das minhas boas amigas, embora  ultimamente esteja com ela poucas vezes.
-   Ela vai lá sempre  ao fim do dia, ou à noite, com o dr. Leonardo que tem escritório aqui ao lado. Têm um caso já antigo, mas o dr Leonardo é casado e não deixa a mulher nem por nada.  Pelo menos consta que é por causa da mulher, mas eu não sei de nada…
- Pois, eu também não…
Despedi-me com a promessa de voltar. No caminho de regresso, enquanto percorria a pé  a Duque d’Ávila em direcção ao Saldanha,  trazia uma série de recordações e um problema intrincado para resolver:
O Jaime,  decidido a romper o casamento, mas  preocupado em não magoar a mulher com a confissão de se ter apaixonado por outra, pedira-me um conselho:
- Tu conhece-la há muitos mais anos do que eu, Carlos! Não sei se, ao ser sincero com ela, a vou magoar.
Causa-me alguma apreensão  um tipo que vive há 15 anos com uma mulher de que eu sou apenas amigo de juventude e estive sem ver durante anos, imaginar que eu conheça melhor as reacções da mulher do que ele, mas quando essa mulher se chama Graça S e, supostamente, tem um amante, o caso é ainda mais intrincado!
Ando a dormir sobre o assunto…
( Aviso: a história é verdadeira, por isso, troquei propositadamente os nomes das pessoas e dos  locais)




41 comentários:

  1. Não conheço bem Lisboa mas parece um bairro familiar...

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    1. Familiar e recomendável, mas com muita dificuyldade de estacionamento

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  2. E a Graça S um dia destes vai convidá-lo para se aconselhar consigo: Será que o Carlos acha que o Jaime se vai sentir muito magoado se ela o deixar?

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    1. Antes de mais, é um prazer vê-la por aqui, Sun Iou Miou. Já tinha saudades suas!
      Claro que não. Aliás, foi curtir para longe de Portugal,,,

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  3. Verdadeira ou não, está história é um encanto.

    Os homens são muito infantis.
    Com que então, o Jaime tem medo de magoar a pobre mulher?
    Enquanto, a infeliz goza à brava com o Dr. Leonardo, que deve ter "qualidades" muito melhores do que as do marido.

    Se eu realizasse um filme com esta história, a mulher, que o Leonardo não quer deixar, seria a amante do Jaime e, teria um "happy end": as duas mulheres encontram-se na Casa do Refúgio, riem-se sobre o caso, pois entretanto já abandonaram os maridos versus amantes e estão felizes com os seus novos companheiros: muito mais novos e muito mais potentes.

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    1. E eu a pensar que a Ematejoca não gostava de histórias com final feliz!

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  4. Vidas mais que cruzadas…
    Estou com a Ematejoca… A infantilidade (termo demasiado leve para o meu gosto, neste caso! : ) ) do Jaime surpreende-me. : )

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    1. Não sei se será infantilidade, Catarina. Talvez tenha um outro nome menos benigno, mas não é caso raro...

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  5. E deve ser bem difícil dar o tipo de conselhos que o Jaime quer...

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  6. rrrsss rrssss

    Talvez seja bom nem te meteres nisso, de tão delicado e estranho que é ou que, pelo menos, a mim me parece...

    E Pedro não tem nem vergonha nem carácter nem nada!!

    Boa semana, Carlos

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    1. Quem é o Pedro?

      Não encontrei nenhum Pedro nesta história, São, e li-a duas vezes!!!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Obrigada pela informação, Catarina.

      A São não dá tréguas aos nossos políticos.

      Depois de ler esta história cheguei à conclusão, que há muitos homens por aí, sem carácter e sem vergonha e, que nem sequer fazem parte do actual governo.

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    4. Eh, eh eh! Já viste a confusão que arranjaste com a inclusão do Pedro neste comentário, São?
      Tem um bom dia

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    5. O Pedro é doutro filme, Ematejoca. A São estava a comentar um post do CR :-)))
      Não sabia que havia muitos homens sem carácter fora do governo? Não há ssim tantos cargos para preencher, valha-me Deus :-)

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  7. Bom, certo é que o casamento do Jaime e da Graça já foi chão que deu uvas... Porque cada um a dar a sua "facadinha" para seu lado, é sinal que o que os unia desapareceu... :)

    Mas estou como a Ematejoca, que infantilidade é essa de ir pedir conselhos aos amigos? Tenho várias amigas divorciadas e nunca nenhuma andou a pedir conselhos a ninguém! :)

    Beijocas!

