sexta-feira, 31 de maio de 2013

RM 27: o pecado mora ao lado



Enquanto em Nova Iorque se evoca Mc Carthy na peça “A Caça às Bruxas”, em Paris, Samuel Beckett está “À Espera de Godot”.
É pouco provável que Staline apreciasse o género, mas de qualquer modo, a sua morte em 1953 impede-o de assistir ao primeiro filme em Cinemascope, lançado pela 20th Century Fox . Quem não deve ter perdido pitada é Isabel II, que este ano ascende ao trono britânico, o que a deve ter impedido de ler o relatório Kinsey sobre “O Comportamento Sexual da Mulher”.
A vacina contra a poliomielite começa a ser testada em crianças em 1954, ano em que a loucura dos consumidores se volta para o rádio transistor de bolso, cuja comercialização acaba de ser anunciada. Os discos de 45 rotações e o gira discos portátil fazem também as delícias da juventude. Ali podem ouvir o primeiro single de Elvis Presley ( That’s all right Mamma).
Por cá a música é dada pelos “Cinco Violinos” do Sporting, que abafam o assassinato de Catarina Eufémia em Baleizão, durante uma greve de trabalhadores agrícolas.
O primeiro passo para a União Europeia fora dado em 1951, com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, mas é só com a entrada em vigor do Tratado de Roma (1958) que a CEE é criada. Nessa altura, já os países do Leste Europeu tinham assinado o Pacto de Varsóvia,(1955) como resposta à admissão da Alemanha Ocidental no seio da NATO.
“O Pecado mora ao lado”, garante a conspícua Marilyn Monroe, mas são os teddy boys quem revoluciona o vestuário com a moda dos jeans, enquanto choram o desaparecimento trágico de um ídolo (James Dean) que se haveria de transformar num mito.
Estamos em 1955 e, com a abertura da Disneyland, o mundo conhece um novo estilo de parque de diversões, que rapidamente se torna um ponto de interesse e romagem turística.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

RM 26: Mau Mau! Há coincidências felizes


A Igreja levará 50 anos a perceber que os males do mundo não estavam nos salões de dança. Por isso, quando em 2008 proclama que poluir é pecado, já o mundo está de pantanas a contorcer-se com o aquecimento global e catástrofes climatéricas. O degelo já será então uma realidade, o automóvel o meio de locomoção preferido dos terráqueos e entre tacadas nos sobreiros em Benavente, a destruição da costa alentejana e o crescimento imparável de países como a China e a Índia, só se pensa que o melhor é ir consumindo, porque já não há volta a dar-lhe.
Atrasado, também, foi o reconhecimento de Paula Rego que, em 1952 parte para Inglaterra, mas só 40 anos depois verá reconhecido em Portugal o seu extraordinário talento.
Quem não perde tempo são os Mau Mau, que se revoltam e conduzem o Kenya à independência. Um novo destino turístico em perspectiva para os europeus, que anos mais tarde invadem a ex-colónia britânica, para fazer safaris e observarem a natureza selvagem de perto, porque na Europa as selvas são de betão. 
Tudo faz sentido. Neste ano torna-se mais rápido percorrer longas distâncias, porque a transportadora britânica BOAC inaugura as carreiras comerciais com aviões a jacto e a indústria farmacêutica começa a comercializar os tranquilizantes. Há coincidências felizes!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Mas que grande chato!

Esta é fresquinha e aconteceu-me hoje logo pela manhã.
Escrevi o email  a pedir uma informação complementar:
Agradeço esclarecimento detalhado sobre  (....) constante do anexo ao seu curriculum.
Quando envio aparece-me o  Aviso:
"Você escreveu "Anexo" na sua mensagem, mas não há arquivos anexados. Enviar assim mesmo?"
Ó sorte malvada! O gmail  é chato, cuscas ou... só  um bocadinho lerdo?

RM 25: Um eléctrico para os Prazeres


Em 1951, Vincent Minelli anda com "Um Americano em Paris" , mas é Marlon Brando quem chega ao estrelato a bordo de "Um Eléctrico Chamado Desejo". Que melhor alegoria para anunciar a chegada da "whishfull civilization"?
Nesse ano têm início as emissões regulares de televisão a cores nos EUA, existindo já uma dezena de canais a invadir os lares americanos. Começa o embaraço da escolha.
A publicidade e a televisão celebram um casamento de conveniência. Em troca da exibição dos seus anúncios, a publicidade paga transmissões directas e patrocina programas (especialmente concursos). Acaba por se descobrir que alguns são "viciados" pelas próprias empresas, que fazem batota quando pretendem que um determinado concorrente não seja eliminado.
O automóvel é o sonho de qualquer cidadão e os japoneses são os primeiros a contrariar a hegemonia americana na produção, tornando-se em poucos anos o maior fabricante do mundo. Em Inglaterra (1951) nasce um invento que irá revolucionar a vida do ser humano: o UNIVAC- um computador de reduzidas dimensões, capaz de ler 7200 dígitos por segundo.
No ano em que os EUA testam a Bomba de Hidrogénio, "O Comboio Apitou Três Vezes" mas "Singing in the Rain" é o maior sucesso de bilheteiras (1952).
O Mundo assiste, estupefacto, à revelação de uma bela dinamarquesa, (Christine Jorgensen) que afinal nascera americana e filho varão. A sua irresistível atracção pelas bonecas, porém, levou-o a rumar à Dinamarca para aí mudar de sexo.
Mas não é este facto que leva o Papa Pio XII a escandalizar-se. A Igreja está mais preocupada com os ritmos do rock 'n roll e sai a terreiro para acusar as danças modernas de levarem os católicos ao pecado. Trata-se de um remake à condenação que a Igreja fizera do Tango, quando a dança argentina entrou na Europa, mas os católicos fazem ouvidos de mercador e continuam a dançar furiosamente o novo ritmo, ao som das rockstars.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Logo hoje...


"Hoje sei como se mede a verdadeira idade: vamos ficando velhos quando não fazemos novos amigos. Estamos morrendo a partir do momento em que não mais nos apaixonamos.", in Mar me Quer

Depois de Craveirinha, Mia Couto é o segundo escritor moçambicano a vencer o Prémio Camões. Já tudo foi escrito sobre aquele que considero um dos mais brilhantes artífices da literatura portuguesa. Além de inovador no estilo, maneja a língua como poucos, transpondo para a escrita a verbalização tão surpreendente e inovadora como óbvia, que nos leva a interrogar-nos: como é que nunca me lembrei disto?
 Pouco há a acrescentar, excepto que  apesar de já ter lido muitos livros dele, ainda me faltam quase outros tantos. Não me lembro de nenhum que me tenha deixado decepcionado.
Quando lhe foi comunicada a atribuição do Prémio reagiu assim: 
""Logo hoje, que é um daqueles dias em que a gente pensa: vou jantar, vou deitar-me e quero me apagar do mundo (...)" 


RM 24- Warm up


Ao declínio da Europa corresponde a emergência dos Estados Unidos e da URSS. A Guerra Fria prenuncia a entrada em rota de colisão de duas concepções opostas de modelo social, cujo ponto de maior fricção virá a ocorrer na década seguinte, com o episódio da Baía dos Porcos. Do lado americano, McCarthy inicia a perseguição aos comunistas, do lado soviético a reacção não tardará. O equilíbrio é mantido à custa do Terror Nuclear, com as duas superpotências a fazerem sucessivas experiências com a bomba H. ( Estados Unidos em 1952 e URSS em 1953).
Para trás ( 1950) ficara a Guerra da Coreia.
Enquanto as colónias europeias em África e na Ásia se vão libertando do jugo colonialista e se tornam independentes, a China de Mao invade o Tibete e Chang Kai-Chek proclama , em Taiwan, a República da China.
Por cá, a oposição a Salazar sofre ainda a síndrome da desistência de Norton de Matos nas eleições presidenciais de 1949. Dividida e enfraquecida por questiúnculas internas, vê emergir na frente de combate, nomes como os de António Sérgio, Jaime Cortesão ou Vieira de Almeida.
O espaço de manobra é curto e Salazar mostra, logo no início da década, que não está disposto a pactuar com quem não partilhe das suas opiniões e envia um sinal à oposição, logo em 1950, com o julgamento de Álvaro Cunhal a quem é aplicada uma pena “sui generis”: cinco anos de prisão, prorrogáveis indefinidamente.
Entretanto, se ainda estamos a assistir ao warm up da sociedade de consumo, com Charlie Brown e os Peanuts a marcarem o ritmo, isso não invalida que se possa dizer que esta década vai marcar o início de uma alteração de mentalidades, ancorada na televisão a cores e no automóvel. Nem o facto de a reconstrução de Roterdão ter sido delineada a pensar na prioridade aos peões, impedirá o avanço inapelável do automóvel que invade as estradas em velocidade ainda de cruzeiro, mas que conhecerá uma forte aceleração a partir da década seguinte.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Conversas de pé de orelha



