domingo, 26 de maio de 2013

Coisas de vizinhos


Neste blogobairro bem frequentado, onde os vizinhos se cumprimentam amiúde e a boa educação é uma regra por todos respeitada, o Dia do Vizinho  ( que se assinala no próximo dia 31) é um bom momento para reflectir sobre as diferenças entre a vizinhança virtual e a do mundo real, que vemos nos nossos prédios diariamente, mas sobre a qual pouco ou nada sabemos.
Hoje queria contar-vos a história do meu primeiro contacto com os vizinhos do prédio onde vivo  em Lisboa, desde que regressei a Portugal. Era solteiro e bom rapaz, regressava com a sensação de que, em quase 25 anos de regime democrático, a mentalidade dos portugueses se tinha alterado.
A maioria dos leitores deve saber o que significa instalar-se numa casa nova. Gente que entra trazendo mobílias, a senhora dos cortinados, a empregada doméstica que tacteia os cantos e entra e sai várias vezes ao dia, porque é preciso comprar mais qualquer coisa, o electricista, o homem que vem trazer o televisor e a aparelhagem de som, mais o da máquina de lavar, do fogão e do frigorífico, gargalhadas de amigos que não víamos há muito e apareceram para dar uma ajuda, o barulho de pregar na parede ( sempre durante o dia e nunca ao fim de semana, porque respeito a Lei do Ruído…) quadros e fotografias que fixam memórias de países longínquos, caixotes que chegam com aquilo que se foi acumulando ao longo de anos, noutras paragens, enfim, uma parafernália de sons e ruídos que mexem com o quotidiano de um prédio, mas que são inevitáveis quando nos queremos instalar confortavelmente e dar início a uma nova vida.
Saía do elevador carregando as últimas malas, quando uma senhora que já vira várias vezes, me abordou nestes termos, sem sequer me dizer boa tarde:
- Olhe, eu sou uma das administradoras do prédio. O sr. está a mudar-se para aqui, não é?
-Bem, neste momento só me estou a instalar, parto outra vez no final da próxima semana e só volto daqui a três meses. Estou a tratar de tudo para, quando regressar definitivamente, estar tudo em ordem e não ter sobressaltos.
-Vai voltar para Macau, é?
Arregalei os olhos. Como é que uma fulana com quem nunca falara sabia que eu tinha andado por Macau? E como é que se atrevia a fazer uma pergunta tão desconchavada, no primeiro contacto que tinha comigo? Mesmo assim, numa atitude de boa vizinhança esclareci-a:
- Já saí de Macau há uns tempos, agora estou a viver na Argentina. É para lá que vou…
- Bem, mesmo assim, deixe-me avisá-lo já de uma coisa. Já percebi que vem para aqui viver sozinho e quero que saiba que este prédio é muito calmo, não estamos habituados a gente solteira, por isso, não queremos barulho. Os homens solteiros gostam de fazer festas, trazer amigas e depois é um reboliço durante toda a noite. Para evitar problemas, é bom que saiba desde já quais são as regras do prédio.
Fiquei sem fala durante uns segundos. Depois lá consegui perguntar:



