domingo, 30 de junho de 2013

A Porta



Não sei as condições em que vive, porque cada vez que lhe bato à porta, apenas uma frincha se entreabre. Sei que vive há 15 anos com os três filhos, numa exígua casa de porteira com duas assoalhadas. Ao marido, trabalhador da construção civil, expulsou-o de casa há mais de cinco, numa madrugada em que chegou a casa bêbado e lhe deu (mais) uma tareia.
Sei que pelo seu corpo ainda jovem, evidenciando as marcas de maus tratos do homem e da vida que lhe foi madrasta, corre sangue fervente e na ponta da língua tem sempre resposta a um piropo atrevido. Tem um fraco por trabalhadores da construção civil. Daqueles que passam os dias empoleirados em andaimes, fixos ou móveis, balouçando ao sabor do vento. Depois de expulsar o marido de casa, apaixonou-se por um que, ao fim de um mês, desapertou o cinto para lhe cravar as marcas na pele. Disse-me, um dia :“este foi como uma rabanada de vento. Bateu forte, mas pôs-se logo a andar”.
Há dois meses começaram obras lá no prédio. Poucos dias depois, tornou-se perceptível que ela andava de namorico com um dos artistas do andaime. Consta que um fim de tarde ouviram o arfar de ambos na cave, junto aos contentores do lixo. A administração do prédio avisou-a que não toleraria a repetição da cena. Para lá da porta de sua casa, poderia fazer o que entendesse, mas nas partes comuns do prédio, se voltasse a ser apanhada, seria despedida.
O sangue fervia-lhe no corpo, pronto a explodir numa lava de desejo contido mas, com três filhos em casa, ela não arriscava franquear-lhe a porta.
No último sábado, surgiu a oportunidade. O pai dos filhos fazia anos e ela iria ficar sozinha em casa. Comunicou-lhe o facto e traçaram o plano. Ela cozinharia o seu prato preferido, ele apareceria por volta do almoço e, depois, entregar-se-iam um ao outro ao longo da tarde. Havia, porém, um pormenor. Ela não queria que ele tocasse à campainha. Quando chegasse perto do prédio, devia telefonar-lhe e ela deixaria a porta entreaberta para ele entrar. Se a porta estivesse fechada, não tocaria à campainha..
Na manhã de sábado ela aperaltou-se e cozinhou com esmero a feijoada, carregando no piri-piri, comprado pela manhã na mercearia do bairro, para ter a certeza que gozava de todas as suas propriedades.
Faltavam 15 minutos para a uma quando o telefone tocou. Nervosa, atendeu. Pôs mais duas gotas de perfume. Abriu a porta. Ele lembrou-se que se esquecera de lhe levar uma flor. Sem lhe dizer nada correu para a florista da esquina e comprou atabalhoadamente uma rosa encarnada. Voltou ao prédio. Quando chegou, a porta estava fechada. Uma rabanada de vento boicotara o encontro.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

RM 43: Do cubo de Rubik à Internacional Consumista


Ainda agora começou a de´cada de 80 e já anda tudo doido! O Mundo inteiro de cubo (de Rubik) na mão, a ver se encontra uma cor para cada face. E o curioso é que este quebra cabeças em três dimensões, responsável pela febre que alastra pelo mundo ocidental, vem de onde menos se esperava. Do lado de lá do Muro, mais concretamente da Hungria. Será maldição vinda do Leste, pela vitória conseguida pelo Solidariedade na Polónia, depois da ocupação dos estaleiros Lenine em Gdansk? 
Enquanto Lech Walesa reivindicava a legalização dos sindicatos livres na Polónia, a AD ganhava as eleições em Portugal e o actor de cinema Ronald Reagan era eleito presidente dos Estados Unidos . Consequência imediata: Os filmes “O Tambor”, baseado no livro de Günther Grass ( vencedor do Óscar para o melhor filme estrangeiro) e “The Wall” , dos Pink Floyd, são um aviso de que algo se vai passar do lado de lá do Muro, mais para o final da década. Nessa altura, já Jean Paul Sartre, que morre em 1980, não estará cá para ver.
Em nome de Alá, o fanatismo religioso é pretexto para uma nova saga terrorista de âmbito internacional. Não é no entanto o Islão, mas sim a extrema direita, quem assassina monsenhor Óscar Romero em S. Salvador. Já Tito morre de velhice, provocando apreensão sobre o desenvolvimento geo-estratégico nos Balcãs que, bem ou mal, conseguira manter unidos na Federação Jugoslava.
1980 foi ano de Jogos Olímpicos em Moscovo. Os principais protagonistas, desta vez, não são os atletas, pois 63 países decidem boicotar os Jogos, como forma de protesto contra a entrada de tropas soviéticas no Afeganistão. Em 2008, a entrada das tropas chinesas no Tibete não vai despertar idêntica reacção. Não é de estranhar. Por esse ano ainda longínquo, a Internacional Consumista, eufemisticamente apelidada de globalização, fala mais forte, apesar de estar gravemente doente. Em 2008 já não há Muro de Berlim e a China é um país com um crescimento pujante, cujo mercado não se pode desprezar. Bem, mas regressemos a 1980...
A figura dos Jogos de Moscovo é um urso. Chama-se Mischa e, na cerimónia de encerramento, verte lágrimas que emocionam o mundo, num espectáculo coreográfico que marcou uma nova era nas cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos.
"Com um brilhozinho nos olhos", Sérgio Godinho anuncia a chegada do CD e o início das emissões regulares de televisão a cores a Portugal. Nos EUA a televisão vai entrar numa nova era com o arranque da CNN ( apelidada pelos seus críticos de Chicken and Noodle Network) que, meses mais tarde, dará ao mundo a triste notícia do assassinato de John Lennon.
O Japão passa a ser o maior produtor mundial de automóveis e a indústria americana do sector vive momentos difíceis.É a aplicação prática da história da cigarra e da formiga… enquanto os americanos desdenhavam a hipótese de nova crise petrolífera, os japoneses já se preparavam para ela há anos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

RM 42: Ai, Gabiela! O mundo está a ficar perigoso




Em Portugal, a hora é de Coca Cola e telenovela. A mítica bebida, proibida por Salazar, chega ao nosso País. A sociedade de consumo está na calha? É formalizado o pedido de adesão à CEE...
Na RTP estreia "Gabriela" que prende o país inteiro à televisão a seguir ao jantar. Os cinemas protestam, mas o estrondoso êxito de "Star Wars" acalma um pouco os ânimos. No entanto, o cinema não voltará a ser o que era e nesse mesmo ano vê desaparecer Charlie Chaplin e Groucho Marx.
A degradação ambiental atinge o património Histórico. A Acrópole está ameaçada pela poluição, avisa a UNESCO.
1978. O mundo está a ficar perigoso. O ano começa com a Suécia a proibir os sprays, a Primavera inunda a costa da Bretanha com petróleo derramado por um superpetroleiro naufragado e o Verão desponta com o nascimento do primeiro bébé proveta.
Os contos de fadas tornam-se realidade e Carolina de Mónaco casa com um plebeu. Mas não serão felizes para sempre...
A última criação da sociedade de consumo dá pelo nome de telefone celular e não se augura nada de bom, mas não é pelo seu peso desmesurado... Em Portugal a perturbação política e a crise  financeira não é propícia a grandes avanços da sociedade de consumo. 
No último ano da década a "Dama de Ferro" torna-se chefe do governo britânico. A sociedade de consumo aplaude e apressa-se a enviar telegramas de felicitações. Como presente envia à inquilina de Downing Street a sua última criação-o telecomando. Margareth resiste, não faz zapping, e continua obstinada na sua política
Com o Código Postal é meio caminho andado, afirma a campanha publicitária dos CTT, mas andar com um walkmann (a grande oferta musical da sociedade de consumo para a juventude neste final de década) nos ouvidos, enquanto se conduz, também pode ser meio caminho para a morte. Glória Gaynor, porém, sossega os espíritos cantando "I Will Survive". Ela sabia que o pior ainda estava para vir.
Os ecologistas tinham razão. A energia nuclear encerra perigos que podem ser incontroláveis. A tragédia esteve a um passo de acontecer na Pensilvânia. Não houve desastres pessoais, mas dez mil pessoas foram obrigadas a abandonar a região.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

RM 41: "E Depois do Adeus", o povo saiu à rua a cantar "Grândola Vila Morena"