Enquanto preencho os impressos para a renovação do Bilhete de Identidade, um senhor aparentando os seus 60 anos aproxima-se. Ouço-o dizer a uma jovem que o acompanha:
- Sim senhor! Esta gente aqui é impecável. Atenciosos e eficazes..
- Eu não lhe dizia, papá!
- É verdade, é verdade! Às vezes as pessoas criticam só pelo prazer de dizer mal do Estado. Mas a culpa também é dos jornalistas, sabes, filha! A gente lê e acredita.
E virando-se para outro que acabara de preencher os impressos:
- O senhor não acha?
- O quê? Que os serviços das Lojas do Cidadão são bons? Claro que concordo... Principalmente quando os comparo com o atendimento num banco.
- O senhor tem razões de queixa dos bancos?
- Nem queira saber, meu amigo. Nos bancos são todos uns trafulhas e ainda por cima nos atendem com duas pedras na mão. Olhe que eu deposito todos os meses o meu vencimento no banco e eles só me disponibilizam o dinheiro ao fim de 3 dias, apesar de haver uma Lei do Governo que manda que o depósito seja feito no dia seguinte. Já viu o que eles ganham em juros todos os meses?
- Estás a ouvir isto, filha, estás a ouvir isto?
- Tá bem, papá...Vamos embora?
- E nas seguradoras? O meu filho, bateram-lhe no carro tão forte, que ficou sem poder andar e ele, como tem um seguro que inclui carro de substituição ,foi à companhia de seguros pedir um carro para andar, que coitado precisa muito do carro para a vida dele. Nem imagina o que lhe disseram! Que se estava a aproveitar da situação e não sei que mais... só sei que o acidente foi a meio da semana passada e hoje ainda não tem carro. Vamos a ver se lhe dão um na segunda-feira, mas já lhe disseram que não vão pagar os táxis em que ele tem andado. Sabe o que é que lhe disseram? Que podia muito bem andar de transportes públicos! Como se ele estivesse a pedir mais do que aquilo a que tem direito!
- Estás a ouvir isto, filha? Vocês lá no jornal deviam escrever sobre estas coisas, não é só pôr lá doutores a escrever que a gente às vezes nem percebe nada do que eles falam... Não sei o que é que vocês jornalistas andam lá a fazer! Deve ser só Internet, só Internet, a ver o que escrevem uns dos outros.
- Vá, vamos mas é embora, papá, que está a fazer-se tarde!

domingo, 26 de maio de 2013

Coisas de vizinhos


Neste blogobairro bem frequentado, onde os vizinhos se cumprimentam amiúde e a boa educação é uma regra por todos respeitada, o Dia do Vizinho  ( que se assinala no próximo dia 31) é um bom momento para reflectir sobre as diferenças entre a vizinhança virtual e a do mundo real, que vemos nos nossos prédios diariamente, mas sobre a qual pouco ou nada sabemos.
Hoje queria contar-vos a história do meu primeiro contacto com os vizinhos do prédio onde vivo  em Lisboa, desde que regressei a Portugal. Era solteiro e bom rapaz, regressava com a sensação de que, em quase 25 anos de regime democrático, a mentalidade dos portugueses se tinha alterado.
A maioria dos leitores deve saber o que significa instalar-se numa casa nova. Gente que entra trazendo mobílias, a senhora dos cortinados, a empregada doméstica que tacteia os cantos e entra e sai várias vezes ao dia, porque é preciso comprar mais qualquer coisa, o electricista, o homem que vem trazer o televisor e a aparelhagem de som, mais o da máquina de lavar, do fogão e do frigorífico, gargalhadas de amigos que não víamos há muito e apareceram para dar uma ajuda, o barulho de pregar na parede ( sempre durante o dia e nunca ao fim de semana, porque respeito a Lei do Ruído…) quadros e fotografias que fixam memórias de países longínquos, caixotes que chegam com aquilo que se foi acumulando ao longo de anos, noutras paragens, enfim, uma parafernália de sons e ruídos que mexem com o quotidiano de um prédio, mas que são inevitáveis quando nos queremos instalar confortavelmente e dar início a uma nova vida.
Saía do elevador carregando as últimas malas, quando uma senhora que já vira várias vezes, me abordou nestes termos, sem sequer me dizer boa tarde:
- Olhe, eu sou uma das administradoras do prédio. O sr. está a mudar-se para aqui, não é?
-Bem, neste momento só me estou a instalar, parto outra vez no final da próxima semana e só volto daqui a três meses. Estou a tratar de tudo para, quando regressar definitivamente, estar tudo em ordem e não ter sobressaltos.
-Vai voltar para Macau, é?
Arregalei os olhos. Como é que uma fulana com quem nunca falara sabia que eu tinha andado por Macau? E como é que se atrevia a fazer uma pergunta tão desconchavada, no primeiro contacto que tinha comigo? Mesmo assim, numa atitude de boa vizinhança esclareci-a:
- Já saí de Macau há uns tempos, agora estou a viver na Argentina. É para lá que vou…
- Bem, mesmo assim, deixe-me avisá-lo já de uma coisa. Já percebi que vem para aqui viver sozinho e quero que saiba que este prédio é muito calmo, não estamos habituados a gente solteira, por isso, não queremos barulho. Os homens solteiros gostam de fazer festas, trazer amigas e depois é um reboliço durante toda a noite. Para evitar problemas, é bom que saiba desde já quais são as regras do prédio.
Fiquei sem fala durante uns segundos. Depois lá consegui perguntar:



-Desculpe, como é que sabe que vivi em Macau e que sou solteiro?
- Quando o senhor andava em negociações para a compra da casa quisemos saber tudo a seu respeito. Quem era, de onde vinha, por onde tinha andado.
- Bem, pelos vistos a informação que lhe deram está desactualizada, uma vez que já não estou a viver em Macau …
- Mas vem para cá viver sozinho, não vem?
-Porque pergunta?
-Como não usa aliança e não vi ainda nenhuma senhora a acompanhá-lo com ar de ser sua esposa, penso que seja solteiro ou divorciado…
Não acreditava no que se estava a passar. Comprara casa numa zona onde, supostamente, o nível sócio-cultural das pessoas era pouco dado a mexericos e conversas de vão de escada. Pedi desculpa e, alegando cansaço, despedi-me. Sosseguei a senhora- que aparentava ser mais ou menos da minha idade- dizendo que respeitaria o direito ao repouso dela e de todos os vizinhos. Entrei em casa a remoer a situação e a dizer mal da minha vida. Ainda não me instalara e já estava com vontade de mudar de casa.
Quando voltei, ao fim de cinco meses- e não dos três que planeara – meti as malas em casa e decidi ir falar com a vizinha. Tinha o discurso estudado. Dir-lhe-ia “cheguei, agora vou ficar de vez e espero que não espiolhe a minha vida, não queira saber com quem entro em casa , salvo se estiver interessada em fazer-nos companhia”. Assim, curto e grosso a fim de evitar mais conversas.
Quando ela abriu a porta, fez um ar de espanto e disse:
- Ah! Até que enfim! Tinha dito que só demorava três meses, até pensei que tinha decidido ficar por lá… Olhe seja muito bem vindo, esperamos que se dê bem e gostávamos de o convidar para um dia destes vir jantar cá a casa. Eu e o meu marido cultivamos a boa vizinhança, sabe... e como não temos filhos, gostamos de receber os amigos em casa.
A minha cara deve ter-se coberto de um carregado sorriso amarelo, mas ainda consegui dizer:
-“ Um dia mais tarde combinamos, agora não é oportuno. Acabo de chegar e tenho que organizar primeiro a minha vida.”
Até hoje. A senhora já lá não mora, mas enquanto lá viveu, sempre nos cumprimentámos educadamente. Mais convites para jantar é que, felizmente, não houve.Muitos dos vizinhos daquele tempo já se mudaram e chegaram alguns novos. Muitos são casais jovens. Tal como com os anteriores, os contactos são poucos. Apenas com meia dúzia de pessoas me demoro alguns minutos a conversar. Não frequentamos as casas uns dos outros. Vivemos com a urbanidade possível – uma palavra que detesto- discutindo duas vezes por ano os problemas do condomínio. 


sexta-feira, 24 de maio de 2013

RM (23)- Knock, knock, who is there?