-Desculpe, como é que sabe que vivi em Macau e que sou solteiro?
- Quando o senhor andava em negociações para a compra da casa quisemos saber tudo a seu respeito. Quem era, de onde vinha, por onde tinha andado.
- Bem, pelos vistos a informação que lhe deram está desactualizada, uma vez que já não estou a viver em Macau …
- Mas vem para cá viver sozinho, não vem?
-Porque pergunta?
-Como não usa aliança e não vi ainda nenhuma senhora a acompanhá-lo com ar de ser sua esposa, penso que seja solteiro ou divorciado…
Não acreditava no que se estava a passar. Comprara casa numa zona onde, supostamente, o nível sócio-cultural das pessoas era pouco dado a mexericos e conversas de vão de escada. Pedi desculpa e, alegando cansaço, despedi-me. Sosseguei a senhora- que aparentava ser mais ou menos da minha idade- dizendo que respeitaria o direito ao repouso dela e de todos os vizinhos. Entrei em casa a remoer a situação e a dizer mal da minha vida. Ainda não me instalara e já estava com vontade de mudar de casa.
Quando voltei, ao fim de cinco meses- e não dos três que planeara – meti as malas em casa e decidi ir falar com a vizinha. Tinha o discurso estudado. Dir-lhe-ia “cheguei, agora vou ficar de vez e espero que não espiolhe a minha vida, não queira saber com quem entro em casa , salvo se estiver interessada em fazer-nos companhia”. Assim, curto e grosso a fim de evitar mais conversas.
Quando ela abriu a porta, fez um ar de espanto e disse:
- Ah! Até que enfim! Tinha dito que só demorava três meses, até pensei que tinha decidido ficar por lá… Olhe seja muito bem vindo, esperamos que se dê bem e gostávamos de o convidar para um dia destes vir jantar cá a casa. Eu e o meu marido cultivamos a boa vizinhança, sabe... e como não temos filhos, gostamos de receber os amigos em casa.
A minha cara deve ter-se coberto de um carregado sorriso amarelo, mas ainda consegui dizer:
-“ Um dia mais tarde combinamos, agora não é oportuno. Acabo de chegar e tenho que organizar primeiro a minha vida.”
Até hoje. A senhora já lá não mora, mas enquanto lá viveu, sempre nos cumprimentámos educadamente. Mais convites para jantar é que, felizmente, não houve.Muitos dos vizinhos daquele tempo já se mudaram e chegaram alguns novos. Muitos são casais jovens. Tal como com os anteriores, os contactos são poucos. Apenas com meia dúzia de pessoas me demoro alguns minutos a conversar. Não frequentamos as casas uns dos outros. Vivemos com a urbanidade possível – uma palavra que detesto- discutindo duas vezes por ano os problemas do condomínio. 


19 comentários:

  1. Eu chamo-lhe civilidade. No prédio onde moro acontece mais ou menos a mesmo coisa,uns cumprimentos educados e chega! Também não preciso de mais! Já no bairro, tradicional, nas lojas, no mercado, toda a gente conversa. E eu gosto desta faceta alfacinha :)

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    1. Também cultivo muito as relações de bairro, no que concerne ao comércio tradicional. Gosto da forma como sou tratado, tão diferente da impessoalidade das grandes superfícies

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  2. A boa vizinhança para mim passa exclusivamente pelo respeito do espaço que se partilha, do cumprimento educado e diário pois, no meu ponto de vista, tudo o que ultrapasse esta "formalidade" abre grandes caminhos à intromissão, à "espiolhice" e "coscuvilhice" das vidas alheias. Não gosto de me por nessa disponibilidade até porque não tenho qualquer interesse pessoal na vida dos meus vizinhos.

    http://lavarcabecas.blogspot.pt/

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  3. Desculpe mas, acho tão errado considerar que há um nível socio-cultural para o mexerico como pensar que homens solteiros são todos 'festeiros' ou que a sua esposa tem que ter um 'ar' especificico...

    Eu sou administradora do meu prédio por 'imposição' dos vizinho só por isso contacto um pouco mais com eles fora as questões administrativas só um bom dia nas escadas... mas tenho uma vizinha que segue a vida das pessoas pela janela sempre que chego ou saio ela está à espreita na janela...

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    1. Felizmente aqui no prédio as administrações são rotativas, mas já tive de cumprir a missão por duas vezes. Nem imagina o sacrifício:-)
      Concordo consigo nas apreciações que faz no 1º parágrafo do seu comentário, mas aquela ex-vizinha não era da mesma opinião:-)

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  4. A "bilhardice! não tem "classes" , sendo, por vezes, bem pior e maléfica nas classes ditas "BEM".


    Onde moro, limito-me a cumprimentar, quem encontro, sem familiaridades.

    Beijinhos.

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    1. Com alguns vizinhos tenho alguma familiaridade, embora não conviva com nenhum. Gato escaldado...
      Beijinhos

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  5. No meu prédio também só troco os bons dias com os vizinhos, quando os encontro na escada ou nos elevadores. Ou uma ou outra conversa circunstancial sobre o tempo, os miúdos pequenos (e o inevitável "está tão crescido!") ou os cães (deles, que eu não tenho).

