domingo, 30 de junho de 2013

A Porta



Não sei as condições em que vive, porque cada vez que lhe bato à porta, apenas uma frincha se entreabre. Sei que vive há 15 anos com os três filhos, numa exígua casa de porteira com duas assoalhadas. Ao marido, trabalhador da construção civil, expulsou-o de casa há mais de cinco, numa madrugada em que chegou a casa bêbado e lhe deu (mais) uma tareia.
Sei que pelo seu corpo ainda jovem, evidenciando as marcas de maus tratos do homem e da vida que lhe foi madrasta, corre sangue fervente e na ponta da língua tem sempre resposta a um piropo atrevido. Tem um fraco por trabalhadores da construção civil. Daqueles que passam os dias empoleirados em andaimes, fixos ou móveis, balouçando ao sabor do vento. Depois de expulsar o marido de casa, apaixonou-se por um que, ao fim de um mês, desapertou o cinto para lhe cravar as marcas na pele. Disse-me, um dia :“este foi como uma rabanada de vento. Bateu forte, mas pôs-se logo a andar”.
Há dois meses começaram obras lá no prédio. Poucos dias depois, tornou-se perceptível que ela andava de namorico com um dos artistas do andaime. Consta que um fim de tarde ouviram o arfar de ambos na cave, junto aos contentores do lixo. A administração do prédio avisou-a que não toleraria a repetição da cena. Para lá da porta de sua casa, poderia fazer o que entendesse, mas nas partes comuns do prédio, se voltasse a ser apanhada, seria despedida.
O sangue fervia-lhe no corpo, pronto a explodir numa lava de desejo contido mas, com três filhos em casa, ela não arriscava franquear-lhe a porta.
No último sábado, surgiu a oportunidade. O pai dos filhos fazia anos e ela iria ficar sozinha em casa. Comunicou-lhe o facto e traçaram o plano. Ela cozinharia o seu prato preferido, ele apareceria por volta do almoço e, depois, entregar-se-iam um ao outro ao longo da tarde. Havia, porém, um pormenor. Ela não queria que ele tocasse à campainha. Quando chegasse perto do prédio, devia telefonar-lhe e ela deixaria a porta entreaberta para ele entrar. Se a porta estivesse fechada, não tocaria à campainha..
Na manhã de sábado ela aperaltou-se e cozinhou com esmero a feijoada, carregando no piri-piri, comprado pela manhã na mercearia do bairro, para ter a certeza que gozava de todas as suas propriedades.
Faltavam 15 minutos para a uma quando o telefone tocou. Nervosa, atendeu. Pôs mais duas gotas de perfume. Abriu a porta. Ele lembrou-se que se esquecera de lhe levar uma flor. Sem lhe dizer nada correu para a florista da esquina e comprou atabalhoadamente uma rosa encarnada. Voltou ao prédio. Quando chegou, a porta estava fechada. Uma rabanada de vento boicotara o encontro.

14 comentários:

  1. que bela história...
    o vento é traiçoeiro :)

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  2. Não é justo!
    Que mania a do vento se intrometer onde não deve. :(

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  3. Quem sabe se essa rabanada de vento a safou de outra rabanada de vento como a anterior :)

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  4. Uma rabanada de vento muito intrometida...será que ele não tentou bater à porta? Ou podia voltar a ligar-lhe...

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  5. o vento por vezes cala a desgraça.

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  6. Agora que parecia começar tudo a correr bem para a nossa mulher de "fogo"! :-))

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  7. Há rabanadas de vento indecentes (e esquecimentos desastrosos)! :)))

    Beijocas!

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  8. Não estava nada à espera deste final :))
    Boa semana!

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  9. Como é fácil perder uma oportunidade...:)
    xx

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  10. "O que tem que ser, tem muita força" assim como o que não tem que ser.

    Boa semana, amigo

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  11. Oi, Carlos... singela história!

    Melhor assim. Que fique no campo dos devaneios, este amor-perfeito, que na vida pragmática, pouco teria a sobreviver.
    Mulher com três crianças, por mais que possa sonhar, estará sempre dividida, entrevada... é mais transcendente um amor que seria, do que mesmo aquele que é.
    A delicada cruviana selou o destino desta mulher, pôs-lhe o juízo que o romantismo sempre nos tira.

    Um abraço, em pleno inverno.

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  12. Não estava à espera de nada, Carlos, e foi uma agradável surpresa este teu texto.

    Há ventos que nunca estão sossegados. :))

    Beijo

    Laura

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  13. Gostei muito do conto, mas o final desiludiu-me...
    Serei um romântico?

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