Se é verdade que a sociedade de consumo existiu praticamente desde o início do século XX, o certo é que os anos 50 marcam uma viragem decisiva, ao delinear os traços que haveriam de caracterizar a sua versão "hard core". É no início da década que ela nos começa a bater à porta com insistência.
A publicidade, o marketing e as técnicas de venda assumem um papel preponderante logo no início da década. Os vendedores são profissionais bem pagos, muitas vezes disputados pelas empresas a peso de ouro. As vendas porta a porta transformam-se numa praga, mas também numa fonte de rendimentos para muitos jovens. Produtos de cosmética, livros e mesmo produtos para o lar são vendidos desta forma, em prestações mais ou menos suaves.
Aproveitando o facto de as pessoas terem mais dinheiro na mão e uma grande apetência para mudar de ares uma vez por ano, o turismo dá os primeiros passos como indústria de futuro e as viagens organizadas, tendo como destino priveligiados as praias francesas, espanholas e italianas, levam à criação de uma moda de praia onde os óculos escuros são indispensáveis. As contas já podem ser pagas, por alguns, com o cartão de crédito.
As questões de segurança também começam a ser preocupantes e Ralph Nader desencadeia a luta pela defesa dos consumidores. A sociedade de consumo acabava de entrar em palco, sem bater à porta nem pedir licença

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Começou a festa




Começou hoje a Feira do Livro de Lisboa. Ao contrário do que é habitual hoje não choveu e esteve  um dia bem agradável. Talvez isso signifique que quem manda no clima está mais culto e finalmente percebeu que a Feira do Livro- embora longe de despertar o interesse  de outros tempos- continua a ser uma Festa onde toda a gente que gosta de ler quer participar.
Ainda sou do tempo em que esperava ansiosamente pela Feira do Livro para me abastecer de leituras. Cada vez que lá ia, regressava a casa vergado ao peso de sacos cheios de livros e de catálogos, para saber quais eram os Livros do Dia das editoras.
Hoje em dia há muitas oportunidades ao longo do ano para comprar livros a preços baixos, mas a Feira continua a ser uma atracção imperdível por toda a sua envolvência.
Esta semana não poderei lá ir mas, a partir de terça-feira, espero passar por lá alguns fins de tarde e princípios de noite. O mais provável é não comprar muitos livros, mas não deixarei de desfrutar de todo aquele ambiente que caracteriza um dos certames mais enraizados nos hábitos primaveris dos lisboetas.

RM(22)-Seduções, manipulações e outras ilusões



Em Portugal também havia muita gente com mãos sujas e não faltavam ladrões. Não roubavam bicicletas, mas sim a liberdade de expressão. Por isso, sem qualquer espanto, quando no ano seguinte (1949) a Citroen lança o inimitável 2 cv ( quem nunca sentiu o seu doce balançar, não sabe o que perdeu!), as alimárias no poder saltam de contentamento com a desistência de Norton de Matos das eleições presidenciais. Desta vez não tiveram que fazer batota nas urnas, limitaram-se a assistir às contradições internas que minaram o candidato da oposição democrática.
A Alemanha de Leste, controlada pela União Soviética, torna-se comunista. Durante 40 anos ouvirá falar-se da Cortina de Ferro e a ameaça de uma nova Guerra paira sobre o Mundo inteiro, que lê atentamente 1984 de Georges Orwell. Bons e maus organizam-se em blocos. De um lado a Nato, do outro o Pacto de Varsóvia, duas concepções do mundo em permanente confronto surdo que só irá terminar, 40 anos mais tarde, com a queda do muro de Berlim, muito saudada a Ocidente.
Cantou-se vitória, mas como o tempo viria a demonstrar, foi cedo demais para o fazer....
Neste último ano da década de 40, o mundo altera-se profundamente. Enquanto a Índia e o Paquistão anunciavam o fim da guerra de Caxemira, aceitando a realização de um referendo sob a supervisão da ONU, a Alemanha dividia-se em dois e a Irlanda abandonava a Commonwealth. Neste mesmo ano, Mao derrota Chang Kai-Check e proclama a República Popular da China, recebendo de imediato o apoio de Moscovo.
Por todo o mundo há jovens seguidores de Mao e Portugal não é excepção, mas na idade adulta os jovens portugueses que desfilaram com a bandeira numa mão e o livro vermelho na outra, acabarão por se render, anos depois do 25 de Abril de 1974, ao canto delicodoce do capitalismo liberal e trocam o Livro Vermelho pela leitura do Financial Times. Entrementes, vão engrossar as fileiras dos partidos do Centrão. Um deles tornou-se célebre por vir a ser escolhido para comandar os destinos da União Europeia e estampa um sorriso nos lábios quando lhe falam dos seus devaneios maoistas. Nada disto foi previsto por Georges Orwell no seu livro “1984” cuja actualidade se mantém intacta.
Ainda em 1949,  a URSS faz explodir a sua primeira bomba atómica, mas não é isso que provoca "A Morte de Um Caixeiro Viajante" num teatro em Nova Iorque.
Em França,  muitos se deslocam a Paris, de 2 CV, com o pretexto de aplaudir a vitória de um italiano ( Fausto Coppi) no Tour de France.
Por cá, a farsa continua, com a atribuição do título de Doutor Honoris Causa a Franco, pela Universidade de Coimbra. Nada melhor para encerrar uma década em que Portugal se afasta definitivamente da Europa, vê vetada a sua entrada na ONU, mas é admitido na Nato, porque quando toca à “traulitada” não se olha aos regimes políticos e não se escolhem os amigos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Debaixo de Algum Céu


Uma das coisas melhores que há na vida de quem adora ler, é descobrir um autor novo. Outra  é, quando acabamos de ler o livro, ficar à espera do próximo ou correr para a livraria com o intuito de comprar um outro que o autor já tenha escrito.
Foi isso que me aconteceu com “Debaixo de Algum Céu” do Nuno Camarneiro, vencedor do prémio Leya 2012.
Comprei o livro na véspera de  voar  para o Brasil e, no momento de fazer a mala, escolhi-o para companheiro de viagem.  Por razões que não interessam para o caso, só comecei a lê-lo quando saí de Cabo Verde e fiquei agarrado logo à primeira frase: “ Uma história são pessoas num lugar por algum tempo”.
O lugar onde se desenrola a história é um prédio encostado à beira mar. O tempo é o que medeia entre o dia de Natal e o primeiro dia de um ano qualquer.  Uma semana, portanto.
Durante esse período o Nuno apresenta-nos um padre jovem  em crise de Fé e com um mistério por explicar;uma viúva que vive com um gato; dois casais com filhos; dois irmãos de idades díspares em constante desavença ;um jovem que gasta a noite a inventar personagens e um reformado que  se recria  a construir o futuro com despojos do lixo.
Um dos apartamentos está vago mas também tem uma história dentro…
É neste prédio igual a tantos outros, onde vivem pessoas que se falam mas não se conhecem, que se desenrola a história feita de encontros e desencontros, despoletados por um fenómeno natural: uma tempestade que deixa o prédio às escuras.
No início da leitura foi-me difícil não estabelecer comparações com Claraboia (José Saramago), cuja leitura terminara há poucas semanas, mas rapidamente percebi que os propósitos de Nuno Camarneiro eram outros.  Que me levaram a uma reflexão estribada num  conto de Gabriel Garcia Marquez sobre a vida e a morte. Mas isso fica para outro dia...

RM 21- Vespas, bikinis e ladrões de bicicletas: começou a loucura do pós guerra



A criação da Vespa, produzida em fábricas italianas que durante a guerra fabricavam material militar, é um sucesso, mas os olhares masculinos voltam-se avidamente para as praias mediterrânicas onde as mulheres exibem generosamente os seus corpos num fato de banho de duas peças: o biquini. Os efeitos secundários desta peça de vestuário, no universo masculino, são idênticos aos obtidos pelos EUA nos ensaios atómicos que fazem no atol de Bikini. Há coincidências incríveis, não há? Mas neste ano de 1946 as coincidências não se ficam por aqui... embora ainda ninguém fale de próteses mamárias, a verdade é que começa a ser produzido o silicone. Do que já se fala é das lentes de contacto que irão surgir no ano seguinte.
Nesse ano, a Índia e o Paquistão tornam-se independentes da Grã-Bretanha, mas como a União Indiana decide anexar Caxemira, os dois novos países vão entrar em conflito. 
Noutras paragens, as Nações Unidas decidem atear um barril de pólvora, dividindo a Palestina em dois estados ( um judeu e outro árabe).
No mundo das comunicações a evolução é enorme. Bell inventa o transistor , nos EUA efectua-se a primeira emissão de Televisão por cabo, e os consumidores correm em busca da máquina fotográfica Polaroid, dos discos long-play e do gravador para uso doméstico. Finalmente era possível registar, para ouvir quando mais apetecesse, a música que passava na telefonia, os discos dos amigos ou a confissão de amor da(o) namorada(o).
Neste mesmo ano de 1947 inicia-se a reconstrução da Europa, com a aprovação do Plano Marshall. Quem também se recompõe das humilhações sofridas durante as primeiras aparições em público é Maria Callas que passa de matrona grega a diva num toque de magia que, dada a reforma de Aladino e a greve das Fadas Madrinhas, só a sociedade de consumo consegue executar.
E como era preciso devolver o glamour às mulheres parisienses, Christian Dior mete mãos à obra e relança a moda.
A Mc Donalds faz a sua estreia nos Estados Unidos em 1948, ano em que nasce o estado de Israel e um pouco por todo o mundo se assiste à declaração de independência de antigas colónias britânicas. Pelo sim, pelo não, a ONU aprova a Declaração Universal dos Direitos do Homem e cria a Organização Mundial de Saúde. A isto se chama, visão de futuro!
Por esta altura já Sartre percebera que na sequência da Guerra havia muitas Mãos Sujas, por isso as dá a conhecer ao público no palco do teatro Antoine de Paris. Mas quem acaba preso a um grande sucesso é Vittorio de Sica com a estreia do seu filme Ladrões de Bicicletas.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A vida não é um conto de fadas!




