Quando a meio da manhã liguei o telemóvel tinha uma mensagem urgente do Jaime.
Liguei-lhe
- Podes almoçar comigo hoje? Tinha urgência em falar contigo.
- Ok. Pode ser por volta das duas?
- Está bem. Encontramo-nos na Casa do Refúgio?
-Tás maluco? Achas que vou para o Alentejo a esta hora para almoçar contigo? Ainda por cima parto amanhã para Buenos Aires!
(Gargalhadas do lado de lá)- Eh, pá! Não conheces a Casa do Refúgio no Bairro Azul?
Não conhecia, mas o Jaime lá me deu as coordenadas e às duas horas, pontualmente, estávamos os dois a chegar à porta.
Devo dizer-vos que, para mim, a Casa do Refúgio era um segredo bem guardado de Lisboa. Entra-se por uma pequena porta , descem-se alguns degraus , do lado direito há duas ou três mesas e à esquerda um bar que serve de antecâmara à sala de repastos, de decoração agradável , àquela hora ainda praticamente cheia.
A lista é pequena, os pratos do dia ( 3 de peixe e outros tantos de carne) a um preço módico e a frequência maioritariamente composta por advogados dos escritórios adjacentes.
Bem, mas não é para fazer publicidade ao restaurante, nem falar da amesendagem, que escrevo este post.
Acontece é que, assim que entrei no restaurante, percebi que conhecia o homem que estava atrás do bar e fiz o Jaime saber disso, esperando que ele me desse uma pista. Ele apenas me soube informar que era o proprietário do espaço.
Como pressentira, a urgência do Jaime era falar-me sobre o período difícil que o seu casamento atravessa. Já estou habituado a que maridos de amigas minhas me escolham para confidente em período de crise...
Conversámos durante quase duas horas e, na altura da conta, foi o proprietário que a trouxe. Reparei que me olhou fixamente, como quem procurava localizar-me noutro local e noutro período da vida.
Quando regressou, perguntou-me:- Desculpe a pergunta, mas o senhor não é irmão do Manuel de Oliveira?
- Sou.
- Bem me parecia! Eu sou o Nélson, empregado do Alemerindo’s. Lembro-me perfeitamente de ir lá com o seu irmão.
- Sim, quando calhava estarmos os dois em Lisboa ao domingo, era lá que íamos jantar…
- E comiam sempre o bife, bebiam uma garrafa de Esteva e depois ficavam a beber uns copos e a conversar naquele ambiente familiar que é a imagem de marca das noites de domingo do Almerindo’s.
Fiquei estupefacto. O meu irmão morreu há 20 anos e, desde então, nunca mais entrei naquele bar, porque me traz recordações amargas. Como é que ele se lembrava de mim?
Só que ele não se lembrava apenas de mim. Lembrava-se das pessoas que estavam lá connosco. As que eram figuras públicas, como o Solnado, o Nicolau, ou o Aventino, mas também namoradas anónimas que por vezes nos acompanhavam naqueles serões de domingo.
O Jaime tinha de se ir embora mas eu tinha a tarde por minha conta e o Nelson convidou-me para beber um uísque.
Durante o dia não costumo beber mais do que o copo de vinho ao almoço, mas a conversa cheia de recordações ( algumas delas estavam completamente varridas para debaixo do tapete da minha memória) estava a agradar-me e aceitei. Ficámos a conversar durante quase duas horas. Quando estava quase a despedir-me ele disse-me:
- Sabe quem costuma ir ao Armindo's muitas vezes?
-…?
- A Gracinha!
- Quem, a Graça S?
- Sim, essa mesmo. Ainda se lembra dela, não lembra?
- Claro que lembro. Ainda é uma das minhas boas amigas, embora ultimamente esteja com ela poucas vezes.
- Ela vai lá sempre ao fim do dia, ou à noite, com o dr. Leonardo que tem escritório aqui ao lado. Têm um caso já antigo, mas o dr Leonardo é casado e não deixa a mulher nem por nada. Pelo menos consta que é por causa da mulher, mas eu não sei de nada…- Pois, eu também não…
Despedi-me com a promessa de voltar. No caminho de regresso, enquanto percorria a pé a Duque d’Ávila em direcção ao Saldanha, trazia uma série de recordações e um problema intrincado para resolver:
O Jaime, decidido a romper o casamento, mas preocupado em não magoar a mulher com a confissão de se ter apaixonado por outra, pedira-me um conselho:
- Tu conhece-la há muitos mais anos do que eu, Carlos! Não sei se, ao ser sincero com ela, a vou magoar.
