sexta-feira, 17 de maio de 2013

RM-19: Nós por cá todos bem!




A manifestação organizada pela União Nacional no Terreiro do Paço ( Abril de 1940) para celebrar os 52 anos de Salazar, é elucidativa de que por cá tudo estava bem. A Legião Portuguesa era da mesma opinião, por isso faz uma outra manifestação, em Julho, para celebrar a invasão da URSS pela Alemanha. Para a encenação ficar completa e o Estado Novo sair reforçado, faltava que o coreógrafo António Ferro terminasse o seu trabalho: a Exposição do Mundo Português. Inaugurada com pompa e circunstância em 23 de Junho de 1940, a mostra era o retrato do misticismo com que o Estado Novo procurava reconstruir a nossa história. Prova disso, é que não existia qualquer referência ao período entre 1820 e 1926. Como se esse século liberal pura e simplesmente tivesse sido varrido da História, Ferro e Salazar depositaram-no no caixote do lixo da memória. Os portugueses, porém, estavam orgulhosos e acorreram em massa a Belém para assistir “in loco” a esta encenação "para exportação" do Estado Novo. Felizmente para Salazar, o analfabetismo dos portugueses aumentava e as vozes que se levantaram foram rapidamente silenciadas. A Bem da Nação!
Dois anos mais tarde ( 1942) enquanto Hitler e os seus acólitos se entretinham a lançar fogo de artifício sobre Inglaterra, testando as capacidades do V2, o conflito pegava fogo aos Estados Unidos, e em Portugal se começava a assistir a alguma agitação social devido à escassez de produtos essenciaias, Salazar assina com Franco o Pacto Ibérico. António Lopes Ribeiro assinala o momento com a estreia de O Pátio das Cantigas . O cinema português inicia nesse ano, aliás, um período de oiro. Pese embora muitos desses filmes ainda hoje nos fazerem salivar de saudade dos grandes humoristas como António Silva, Vasco Santana ou Ribeirinho, a verdade é que outros houve que mais não foram do que propaganda ao regime. Ferro foi acérrimo opositor da “comédia portuguesa” -chegou a chamar-lhe cancro nacional- e entusiasmado defensor dos filmes históricos que fizessem ecoar bem alto os nobres princípios do salazarismo. Não se deveria ter maçado tanto a zurzir na comédia porque, apesar de ser uma crítica de costumes, ela enaltecia a máxima Deus Pátria e Família, sustentáculo da ditadura.
Apesar daquele ar austero, a comédia também seria do agrado de Salazar, caso contrário, talvez não tivesse extinto o Serviço Nacional de Propaganda, para o substituir pelo SNI ( Serviço Nacional de Informação) . As funções eram idênticas, mas o nome tinha muito mais piada, porque falar em informação num Estado Novo que utilizava despudoradamente a Censura, só podia dar vontade de rir. Maior gargalhada estava porém reservada para 1945. Terminada a guerra, assinada a carta de fundação da ONU, Salazar anuncia ao país e ao mundo, com grande espavento, que realizará eleições “ tão livres como as da livre Inglaterra”. Esqueceu-se, porém, de dizer que a sua promessa só seria concretizada ( e contra a sua vontade expressa) 30 anos depois, em 25 de Abril de 1975.
Todos sabemos que os portugueses não primam pela pontualidade, mas 30 anos (e ainda por cima só porque uma cadeira resolveu acelerar o processo) convenhamos que é atraso demasiado. Com esta falta de pontualidade no cumprimento de promessas- que haverá de fazer escola na classe política portuguesa, até aos dias de hoje- , como é que não haveríamos de estar tão atrasados em relação à Europa?

6 comentários:

  1. Olá amigo Carlos!
    Recuar na história é sempre algo que tanto dá para não comentar, como dá para dissecar todos os pontos ali focados.

    De regresso, para ficar?
    E essa saúde também andava a precisar duns retoques, não andava?
    Grande abraço

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  2. António Silva, Vasco Santana ou Ribeirinho seja o pátio das cantigas ou outros, são filmes que ainda hoje adoro ver, por vezes dá na RTP Memória.
    "a minina não fala politica"

    Bom fim de semana Carlos

    beijinho e uma flor

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  3. Vasco Santana, António Silva, Ribeirinho , Helena Matos são , para mim, os verdaDEiros cómicos: não partem estúdios, não são grosseiros, não insultam...e fazem-nos, ainda hoje, rir de gargalhada.

    Uma pena que restem pouquinhos nessa linha.

    Amigo, bom fim de semana.

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  4. "Estou quase a chegar."- É uma das máximas preferidas dos portugueses. E até chegam, mas quase sempre (estou a ser generosa), atrasados!
    Gostei bastante do seu texto!

    http://www.lavarcabecas.blogspot.pt/

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  5. Uma época de "luxo" na comédia Portuguesa.

    Tanto precisávamos que a história se repetisse e uma "CADEIRINHA" caísse!!!

    Beijinhos.

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  6. Os anos de ouro da comédia do cinema português...

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