domingo, 5 de maio de 2013

Aduzinda, aliás, Maria



No tempo em que as empregadas domésticas se chamavam criadas, usavam fardas e grinaldas, trocavam a casa dos pais pela casa dos patrões e havia mais candidatas a criadas de servir do que hoje em dia há candidatos a jornalistas à procura de um emprego, Aduzinda foi oferecer-se a casa de D. Amélia.
Levava uma carta de recomendação de D. Benvinda, amiga de D. Amélia desde o tempo em que tinham andado a estudar para boas mães, no colégio do Rosário. D. Amélia despedira na véspera aquela que há dez anos a servia fielmente, por ter cometido o crime de deixar esturrar a carne do jantar e salgado as batatas fritas.
Aduzinda- lia-se na carta de recomendação que deveria usar, no caso de não agradar a D. Amélia -era honesta, de uma fidelidade canina (sic) e cozinhava maravilhosamente. Estava desempregada, porque D Benvinda, a anterior patroa, se ia mudar de armas e bagagens para Lisboa, acompanhando o marido, convidado para ministro de Salazar.
D. Amélia não precisou de ler a carta de recomendação. Olhou para Aduzinda, lembrou-lhe com ar severo as regras da casa e disse:
- Terei muito gosto em que trabalhes aqui, mas há um problema…
-….???
- Todas as criadas que trabalharam cá em casa, anteriormente, se chamavam Marias. Se quiseres que eu te aceite, terei que te chamar também Maria, porque o teu nome é muito difícil de pronunciar.
Aduzinda agradeceu com um brilhozinho nos olhos e apenas respondeu, de olhar baixo:
- Não faz mal, minha senhora. Eu também não gosto do meu nome.
E foi assim que Aduzinda foi crismada, para o resto da vida, sem necessidade de ir à Igreja, nem formalidades burocráticas.
( Lembrei-me de reproduzir esta crónica, escrita em 2010, quando há duas semanas escrevi a crónica sobre Prantelhana. As minhas desculpas a quem já a leu...Amanhã espero estar aqui para conversar convosco)

8 comentários:

  1. Oi Carlos! Tudo em paz com você?

    Poxa, quantas espécies em extinção descreveste: as empregadas domésticas (aqui, só diaristas caríssimas), as colegiais estudantes de colégios de freiras (luxo para poucas - as outras já eram domésticas a tempos), o nome "Benvinda" (que também era comum aqui), e principalmente a fidelidade canina - depois dos sindicatos, nem os cães a tem mais, conhecem seus direitos caninos...

    Grande abraço.

    ResponderEliminar
  2. Um tempo que conheço...

    Como hoje, a "cunha/carta de recomendação" continua no activo com uma diferença...elas eram competentes!

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  3. Também me lembro desse tempo em que as criadas eram todas Marias, independentemente do seu nome de batismo. Mas essa da fidelidade canina e do despedimento ao fim de 10 anos da anterior por ter queimado a carne do jantar e salgado as batatas fritas, é bem o espelho de uma época em que a exigência patronal era exagerada e descabida... ;)

    Beijocas!

    ResponderEliminar
  4. Essas criaturas tratavam quem era de uma classe social inferior de maneira pior do que tratavam os animais de estimação.

    Felizmente , existe a lei de retorno e não falha.

    Um abraço e até logo, rrss

    ResponderEliminar
  5. Coitadas das Marias que tinham que aturar as senhoras ricas de nariz empinado!

    ResponderEliminar
  6. Li a história com um prazer enorme. Eu sou maluco por criar personagens e dar-lhes nomes e principalmente nomes menos comuns. A história em si é deliciosa.

    ResponderEliminar
  7. Isto é que eram patroas a sério, Carlos.
    Mais ou menos como os americanos que, quando descobriram a América, pensaram que estavam na Índia.
    E começaram a chamar índios aos nativos.
    E assim ficaram até hoje :))
    Aquele abraço e votos de boa semana!

    ResponderEliminar
  8. Na actualização fala na Guerra Civil espanhola....

    Tudo de bom, amigo

    ResponderEliminar