Nos anos 70 empolguei-me com os filmes de Costa Gavras.  Missing, Estado de Sítio e Z – A Orgia do Poder são três filmes que guardo bem na memória e na minha cinemateca particular.
Há dias fui ver o seu último trabalho: “O Capital”.  Mais uma vez, Gavras mostra-nos a realidade. Desta feita o realizador  recorre a uma parábola para nos mostrar o mundo tenebroso e tentacular  do sistema  financeiro. As trafulhices, os jogos de influência, a acção de manipuladores e manipulados, a submissão do poder político à banca, o capital sem rosto e sem pátria, a sede de dinheiro e o desrespeito pela vida de seres humanos, utilizados como meras peças neste jogo de monopólio  da alta finança que pretende conquistar o mundo.
O Capital vai, no entanto, além deste jogo. Em dois momentos distintos mostra-nos de forma quase cruel a forma como os adultos estão a estupidificar os jovens, resumindo a vida a um simples jogo onde o importante é vencer. 
Não me espanta que os críticos tenham sido avaros na classificação de O Capital. Eles, como o cidadão comum, detestam a realidade. Preferem fazer de conta que ela não existe, continuar a viver na ( da) fantasia e guardar os elogios para filmes de grande intelectualidade, indecifráveis pelo comum dos espectadores. Ainda não perceberam que a vida está mais próxima de nós numa imagem, do que nos recônditos  recantos de um cérebro ocupado a discorrer sobre a ficção.
O problema é que o exército de desempregados e famintos não é fantasia, mas sim realidade cruel. E quando essa realidade é manipulada pelos interesses dos grupos financeiros, para quem as pessoas nada valem, talvez valesse a pena parar para pensar e reflectir um pouco sobre o assunto. 
São só 114 minutos e ajudam-nos a perceber como gestoras de bancos falidos, como Maria da Conceição Leal, recebem prémios milionários pelos bons serviços prestados.

RM-20:De Ialta à Guerra Fria

                          

                       Um estudo realizado recentemente em Inglaterra, revela  que a maioria dos jovens ingleses pensa que Churchill nunca existiu



Em Fevereiro de 1945, em Ialta, Churchill, Roosevelt e Estaline sentam-se à mesa para preparar o pós –guerra. A avaliar pelo que se sabe hoje, o trabalho de Churchill em prol da paz não foi devidamente reconhecido, já que os seus concidadãos do século XXI pensam que se trata de uma figura lendária. A sociedade de consumo tem esta capacidade inaudita de apagar a memória e conferir às novas gerações a capacidade de se tornarem analfabetas, mas muito perspicazes a fazer dinheiro. Diante de ecrãs minúsculos ( sejam eles de computador ou telemóvel) entram no mundo virtual com a rapidez de um arroto, expulso por umas goladas de cerveja. Estou a referir-me ao tempo em escala histórica, entenda-se... Mas voltemos ao mundo real, quando as pessoas não eram simples máquinas ligadas a outras máquinas pretensamente mais inteligentes, que lhes condicionam os movimentos e toldam a lucidez.
Já Hitler estava a falar com os seus colegas nas profundezas do Inferno, quando o PresidenteTruman decidiu mostrar aos terráqueos os horrores da terra de Satã, lançando bombas atómicas sobre Hiroshima e NagasaquiHirohito anuncia a capitulação do Japão, é finalmente alcançada a Paz e os Estados Unidos vão passar a exercer, cumulativamente, a função de árbitros e polícias do mundo. (Era óbvio, já naquela época, que a acumulação de cargos não daria bons resultados, mas nesse ano ainda Bush filho andava de calções e só pensava emhamburguers com ketchup).
Alemanha escapa, por um triz, de ser partida em quatro fatias, mas o mundo divide-se em dois blocos e vai iniciar-se a Guerra Fria entre os Bons e os Maus. Em Leninegrado, Prokofievtraça o cenário com a estreia da ópera Guerra e Paz mas, nos EUA, Humphrey Bogart e Lauren Bacal ensaiam outro guião com o filme À Beira do Abismo. Apesar de ainda estar à espera de se reeabilitar com a vitamina do Plano Marshall, a Europa também dá um contributo à alegoria sobre esta guerra surda, com A Bela e o Monstro de Jean Cocteau.
Tantos anos volvidos ainda  não sabemos com clareza quem são os bons e os maus, porque a história ainda não terminou. Nem se espera que acabe tão depressa, apesar dos esforços que ambas as partes fazem em terminar com tudo rapidamente. Como espero não assistir “in loco” ao epílogo, aguardo que algum dos leitores mais jovens tenha a amabilidade de me comunicar quando nos encontramos lá no “assento etéreo”, ao lado do Camões. Juro que estou curioso de saber o resultado final, porque depois de estar prevista uma goleada fácil dos propagandistas da democracia, a verdade é que a reacção forte dos totalitários está a pôr em risco a vitória folgada que o árbitro Bush anunciou ao mundo, com pompa e circunstância, quando invadiu o Iraque em 2003.
Bem, voltemos atrás. Reentremos onde estávamos antes desta divagação: no ano de 1945. Nesse ano Georges Orwell satirizava o bloco comunista com O Triunfo dos Porcos enquanto o mundo ocidental procurava aliviar os horrores da Guerra e as mulheres recebiam com alvoroço a notícia da invenção da tupperware e do micro-ondas, cuja comercialização se iniciaria três anos mais tarde (1948).


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Momentos...

O restaurante, habitualmente cheio, hoje estava  quase vazio. Havia rostos amarrados. Os proprietários queixavam-se da crise, mas sublinhavam que hoje tinha batido mais forte e muita gente perdera o apetite. Um grunho declarava guerra aos magrebinos. Também perdi o apetite.

domingo, 19 de maio de 2013

Paixões de fim de semana


Quando estou a sair do avião, alguém à minha frente pergunta ao comissário de bordo se sabe o resultado do Porto- Benfica.
“ Antes de aterrarmos estava 1-1...”
Olho para o relógio. Pelas minhas contas ainda falta cerca de meia hora para o jogo terminar.
Começo a percorrer o longo caminho até à saída. Não tenho bagagem de porão, por isso 15 minutos depois estou postado na fila dos táxis.  De quando em vez, a porta de um táxi abre-se e deixa escapar por breves segundos sons do relato. A fila move-se a bom ritmo e quando chega a minha vez reparo que o táxi que me há - de conduzir  ao Lumiar exibe um galhardete do SL Benfica  pendurado no espelho retrovisor.
Acomodo-me, espero que o taxista arranque e pergunto o resultado, fingindo indiferença. Estamos empatados mas já podíamos estar a ganhar por três ou quatro . Os gajos têm uma vaca do caraças!
O táxi arranca e ouço o locutor anunciar:
- Pedro Proença dá mais quatro minutos de tempo extra. É o tempo que falta para o Benfica carimbar o título de campeão.
- E na quarta-feira vamos à Holanda dar cabo dos ingleses. Este ano não nos escapa nada. O Pinto da Costa agora bem pode oferecer fruta, que os árbitros já…
Gooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooollooooooooooooooooooooooooo!
Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolloooooooooooooooooooooooo!
grita repetidas vezes o locutor, interrompendo o discurso de glória. O taxista olha-me pelo retrovisor. Nem eu nem ele percebemos quem marcou, porque não estávamos a prestar atenção ao relato.  Parece-me ouvir o nome de Kelvin mas, como não tenho a certeza, calo-me. Segundos depois ( que me pareceram uma eternidade) oiço finalmente o locutor:
-A dois minutos do fim do tempo de compensação o Porto marca e é o delírio aqui no Dragão.
-Cabrões! Têm uma vaca do c#§%!- vocifera o taxista, acompanhando o desespero com uma terceira  tão puxada ,que faz o motor  relinchar de dor.  A gente já sabe como é… não foi por acaso que nomearam o Pedro Proença! Está farto de roubar o Benfica, este cabrão. Já nos roubou um pénalte e assinalou um fora de jogo  que não era.
A segunda circular parece-me não ter fim. O jogo também não.
-Mas não faz mal… porque se o Pinto da Costa num comprar os gajos do Paços, o Porto não ganha lá! Nunca ninguém ganhou…
O Benfica ganhou lá- digo timidamente
Pois, mas este ano o Benfica ganha em toda a parte! Vai ver na quarta –feira. Vamos dar dois ou três ao Chelci. E no domingo vamos comemorar o campeonato e na outra semana  podemos jogar com a equipa B e ganhamos a Taça ao Guimarães. Ninguém para o Benfica. O senhor é do Sporting?
Contorno a pergunta com uma mentira.
 Não ligo muito ao futebol, mas nasci no Porto, ao pé do estádio das Antas.
Ah, já estou a ver, é deles. Faz muito bem em não ligar ao futebol, aquilo lá em cima é uma podridão, são todos uns corruptos. E não é só o Pinto da Costa! Ele é o maior, mas o Valentim  Loureiro, o do Braga e o do Guimarães, aquilo é só corruptos. Aqui não. A gente ganha tudo limpinho, limpinho!
Chegamos a casa. Pago , entro em casa e ligo logo o televisor. Faço zapping por todos os canais, mas não há imagens. Constato que todos os comentadores estão de acordo. Não houve casos e a arbitragem foi impecável.
Finalmente as imagens. Limpinho, limpinho! Sorte em marcar aos 92 minutos? Sem dúvida, mas a sorte faz parte do jogo e não há campeão que não seja bafejado por ela.
Desfaço a mala, pego nas chaves do carro e meto-me a caminho do Rochedo. Paro no Jackpot, no Estoril, para petiscar qualquer coisa. O nervoso miudinho abriu-me o apetite. Dois portistas de cachecol celebram numa mesa ao meu lado em convívio saudável com um grupo de benfiquistas. Ainda dou dois dedos de conversa. Constato que a opinião é unânime. Jogo limpo, sem casos, mas o campeão está longe de estar decidido. Desejo boa sorte aos benfiquistas para o jogo de Amsterdam e sigo para o Rochedo.
Antes de ler as últimas páginas de  “Debaixo de Algum Céu”-  o livro de Nuno Carmaneiro vencedor do Prémio Leya – penso com os meus botões:
- Daqui a uma semana ou eu ou o taxista, um de nós vai estar com uma cachola de todo o tamanho. Espero que seja ele....
Olho para o horizonte. Cai uma neblina sobre o  Guincho, adensando as minhas dúvidas. Mau presságio? Daqui a umas horas terei a resposta.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