Foto de Eduardo Gageiro

No dia 1 de Janeiro de 1973, a CEE alarga-se à Dinamarca, Reino Unido e Irlanda. São os primeiros países a entrar para o espaço comunitário, desde a sua criação, em 1958.
Portugal continua orgulhosamente só e indiferente às críticas internacionais, cada vez mais afastado do mundo civilizado. Ao contrário, parece seguir em caminho inverso ao da História e o deputado Casal Ribeiro chega a pedir, na Assembleia Nacional, a pena de morte para os "terroristas". Depois de a ONU reconhecer a Guiné Bissau e condenar a nossa política em África, Portugal brinca ao "faz de conta". Enquanto são massacrados 400 civis em Wiryamu, a propaganda turística convida para "Moçambique -Praias de Sonho". A hipocrisia vai durar até ao fim e a publicidade dá uma ajuda. 
Mas há sinais de mudança. O Congresso da Oposição Democrática em Aveiro confirma que o País não está adormecido e o Movimento dos Capitães dá os primeiros passos. O país vive em bichas, de manhã à noite, em busca de gasolina. Os membros da OPEP diminuiram a produção de petróleo e aumentam o preço do barril para o dobro. De tudo isto nos dá notícia um novo semanário: o "Expresso".
Termina a Guerra do Vietname mas os EUA, talvez frustrados pela derrota, dão cobertura - e participam - no assassinato de Salvador Allende que, seis meses antes, fora eleito Presidente do Chile.A grande febre no mundo ocidental é o skate.
Estamos em 1974, mergulhados em profunda crise energética. Na Grã Bretanha é o caos. Os mineiros, maquinistas e gasolineiros entram em greve e agravam a crise, o que leva o Governo a decretar que as fábricas só poderão laborar três dias por semana. A sociedade de consumo treme. Mas não cai. 
Felizmente para os portugueses, o que cai é uma ditadura de 40 anos saloia e bafienta. "O Povo saiu à rua " entoando "Grândola Vila Morena", quando ouviu "E depois do Adeus". As salas de cinema enchem-se para ver "O Último Tango em Paris", o derradeiro soft core da onda de erotismo que começou a invadir a Europa no início da década. 
A sociedade de consumo "não passará"? A Lei que estava para ser discutida na AN no dia 25 de Abril nunca entrará em vigor, mas a DECO acaba de ser fundada por um grupo de entusiastas dos direitos dos consumidores. A crise energética deixa os países industrializados "à beira de um ataque de nervos" e a energia nuclear surge como solução salvadora. A indignação ambientalista aumenta e as manifestações sucedem-se.
Em 1975, Ano Internacional da Mulher, é eleita como Presidente do Partido Conservador inglês Margaret Thatcher, mas em Porugal, "o Povo é quem mais ordena" graças ao Processo Revolucionário em Curso (PREC). A ordem é nacionalizar e a sociedade de consumo irrita-se. Irá perder um cliente? Quem começa a perder clientes são as empresas tabaqueiras, com o início das campanhas anti-tabágicas na Europa e nos Estados Unidos.
Ponto final na Revolução Cultural Chinesa. Estamos em 1976, ano da morte de Mao. A Grande Marcha “chega ao fim” e o Bando dos Quatro é preso. Apenas um ano depois da descoberta do exército de Terracota, uma das maravilhas do mundo.
Outra maravilha, mas só para alguns jovens, é o movimento (?) punk que tem nos "Sex Pistols" um retrato fiel. Quem não gosta de se ver retratada com um brinco no nariz, na capa de um dos seus discos é a Rainha. Mal agradecida (até porque o grupo lhe dedica o tema do álbum -God S(h)ave the Queen), consegue que o disco seja proibido. Já não há mulheres assim!
A sociedade de consumo prepara-se para começar a abandalhar. É preciso agradar a todos. Para cada um seu instrumento, é o lema que seguirá quando estiver reabilitada da crise petrolífera. Por agora encontra-se em convalescência e os médicos recomendam-lhe repouso.
Quem está de boa saúde são as multinacionais, apesar de aos olhos do mundo serem responsabilizadas pelo desastre de Seveso, em Itália, e outras catástrofes ecológicas como Bhopal (Índia) e o ExonValdez.
As mamãs têm boas razões para sorrir graças às fraldas descartáveis.
Em 1977 morre Elvis Presley, pondo milhares de fãs em luto consternado. Mas para a sociedade de consumo o lema é "Rei morto rei posto" e inventa um novo ídolo feito à pressa. Chama-se John Travolta e incendeia o mundo com "Saturday Night Fever". Os tempos estão maus para os grandes empresários. O patrão da Mercedes é assassinado pelas Baader- Meinhof.
Há dez anos que Paris vive uma crise de ciúmes. Londres roubara-lhe muita clientela turística desde meados da década de 60. Por isso decide abrir um Centro para as Artes. Encomendou o projecto a dois arquitectos arrojados e chamou-lhe Pompidou. Um sucesso....
Sucessos também hounve em Inglaterra, mas...na TV com a estreia dos "Marretas". Miss Piggy e o sapo Cocas deliciam miúdos e graúdos e a força da sua popularidade, aliada ao êxito da televisão, fazem com que inúmeros actores ambicionem ser seus companheiros num programa.

terça-feira, 25 de junho de 2013

RM 40:Vender sonhos, em troca de pesadelos

Kim Phuc, fugindo das bombas de napalm americanas (Vietname)


Dos EUA chega a notícia de que o mundo da fantasia, criado por Walt Disney, tem um novo parque de diversões em Orlando.
Ao ganhar sete medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique (1972) Mark Spitz entra para a lenda olímpica e para a História da sociedade de consumo. Troca a competição por chorudos contratos publicitários.
Durante o ano é posto à venda o videogravador, e a televisão continua a fabricar ídolos. O mais recente é negro,chama-se Michael Jackson e tem apenas 14 anos. Uma série dedicada aos direitos dos animais, cujo tema musical interpreta, é a razão do sucesso. Para contabilizar os dólares que ganha, é provável que os pais lhe tenham oferecido a máquina electrónica de calcular portátil, que acaba de ser comercializada no Japão. Muitos outros pais, intrigados com a crescente popularidade de ídolos de palmo e meio, entre os seus jovens rebentos, pensam recorrer ao TAC cerebral -este ano foi usado pela primeira vez- na tentativa de descortinar as causas do fenómeno. Não será preciso, a escalada da sociedade de consumo é suficientemente esclarecedora: para vender sonhos a uns, compra os pesadelos de outros.
Na Ásia, em 1972, milhares de crianças trabalham duramente em condições precárias, para realizarem os sonhos dos meninos ricos do Ocidente. Afinal, nem todas as crianças têm direito ao sonho... a sociedade de consumo não é perfeita. Nesse mesmo ano a imagem de uma criança nua, a arder, percorre o mundo inteiro. Trata-se de Kim Phuc, uma miúda vietnamita fugindo das bombas de napalm lançadas pelos americanos sobre uma aldeia do Vietcong.
Enquanto foge, a milhares de quilómetros de distância, em Estocolmo, os delegados dos países membros da ONU discutem os problemas do Meio Ambiente e condenam os EUA pela destruição ecológica provocada pela guerra do Vietname.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Verão romântico

Fui ali, mas volto já.
Quando regressar, prometo-vos um verão muito romântico no "Crónicas on the rocks".
Até lá, ficam mais uns capítulos do Rochedo das Memórias e algumas coisas mais.
Fiquem bem. Até (muito) breve!

domingo, 23 de junho de 2013

Das incertezas da vida


Sentiu uma palmada no rabo. Chorou. À sua volta viu sombras e pressentiu sorrisos. Tinha acabado de nascer.
Mamou. Aprendeu a andar. A falar.
Mandaram-no estudar. Estudou. Aprendeu a ler e escrever. Namorou. Amou. Um dia recebeu um papel que o habilitava a desempenhar uma profissão e alguém lhe disse:
Agora vais trabalhar!
Obedeceu. Ganhou dinheiro. Gastou-o.
Agora deves casar!
Casou. Teve filhos. Aprendeu a poupar. Educou-os. Apaparicou-os.
Subiu na carreira. Umas vezes com lisura, outras com atropelos. Sempre a pensar no melhor para os filhos. Por eles privou-se de férias, mas para eles tinha pouco tempo disponível. Porque precisava de trabalhar. 
Um dia sentiu uma dor ao levantar-se. Foi ao médico. Saiu de lá acabrunhado. Fez exames.O seu tempo estava a acabar.
Chegou a casa e não disse nada à mulher. Sentou-se no sofá a pensar.
A vida é uma coisa tão fugaz e eu tenho vivido sem aproveitar as coisas boas que ele tem para nos dar.  
Lembrou-se de uma frase que ouvira um dia ao seu pai:
" Um escanção nunca bebe um copo de um trago. Saboreia cada gole. É assim que devemos viver a vida".
O pai tinha razão! Perdi a conta às vezes que prometi a mim mesmo começara a gozar a vida. Amanhã vou começar a viver. Com o prazer de quem saboreia uma barra de chocolate.
Deitou-se. Deu um beijo apaixonado à mulher.
Surpreendida, perguntou:
Que se passa contigo hoje?
Lembrei-me que chegou a hora de começar a viver.
A mulher sorriu e deixou que ele adormecesse enroscado no seu corpo.
No dia seguinte havia muita gente à sua volta. Sentiu um cheiro estranho. Abriu os olhos e não reconheceu o seu quarto. Não estava deitado na sua cama. Fez um gesto para se levantar. O corpo não obedeceu. Insistiu. Nada!
 Uma mulher depositou uma flor sobre o seu peito.
Foi então que percebeu. Já não tinha tempo para viver. Tinha-se esgotado.Lembrou-se que pedira para ser cremado. Estremeceu.
Da próxima vez vou aprender a  viver – pensou.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