Causa-me alguma apreensão um tipo que vive há 15 anos com uma mulher de que eu sou apenas amigo de juventude e estive sem ver durante anos, imaginar que eu conheça melhor as reacções da mulher do que ele, mas quando essa mulher se chama Graça S e, supostamente, tem um amante, o caso é ainda mais intrincado!
Ando a dormir sobre o assunto…
( Aviso: a história é verdadeira, por isso, troquei propositadamente os nomes das pessoas e dos locais)
Não conheço bem Lisboa mas parece um bairro familiar...
ResponderEliminarFamiliar e recomendável, mas com muita dificuyldade de estacionamento
EliminarE a Graça S um dia destes vai convidá-lo para se aconselhar consigo: Será que o Carlos acha que o Jaime se vai sentir muito magoado se ela o deixar?
ResponderEliminarAntes de mais, é um prazer vê-la por aqui, Sun Iou Miou. Já tinha saudades suas!
EliminarClaro que não. Aliás, foi curtir para longe de Portugal,,,
Verdadeira ou não, está história é um encanto.
ResponderEliminarOs homens são muito infantis.
Com que então, o Jaime tem medo de magoar a pobre mulher?
Enquanto, a infeliz goza à brava com o Dr. Leonardo, que deve ter "qualidades" muito melhores do que as do marido.
Se eu realizasse um filme com esta história, a mulher, que o Leonardo não quer deixar, seria a amante do Jaime e, teria um "happy end": as duas mulheres encontram-se na Casa do Refúgio, riem-se sobre o caso, pois entretanto já abandonaram os maridos versus amantes e estão felizes com os seus novos companheiros: muito mais novos e muito mais potentes.
E eu a pensar que a Ematejoca não gostava de histórias com final feliz!
EliminarVidas mais que cruzadas…
ResponderEliminarEstou com a Ematejoca… A infantilidade (termo demasiado leve para o meu gosto, neste caso! : ) ) do Jaime surpreende-me. : )
Não sei se será infantilidade, Catarina. Talvez tenha um outro nome menos benigno, mas não é caso raro...
Eliminar
ResponderEliminarAH! Ainda me consigo espantar!
Beijo
Laura
Eu também, Laura!
EliminarBeijo
E deve ser bem difícil dar o tipo de conselhos que o Jaime quer...
ResponderEliminarO melhor é mesmo ficar calado, Luísa...
Eliminarrrrsss rrssss
ResponderEliminarTalvez seja bom nem te meteres nisso, de tão delicado e estranho que é ou que, pelo menos, a mim me parece...
E Pedro não tem nem vergonha nem carácter nem nada!!
Boa semana, Carlos
Quem é o Pedro?
EliminarNão encontrei nenhum Pedro nesta história, São, e li-a duas vezes!!!
Pedro Passos Coelho. : )
EliminarEste comentário foi removido pelo autor.
EliminarObrigada pela informação, Catarina.
EliminarA São não dá tréguas aos nossos políticos.
Depois de ler esta história cheguei à conclusão, que há muitos homens por aí, sem carácter e sem vergonha e, que nem sequer fazem parte do actual governo.
Eh, eh eh! Já viste a confusão que arranjaste com a inclusão do Pedro neste comentário, São?
EliminarTem um bom dia
O Pedro é doutro filme, Ematejoca. A São estava a comentar um post do CR :-)))
EliminarNão sabia que havia muitos homens sem carácter fora do governo? Não há ssim tantos cargos para preencher, valha-me Deus :-)
Bom, certo é que o casamento do Jaime e da Graça já foi chão que deu uvas... Porque cada um a dar a sua "facadinha" para seu lado, é sinal que o que os unia desapareceu... :)
ResponderEliminarMas estou como a Ematejoca, que infantilidade é essa de ir pedir conselhos aos amigos? Tenho várias amigas divorciadas e nunca nenhuma andou a pedir conselhos a ninguém! :)
Beijocas!
Nesta história, aquilo que mais me impressionou, nem foram as "facadinhas" dos protagonistas.
EliminarQue homem é esse tal Jaime, que vai pedir conselhos a um amigo da mulher que quer abandonar?
Mesmo se o Carlos fosse amigo dele, achava a cena ridícula, mas que o Carlos seja amigo da mulher é o máximo da idiotice.