RM-19: Nós por cá todos bem!




A manifestação organizada pela União Nacional no Terreiro do Paço ( Abril de 1940) para celebrar os 52 anos de Salazar, é elucidativa de que por cá tudo estava bem. A Legião Portuguesa era da mesma opinião, por isso faz uma outra manifestação, em Julho, para celebrar a invasão da URSS pela Alemanha. Para a encenação ficar completa e o Estado Novo sair reforçado, faltava que o coreógrafo António Ferro terminasse o seu trabalho: a Exposição do Mundo Português. Inaugurada com pompa e circunstância em 23 de Junho de 1940, a mostra era o retrato do misticismo com que o Estado Novo procurava reconstruir a nossa história. Prova disso, é que não existia qualquer referência ao período entre 1820 e 1926. Como se esse século liberal pura e simplesmente tivesse sido varrido da História, Ferro e Salazar depositaram-no no caixote do lixo da memória. Os portugueses, porém, estavam orgulhosos e acorreram em massa a Belém para assistir “in loco” a esta encenação "para exportação" do Estado Novo. Felizmente para Salazar, o analfabetismo dos portugueses aumentava e as vozes que se levantaram foram rapidamente silenciadas. A Bem da Nação!
Dois anos mais tarde ( 1942) enquanto Hitler e os seus acólitos se entretinham a lançar fogo de artifício sobre Inglaterra, testando as capacidades do V2, o conflito pegava fogo aos Estados Unidos, e em Portugal se começava a assistir a alguma agitação social devido à escassez de produtos essenciaias, Salazar assina com Franco o Pacto Ibérico. António Lopes Ribeiro assinala o momento com a estreia de O Pátio das Cantigas . O cinema português inicia nesse ano, aliás, um período de oiro. Pese embora muitos desses filmes ainda hoje nos fazerem salivar de saudade dos grandes humoristas como António Silva, Vasco Santana ou Ribeirinho, a verdade é que outros houve que mais não foram do que propaganda ao regime. Ferro foi acérrimo opositor da “comédia portuguesa” -chegou a chamar-lhe cancro nacional- e entusiasmado defensor dos filmes históricos que fizessem ecoar bem alto os nobres princípios do salazarismo. Não se deveria ter maçado tanto a zurzir na comédia porque, apesar de ser uma crítica de costumes, ela enaltecia a máxima Deus Pátria e Família, sustentáculo da ditadura.
Apesar daquele ar austero, a comédia também seria do agrado de Salazar, caso contrário, talvez não tivesse extinto o Serviço Nacional de Propaganda, para o substituir pelo SNI ( Serviço Nacional de Informação) . As funções eram idênticas, mas o nome tinha muito mais piada, porque falar em informação num Estado Novo que utilizava despudoradamente a Censura, só podia dar vontade de rir. Maior gargalhada estava porém reservada para 1945. Terminada a guerra, assinada a carta de fundação da ONU, Salazar anuncia ao país e ao mundo, com grande espavento, que realizará eleições “ tão livres como as da livre Inglaterra”. Esqueceu-se, porém, de dizer que a sua promessa só seria concretizada ( e contra a sua vontade expressa) 30 anos depois, em 25 de Abril de 1975.
Todos sabemos que os portugueses não primam pela pontualidade, mas 30 anos (e ainda por cima só porque uma cadeira resolveu acelerar o processo) convenhamos que é atraso demasiado. Com esta falta de pontualidade no cumprimento de promessas- que haverá de fazer escola na classe política portuguesa, até aos dias de hoje- , como é que não haveríamos de estar tão atrasados em relação à Europa?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Era uma vez no All... garve!


Pergunta o miúde à mãe:

- Ó mãe, o qué um insete ?
- Ê cá nã sê, preguntá mana ...!
- Ó mana, o qué um insete ?
- Pôs nã sê... preguntó pai ...!
-Ó pai, o qué um insete ?
-Ó mê ganda burre... um insete sã ... Oite !!!..

RM (18). Do microscópio à libertação de Paris, com muitas "fitas" pelo meio


A invenção do microscópio ( 1940) com capacidade de ampliação de 500 000 vezes, poderia ter ajudado Hitler a ver que a guerra era uma loucura e um erro monstruoso que estava a cometer, mas apenas serviu para reforçar a perseguição aos judeus e ampliar o número de vítimas nos tenebrosos campos de concentração. 
A corrida à bomba atómica intensifica-se e em 1942 é construído o primeiro reactor atómico.
Na vida doméstica, aparece o rolo para pintura (1940), o pulverizador aerossol (1941) e o atendedor de chamadas (1943), enquanto o terylene se torna na fibra da moda. O primeiro anúncio publicitário feito em televisão surge em 1941. Anuciante: o relógio Bulova. Em 1942 é apresentado o primeiro computador electrónico e no ano seguinte, na Holanda, o rim artificial.
Os primeiros discos de alta fidelidade são lançados em Inglaterra (1944), permitindo aos melómanos uma audição mais pura dos artistas da década (Glenn MIller e Frank Sinatra são os nomes mais sonantes, vindos do outro lado do Atlântico, mas o jazz com nomes como Count Basie, Benny Goodman ou Duke Ellington, irá impôr-se ao gosto europeu, mais para o final da década).
Em 1940, Charles Chaplin ironizava com a figura de Hitler no filme O Grande Ditador e John Ford recorre um livro de John Steinbeck ( As Vinhas da Ira) para expôr, através do cinema , as misérias da guerra. Mas é mais tarde que o cinema apresenta dois êxitos retumbantes que marcam este período, mas só mais tarde viriam a tornar-se quase lendários: Citizen Kane (1941) e Casablanca (1942).
Enquanto em Itália Mussolini proíbe a exibição de Obsessão de Visconti, Saint Exupéry viaja para o espaço com “O Principezinho” e nos Estados Unidos estreia-se Por quem os Sinos Dobram, baseado no romance homónimo de Hemingway.
Em Setembro de 1944, já depois do desembarque das tropas aliadas na Normandia, e do atentado falhado contra Hitler , Frank Capra gritava dos EUA para a Europa: Este Mundo é um Manicómio, mas o Führer não o ouvia. Há quem afirme o contrário e defenda que terá sido esse grito que o terá levado a suicidar-se no seu bunker, em Abril do ano seguinte, mas é mais credível que tenha decidido fazê-lo depois de ver a primeira parte da trilogia de Eisenstein Ivan o Terrível apresentada em Moscovo em Janeiro. Ou terá sido assaltado por um rebate de consciência, ao ler o Diário de Anne Frank, descoberta pela Gestapo em Amsterdam?
O que se sabe é que a Europa inteira respirou de alívio quando Paris foi libertada da ocupação alemã. Já imaginaram o que seria Paris sem a língua francesa a passear-se pelas ruas? E que seria da Europa, se as montras parisienses tivessem passado a exibir a austeridade da moda alemã, em vez da ousadia sensual dos costureiros franceses? Como seriam hoje Montmartre, ou Saint Germain Desprès? Uns miseráveis redlight districts ao estilo de Frankfurt ou Hamburgo, certamente. Sem centelha de emoção e criatividade, despida de latinidade, sem Follies Bergère e Moulin Rouge ( quem se ia interessar por um cabaret chamado Das Röt Mühle?) Paris seria certamente uma seca!

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O namorado perfeito?