RM 39: Ir a Londres com a Abreu



Os anos 70 começam com o mundo ocidental a chorar nas salas de cinema. O melodrama "Love Story" destroça os corações de jovens e adultos, homens e mulheres. Afinal, ao contrário do que os hippies proclamavam, o amor não é só felicidade. Pode fazer sofrer muitas almas.
Mas havia outra razões para chorar. Alterações de clima e inexplicáveis acontecimentos meteorológicos lançam grandes preocupações na comunidade científica.
Preocupados ficam também os homens com o livro de Germaine Greer "O Eunuco Feminino" que dá início ao feminismo de "segunda vaga". A sua autora defende que as feministas dos anos 70 devem lutar pela igualdade sexual e económica. As sufragistas passavam à História.
Na moda feminina, o sector têxtil assiste com azedume ao triunfo da mini-saia, cada vez mais reduzida, e tenta impôr a maxi, para recuperar o volume de vendas de tecido. O sucesso, obviamente, é efémero.
O primeiro ano da década traz uma boa notícia para os amantes da electrónica: é inventado o microprocessador (chip). Começou a revolução tecnológica, embora ainda poucos o saibam...
A Meca Cultural da Europa é agitada por uma onda de contestação cristã, motivada pela estreia, em Londres, de Jesus Christ Superstar
Estamos em 1971 e a capital inglesa começa a ser descoberta também pelos portugueses.. O sonho de muitos jovens é ir a Londres “numa daquelas viagens baratas da Abreu”. Concursos de televisão, achocolatados e produtos dentífricos materializam o sonho de alguns, através de concursos e passatempos. Senhoras rumam à capital britânica de malas vazias, para regressarem com elas a abarrotar de peças de vestuário que vendem em "boutiques”,ou mesmo em suas casas, a jovens sequiosos de envergar as novas modas. Os cursos de Verão, em Inglaterra, são também o destino de alguns jovens portugueses, que de lá regressam inebriados, a abarrotar de discos, small gifts comprados em Carnaby Street, e uma peça de roupa adquirido no Biba's. Uma curta estadia de quatro dias em Londres já dá, a um jovem português, tema para um mês de conversas com amigos e familiares.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

RM 38: De Woodstock até à Lua, o sonho (não) comanda a vida



No último ano da década, mais de 100 milhões de ser humanos assistem, pela televisão, à chegada do Homem à Lua e aos primeiros passos de Neil Armstrong e Edwin Aldrin na superfície lunar: "Um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a Humanidade".
Na Califórnia um grupo de cientistas apresenta um relatório preocupante: os aerossóis estão a destruir a camada de ozono e se a sua utilização permanecer ao mesmo ritmo, o número de cancros de pele pode aumentar em oito mil casos anuais só nos EUA. 
A causa ambiental ganha novos adeptos e a ONU decide avançar para a realização de uma Conferência Mundial sobre o Ambiente a realizar em Estocolmo em 1972.
Mau ambiente continuava a respirar-se em Portugal. As primeiras eleições do consulado marcelista não permitem a eleição de um único deputado da oposição democrática. Como escrevia Fernanda Botelho, Portugal era “Uma Terra Sem Música”.

Lá fora havia música e da boa. O movimento hippie é consagrado no cinema com "Easy Rider" e em Woodstock realiza-se, durante três dias, o concerto musical do século. Meio milhão de jovens assiste empunhando flores, partilhando drogas e cantando a esperança de que o futuro será de paz amor. O sonho durará pouco tempo e "Peace and Love, Make Love Not War "ficará apenas como um slogan. Nem o sentimentalismo de Love Story será capaz de impedir o desfazer do sonho.
Imparável está a sociedade de consumo que não se cansa de nos vender ilusões e criar falsas necessidades. O consumo de massas irá durar até à década de 90. A partir dessa altura passaremos a viver- sem que disso nos apercebamos- na sociedade da hiperescolha. Mas ainda é cedo para falar disso. É cedo para matar definitivamenteo sonho...

quarta-feira, 19 de junho de 2013

RM 37: Maio de 68 e Danny Le Rouge



O Maio de 68  foi  uma erupção social decorrente de factores vários que marcaram a década de 60- essa sim, uma década de ouro em termos de transformações sociais. Mais do que uma revolução, foi uma inevitabilidade. Uma espécie de assinatura dos jovens de 60, no jeito tranquilo de quem diz: agora não há recuos. E, na verdade, não houve... O Maio de 68 foi ponto final, parágrafo. Uma nova era começou a partir dessa data? Não! A transformação começara muito antes.
É preciso não esquecer que os jovens de 60 são a primeira geração pós-guerra que encontra condições políticas, sociais e económicas que justificam o seu inconformismo.
Condições políticas- os movimentos independentistas africanos transformam o continente num puzzle, propício a um conjunto variado de experiências políticas e ideológicas a que os jovens prestam especial atenção; a luta dos negros americanos pela igualdade de direitos civis e políticos, encabeçada por Martin Luther King, alastra à Europa; enquanto Kennedy falava de uma nova ordem mundial, os Estados Unidos envolviam-se na guerra do Vietname, com medo da vitória de Ho Chi Minh, o que era interpretado como uma contradição; a revolução chinesa e a “descoberta” do maoismo por uma juventude que já percebera que os regimes comunistas se tinham auto- destruído em contradições insanáveis que os levaram a refugiar-se atrás do muro de Berlim,transformado durante 28 anos numa barreira inexpugnável.
Havia inúmeras contradições e incertezas no período pós –guerra. Os jovens europeus dos anos 60 procuravam um modelo de organização política e social que acabasse com elas e expurgasse qualquer possibilidade de ressurgimento de um novo conflito. A CEE fora criada com esse objectivo- salvaguardar a Europa de um novo conflito de proporções e consequências inimagináveis- e os jovens do Maio de 68 tiveram necessidade de afirmar, na rua, que partilhavam da mesma opinião, dos mesmos medos e por isso apoiavam.
Condições económicas- a sociedade de consumo tinha começado a florescer nos meados da década anterior. Os europeus libertavam-se da míngua, dos racionamentos, voltavam a ter condições para viver desafogadamente. A sociedade de consumo de “massas” revelou-se o modelo ideal para satisfazer as carências e exigências dos europeus, cujo distanciamento dos EUA, em termos de qualidade de vida, era abissal. A liberdade tornara-se uma palavra de ordem, mas tinha subjacentes questões de índole económica que não são menosprezáveis.
Condições sociais- Ao contrário do que tenho lido por aí, o Maio de 68 não foi determinante para a igualdade entre homens e mulheres, para a conquista de direitos ou para uma revolução sexual. Na verdade, as mulheres já tinham acesso à Universidade e ao mercado de trabalho; na moda, a mulher já inventara a mini-saia, numa manifestação clara que já libertara o corpo; e a pílula – que já circulava livremente nas Universidades europeias- era a demonstração que libertara a mente.
A moda foi, aliás, fundamental para alterar muitos códigos sociais e derrubar convenções. Como o foram o cinema, a música e a literatura, a partir da segunda metade da década de 50.
Penso que atribuir ao Maio de 68 a responsabilidade pela mudança de paradigma é manifestamente abusivo. Essa mudança começou a operar-se com o Plano Marshall!
O Maio de 68 foi um momento bonito- que muito me apraz ter vivido, ainda que à distância- mas não foi mais do que isso. Se tivesse sido significante, não teria acabado com uma vitória de De Gaulle no mês seguinte. Se tivesse sido determinante para a mudança de paradigma, não desaguaria, anos mais tarde, na sociedade da hiperescolha em que hoje estamos atolados, correndo o risco de naufragar. Se tivesse sido decisivo, teria dado lugar à “nova ordem mundial” e não a uma sociedade nihilista eivada de hedonismo.
Não sei se é a estas coisas que Cohn Bendit se refere, quando afirma no seu livro "Forget 68", que o melhor a fazer em relação a Maio 68, é esquecê-lo, mas partilho da sua opinião.
Ao recordar Maio de 68 parece haver uma tendência para adulterar a realidade e conferir-lhe uma dimensão que nunca teve. Na verdade nunca houve“ uma praia debaixo da calçada”. Houve apenas uma amálgama de irreverência e devaneios juvenis, com consequências que não merecem muito a pena ser lembradas, salvo se pretendermos “dourar a pílula”.
Querem apenas um exemplo? No Maio de 68, gritavam-se “slogans” sobre a liberdade sexual. Quarenta anos mais tarde, é mais fácil acabar com a carreira de um político ( ou uma figura pública) denunciando a sua infidelidade amorosa, do que acusando-o de corrupção.
Pensar sobre o que se terá perdido, entre duas gerações, é o desafio que vos deixo.