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    1. Nesta história, aquilo que mais me impressionou, nem foram as "facadinhas" dos protagonistas.

      Que homem é esse tal Jaime, que vai pedir conselhos a um amigo da mulher que quer abandonar?
      Mesmo se o Carlos fosse amigo dele, achava a cena ridícula, mas que o Carlos seja amigo da mulher é o máximo da idiotice.

      Como não quero ser sempre a má da fita, usei o termo infantilidade, mas tinha um termo muito mais forte na ponta da língua.

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    2. Como digo, não percebo a razão de ser tantas vezes solicitado. Ainda por cima, porque nunca fui especilamente amigo do Jaime... mas fiquei confortado ao ler o comentário do João Roque. Felizmente, não sou a única vítima :-)
      Mas olhe que também já tenho sido solicitado por mulheres, Teté... Não sei se me vêem como terapeuta familiar, mas eu já abandonei a psicologia há muitos anos!
      Beijinhos

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    3. Solte lá a língua, Ematejoca! faz-lhe bem à bílis e ninguém aqui vai ficar zangado. Eu nem me zanguei quando me chamou ( e a todos os portugueses ) ladrão num comentário no CR! (Foi no sábado, mas só ontem à noite é que li...)

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  8. Vidas cruzadas e duplas!!! Quase um enredo de novela!

    Um anjinho, o teu amigo.

    Eu não me metia no assunto!

    Beijinhos.

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  9. Já diz o velho ditado "entre marido e mulher não se mete a colher"!

    beijinho e uma flor

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    1. Ora nem mais... estou plenamente de acordo, Flor
      Beijinho

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  10. A vida tem destas coisas.

    O melhor É os adultos resolverem as suas questões.
    Se já existem amores escondidos das 2 partes envolvidas, não estou a ver porque não sejam sinceros.

    Mas, nunca se sabe o sentimento que cabe em cada um.

    De qualquer das formas aconselho que nada faças de forma a perder amigos.
    É que a vida dá muitas voltas, demasiadas, às vezes...

    Beijinho

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    1. Felizmente, a idade foi-me dando experiência nessa matéria, mas quando era um jovem "inconsciente" caí algumas vezes na esparrela e tramei-me. Agora, como diz o povo, "gato escaldado, de água fria tem medo"
      Beijinho

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  11. Eu estou entre a vontade de rir e a vontade de chorar!!!:)))
    Ele tem medo de a magoar????
    Nesta altura do campeonato já devem estar ambos muito magoados e além disso o fim de uma relação é sempre triste.
    Não há conselho possível...
    Haja saúde.

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    1. O importante nesta matéria ( no que a mim respeita) é ter muita cautela e não se envolver pois, como já disse a Flor, entre marido e mulher....

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  12. Mas que balaio de gato, Carlos!
    Imagina se o cara fica e escuta tudo...

    Ótima semana.

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    1. Balaio de gato? Adorei!
      Não há problema, o cara está longe, Cristina
      Beijinho e boa semana

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  13. Eu vou pelo que diz a Adélia.
    Sem tirar nem pôr!
    Boa semana!

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  14. Eu também sou variadas vezes promovido a "pára raios" de afectos em crise.
    Deve ser da idade...

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    1. O teu comentário reconfortou-me, por saber que não sou o único, João.
      Também penso que seja da idade, mas naquela altura creio que o facto de a minha formação ser em Psicologia, convencia muitas pessoas que eu era terapeuta familiar!

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  15. As recordações são sempre um óptimo argumento para longas e boas conversas... Sobretudo se forem boas.
    Estranho sempre que as pessoas vivam tanto tempo juntas e cheguem à conclusão que não se conhecem...
    Uma nota... Obrigado pela palavra nova que aprendi hoje "amesendagem" :)

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    1. Neste caso, as boas recordações ficaram-se pela conversa com o dono do restaurante e com a minha partida para Buenos Aires no dia seguinte:-)

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  16. Eu quero sempre acreditar que, por detrás do aspecto cinzento e enfastiado das pessoas que vemos por aí, se escondem histórias de amores cruzados, paixões escondidas e traições insuspeitas - com a ressalva, é claro, de não ser eu própria a vítima, eheheh! Esta sua história, tão bem escrita, prova isso mesmo... Só não gostei foi de saber que o adúltero está todo contente em Londres com a namoradinha ao passo que a adúltera ficou a ver navios: nem marido, nem amante, nem nada! Ai, ai.
    Beijinhos!

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  17. É a vida, Salomé! No fundo, as coisas mudaram bastante menos nas relações entre os casais, do que às vezes imaginamos.
    Beijinhos

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