Há quem diga que, apesar das suas óbvias limitações, este é o namorado perfeito. Sigam o link e formulem a vossa opinião!

RM 17- John Wayne, o novo herói do western


Em Setembro de 1939, Japão e Rússia põem fim à guerrra da manchúria, mas Estaline faz avançar o Exército Vermelho para a Polónia Oriental.
Invadida por Hitler e Estaline, a Polónia é repartida entre os dois estados. Começava a perceber-se o que valem e para que servem os acordos e Tratados assinados entre políticos.
Já que estamos a falar de Pactos, vale a pena lembrar que foi neste ano que Salazar e Franco asinaram o famigerado Pacto Ibérico. Salazar manifesta neutralidade portuguesa durante a II Guerra Mundial e, para comemorar, organiza o primeiro congresso da Mocidade Portuguesa. A neutralidade também é isto…
As grandes obras do Estado Novo ficam marcadas, este ano, com a conclusão da remodelação da Avenida Almirante Reis em Lisboa
Enquanto os americanos se deliciam com o início das transmissões televisivas, Einstein propõe a Roosevelt o fabrico de uma bomba atómica, para que os EEUU entrem na festança bélica bem apetrechados.
No western nasce um novo herói. Chama-se John Wayne e faz a sua estreia no filme Ringo
Berlim assiste à ante- estreia de Fahrenheit 141, com a destruição de 5000 obras de autores considerados degenerados. Para compensar, Estaline confisca várias obras de arte na Polónia e leva-as para casa.
Um alemão ( Rudolf Harbig) estabelece novo recorde mundial dos 800 m em atletimo, com a marca de 1m46,6 s e o de 400m em 46 segundos. Setenta anos depois, estas marcas deixam-nos com um sorriso nos lábios. O mundo caminha vertiginosamente para a loucura. Em muito menos tempo, são destruídos milhões de hectares de floresta, e solo arável é substituído por terreno edificado.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Foi por vontade de Deus!



Há tempos, Salma Hayek ( na foto) declarou numa entrevista a David Letterman que as suas maminhas são “uma dávida de Deus”. Segundo a actriz , os seus seios começaram a crescer quando visitou uma Igreja no México. Como desejava ter uns seios maiores aspergiu-os com água benta e disse: “ por favor dê-me um pouco de busto”.
Como a imagem documenta, o pedido não caiu em saco roto... resta saber que idade tinha Salma Hayek  quando formulou o pedido. Se foi aos 12 ou 13 anos, não me espanta. Mas se já era uma moçoila que ultrapassra o período “teenager” isto dá que pensar! Vai ser a falência dos maduros que andam para aí a enviar “spam” a toda a hora prometendo “ the enlargement of your penis”!

RM 16- Vêm aí os marcianos... E Tudo o Vento Levou!


A grande novidade do ano (1936) vem da Alemanha e dá pelo nome de Volkswagen (Carro do Povo). Sucesso de vendas estrondoso, durante várias décadas, o "Carocha" desaparece nos anos 70. Virá a ser recuperado no final do século, mas o seu preço não permite veleidades. Sinal dos tempos, reaparecerá nos anos 90, aburguesado e só ao alcance de bolsas bem recheadas.
Depois de o ferro de engomar a vapor, o cobertor eléctrico e o nylon se apresentarem aos consumidores (1937), é assinado em 1938 (não se sabe se com recurso à esferográfica que acabava de fazer os primeiros gatafunhos na Hungria, fruto da imaginação de um hipnotizador -jornalista) o acordo de Paz de Munique. Tão pouco sabemos se o acordo foi fotocopiado na recém comercializada máquina de xerografia, mas sabemos que foi apenas pretexto para Hitler poder anexar parte da Checoslováquia. 
Quase 40 anos depois de ser inventado, o ar condicionado chega ao Senado americano e anuncia-se aos consumidores para breve. A rádio continua a fazer grande sucesso e nos Estados Unidos uma emissão dirigida por Orson Wells, põe os americanos aterrorizados. Trata-se de " A Guerra dos Mundos" e simula a invasão da Terra pelos marcianos. O seu realismo seria, já nos anos 50 ,experimentado em Portugal, numa emissão da Rádio Renascença que apanhou o País desprevenido e provocou a ira de Salazar. Lesta a apaziguar a fúria do mestre, a Assembleia Nacional atribui-lhe o título de Benemérito da Pátria!
Na vizinha Espanha, Pablo Picasso pintava Guernica, inspirada no bombardeamanto daquela cidade durante a Guerra Civil espanhola.
No mesmo ano em que o DDT era utilizado como insecticida (Suiça) , a França descobria uma técnica de formação de nuvens para provocar chuva e os EUA revolucionavam a vida doméstica com a invenção da máquina de lavar loiça e o lançamento dos alimentos pré-confecionados.
E enquanto acaba a Guerra Civil em Espanha, vai iniciar-se uma à escala mundial. Hitler cantava o sucesso de Edith Piaf , “Non, je ne regrette rien”, indiferente à leitura de “A Náusea” de Jean Paul Sartre, que haveria de marcar uma geração.
No final do ano de 1939 ,"E Tudo o Vento Levou", o épico extra-longo da Guerra da Secessão americana, é estreado com grande êxito nas salas de cinema. Supõe-se que Vivien Leigh tenha usado, durante as filmagens, o último grito da moda feminina: as meias de nylon. Certo, certo, é que nunca bebeu nada em copos de plástico, que apesar de ter sido inventado nesse ano, só viria a ser comercializado mais tarde.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Regresso com dor



Com a vesícula a gemer, fruto de excessos gastronómicos durante duas semanas, assim que cheguei vim refugiar-me no Rochedo. O dia de ontem estava lindo, mas ao final da tarde uma mancha negra no horizonte preconizava o regresso de dias cinzentos.
Ancorado no Rochedo resolvi pôr-me em dia com o País. Péssima opção. Em cada página lia coisas que provocavam a irritação da senhora vesícula.
Chá de hipericão e abstinência de café e bebidas alcoólicas, acompanhadas de peixe fresco grelhado à vista, costumam ser receita milagrosa mas, mais de 24 horas passadas, ainda não há sinais de acalmia. Amanhã espero estar como novo, poder visitar-vos com calma e escrever sobre estas duas semanas. Começando pela aventura da chegada a Lisboa, quando o Porto-Benfica estava quase, quase, a terminar!

domingo, 12 de maio de 2013

Quem conta um ponto...


Era sexta-feira de manhã e, como habitualmente, levantou-se mais cedo a fim de fazer os preparativos para “rumar à terra”, na mira de recuperar, durante o fim-de- semana, das laboriosas agruras urbanas.
Começou por atestar o depósito numa gasolineira onde lhe forneceram um sucedâneo de um cartão de crédito que- disseram-lhe- servia para coleccionar pontos que posteriormente poderia trocar por prémios.
Lembrou-se, então, que o cartão de crédito do seu banco também lhe oferecia pontos por cada 20 euros de pagamentos efectuados. E como quantos mais pontos somasse, mais possibilidades teria de ganhar um prémio, decidiu puxar do cartão para efectuar o pagamento. A operação custou-lhe 50 cêntimos a mais, mas nem se apercebeu disso.
Durante o trajecto para o emprego, ouviu na telefonia um anúncio de uma operadora de telemóveis que o aliciava para a possibilidade de fazer chamadas grátis, se conseguisse obter um determinado número de pontos. Aproveitou para desafiar as regras de trânsito e telefonar para a escola da filha, o emprego da mulher e para casa de uma amiga, combinando um jantar para a semana seguinte. Teria feito ainda mais alguns telefonemas, se não tivesse sido abalroado por um buzinão espontâneo que se formou atrás de si, intimando-o a avançar, porque o sinal verde já “caíra” há três segundos.
No emprego, aproveitou a “pausa para o café” para ir ao supermercado fazer umas compras de última hora que a mulher lhe pedira durante o telefonema. Ao pagar, deram-lhe um “vale” de 15 pontos e informaram-no que quando somasse 500, teria direito a candidatar-se a um sorteio de uns patins em linha.
Passou ainda pelo Banco para depositar uns dinheiritos na sua conta poupança e viu que o seu crédito somava agora 60 pontos. Não sabia exactamente o que isso significava, mas sentiu-se reconfortado com o bónus.
Regressado ao trabalho, recortou os pontos do seu jornal diário que lhe oferecia, mediante 15 pontos, um telemóvel “ao preço da chuva”. Será para dar à filha e tê-la melhor controlada nas suas saídas nocturnas, confidenciou à colega de trabalho a cujas pernas, generosamente desnudadas diante dos seus olhos atribuiu, sem hesitar, 18 pontos.
À hora do almoço, comprou uma revista e um jornal, não porque tivesse o hábito de o fazer, mas apenas por se ter sentido atraído pelas capas que anunciavam temas de interesse fundamental para a sua vida, como “Júlia Pinheiro vai fazer uma operação estética” ou “O depoimento de Margarida Rebelo Pinto sobre o caso da Quinta da Fonte”. Além disso, a contra capa da Revista anunciava um concurso promovido por uma marca de refrigerantes que oferecia pontos nas cápsulas. Aproveitou para anotar o nome da marca na lista de compras, comprometendo-se a divulgar a descoberta à mulher.
No final do dia foi buscar a companheira dos últimos 20 anos e nem reparou que esta aperaltara a cabeleira de forma pouco usual, para um fim de semana no campo. Já a viagem decorria há uma boa meia hora, quando a mulher rompeu o silêncio para lhe perguntar o que achava do seu novo penteado, enquanto esclarecia que decidira ir naquele dia ao cabeleireiro, porque com os pontos que somara com aquela operação recebera em troca um “shampô” da sua marca favorita.
Olhou-a num relance mal medido e sentenciou: “Vales 8 pontos”.
Sentindo-se ofendida, por desconhecer que o marido utilizara uma escala de 0 a 10 e não a de 0 a 20 a que fora acostumada nos seus tempos de escola, fez eclodir uma cena conjugal. Ali mesmo, em plena estrada.
Na tentativa de se desculpar e explicar que até a classificara de forma muito elogiosa, perdeu o controlo do carro e despistou-se. Por coincidência, foi bater num outdoor anunciando os serviços de uma clínica. Com o sobrolho a sangrar, ainda conseguiu avaliar os estragos nuns 200 pontos (ou seriam contos?), o que pago com cartão de crédito lhe aumentaria substancialmente a possibilidade de vir a receber um carro novo, (desde que a sorte, evidentemente, não lhe virasse as costas).
Embora os serviços do SOS estivessem a escassos 100 metros, insistiu com a mulher em ligar do telemóvel e chamar os serviços da clínica que se exibia diante dos seus olhos. Assim somaria mais uns quantos pontos.
Foi suturado com 19 pontos, ficando a um ponto apenas de ganhar um serviço de ambulância e pronto socorro grátis, numa próxima necessidade em que solicitasse os serviços daquele estabelecimento.
“Azar!”- vociferou entre dentes. A sociedade de consumo fora mais uma vez madrasta. Tinha-o batido... aos pontos! Por apenas um ponto!
Ou, por outras palavras, acabara de compreender que “quem conta uns pontos, se arrisca a parecer um tonto...”
( Escrevi esta crónica em 2004 para a revista Tempo Livre. Durante a semana regressarão as estórias originais)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RM(15): da Grande Marcha aos parquímetros