terça-feira, 18 de junho de 2013

RM 36: Make Love, not war



Enquanto Jim Morrisson canta "We want the world now", John de Carlos e Tommy Smith protagonizam a manifestação do Black Power nos Jogos Olímpicos do México ( 1968) e o movimento hippie desponta com flores na cabeça, sob o signo do "Make Love Not War", em Portugal os jovens embarcam para África com armas nas mãos, instruídos para matar.
Deixam no cais famílias lavadas em lágrimas e levam consigo, como recordação, a fotografia da namorada, guardada entre as páginas da Salut Les Copains, a revista preferida dos jovens melómanos portugueses.
Estamos em 1968. Jane Birkin e Serge Gainsbourg acicatam a sensualidade nos bailes com "Je t'aime moi non plus" e Zeca Afonso desperta as consciências em convívios universitários com "Eles Comem Tudo".
Em França vivem-se tempos empolgados, devido à crescente contestação dos estudantes. No meio do coro de protestos emerge um nome: Cohn Bendit. Ficará conhecido pela geração de 60 como "Danny le Rouge", mas o símbolo da rebeldia do Maio de 68 deixar-se-á seduzir anos mais tarde pelas maravilhas do sistema e irá ocupar um assento no Parlamento Europeu, onde passará a ser mais conhecido como "Danny le Vert". O seu exemplo será seguido por toda uma geração que hoje ocupa lugares de destaque nos governos de países europeus e nas instituições europeias.
Os símbolos de rebeldia da geração de 60 acabam nas Administrações de Bancos e  multinacionais a fumar charutos, beber whiskey e a falar ao telefone com amigos bem colocados na cena política. Um grande exemplo para os filhos que hoje acusam de não terem valores. Mas que valores podem defender os filhos da geração de 60, quando vêem o exemplo dos país?
Voltemos ao tempo em que a utopia permitia sonhar e a luta estudantil - que se autoproclamava como sua fiel intérprete e depositária - rapidamente alastra aos trabalhadores, propagando-se pela Europa. Incluindo Portugal, onde Marcelo Caetano sucede a Salazar, apeado do poder por uma cadeira abençoada.
Enquanto na Checoslováquia tanques soviéticos derrubavam Dubcek e punham fim à "Primavra de Praga", em Portugal inicia-se outra Primavera: a marcelista. Não se usam flores na cabeça, apenas jeans coçados comprados nas docas a marinheiros americanos.
Do outro lado do Atlântico, uma Revolução de contornos bem diferentes se inicia, com a plantação de vegetais de maturação rápida- A "Revolução Verde". Polansky bem avisava na Alemanha que se tratava da “Semente do Diabo”, mas só Stanley Kubrick compreende a mensagem. Responde com "2001-Odisseia no Espaço", um estrondoso sucesso de bilheteira.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O diário de Adriana




Quando dei a minha opinião sobre o livro de Nuno Camarneiro (aqui), afirmei que enquanto o lia me vinha sempre à memória  um livro de Saramago: Clarabóia.
Os inquilinos do prédio de Saramago são  mais impressivos  do que os de Nuno Camarneiro e retratam  um povo que oscila entre a mesquinhez e a solidariedade, a ingratidão e a bajulice, o amor ao dinheiro e os ideais. São particularmente impressivos os diálogos entre o jovem  “libertino”  Abel e o velho sapateiro Silvestre. Encerram duas concepções de vida que se enriquecem pela troca de ideias, sem que nenhum queira impor ao outro a sua razão.
Não foi isso, porém, que me levou a escrever este post.
Há dias estive a reler algumas passagens de Clarabóia  e a páginas tantas encontrei este excerto que me transportou para os dias de hoje e me deixou a meditar sobre o relativismo das nossas memórias.  
Numas breves linhas do seu diário, Adriana escreve sobre o tempo. Da chuva primaveril que a desconforta. Ora leiam:
“ Domingo, 23/3/52 às dez e meia da noite. Choveu todo o dia. Nem parece que estamos na primavera. Quando eu era pequena, lembro-me de que os dias de primavera eram bonitos e que começavam a ser bonitos logo no dia 21. Já estamos a 23 e não faz senão chover. Não sei se é do tempo, mas sinto-me mal disposta. Não saí de casa. A mãe e a tia foram a casa das primas de Campolide depois do almoço. Chegaram cá todas molhadas (…)”
Ao ler esta passagem, dei comigo a pensar o que escreveria Adriana no seu diário em 17 de Junho de 2013, se ainda fosse viva e (não) tivesse memória da primavera de 1952…

domingo, 16 de junho de 2013

"Conflito de gerações" ( título actualizado)




Um jovem português, de 17 anos, estava a fazer um estágio profissional  numa oficina  em Navarra. 
Um homem espanhol, de 53 anos, dava-lhe boleia todos os dias de casa para a oficina.
Um dia o homem  não apareceu e o jovem teve de ir trabalhar pelos seus próprios meios. Quando chegou à oficina, perguntou pelo homem. Ninguém sabia. Tentaram contactar com o homem. Debalde. 
Ao final da tarde, a Guardia Civil  foi à oficina. Tinha encontrado o cadáver do homem. Consternação geral. Rostos baixos. Algumas lágrimas.  
Ainda mal recompostos, a Guardia Civil comunica que junto ao cadáver do homem havia um bocado de corda. Era preciso fazer análises de ADN.
No dia seguinte a Guardia Civil  comunica que o jovem português foi o autor do homicídio.
Surpresa. Olhos arregalados. Punhos cerrados. Alguém pergunta:
- Porque é que ele fez isso? Eram tão amigos!
O carabinero encolhe os ombros e responde:
- Disse que estava a terminar o estágio e queria ficar com o lugar do “viejo”
( Aconteceu esta semana. Em Navarra. Espanha. ) 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

RM 35- Felizmente há Luar!




No final da Primavera de 67, a LUAR interpreta de forma errada a mensagem de Manuel Alegre em “ O Canto e as Armas” e assalta a sede do Banco de Portugal na Figueira da Foz, mas é a "Guerra dos Seis Dias", que permite a Israel alargar as suas fronteiras, a elevar a tensão mundial a níveis máximos.
No Verão, com o calor das raparigas a ser aliviado pelos hot pants, os jovens dançam, em delírio, ao som de um dos mais emblemáticos álbuns musicais do século: "Sergeant Peppers Lonely Hearts Club Band". Com uma capa não menos fabulosa de Peter Blake, um dos grandes talentos da pop- art, o álbum torna-se uma referência. “Lucy in the Sky with Diamonds” torna-se um dos hinos da geração hippie que lê nas palavras dos Beatles uma mensagem cifrada de apoio às drogas (LSD).
O musical Hair estreia-se em Nova Iorque e irá converter-se, em pouco tempo, num sucesso mundial até então sem precedentes. Em Cannes, Michelangelo Antonioni ganha a Palma de Ouro com “Blow –up”.
Liderado pelos estudantes, o movimento de protesto contra a guerra do Vietname atinge proporções imparáveis nos EUA e para comemorar o fim da “revolução cultural”, a China faz explodir a sua primeira bomba atómica.
Na costa de Inglaterra, uma bomba atómica de efeito retardado lança um sinal de alarme: um petroleiro encalha e provoca a maior maré negra até então verificada. O desastre é encarado como acidental e, apesar das repercussões a nível mundial, os líderes ocidentais preferem virar-se para Oriente, para assistir à faustosa coroação do Xá Reza Pahlevi na Pérsia (Os festejos durariam até 1978, ano em que a insatisfação popular vai marcar o início do fim da época faustosa do Xá. Em 1979 Khomeini dará início à República Islâmica).
Antes de o ano terminar Che Guevara -um dos heróis revolucionários da geração de 60 - é fuzilado na Bolívia e nas vésperas de Natal, um cirurgião sul-africano comete proeza de vulto, ao realizar o primeiro transplante cardíaco: Christian Barnard

quinta-feira, 13 de junho de 2013

RM-34 De Mao a Durão Barroso: Porreiro, pá!


