domingo, 2 de junho de 2013

Carta de um avô ao neto



Meu querido neto.
Quando ontem me perguntaste porque é que eu e a tua avó andávamos a roubar o teu pai fiquei em silêncio e tu, percebendo o meu embaraço, mudaste de conversa.
Esta noite deitei-me e não consegui dormir a pensar na tua pergunta e no erro que cometi ao deixar-te sem resposta. Levantei-me e decidi escrever-te esta carta.
O teu pai talvez tenha razão quando me acusa de ser ladrão, mas vou tentar explicar-te  que a culpa de o andar a roubar não é minha.
Sempre amei o teu pai. Fiz tudo para que ele fosse bem sucedido na vida. Durante muitos anos nunca tive férias, porque aproveitava esse tempo para fazer uns biscates e ganhar dinheiro para pagar os estudos do teu pai. Sempre que , em criança, ele me pedia um brinquedo eu e a tua avó esforçávamo-nos  para lho dar. Quando ele já andava nos últimos anos do liceu começou a pedir tudo aquilo que os amigos tinham e nós ainda não lhe tínhamos dado. Comprámos-lhe telemóveis, computadores, ao fim de semana dávamos-lhe dinheiro para ele ir  divertir-se com os amigos, porque ele estudava e nós queríamos que pelo menos ao fim de semana se pudesse distrair. Dávamos-lhe dinheiro para ir de férias e nós ficávamos em casa, porque o importante para nós era que ele estivesse feliz.
Quando terminou o curso, esteve muito tempo sem arranjar emprego e continuou a viver cá em casa. Nós dávamos-lhe uma mesada para ele poder divertir-se.
Quando arranjou emprego casou com a tua Mãe e nós continuámos a ajudá-lo como podíamos, porque tu nasceste logo a seguir e não queríamos que vos faltasse nada.Nós e os teus avós maternos ajudámos os teus pais a comprar a casa onde agora vives. Como os  teus pais  trabalhavam, era a tua avó que te ia buscar ao infantário e vinhas cá para casa até eles te virem buscar.
Depois de ter trabalhado 42 anos pedi a reforma. Eu era funcionário público e tinha feito um contrato com o Estado: todos os meses descontava parte do meu ordenado e, quando  me reformasse, o Estado devolvia-me esse dinheiro, para que eu e a tua avó pudessemos continuar a viver com dignidade.
Tudo corria bem. O teu pai tinha entrado na política e deixou de precisar da nossa ajuda, eu e a tua avó vivíamos razoavelmente com a minha reforma. Chegámos a passar uns dias de férias no INATEL e uma vez até te levámos connosco, para que os teus pais pudessem ir sozinhos passar férias ao Brasil. Tu eras ainda muito pequenino e eles queriam estar os dois sozinhos durante uns dias e isso pareceu-nos natural.
Um dia apareceram uns senhores a dizer que Portugal estava falido e tinha de pedir dinheiro emprestado a uns senhores estrangeiros. Prometeram que iriam tirar o país dessa aflição e que as pessoas podiam estar descansadas, porque se votassem neles iríamos voltar a ser todos muito felizes dentro de dois anos. Foi nessa altura que o teu pai foi convidado para ministro. Fez uma grande festa e até nos convidou para jantar num hotel muito bonito, onde comi coisas que nunca tinha comido e bebi  vinho  muito bom.
Depois, alguma coisa deve ter corrido mal, porque as pessoas começaram a viver cada vez pior, muitas ficaram desempregadas e sem dinheiro para viver. Eu e a tua avó lá nos íamos aguentando com o dinheiro da minha reforma que, volto a lembrar-te, era a retribuição daquele dinheiro que eu descontei durante 42 anos.
Um dia, porém, um amigo do teu pai, que também é ministro, disse que tinha de me reduzir a reforma , porque o país tinha muitas dívidas e todos tínhamos de fazer sacrifícios. O irmão da tua mãe, o teu tio Zé, veio para os jornais dizer que os velhos estavam a roubar as reformas dos jovens e não havia direito, por isso, tinham que cortar mais nas reformas.
Eu sei que aos 12 anos estas coisas do dinheiro ainda te fazem alguma confusão. Lembro-me até que, quando tinhas cinco ano pensavas que as notas nasciam das árvores. Ficou-te essa ideia num dia de Natal em que a tua mãe enfeitou a árvore com notas…
De qualquer maneira, vou-te explicar uma coisa.
O Estado deixou de me pagar o valor da reforma que tinha contratado comigo.Sabes o que isso quer dizer? É que o Estado fica todos os meses com parte dinheiro que eu lhe confiei, acreditando que me seria devolvido  quando eu me reformasse.
Eu compreendo que o Estado precisa de dinheiro, mas podia pedi-lo ao teu tio Zé, que é administrador de um banco que está a viver à custa do dinheiro dos portugueses. Sabes o que quer isso dizer? É que o teu tio Zé é pago com o meu dinheiro e de todas as pessoas que vivem da reforma ou estão a trabalhar. O teu pai, claro, também é pago com o dinheiro dos portugueses, mas ele está a servir o país e a tentar tirá-lo da falência, por isso é justo que assim seja. O problema é que em vez de melhorar, o país está cada vez mais pobre e há cada vez mais pessoas desempregadas e reformados sem dinheiro para comer, que têm de ir pedir comida ao senhor padre Albano que tem uma obra de caridade lá na Igreja para prestar assistência a pessoas com dificuldades.
Estás a perceber agora, porque não tenho culpa de andar a roubar os teus  pais? Eu só confiei naqueles senhores do estado que todos os meses me vinham tirar parte do meu ordenado! Julgava que eram pessoas de bem e afinal ficaram-me com parte do dinheiro. É como se todos os meses, ao sair do banco com o dinheiro da minha reforma, fosse assaltado por um ladrão.
Os teus pais, claro, nada têm a ver com isto. O teu pai, como ministro, só quer o bem do país e deves sempre admirá-lo, porque acredita que está a fazer o melhor pelo teu futuro. Não está, mas ele acredita nisso, portanto tens de o compreender. Eu também acreditei que estava a fazer o melhor por ele e enganei-me, mas a culpa é minha. Se não lhe tivesse pago os estudos, nem a casa onde vocês vivem, ele talvez não fosse ministro e não estava sujeito a todos aqueles insultos que lês nos jornais.
Não dês ouvidos ao que lês nos jornais, João! O teu pai é uma pessoa séria … teve foi o azar de se rodear de más companhias. Quero pedir-te que respeites sempre o teu pai e, se quando fores adulto, não estiveres de acordo com ele, nunca lhe chames ladrão. Se ele vir o   mundo de uma forma diferente d tua, é porque também deve ter sido enganado. Como eu e a tua avó fomos pelos senhores que estão no governo.
Com esta carta envio-te um filme. Chama-se “Este país não é para velhos”. Eu sei que não é um filme para a tua idade, mas vê-o e no próximo domingo dás-me a tua opinião. Depois eu explico-te algumas coisas, porque é importante que comeces, desde já, a perceber que as coisas que se passam no mundo são muito diferentes do que vês na televisão ou lês nos jornais.
Agora vou ter de terminar. A tua avó acabou de entrar na sala. Está a queixar-se da artrose.Precisava de tomar o remédio para as dores mas, como não tivemos dinheiro para  o comprar, vai ter de aguentar até eu receber a reforma. Ou então, amanhã peço na farmácia à Drª Teresa que me avie a receita que eu pago no fim do mês.
Um grande beijinho para ti. Respeita sempre o teu