Em 1934, um ano depois de Hitler ser nomeado chanceler do Reich, tem iníco "A Grande Marcha" comandada por Mao Tse Tung , que irá conduzir anos mais tarde à vitória dos comunistas chineses. As estradas inglesas conhecem um novo invento que permite dar mais segurança aos automobilistas que viajam durante a noite: os reflectores. No Reino de Sua Majestade, para conduzir, passa a ser obrigatório possuircarta de condução. Cansados da Depressão, animados com o New Deal, os americanos jogam ao Monopólio, numa tentativa de reaprender o caminho do sucesso capitalista..
Em Portugal, o ano começa com uma greve geral que pretende derrubar Salazar, mas acaba em efeito “boomerang”, com a destruição do já frágil movimento sindical, que vem a ser consumada em Julho, na “Noite das Facas Longas”. (Como compensação será criada no ano seguinte a FNAT - Federação Nacional da Alegria no Trabalho). No final do ano, Salazar tem o poder consolidado e convoca eleições. Farsa, Primeiro Acto, é levado à cena a 16 de Dezembro, consagrando os protagonistas da ditadura. Manter-se-ia em cena durante 41 anos.
Mas a moda das ditaduras também fazia furor a Leste , por isso Estaline decide, em duas penadas, liquidar a oposição.
Antes de se iniciar a Guerra Civil em Espanha, que levará ao poder mais um ditador(1936), os consumidores são presenteados com o aparecimento do gravador de fita, o filme a cores, a iluminação florescente e a primeira emissão de televisão a cores (Inglaterra e Alemanha).
 São postas à venda as vitaminas em comprimidos, mas ainda estamos longe de ver os seus preços controlados por um cartel. Supõe-se, porém, que Salazar tenha recorrido a elas com abundância, pois nesse ano acumula as pastas da Guerra e dos Negócios Estrangeiros e ainda tem tempo para dar uma mãozinha a Franco.
Nos escassos tempos de lazer, o ditador ainda deve ter arranjado espaço para ver o desenho animado “Branca de Neve e os 7 Anões”...
O trânsito nas cidades europeias já é uma preocupação e o parqueamento uma dor de caebça para os automobilistas.As ruas animam-se com o aparecimento dos parquímetros.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

RM (14)- Brother, can you spare a dime?




Nesse mesmo ano, um arquitecto desempregado inventa um jogo de sucesso estrondoso: o Scrubble. Os mais conhecedores surpreendiam os seus adversários no jogo com a palavra  corkscreew (saca rolhas) nome do objecto acabado de inventar, que tornava mais fácil a abertura das garrafas.
Em Nova Iorque, há “Luzes na Cidade” com a estreia do filme de Charlot, mas em Portugal a noite vai ser longa e o início da publicação do “Avante!” não contraria o retrocesso do país. Prova disso é o documentário de Manuel Oliveira “Douro Faina Fluvial”. Apesar de ser aclamado internacionalmente, só virá a ser exibido em Portugal três anos mais tarde.
No ano em que Franklin D. Roosevelt é eleito presidente dos Estados Unidos ( 1932) , D. Manuel II é sepultado no panteão da Casa de Bragança e Salazar assume o cargo de Presidente do Conselho.
Do outro lado do Atlântico, Bernard Shaw proclamava que era “Certo demais para ser belo” e tinha razão. Portugal ia mergulhar numa noite tenebrosa de 40 anos, polvilhada de pesadelos. Melhor epíteto  para Salazar, escolheu Johny Weismüller que se estreava no cinema com o filme “Tarzan, o Homem Macaco”.
No ano em que a Grande Depressão se instala inexoravelmente na Europa(1933), uma canção faz furor. "Brother can you spare a dime" retrata por palavras o cenário que se vive na Europa: actividade económica parada, desemprego, fome, miséria. Em Portugal, dava-se início ao período das eleições mascaradas, com um plebiscito ( em que as abstenções contavam como votos a favor) que aprova a Constituição de 1993.Bem a propósito, estreia o filme dos irmãos Marx, “Os Grandes Aldrabões” , um título que também assenta, como uma luva, ao Secretariado Nacional da Propaganda, criado nesse ano por António Ferro. 
O terror que se instalava em Portugal fazia jus a “King-Kong”, mas só décadas mais tarde uma cadeira partida cumpriria o mesmo papel da bomba de narcóticos que derrubou o gorila.
Na medicina , destaque para a descoberta da vacina contra a febre amarela e a invenção do pacemaker. Roosevelt lança o New Deal- um programa de emergência que visa o renascimento da América. Os trabalhadores organizam-se em sindicatos, aparece a primeira lgislação laboral, são fixados por lei os salários mínimos e o horário de trabalho, são atribuídos os primeiros subsídios  de desemprego e pensões de reforma e invalidez.. A política social estava em marcha, mas só chegaria a Portugal quase 50 anos depois.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Santa Mónica



Podia realmente estar em Porto Santo, como a maioria dos  leitores alvitrou, mas lembrem-se que eu dizia no post que o povo é  afável e alegre...
A verdade é que estou na ilha da Boavista e a praia a que me referia é a de Santa Mónica, um dos mais extensos areais do mundo e praticamente deserto ( embora possamos ver, de quando em vez, um tubarão a passar junto a nós. Sem problemas, porque estes tubarões não atacam pessoas)
Embora não seja grande fotógrafo, dentro de dias espero poder mostrar-vos umas fotos tiradas por mim, melhores do que esta, roubada na Net

RM (13)- Marlene Dietrich e a mensagem de Plutão



Em 1930 nasce uma nova estrela na tela ( Marlene Dietrich- protagonista do celebrado Anjo Azul), mas é a descoberta nesse mesmo ano de um novo planeta - que viria a ser despromovido 76 anos mais tarde- que vai marcar a década. Plutão, que na mitologia grega simbolizava o deus do inferno, é o anúncio premonitório de algumas desgraças e horrores que virão a ocorrer ao longo da década. 
A crise americana refelectir-se-ia na Europa e daria pretexto à instalação de regimes totalitários. Hitler , Franco e Salazar chegariam aos mais altos cargos políticos. O exemplo de Mussolini singrava na Europa e Portugal adere ao modelo de partido único, com a criação da União Nacional.
 O livro de Ferreira de Castro “A Selva” prenunciava os tempos que se iriam viver em Portugal nas décadas seguintes. E se a estreia do filme “A Oeste nada de Novo” baseado no livro de Erich Marie Remarque defendia valores anti-belicistas, a verdade é que se tornava claro que o mundo não escaparia a uma Segunda Guerra. Um mistério que nem Miss Marple, trazida para a ribalta pela mão de Agatha Christie, conseguirá desvendar.
Apesar da Grande Depressão, a América dá sinais de poder sair rapidamente da crise e, em 1931, os jogos de azar chegam a Las Vegas. Nesse mesmo ano é inaugurado, com pompa e circunstância, o Empire State Building, um majestoso edifício destinado a escritórios, com 102 andares. Porém, o fausto do edifício não se coaduna com a crise que se vive e os escritórios ficam às moscas, o que leva os americanos a apelidá-lo de Empty (Vazio) State Building.