Como não quero ser sempre a má da fita, usei o termo infantilidade, mas tinha um termo muito mais forte na ponta da língua.
Como digo, não percebo a razão de ser tantas vezes solicitado. Ainda por cima, porque nunca fui especilamente amigo do Jaime... mas fiquei confortado ao ler o comentário do João Roque. Felizmente, não sou a única vítima :-)
EliminarMas olhe que também já tenho sido solicitado por mulheres, Teté... Não sei se me vêem como terapeuta familiar, mas eu já abandonei a psicologia há muitos anos!
Beijinhos
Solte lá a língua, Ematejoca! faz-lhe bem à bílis e ninguém aqui vai ficar zangado. Eu nem me zanguei quando me chamou ( e a todos os portugueses ) ladrão num comentário no CR! (Foi no sábado, mas só ontem à noite é que li...)
EliminarVidas cruzadas e duplas!!! Quase um enredo de novela!
ResponderEliminarUm anjinho, o teu amigo.
Eu não me metia no assunto!
Beijinhos.
Nem eu, Elisa...
EliminarBeijinhos
Já diz o velho ditado "entre marido e mulher não se mete a colher"!
ResponderEliminarbeijinho e uma flor
Ora nem mais... estou plenamente de acordo, Flor
EliminarBeijinho
A vida tem destas coisas.
ResponderEliminarO melhor É os adultos resolverem as suas questões.
Se já existem amores escondidos das 2 partes envolvidas, não estou a ver porque não sejam sinceros.
Mas, nunca se sabe o sentimento que cabe em cada um.
De qualquer das formas aconselho que nada faças de forma a perder amigos.
É que a vida dá muitas voltas, demasiadas, às vezes...
Beijinho
Felizmente, a idade foi-me dando experiência nessa matéria, mas quando era um jovem "inconsciente" caí algumas vezes na esparrela e tramei-me. Agora, como diz o povo, "gato escaldado, de água fria tem medo"
EliminarBeijinho
Eu estou entre a vontade de rir e a vontade de chorar!!!:)))
ResponderEliminarEle tem medo de a magoar????
Nesta altura do campeonato já devem estar ambos muito magoados e além disso o fim de uma relação é sempre triste.
Não há conselho possível...
Haja saúde.
O importante nesta matéria ( no que a mim respeita) é ter muita cautela e não se envolver pois, como já disse a Flor, entre marido e mulher....
EliminarMas que balaio de gato, Carlos!
ResponderEliminarImagina se o cara fica e escuta tudo...
Ótima semana.
Balaio de gato? Adorei!
EliminarNão há problema, o cara está longe, Cristina
Beijinho e boa semana
Eu vou pelo que diz a Adélia.
ResponderEliminarSem tirar nem pôr!
Boa semana!
Já somos dois, Pedro.
EliminarBoa semana
Eu também sou variadas vezes promovido a "pára raios" de afectos em crise.
ResponderEliminarDeve ser da idade...
O teu comentário reconfortou-me, por saber que não sou o único, João.
EliminarTambém penso que seja da idade, mas naquela altura creio que o facto de a minha formação ser em Psicologia, convencia muitas pessoas que eu era terapeuta familiar!
As recordações são sempre um óptimo argumento para longas e boas conversas... Sobretudo se forem boas.
ResponderEliminarEstranho sempre que as pessoas vivam tanto tempo juntas e cheguem à conclusão que não se conhecem...
Uma nota... Obrigado pela palavra nova que aprendi hoje "amesendagem" :)
Neste caso, as boas recordações ficaram-se pela conversa com o dono do restaurante e com a minha partida para Buenos Aires no dia seguinte:-)
EliminarEu quero sempre acreditar que, por detrás do aspecto cinzento e enfastiado das pessoas que vemos por aí, se escondem histórias de amores cruzados, paixões escondidas e traições insuspeitas - com a ressalva, é claro, de não ser eu própria a vítima, eheheh! Esta sua história, tão bem escrita, prova isso mesmo... Só não gostei foi de saber que o adúltero está todo contente em Londres com a namoradinha ao passo que a adúltera ficou a ver navios: nem marido, nem amante, nem nada! Ai, ai.
ResponderEliminarBeijinhos!
É a vida, Salomé! No fundo, as coisas mudaram bastante menos nas relações entre os casais, do que às vezes imaginamos.
ResponderEliminarBeijinhos