    No prédio onde vivi anteriormente, também morava lá uma amiga de longa data, que por sua vez era amiga de alguns outros vizinhos, de modo de convivia mais com meia dúzia deles. A esses ainda os encontro de vez em quando. Mas ninguém se metia na vida de ninguém, logicamente, a convivência era (e é) saudável e amigável. Mas para ser um relacionamento de coscuvilhice e bisbilhotice, prefiro manter as devidas distâncias... :)

    Beijocas!

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    1. Lembrei-me deste post quando, há dias, estava a escrever sobre o livro do Nuno Camarneiro (Debaixo de Algum Céu). Penso que as relações nos prédios ( salvo raras excepções) são como ele as descreve e não me parece nada mal que assim seja, pois precisamos de salvaguardar a nossa privacidade.
      Beijinhos

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  6. Na minha opinião, e por experiência, os mexericos e as conversas de vão de escada, acontecem em qualquer nível sócio-cultural. O que pode diferir é a terminologia e/ou a forma de se expressarem. Da mesma forma que um rapaz solteiro ou uma rapariga solteira não devem estar sujeitos a esses estereótipos. : )

    Esta falta de convívio, tão característica dos grandes centros urbanos, é um desalento.

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    1. É um desalento, mas também uma forma de as pessoas preservarem a sua privacidade, Catarina.
      Concordo em absoluto que os mexericos são transversais à sociedade, embora se manifestem de formas diversas.

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  7. Nem oito nem oitenta. Não gosto de coscuvilhice mas algum convívio poderá ser salutar. Agora essa vizinha da história do Carlos pareceu-me de deixar qualquer um de boca aberta. :)

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    1. Como já escrevi num comentário acima, tenho alguma familiaridade com alguns vizinhos, mas com o tempo percebi que, para salvaguardar a minha privacidade, era melhor manter alguma distância de... segurança :-)

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  8. Simpatia, cordialidade, educação e sempre um bocadinho de cerimónia...era a opinião da minha avó que muitas vezes me disse que até no casamento deveríamos ter uma pequenina reserva de cerimónia :))))
    xx

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  9. Essa senhora não teria um detective privado ao serviço? :))

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  10. Eu guardo poucas boas recordações de vizinhos. Quando estava em casa da minha mãe, era a vizinha de baixo que constantemente nos vinha aborrecer porque nos ouvia andar. Tentámos todas enveredar pela levitação, mas sem sucesso.
    No meu período de solteira emancipada no meu apartamento, também os vizinhos de baixo eram odiosos. Odiosos. Do pai aos ranhosos filhos, deus me perdoe, mas até as crianças eram odiosas. Malcriadonas, inconvenientes, barulhentas, e, sim, vou dizer, absolutamente execráveis. Meu deus como os odiei e à sua dieta de peixe assado na varanda dia sim dia sim, ao almoço e ao jantar que nem se conseguia abrir uma janela e estender a roupa era uma roleta russa.
    Agora nesta casa estou melhor. Tenho mais espaço não acessível. Como sou reservada (muitos diriam antipática, e é para o lado que durmo melhor que não gosto de conversa de chacha e tenho mais que fazer), é o bom dia e boa tarde, a ocasional banalidade quando se encontra alguém a passear o cão e pouco mais. Já me aconteceu voltar a entrar em casa porque teria de falar com um vizinho que estava a passarinhar por ali e não me apetecia. A vida é curta e eu sou uma mulher ocupada.Temos pena.

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  11. Acho que é sempre bom cultivar relações cívicas com os vizinhos. No meu caso tenho um muito bom e um péssimo :p É para conhecer os extremos :)

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  12. Nisto de vizinhos, nada como ser educado, mas não entrar em intimidades.
    Devido a certas particularidades da minha vida pessoal, e de não me inibir nunca de ser como sou, pensei que poderia vir a ter problemas com a vizinhança, se bem que nunca usei a minha casa para nada que pudesse ser socialmente condenável. Hoje, suponho que toda a gente sabe perfeitamente como eu sou, mas respeitam-me totalmente, porque também me sei dar ao respeito.

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