8 comentários:

  1. Uma excelente descrição do país que "não é para velhos", ou melhor daqueles que, vergonhosamente, "gerem" o "país dos novos"...mas desempregados!

    http://lavarcabecas.blogspot.pt/

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  2. Excelente!

    Este país é ,somente ,para capitalistas, mesmo velhos!

    Beijinhos.

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  3. Ainda há pouco tempo li um texto muito parecido, mas era de pai para filho e não metia ministros à mistura. Mas no fundo está certo: estamos todos com o mesmo sentir - algo de muito errado se está a passar com estes líderes, que maltratam os mais idosos de todas as formas, nomeadamente assaltando-os da forma mais vil! Diga lá o PP o que disser... :P

    Beijocas!

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  4. É lastimável que este desgoverno, com o desatino das suas políticas e declarações esteja a colocar os mais novos contra os mais velhos!
    Nós, aposentados e aposentadas, começamos a sentir que estamos a mais...mas também não há lugar para os mais novos!
    Estamos num barco à deriva!

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  5. Bela tentativa a sua ,louvável .Pessoalmente creio que a chamada classe política vai apostar em forca numa divisão entre as gerações para conseguir impor o impensável. Neta de sobreviventes da guerra não vejo nesta geração de jovens o apreço e respeito que nos devotávamos aos nossos avós.Talvez porque havia nessa altura Futuro que actualmente não se vê ,talvez porque a política estivesse nas mãos de gente de mais valor. Não sei ,na realidade qual das gerações é a "geração perdida" a dos nossos netos ou a nossa ? Ando triste o que não resolve nad

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  6. Muito bacana esta crônica, com um único defeito: não ser minha.

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