terça-feira, 7 de maio de 2013

RM(12)- A Grande Depressão, Tintin e o Dia dos Namorados




Na quinta-feira negra de 1929 (24 de Outubro) a fachada de papel bolsista que alimentava o sonho de riqueza americano, ruíra como um baralho de cartas, zombando das profecias feitas, meses antes, pelo Presidente Hoover que, orgulhoso, anunciava ao povo americano estar próximo o triunfo sobre a pobreza. Acreditaria ele no sucesso dos alimentos congelados que os EUA acabavam de anunciar ao mundo? O que aconteceu nos dias seguintes, com quedas sucessivas no mercado bolsista, foi o desespero, a miséria, o desemprego e o caos económico.
 O descalabro da Bolsa, com as acções a descerem 30 por cento num só dia, acentuou a crise financeira e a quinta feira negra de 24 de Outubro foi o dia em que, formalmente, teve início a maior crise financeira do século XX, que iria durar até eclodir a Segunda Guerra Mundial.
Mau presságio para o que pode acontecer com a crise instalada no mundo inteiro desde 2007, mas que os governos ocidentais ( não apenas o português, é justo dizê-lo) só admitiriam no final de 2008, quando já estava instalada.
Nem só a Grande Depressão, porém, marcou o ano de1929.
Trotsky tornara-se um dos políticos mais populares da Revolução russa,mas não resistiu a Estaline que o deportou para Alma Ata onde viria a ser assassinado em 1940.
A Itália reconhece a Santa Sé e a soberania papal sobre o Estado do Vaticano.
Cerejeira é nomeado cardeal patriarca de Lisboa.
Nasce Tintim. Criação de Hergé, é o protagonista da primeira banda desenhada europeia e terá enorme sucesso durante todo o séculoXX,sempre na companhia do seu inestimável Milu mas, como assinalava Erich Maria Remarque , “A Oeste nada de novo” .
Seria assim? Nem tanto, pois nesse mesmo ano são atribuídos em Hollywood os primeiros Óscares (que nessa altura se chamavam ainda Academy Awards of Meritt). Wing, de William Wellmann recebeu o prémio do melhor filme e Charlie Chaplin um prémio especial,pela genialidade do seu filme "O Circo"
Em Portugal morre Columbano e Vieira da Silva parte para Paris.As artes portuguesas ficavam mais pobres. Nem o filme Zé do Telhado é capaz de disfarçar o desaire. Ainda não se falava no “Grande Circo da Fórmula 1”, mas nesse ano corria-se pela primeira vez um dos circuitos mais emblemáticos do automobilismo : o Grande Prémio do Mónaco.
Registe-se que o carro vencedor foi um Bugatti. Exactamente a marca do carro que Cristiano Ronaldo anunciou aos jornalistas ir comprar,80 anos depois, ao desfazer o seu Ferrari num acidente em Manchester.
No dia de S.Valentim, Al Capone mostra a sua raça assassinando 7 membros do bando rival de Dion O’Banion. Mais de 20 mil pessoas participaram nos funerais das vítimas.
Para assinalar a data,a Internacional Consumista vai transformar este dia no Dia dos Namorados!

Bem vistas as coisas,até não foi mal pensado. Ao fim e ao cabo há por aí tanto namoro a acabar em guerras sangrentas… 
A Lei Seca criara os seus heróis.Quais serão os heróis do fundamentalismo anti-tabágico,80 anos depois é que ainda está para se saber.Seja como for,os Loucos Anos 20 terminavam em grande estilo,fazendo jus ao nome e ao fascínio que ainda hoje granjeiam em todo o mundo.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

De regresso ao hemisfério norte

Estou de regresso ao hemisfério norte, mas não ainda a Lisboa, nome que me soa bem melhor do que Portugal.
Sou recebido com sorrisos esfuziantes, rostos onde só vislumbro beleza, simpatia e amor. O mar -esplendoroso no seu azul turquesa- está sereno, as areias são límpidas e as  praias estão quase desertas. A temperatura é de 25 graus e sopra uma leve brisa.
O Paraíso  também existe a norte do Equador e sinto a felicidade envolver-me num abraço de esperança, neste imenso areal de 18 quilómetros de extensão, onde não se vislumbra vivalma.
Onde estarei eu afinal?

domingo, 5 de maio de 2013

Aduzinda, aliás, Maria



No tempo em que as empregadas domésticas se chamavam criadas, usavam fardas e grinaldas, trocavam a casa dos pais pela casa dos patrões e havia mais candidatas a criadas de servir do que hoje em dia há candidatos a jornalistas à procura de um emprego, Aduzinda foi oferecer-se a casa de D. Amélia.
Levava uma carta de recomendação de D. Benvinda, amiga de D. Amélia desde o tempo em que tinham andado a estudar para boas mães, no colégio do Rosário. D. Amélia despedira na véspera aquela que há dez anos a servia fielmente, por ter cometido o crime de deixar esturrar a carne do jantar e salgado as batatas fritas.
Aduzinda- lia-se na carta de recomendação que deveria usar, no caso de não agradar a D. Amélia -era honesta, de uma fidelidade canina (sic) e cozinhava maravilhosamente. Estava desempregada, porque D Benvinda, a anterior patroa, se ia mudar de armas e bagagens para Lisboa, acompanhando o marido, convidado para ministro de Salazar.
D. Amélia não precisou de ler a carta de recomendação. Olhou para Aduzinda, lembrou-lhe com ar severo as regras da casa e disse:
- Terei muito gosto em que trabalhes aqui, mas há um problema…
-….???
- Todas as criadas que trabalharam cá em casa, anteriormente, se chamavam Marias. Se quiseres que eu te aceite, terei que te chamar também Maria, porque o teu nome é muito difícil de pronunciar.
Aduzinda agradeceu com um brilhozinho nos olhos e apenas respondeu, de olhar baixo:
- Não faz mal, minha senhora. Eu também não gosto do meu nome.
E foi assim que Aduzinda foi crismada, para o resto da vida, sem necessidade de ir à Igreja, nem formalidades burocráticas.
( Lembrei-me de reproduzir esta crónica, escrita em 2010, quando há duas semanas escrevi a crónica sobre Prantelhana. As minhas desculpas a quem já a leu...Amanhã espero estar aqui para conversar convosco)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

RM (11) Ascensão de Salazar e fim da belle époque



Em Portugal, o golpe de 26 de Maio desencadeado por Gomes da Costa,em Braga, e Mendes Cabeçadas, em Lisboa, anuncia o estertor da I República e a instalação de uma ditadura militar.
No ano seguinte, Lindbergh faz a primeira travessia solitária do Atlântico, pilotando o lendário Spirit of St.Louis. De Nova Iorque a Paris, sem escala, o voo dura cerca de 35 horas.
Pela Europa, com as revoltas operárias em Viena, nasce a “Viena Vermelha”, um laboratório experimental da construção socialista, que tem como emblema o bloco residencial Karl Marx.
Uma das mais importantes descobertas do século dá-se no ano em que Estaline chega ao poder na Rússia.(1928). Fruto de uma coincidência, que serve de consolação para os desarrumados, Alexander Fleming descobre acidentalmente a penicilina, que revolucionará o mundo dos medicamentos. Ainda nesse ano Schick patenteia a primeira máquina de barbear eléctrica, que acaba com os cortes matinais, e é inventado o computador diferencial.
Os loucos anos 20 vão acabar mal. Enquanto em Portugal Salazar chegava ao poder como ministro das Finanças, Hirohito era coroado imperador do Japão. Nem o “nascimento” doRato Mickey será suficiente para amenizar a crise que se irá instalar no ano seguinte. Nesta altura, o mundo ocidental era já uma encenação da “Ópera dos Três Vinténs” de Bertolt Brecht, que nesse ano se estreia na Alemanha. No início de 1929, depois de Hergé dar a conhecer Tintim, dá-se o massacre do dia de S. Valentim, perpetrado pelos homens de Al Capone, o dono do jogo, do álcool e da prostituição. 
Em Outubro, com o Cotton Club a viver o grande sucesso de Duke Ellington, e o mundo rendido ao yo- yo, Nova Iorque entra em pânico com o crash financeiro de Wall Street. Dezenas de pessoas suicidam-se e o crescimento acelerado da economia americana sofre um forte revés, com repercussões no mundo inteiro. O desemprego e a pobreza eram mais do que uma ameaça. Mas " the show must go on" e Hollywood atribui nesse ano, pela primeira vez, os seus Óscares da Academia. Alguns dos convidados chegam ao recinto ostentando a última invenção da moda : o guarda chuva.