domingo, 12 de maio de 2013

Quem conta um ponto...


Era sexta-feira de manhã e, como habitualmente, levantou-se mais cedo a fim de fazer os preparativos para “rumar à terra”, na mira de recuperar, durante o fim-de- semana, das laboriosas agruras urbanas.
Começou por atestar o depósito numa gasolineira onde lhe forneceram um sucedâneo de um cartão de crédito que- disseram-lhe- servia para coleccionar pontos que posteriormente poderia trocar por prémios.
Lembrou-se, então, que o cartão de crédito do seu banco também lhe oferecia pontos por cada 20 euros de pagamentos efectuados. E como quantos mais pontos somasse, mais possibilidades teria de ganhar um prémio, decidiu puxar do cartão para efectuar o pagamento. A operação custou-lhe 50 cêntimos a mais, mas nem se apercebeu disso.
Durante o trajecto para o emprego, ouviu na telefonia um anúncio de uma operadora de telemóveis que o aliciava para a possibilidade de fazer chamadas grátis, se conseguisse obter um determinado número de pontos. Aproveitou para desafiar as regras de trânsito e telefonar para a escola da filha, o emprego da mulher e para casa de uma amiga, combinando um jantar para a semana seguinte. Teria feito ainda mais alguns telefonemas, se não tivesse sido abalroado por um buzinão espontâneo que se formou atrás de si, intimando-o a avançar, porque o sinal verde já “caíra” há três segundos.
No emprego, aproveitou a “pausa para o café” para ir ao supermercado fazer umas compras de última hora que a mulher lhe pedira durante o telefonema. Ao pagar, deram-lhe um “vale” de 15 pontos e informaram-no que quando somasse 500, teria direito a candidatar-se a um sorteio de uns patins em linha.
Passou ainda pelo Banco para depositar uns dinheiritos na sua conta poupança e viu que o seu crédito somava agora 60 pontos. Não sabia exactamente o que isso significava, mas sentiu-se reconfortado com o bónus.
Regressado ao trabalho, recortou os pontos do seu jornal diário que lhe oferecia, mediante 15 pontos, um telemóvel “ao preço da chuva”. Será para dar à filha e tê-la melhor controlada nas suas saídas nocturnas, confidenciou à colega de trabalho a cujas pernas, generosamente desnudadas diante dos seus olhos atribuiu, sem hesitar, 18 pontos.
À hora do almoço, comprou uma revista e um jornal, não porque tivesse o hábito de o fazer, mas apenas por se ter sentido atraído pelas capas que anunciavam temas de interesse fundamental para a sua vida, como “Júlia Pinheiro vai fazer uma operação estética” ou “O depoimento de Margarida Rebelo Pinto sobre o caso da Quinta da Fonte”. Além disso, a contra capa da Revista anunciava um concurso promovido por uma marca de refrigerantes que oferecia pontos nas cápsulas. Aproveitou para anotar o nome da marca na lista de compras, comprometendo-se a divulgar a descoberta à mulher.
No final do dia foi buscar a companheira dos últimos 20 anos e nem reparou que esta aperaltara a cabeleira de forma pouco usual, para um fim de semana no campo. Já a viagem decorria há uma boa meia hora, quando a mulher rompeu o silêncio para lhe perguntar o que achava do seu novo penteado, enquanto esclarecia que decidira ir naquele dia ao cabeleireiro, porque com os pontos que somara com aquela operação recebera em troca um “shampô” da sua marca favorita.
Olhou-a num relance mal medido e sentenciou: “Vales 8 pontos”.
Sentindo-se ofendida, por desconhecer que o marido utilizara uma escala de 0 a 10 e não a de 0 a 20 a que fora acostumada nos seus tempos de escola, fez eclodir uma cena conjugal. Ali mesmo, em plena estrada.
Na tentativa de se desculpar e explicar que até a classificara de forma muito elogiosa, perdeu o controlo do carro e despistou-se. Por coincidência, foi bater num outdoor anunciando os serviços de uma clínica. Com o sobrolho a sangrar, ainda conseguiu avaliar os estragos nuns 200 pontos (ou seriam contos?), o que pago com cartão de crédito lhe aumentaria substancialmente a possibilidade de vir a receber um carro novo, (desde que a sorte, evidentemente, não lhe virasse as costas).
Embora os serviços do SOS estivessem a escassos 100 metros, insistiu com a mulher em ligar do telemóvel e chamar os serviços da clínica que se exibia diante dos seus olhos. Assim somaria mais uns quantos pontos.
Foi suturado com 19 pontos, ficando a um ponto apenas de ganhar um serviço de ambulância e pronto socorro grátis, numa próxima necessidade em que solicitasse os serviços daquele estabelecimento.
“Azar!”- vociferou entre dentes. A sociedade de consumo fora mais uma vez madrasta. Tinha-o batido... aos pontos! Por apenas um ponto!
Ou, por outras palavras, acabara de compreender que “quem conta uns pontos, se arrisca a parecer um tonto...”
( Escrevi esta crónica em 2004 para a revista Tempo Livre. Durante a semana regressarão as estórias originais)

13 comentários:

  1. Hoje, esta história continua a somar pontos! :)

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    1. Em Portugal, somar é uma coisa cada vez mais difícil, cara Luísa. Andam a subtrair-nos tudo!

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  2. :) Continua muito actual (e eu tenho de ter cuidado porque muitas vezes sou atraída por pontos assim :)

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    1. Numa cidade como a nossa ( o Porto), Gabi, o melhor é deixar-se atrir por pontes e não por pontos!

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  3. A Luisa "tirou-me" o comentário...

    Continuas post após post a somar pontos. Já dos pontos ,"oferecidos", fujo deles!!!

    Beijinhos.

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    1. Como também já disse à Luísa, somar neste país é cada vez mais difícil, Elisa. Cheguei há 24 horas e já me subtraíram não sei quantos pontos!
      Beijinhos

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  4. Ainda muito atual! A malta faz questão de afirmar que não gosta nem percebe de matemática, não sabe fazer contas básicas e depois é engrupida à grande com estes descontos, promoções e concursos... ;)

    Beijocas!

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    1. Às vezes tenho a sensação que a malta gosta de se deixar enganar, Teté
      Beijinhos

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  5. A sociedade de consumo é o que é, mas nós temos cabeça para mais alguma coisa do que fazer cortes de cabelo...

    Bisous, amigo meu

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    1. às vezes, pergunto-me se alguns têm mesmo cabeça, São!
      Bisous e uma boa noite

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  6. Uma delícia, com direito a muitos pontos...

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