Do outro lado do Mundo, na China, a Revolução Cultural avança, mas em sentido contrário ao do mundo Ocidental. O exército e a juventude colocam-se ao lado de Mao Tse Tung ( ou Zedong, em versão moderna...) na “revolução cultural e proletária”. A fórmula foi “sui generis”: encerramento das escolas e universidades em toda a China e formação de grupos de “guardas vermelhos”. O resultado foi deslumbrante ( pelo menos para Durão Barroso e alguns extremosos militantes de extrema esquerda, acantonados no MRPP e satélites, que depois do 25 de Abril copiaram o modelo, "escaqueirando"a Faculdade de Direito e defendendo os valores e princípios do Livro Vermelho): destruição de monumentos emblemáticos da milenar cultura chinesa, combate ao Confucionismo e “limpeza geral dos vestígios do pensamento burguês capitalista”. O “Livro Vermelho” tornou-se na verdade absoluta e indiscutível e algumas das suas citações serviram para decorar fábricas e edifícios onde a fotografia do grande líder ( Mao Zedong- não Durão Barroso, que é apenas líder da União Europeia) emergia omnipresente e veneranda. Graças a Deus e à URSS – cuja invasão Mao temia- o Exército de Libertação Popular acordou com o grande timoneiro o fim da revolução Cultural em 1968. Infelizmente, em 1975, Durão Barroso – apesar de temer que os comunistas tomassem o poder em Portugal- ainda não devia conhecer o desastre das políticas maoistas, caso contrário, talvez tivesse sido mais contido nas sua manifestações de apreço ao grande líder.
Anos mais tarde, terá de ser Cohn Bendit a explicar a um Durão Barroso já investido no cargo de Presidente da Comissão Europeia: “ o seu problema foi ter percebido mal o Mao Tse Tung”. Durão Barroso reagirá com aquele sorriso amarelo que todos lhe conhecemos e refugiar-se-á nos braços de Sócrates para trocarem aquela frase de amor que ficará eternamente gravada na nossa História: “Foi porreiro, pá!”
Voltemos a 1966 e ao País de Gales, onde cerca de 150 pessoas (a maioria delas crianças) morrem, sepultadas num monte de resíduos de uma mina de carvão. Os ambientalistas representam ainda uma minoria e o Greenpeace é uma força em embrião. A sua criação, no Canadá, só se dará em 1971,mas os sinais de degradação ambiental são já preocupantes e disso mesmo se dá testemunho no livro "Limites para o Crescimento".
Por cá a vida está má e, neste ano, já se aproxima de um milhão, o número de portugueses que emigram para a Europa. Entre eles vão muitos jovens que fogem da guerra em África.
Salazar não mostra sinais de grande preocupação. Reabre o Tarrafal e incita os portugueses a comemorar o êxito dos “Magriços” que, comandados por Eusébio, alcançam o 3º lugar no Mundial de Futebol em Inglaterra. Mais contido, não festeja a inauguração da ponte sobre o Tejo, baptizada com o seu nome. Parece que a terá achado muito cara e... com pouca utilidade!
Distraído a fazer contas, nem deve ter dado importância ao aviso que Gunther Grass lhe enviara em forma de livro: “ Os plebeus ensaiam a revolta”...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

RM 33- Et voilà! C'est le temps de Salut Les Copains



Em Portugal a canção francesa é uma referência forte, que se opõe nos mal amanhados tops nacionais aos emergentes sucessos anglo-saxónicos. Adamo com canções como "En blue jeans et blouson de cuir", "Vous Permettez Monsieur" ou "Mes Mains sur tes Anches" e Johny Halliday ("Retiens la Nuit" e "Pas cette Chanson") dão um toque contestatário, enquanto Sylvie Vartan (La Plus Belle pour aller danser) e Françoise Hardy (“Tous Les garçons et Les filles") ajudam a despedaçar os corações mais românticos.
O nacional cançonetismo emerge com a "Oração" de António Calvário, bem acolitado por Artur Garcia e Madalena Iglésias. A rebeldia fica a cargo de Simone de Oliveira, enquanto o lugar de despedaçador de corações é ocupado por Tony de Matos.
A guerra em África amputa as famílias dos seus varões, a emigração não pára de aumentar e a Televisão de canal único oferece televisores, como prémios mais apetecidos em concursos de sucesso. Arde o Teatro Nacional D. Maria II e o DN comemora o seu centenário.
Em 1965, um ano depois de “Zorba, o Grego”, se ter dado a conhecer ao mundo pela mão de Anthony Quinn, os EUA intensificam os bombardeamentos no Vietname, dando o mote a filmes fabulosos como "Apocalipse Now" ou "O Caçador", que encherão anos mais tarde as salas de cinema.
Malcolm X- o celebrado dirigente negro é assassinado em Nova Iorque. Salazar não quer deixar os seus créditos por mãos alheias e dá “um ar da sua graça”. Manda a PIDE comprar caramelos a Badajoz e, de caminho, o agente Casaca aproveita para assassinar Humberto Delgado. Já naquele tempo, o que mais incomodava os governantes eram as pessoas.  Salazar mandava-as matar... agora usam-se métodos mais sofisticados. As pessoas morrem de fome ou falta de tratamentos de saúde e o governo justifica com a desculpa piedosa de que "não há dinheiro para tudo".
Já no século XXI , o semanário “Expresso” tratará de reabilitar o assassino. O Correio da Manhã e a revista “Sábado” tratarão de recuperar Salazar. A imagem do Estado Novo não será limpa com “OMO”, mas sim com uma campanha publicitária degradante baseada na “Estética da Violência” que Glauber Rocha estreara em 1965.
Nesse mesmo ano  os Beatles ficam a conhecer o significado da palavra concorrência. Dá pelo nome de “Rolling Stones” e destrona dos tops os “guedelhudos de Liverpool” com o super-êxito “ (I can’t get no) Satisfaction”.
A rainha de Inglaterra entra na guerra de audiências e faz “jogo sujo” condecorando os Beatles com a Ordem do Império Britânico, perante o ar reprovador da aristocracia.
Os mais velhos, indiferentes a esta luta, preferem encher as salas de cinema na companhia de “Dr Jivago”, protagonizado por Omar Shariff, um actor que se revelará exímio jogador de bridge.
Quem não quer guerras nem honrarias nestas coisas de cultura é Salazar que não está com meias medidas e manda encerrar a Sociedade Portuguesa de Escritores.
A Igreja também procura renovar-se. João XXIII convocara o Concílio Vaticano II em 1962, que será concluído em 1965 por Paulo VI. A Igreja abre-se ao mundo, mas lida mal com a rebeldia da juventude- impulsionada pela beatlemania- e com os cantores de intervenção.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Estes difíceis amores



Antes da Meia Noite estreou-se na quinta-feira, mas a  história começou a ser filmada  em 1995.
Não,  Richard Linklater não é um realizador preguiçoso, nem o filme esteve embargado porque nenhum produtor ousou arriscar o seu dinheiro. Acontece é que, Antes da Meia Noite, é o terceiro filme de uma saga invulgar que narra uma história de amor iniciada em 1995.
Nesse ano, durante uma viagem  de comboio para Viena , o jovem americano Jesse (Ethan Hawke) encontra a estudante francesa  Celine ( Julie Delpy) e assim nasce Antes do Amanhecer, um filme que virou culto, apesar de ter sido um relativo fracasso comercial.
Vi-o por mero acaso em Paris em 1996 e fiquei apaixonado por aquela história de amor que me fez recordar episódios da minha vida de andarilho, recheada de amores episódicos que começaram numa conversa acidental e terminaram 24 ou 48 horas depois num qualquer aeroporto, ou estação de comboios.
Nove anos depois, surgiu de forma inesperada o segundo episódio desta trilogia: Antes do Anoitecer. 
Antes do Anoitecer (2004)

Só o vi  muito depois de ser exibido nas salas de cinema. Numa tarde invernosa de domingo, num qualquer canal do cabo, reconheci o par Jesse e Celine que “ conhecera” anos antes em Paris. Filmado (quase) em tempo real, Antes do Anoitecer relata o encontro casual dos dois em Paris, durante o lançamento do livro de Jesse. Durante uma tarde revivem o seu encontro nove anos antes e deixam a sensação de que aquele encontro não será o último.
Este ano ficamos a saber que não foi mesmo. Em Antes da Meia Noite, Jesse e Celine estão a passar férias na Grécia, em casa de um escritor amigo de Jesse. Estão na casa dos 40,vivem juntos  e têm duas filhas gémeas. Tudo parece correr bem entre eles mas, uma noite, a relação estremece e vêm ao de cima os problemas escondidos de uma relação. Jesse amargurado porque não acompanhou o crescimento do filho do seu casamento, Celine a viver um período profissional difícil.
Antes do Amanhecer (1995)

Em Antes da Meia Noite acabaram-se as histórias de amor dos contos de fadas e a realidade abate-se sobre um casamento periclitante, onde cada um pretende manter a sua identidade, sem cedências. Jesse e Celine são agora um casal real, comum, mortal, como todos os casais, onde a virulência do diálogo atinge momentos de grande realismo. O filme acaba sem sabermos se serão felizes para sempre. Talvez tenhamos de esperar mais nove anos…
Para além da relação entre Jesse e Celine, Antes da Meia Noite  tem um momento que me fez recordar “Amigos de Alex”. Durante um almoço, casais de três gerações falam sobre o amor no seu tempo. É um retrato da evolução do amor e da relação entre homens e mulheres  ao longo do tempo, que levanta muitas questões e encerra matéria abundante para uma longa noite de tertúlia.
Este é, em minha opinião, o melhor dos três filmes. Pelas questões que coloca, pelo realismo com que trata as relações entre os casais, pela recusa de cedências ao facilitismo e, last but not the least, porque consagra definitivamente uma nova dupla do cinema, que ficará para a posteridade.

Resumindo: a não perder, para quem goste de histórias de amor, não acredite em contos de fadas  e  adore uma boa conversa no final dos filmes.
Apenas um conselho. Se não viu os outros dois filmes, não perde nada em vê-los, para melhor perceber a evolução da história deste par.

RM- 32: I have a dream ( Dos Beatles a Mary Quant)

"I have a dream" proclama Martin Luther King em 1963 perante mais de 250 mil pessoas que desfilam
em Washington exigindo a igualdade de direitos civis para pretos e brancos. Ano que fica marcado pelo assassinato de Kennedy e pelo aparecimento dos Beatles que saem do Cavern Club para empolgar a juventude.
Nasce uma nova dimensão do rock, a partir de agora gravado em cassettes, a última invenção no mundo dos registos magnéticos. A música folk e de protesto ganha um número crescente de novos adeptos com cantores como Bob Dylan e Joan Baez.
A bordo do Vostok VI, Valentina Terechkova torna-se na primeira mulher a viajar no espaço, mas o acontecimento não pode ainda ser gravado em videos domésticos, pois só uma semana mais tarde a BBC fará a sua apresentação ao público.
Só nos anos 80 é que Lena d’Água cantará “Olhó Robot”, mas em 1963 o mundo laboral já conhecia os efeitos da entrada desta tecnologia em muitas unidades de produção industrial: uma transformação radical nos modos de produção, com profundos reflexos sociais. O pior, porém, ainda estava para vir...
Em 1964, enquanto a sonda Ranger VII envia para a Terra as primeiras fotografias da superfície lunar, Mary Quant lança a mini-saia, cujo comprimento é inversamente proporcional ao do cabelo dos rapazes, que seguem o modelo inspirador dos Beatles, e as top-models começam a dar nas vistas, graças a um fotógrafo chamado Lindberg.

A esquelética Twiggy torna-se a imagem padrão da beleza feminina e a indústria farmacêutica vai socorrer-se da sua imaginação para que todas as mulheres que o desejem se tornem iguais à modelo. Estava lançado o negócio dos produtos de emagrecimento. As body shops e as clínicas de emagrecimento vêm a caminho, mas ainda não se ouve falar de aeróbica, nem de anorexia.
Londres assume o papel de Meca cultural para a juventude europeia dos anos 60. Carnaby Street e King's Road constituem pontos de passagem obrigatória para quem visita Inglaterra. Espectáculos musicais como Hair atraem à capital inglesa milhares de jovens de toda a Europa, e as transformações sociais começam a ser visíveis no mundo ocidental. Propaga-se uma onda libertadora que atravessa toda a juventude e os Beatles mostram-lhe em filme o que é uma “Hard Day’s Night”
A sociedade de consumo avança a passos largos ao som da música pop, do Gospell, dos blues, ou da música country. Nascem vedetas duradoiras, pretas e brancas, que ajudam a esbater as barreiras raciais. "West Side Story" torna-se um filme de culto. À semelhança dos anos 20, vivem-se anos de euforia, e os jovens começam a ter poder de compra. Por agora, no entanto, ainda não fazem parte do apetite voraz dos publicitários. Falta ainda percorrer uma última etapa: o aproveitamento dos ídolos como veículos comerciais.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Alô Brasil!

No Rio de Janeiro um ladrão fila uma vítima. Acerca-se dele e diz:

"give me the phone"
Pergunta a vítima:
 Porque tá me assaltando em inglês?
-"tô treinando pra copa"- responde o ladrão
( recebida por mail)

domingo, 9 de junho de 2013

Só para cumprir uma promessa

Eu tinha prometido deixar aqui umas fotos das minhas férias na ilha da Boavista, mas o tempo foi passando e como não sou muito afoito a divulgar as minhas fotos de férias...
Hoje, porém, decidi-me a cumprir a promessa, substituindo a habitual crónica de domingo por fotografias. 
Tenho visto pela blogosfera fotos maravilhosas e mandava a prudência que não divulgasse as minhas, tiradas com uma máquina a estrear e ainda nos alvores das minhas experiências com o digital. De qualquer modo, aqui ficam alguns exemplares, com os meus pedidos de desculpas pelo atrevimento!



                                                      Praia de Chave

 Praia de Santa Mónica, a tal com 18 kms de extensão e que está no Guiness
                                      Ainda a praia de Santa Mónica


                                      Durante um passeio de Buggy


                                     As dunas da praia de Chave, que me fartei de escalar, depois de descidas em sandboard



Mais dunas  ( um dos meus passeios matinais)

                                                                  O hotel

sexta-feira, 7 de junho de 2013

RM 31- Vidas Rebeldes: De James Bond a Rachel Carson



John Huston dava o mote para os anos 60 com a estreia de “Vidas Rebeldes”, o último filme protagonizado por Marilyn Monroe. Serão “Dias Felizes”- proclama Samuel Beckett em Nova Iorque. À procura da felicidade anda também Rudolf Nureyev. Cansado do socialismo soviético pede asilo político a Paris.
Mais a norte, numa pequena discoteca de Liverpool ( o Cavern Club) está em gestação um agrupamento que transformará o mundo da música e conhecerá um dos maiores sucessos de sempre: os Beatles.
Mas nem todos partilhavam da mesma felicidade e euforia. Ernest Hemingway é disso um exemplo, ao pôr termo à vida aos 61 anos, nos EUA Terá pensado como os irmão Cohen, quarenta anos mais tarde, que “Este país não é para Velhos”?
Em Portugal é que, apesar do episódio do Santa Maria, da anexação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana e do começo da guerra em África, o “Velho” não larga o poder. Quem está em maus lençóis são os jovens, obrigados a responder ao apelo de Salazar “ Para Angola rapidamente e em força”. 
Cinquenta anos depois, um jovem inexperiente alcandorado a primeiro ministro voltará a repetir o apelo, aconselhando os jovens a emigrarem para Angola. Não me venham dizer que a história não se repete...
Voltemos aos anos 60. Em Portugal, serão marcados pela anorexia mental de Salazar que lança o país numa guerra sem sentido, criticada por todos os quadrantes a nível internacional. Indiferente, Salazar responderá com a não menos célebre frase “ Orgulhosamente sós”.
Em Março de1962, enquanto John Gleen dá 3 voltas à terra a bordo do Mercury VIII, a talidomida (substância usada como sedativo em medicamentos ministrados às mulheres grávidas) senta-se no banco dos réus de um tribunal belga, sob a acusação, comprovada, de ter sido responsável pelo nascimento de milhares de bébés com deformações. Os medicamentos contendo essa substância são imediatamente retirados do mercado. Mas não é a talidomida a responsável pela morte de Marilyn Monroe em Agosto deste ano. A actriz sucumbe devido à ingestão de uma excessiva dose de sonoríferos. Pelo menos é o que conta a história, mas há quem duvide da sua veracidade e veja na morte da fogosa loira uma mãozinha dos Kennedy, para esconder amores proibidos.
Um livro de Rachel Carson (A Primavera Silenciosa) desperta as pessoas para a existência de um eco- sistema e a necessidade de o preservar, garantindo um ambiente saudável. Em causa, estavam os efeitos devastadores do pesticida DDT. Por uma vez, o Senado americano leva o aviso a sério e decreta a sua proibição nos EUA.
O mundo treme de inquietação perante a ameaça de uma nova Guerra à escala mundial com epicentro em Cuba e, em Portugal, o sistema é abalado pela guerra em África e pela crise académica, que eclode com a proibição das comemorações do Dia do Estudante .
No cinema, James Bond faz a sua aparição nas salas, iniciando uma carreira de sucesso rodeado de "bond-girls" de cortar a respiração. Do lado de cá do Atlântico, o inconformado François Truffaut dá a conhecer a história de “Jules e Jim”, marcando o início da “nouvelle vague”. O cinema francês iria marcar a década. 
As águas passam a ser sulcadas por um novo meio de transporte - o Hovercraft- e Andy Warhol torna-se um ícone da pop-art.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Brincadeiras perigosas


Quando tinha 12 anos gostava de jogar à bola e brincar aos polícias e ladrões. Agora as criancinhas estão muito mais evoluídas. Gostam de brincadeiras mais assertivas. Eu, como já sou velhote,  não compreendo que as crianças gostem deste tipo de brincadeiras e só me apetecia puni-las como elas merecem. Garanto-vos que nunca mais voltariam a fazer destas brincadeiras.
Mas isso sou eu, um careta que não percebe os problemas dos jovens, coitadinhos!



RM 30: Welcome to "Sixties"


Sabemos que a geração de 60 se gastou e perdeu credibilidade quando atingiu a idade adulta, ao conformar-se na renúncia dos seus valores, mostrando-se incapaz de resolver as suas próprias contradições.
A geração de 60 reformou-se demasiado cedo, sentada em conselhos de administração ou seduzida pelo conforto das cadeiras do poder. Deixou de ser inquieta, para passar a ser conformista e a reclamar ( quando não exigir) dos seus descendentes a aceitação desse conformismo.
Mas isso agora não interessa nada... porque apesar de todas as contradições, os anos 60 são vistos, ainda hoje, como uma década quase mítica do século XX.
Durante essa década, a multiplicação dos movimentos independentistas africanos transformou África num “puzzle” de países autónomos com fronteiras arbitrárias, vivendo à míngua da dependência económica dos colonizadores. Os confrontos serão constantes e sangrentos em território africano e a emergência de ditadores é vista com alguma indiferença no palco euro-americano.
A França torna-se uma potência nuclear e a OPEP passa a definir os preços do petróleo.
Nos Estados Unidos, John F. Kennedy- eleito presidente em Novembro de 1960- emerge como “guardião da liberdade” e manifesta a sua disponibilidade para pagar um preço por isso. Como adiante veremos, o preço foi bem alto e custou-lhe a própria vida e a de milhares de americanos, atolados na Guerra do Vietname. A “nova ordem universal” seria um rotundo fracasso.
A venda comercial (ainda restrita) da pílula e a introdução exitosa do primeiro pacemaker, marcam o início da década de 60 no mundo da Medicina. Nos Estados Unidos, a força da televisão fica bem patente na eleição do Presidente Kennedy, que ganha as eleições num debate com Nixon. A rádio começa a perder influência, mas ganha novo encanto com as emissões em estereofonia.
Enquanto os EUA lançam para o espaço satélites de vigilância, o crescimento da população mundial não pára e a fome ameaça muitos milhões de pessoas, nomeadamente nos recém nascidos países africanos. A esperança de que os supercereais poderão solucionar o problema rapidamente se desvanece, porque os países pobres não possuem tecnologia necessária para os produzir.
Em 1961, a URSS dá um passo de gigante na luta do espaço, ao colocar em órbita uma nave tripulada. Gagarin ficará na História como o primeiro homem a visitar o espaço. Os Estados Unidos respondem à URSS -que em 1957 lançara para o espaço a cadela Laika -, colocando a bordo da sonda Mercury o macaco Ham, “avô” do macaco Adriano que na década de 90 será a estrela do "Big show SIC".
O Muro de Berlim assinala, de forma visível, a separação entre o Ocidente e o Leste, os americanos são humilhados na Baía dos Porcos e Adolf Eichmann é condenado à forca em Israel, por responsabilidade na morte de milhares de judeus.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Bora lá curtir?



Já aqui vos disse que o meu centro comercial preferido- o único onde  vou com gosto- é a Avenida Guerra Junqueiro/ Praça de Londres e um poucachinho da Av de Roma.
Nos últimos tempos a zona perdeu algum do seu charme mas, felizmente,  há gente interessada em revitalizá-la, promovendo várias iniciativas.
Amanhã, dia 6, vai ter lugar um desses eventos  e os estabelecimentos da zona estarão abertos até à meia-noite, oferecendo descontos especiais e promoções diversas.
Mais importante, porém, será a animação de rua. Haverá passagens de modelos, música ao vivo, exposições de fotografia e tudo o que mais se verá.
Last, but not the least,  a parte gastronómica. Haverá provas de vinhos, tapas, petiscos,cocktails e uma Oyster Party ( que não faço a mínima ideia do que seja, mas calculo que deve meter ostras, molusco que detesto…)
Aproveite e vá à Guerra Junqueiro desfrutar mais este evento incluído nas Festas de Lisboa.

RM 29: Voulez vous danser avec moi?


Em 1958, quando os EUA lançam o primeiro satélite experimental de comunicações, o Atomium - símbolo da Exposição Internacional de Bruxelas- interrogava o Mundo: para onde nos levará a energia nuclear?
Os apelos à paz e à reconstrução do pós –guerra e os alertas para os problemas causados pelo progresso, lançados pela Exposição de Bruxelas, caíram em saco roto. Todos fizeram orelhas moucas e o resultado está à vista.
Por cá, as críticas também não eram encaradas com bons olhos. Quando D.António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreve uma carta a Salazar alertando-o para a situação social do País, obtém como resposta o exílio forçado.
A candidatura de Humberto Delgado às presidenciais de 1958 , ainda lança uma réstea de esperança na oposição democrática, mas o regime faz batota e proclama-se vencedor de umas eleições que manifestamente perdeu. Ainda faltavam 16 anos para o 25 de Abril, não havia volta a dar-lhe.
50 anos depois, o Correio da Manhã vem dizer que Salazar gostava de mulheres atrevidas. A ser verdade, não se percebe a razão de não ter ligado peva a Marlene Dietrich em “Testemunha de Acusação”.
O facto mais marcante de 1959 vem de Cuba. Estribado no sucesso de François Truffaut – Os 400 Golpes- Fidel Castro consegue finalmente fazer vingar a Revolução Cubana Derrubado o ditador Fulgêncio Baptista , Fidel irá permanecer à frente dos destinos de Cuba durante 49 anos, perante a crítica de todo o mundo que, no entanto, não perde a oportunidade de se banhar nas suas praias de águas tépidas e límpidas.
Da Europa, a voluptuosa Brigitte Bardot ( BB para os amigos), pendurada num cartaz publicitário, bem lhe perguntava "Voulez -vous danser avec-moi?" – mas o rebelde cubano não lhe daria troco. O mesmo faria , aliás, em relação à beat generation que se revia em “Pela estrada Fora” de Kerouac.
E se Kruschev visitou os EUA, aproveitando para visitar o recém inaugurado Museu Guggenheim e cumprimentar Lloyd Wright, Fidel permaneceu em Cuba, a ver  “Ben Hur” , galardoado com 11 estatuetas de Hollywood.
Enquanto as consumidoras mais jovens aprendiam um novo nome de brinquedos – Barbie- os adultos, deliciam-se com a última maravilha do mundo automóvel: "É tão giro ter um Mini!"- gritava a publicidade a plenos pulmões. O êxito do Mini é assegurado em plena era espacial. Mas(pasme-se!) só nesse ano é inventado o abre latas!
Com a evolução dos electrodomésticos que facilitam a vida no lar, as mulheres têm mais tempo livre para ir ao cabeleireiro. As tiragens das revistas femininas disparam e em Portugal o êxito chama-se "Crónica Feminina".
Estávamos em plena era espacial e, à falta de Sputniks, Salazar inaugura o monumento a Cristo-Rei. Mais de cinquenta anos depois, Cavaco Silva, eleito PR pelos abstencionistas, voltará a colocar Portugal no centro da aventura espacial, invocando a Senhora de Fátima e alguns santos como S. Jorge, a quem reconhece o mérito de salvar o país, perante a impotência do governo que ele ajudou a eleger.
Rejeitado pela CEE, Salazar vira-se para EFTA, na companhia da Grã Bretanha, Noruega, Áustria, Suécia e Suíça.
Dois heróis de banda desenhada- Astérix e Obélix- testemunham o enlace.
Quem se deslocou às salas de cinema para ver o filme “Serengueti não pode morrer”, ficou a saber que a extinção de numerosas espécies era já uma ameaça, mas que poucos se preocupavam com isso. Afinal, se Billy Wilder proclamava numa comédia que fez furor,  “Quanto Mais Quente Melhor”, não havia razões para as pessoas se preocuparem com as alterações climáticas. Os mais cépticos esgrimiam mesmo o argumento do mais recente filme de Hitchcock: “Intriga Internacional”.

terça-feira, 4 de junho de 2013

RM 28- West Side Story: nem todos foram felizes para sempre...



As preocupações ambientais começam a fazer-se sentir. A Grã Bretanha aprova em 1956 o Clean Air Act, que proibe o aquecimento a carvão, e confere às autarquias poderes para criarem zonas livres de fumo. Estas medidas surgem na sequência da morte de 2000 pessoas em Londres, em 1952, quando a capital inglesa esteve sob um intenso smog durante 10 dias.
Mas se em Inglaterrra Alec Guiness punha o país a rir com “ O Quinteto Era de Cordas”, por cá havia poucos motivos para sorrir. As preocupações não são ambientais, mas sim políticas. É preciso continuar a reprimir para que “o povo seja feliz”, por isso Salazar reforça os poderes da PIDE, no mesmo ano em que é criada a Fundação Gulbenkian.
Os contos de fadas têm uma nova versão, proveniente do Mónaco, mas esta é bem real. A plebeia Grace Kelly casa com o príncipe Rainier III, mas não serão felizes para sempre. Um acidente de automóvel provoca a morte da princesa e a história não acaba com um final feliz.
Da união tinham entretanto nascido três princesas que provocariam escândalos e as delícias da imprensa “fofoqueira”.
Ali mesmo ao lado, em Basileia, a catalã Montserrat Caballé conhece o seu primeiro êxito, com a ópera “La Bohème”
Nos EUA apresenta-se “My Fair Lady” e acaba, no papel, a segregação racial nos transportes públicos, mas vai demorar ainda alguns anos até que a decisão do Supremo Tribunal de Washington seja cumprida.
Para Leste, depois de denunciar os crimes de Estaline, Kruschev não lhe quer ficar atrás e manda o Exército Vermelho esmagar a revolta popular húngara, cortando quaisquer veleidades democráticas de Budapeste.
Inglaterra e França procuram, no Suez, recuperar velhos hábitos coloniais, mas as Nações Unidas, cuja voz ainda era respeitada, corta cerce quaisquer veleidades saudosistas.
Em 1957, quando Elvis Presley já arrastava atrás de si um elevado número de fãs, era inventado o gravador de video e a URSS espantava o mundo com o lançamento do Sputnik, quebrando as tréguas na luta pela conquista do espaço. Uma cadela torna-se a primeira astronauta e o seu nome fica na História: Laika.
Eisenhower é autorizado, pelo Congresso, a intervir militarmente no Médio Oriente. Curiosamente, nesse ano Henry Fonda chega às salas de cinema acompanhado de “Doze Homens em Fúria”. Os jovens são aplacados com “ outras fitas: “West Side Story” torna-se num dos maiores êxitos musicais de todos os tempos.
“O Grande Salto em Frente” de Mao é que se revela um rotundo fracasso.
Neste ano nasce a CEE, constituída pela RFA, Itália, França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo.
A Europa percebe que é na união que pode construir a Paz, mas algumas décadas depois os seus líderes vão esquecer os ensinamentos dos fundadores da UE e desdenhar dos seus esforços para pacificar a Europa e a tornar num continente próspero e socialmente justo, que sirva de exemplo ao mundo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Last Tango in Berlin



Quando esteve cá há poucos meses, não pude ir, mas esta noite lá estarei no CCB para ver e ouvir Ute Lemper. Será a última apresentação mundial de "Last Tango in Berlin", um espectáculo em que a cantora alemã, em vésperas de completar 50 anos, revisita a sua carreira.
Nos últimos dias tenho andado num corropio para o CCB... mas tem sido por boas causas. Pena a acústica do Grande Auditório não ser das melhores, como terá constatado quem esteve lá na sexta-feira para ver e ouvir Sérgio Godinho.
Como já devem ter constatado, nos últimos dias tenho andado um bocado ausente, mas entre idas ao CCB, Feira do Livro, manifs e Festas de Lisboa, tenho andado tão atarefado, que até o trabalho tem ficado para segundo plano! Amanhã terei a noite livre :-) e espero visitar-vos com calma! É que durante o dia também tenho trabalhos para fazer...


domingo, 2 de junho de 2013

Carta de um avô ao neto



Meu querido neto.
Quando ontem me perguntaste porque é que eu e a tua avó andávamos a roubar o teu pai fiquei em silêncio e tu, percebendo o meu embaraço, mudaste de conversa.
Esta noite deitei-me e não consegui dormir a pensar na tua pergunta e no erro que cometi ao deixar-te sem resposta. Levantei-me e decidi escrever-te esta carta.
O teu pai talvez tenha razão quando me acusa de ser ladrão, mas vou tentar explicar-te  que a culpa de o andar a roubar não é minha.
Sempre amei o teu pai. Fiz tudo para que ele fosse bem sucedido na vida. Durante muitos anos nunca tive férias, porque aproveitava esse tempo para fazer uns biscates e ganhar dinheiro para pagar os estudos do teu pai. Sempre que , em criança, ele me pedia um brinquedo eu e a tua avó esforçávamo-nos  para lho dar. Quando ele já andava nos últimos anos do liceu começou a pedir tudo aquilo que os amigos tinham e nós ainda não lhe tínhamos dado. Comprámos-lhe telemóveis, computadores, ao fim de semana dávamos-lhe dinheiro para ele ir  divertir-se com os amigos, porque ele estudava e nós queríamos que pelo menos ao fim de semana se pudesse distrair. Dávamos-lhe dinheiro para ir de férias e nós ficávamos em casa, porque o importante para nós era que ele estivesse feliz.
Quando terminou o curso, esteve muito tempo sem arranjar emprego e continuou a viver cá em casa. Nós dávamos-lhe uma mesada para ele poder divertir-se.
Quando arranjou emprego casou com a tua Mãe e nós continuámos a ajudá-lo como podíamos, porque tu nasceste logo a seguir e não queríamos que vos faltasse nada.Nós e os teus avós maternos ajudámos os teus pais a comprar a casa onde agora vives. Como os  teus pais  trabalhavam, era a tua avó que te ia buscar ao infantário e vinhas cá para casa até eles te virem buscar.
Depois de ter trabalhado 42 anos pedi a reforma. Eu era funcionário público e tinha feito um contrato com o Estado: todos os meses descontava parte do meu ordenado e, quando  me reformasse, o Estado devolvia-me esse dinheiro, para que eu e a tua avó pudessemos continuar a viver com dignidade.
Tudo corria bem. O teu pai tinha entrado na política e deixou de precisar da nossa ajuda, eu e a tua avó vivíamos razoavelmente com a minha reforma. Chegámos a passar uns dias de férias no INATEL e uma vez até te levámos connosco, para que os teus pais pudessem ir sozinhos passar férias ao Brasil. Tu eras ainda muito pequenino e eles queriam estar os dois sozinhos durante uns dias e isso pareceu-nos natural.
Um dia apareceram uns senhores a dizer que Portugal estava falido e tinha de pedir dinheiro emprestado a uns senhores estrangeiros. Prometeram que iriam tirar o país dessa aflição e que as pessoas podiam estar descansadas, porque se votassem neles iríamos voltar a ser todos muito felizes dentro de dois anos. Foi nessa altura que o teu pai foi convidado para ministro. Fez uma grande festa e até nos convidou para jantar num hotel muito bonito, onde comi coisas que nunca tinha comido e bebi  vinho  muito bom.
Depois, alguma coisa deve ter corrido mal, porque as pessoas começaram a viver cada vez pior, muitas ficaram desempregadas e sem dinheiro para viver. Eu e a tua avó lá nos íamos aguentando com o dinheiro da minha reforma que, volto a lembrar-te, era a retribuição daquele dinheiro que eu descontei durante 42 anos.
Um dia, porém, um amigo do teu pai, que também é ministro, disse que tinha de me reduzir a reforma , porque o país tinha muitas dívidas e todos tínhamos de fazer sacrifícios. O irmão da tua mãe, o teu tio Zé, veio para os jornais dizer que os velhos estavam a roubar as reformas dos jovens e não havia direito, por isso, tinham que cortar mais nas reformas.
Eu sei que aos 12 anos estas coisas do dinheiro ainda te fazem alguma confusão. Lembro-me até que, quando tinhas cinco ano pensavas que as notas nasciam das árvores. Ficou-te essa ideia num dia de Natal em que a tua mãe enfeitou a árvore com notas…
De qualquer maneira, vou-te explicar uma coisa.
O Estado deixou de me pagar o valor da reforma que tinha contratado comigo.Sabes o que isso quer dizer? É que o Estado fica todos os meses com parte dinheiro que eu lhe confiei, acreditando que me seria devolvido  quando eu me reformasse.
Eu compreendo que o Estado precisa de dinheiro, mas podia pedi-lo ao teu tio Zé, que é administrador de um banco que está a viver à custa do dinheiro dos portugueses. Sabes o que quer isso dizer? É que o teu tio Zé é pago com o meu dinheiro e de todas as pessoas que vivem da reforma ou estão a trabalhar. O teu pai, claro, também é pago com o dinheiro dos portugueses, mas ele está a servir o país e a tentar tirá-lo da falência, por isso é justo que assim seja. O problema é que em vez de melhorar, o país está cada vez mais pobre e há cada vez mais pessoas desempregadas e reformados sem dinheiro para comer, que têm de ir pedir comida ao senhor padre Albano que tem uma obra de caridade lá na Igreja para prestar assistência a pessoas com dificuldades.
Estás a perceber agora, porque não tenho culpa de andar a roubar os teus  pais? Eu só confiei naqueles senhores do estado que todos os meses me vinham tirar parte do meu ordenado! Julgava que eram pessoas de bem e afinal ficaram-me com parte do dinheiro. É como se todos os meses, ao sair do banco com o dinheiro da minha reforma, fosse assaltado por um ladrão.
Os teus pais, claro, nada têm a ver com isto. O teu pai, como ministro, só quer o bem do país e deves sempre admirá-lo, porque acredita que está a fazer o melhor pelo teu futuro. Não está, mas ele acredita nisso, portanto tens de o compreender. Eu também acreditei que estava a fazer o melhor por ele e enganei-me, mas a culpa é minha. Se não lhe tivesse pago os estudos, nem a casa onde vocês vivem, ele talvez não fosse ministro e não estava sujeito a todos aqueles insultos que lês nos jornais.
Não dês ouvidos ao que lês nos jornais, João! O teu pai é uma pessoa séria … teve foi o azar de se rodear de más companhias. Quero pedir-te que respeites sempre o teu pai e, se quando fores adulto, não estiveres de acordo com ele, nunca lhe chames ladrão. Se ele vir o   mundo de uma forma diferente d tua, é porque também deve ter sido enganado. Como eu e a tua avó fomos pelos senhores que estão no governo.
Com esta carta envio-te um filme. Chama-se “Este país não é para velhos”. Eu sei que não é um filme para a tua idade, mas vê-o e no próximo domingo dás-me a tua opinião. Depois eu explico-te algumas coisas, porque é importante que comeces, desde já, a perceber que as coisas que se passam no mundo são muito diferentes do que vês na televisão ou lês nos jornais.
Agora vou ter de terminar. A tua avó acabou de entrar na sala. Está a queixar-se da artrose.Precisava de tomar o remédio para as dores mas, como não tivemos dinheiro para  o comprar, vai ter de aguentar até eu receber a reforma. Ou então, amanhã peço na farmácia à Drª Teresa que me avie a receita que eu pago no fim do mês.
Um grande beijinho para ti. Respeita sempre o teu