domingo, 23 de junho de 2013

Das incertezas da vida


Sentiu uma palmada no rabo. Chorou. À sua volta viu sombras e pressentiu sorrisos. Tinha acabado de nascer.
Mamou. Aprendeu a andar. A falar.
Mandaram-no estudar. Estudou. Aprendeu a ler e escrever. Namorou. Amou. Um dia recebeu um papel que o habilitava a desempenhar uma profissão e alguém lhe disse:
Agora vais trabalhar!
Obedeceu. Ganhou dinheiro. Gastou-o.
Agora deves casar!
Casou. Teve filhos. Aprendeu a poupar. Educou-os. Apaparicou-os.
Subiu na carreira. Umas vezes com lisura, outras com atropelos. Sempre a pensar no melhor para os filhos. Por eles privou-se de férias, mas para eles tinha pouco tempo disponível. Porque precisava de trabalhar. 
Um dia sentiu uma dor ao levantar-se. Foi ao médico. Saiu de lá acabrunhado. Fez exames.O seu tempo estava a acabar.
Chegou a casa e não disse nada à mulher. Sentou-se no sofá a pensar.
A vida é uma coisa tão fugaz e eu tenho vivido sem aproveitar as coisas boas que ele tem para nos dar.  
Lembrou-se de uma frase que ouvira um dia ao seu pai:
" Um escanção nunca bebe um copo de um trago. Saboreia cada gole. É assim que devemos viver a vida".
O pai tinha razão! Perdi a conta às vezes que prometi a mim mesmo começara a gozar a vida. Amanhã vou começar a viver. Com o prazer de quem saboreia uma barra de chocolate.
Deitou-se. Deu um beijo apaixonado à mulher.
Surpreendida, perguntou:
Que se passa contigo hoje?
Lembrei-me que chegou a hora de começar a viver.
A mulher sorriu e deixou que ele adormecesse enroscado no seu corpo.
No dia seguinte havia muita gente à sua volta. Sentiu um cheiro estranho. Abriu os olhos e não reconheceu o seu quarto. Não estava deitado na sua cama. Fez um gesto para se levantar. O corpo não obedeceu. Insistiu. Nada!
 Uma mulher depositou uma flor sobre o seu peito.
Foi então que percebeu. Já não tinha tempo para viver. Tinha-se esgotado.Lembrou-se que pedira para ser cremado. Estremeceu.
Da próxima vez vou aprender a  viver – pensou.

8 comentários:

  1. Isto parece-me o pronúncio de qualquer coisa... de uma qualquer vida.

    http://www.lavarcabecas.blogspot.pt/

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  2. Muito bem escrito, mas...(o defeito é meu e não teu).

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  3. Estremeci!

    Há um prenúncio de morte...

    Será que esta crónica revela o teu estado de espírito?!

    Beijinhos.

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  4. Isso devia ser lei universal: VIVER CADA DIA COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ.

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  5. Não explicaram ao homem que não haverá próxima vez... Mas infelizmente há tantos casos destes, em que as pessoas se esquecem de viver e quando querem... já é tarde!

    Beijocas!

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  6. Tantos que se esquecem de viver, Carlos.
    Depois, quando se lembram, tantas vezes já é tarde.

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  7. Oi, Carlos! Tudo bem?

    E como são criticados os que aprendem a tempo... criticados e acusados de irresponsáveis por nós mesmos, por nossas invejas e engessamentos.
    Sair do padrão mercantilista também é oneroso, também implica perdas e preconceitos.. qual seria então a fórmula correta?
    Viver o ideal, o real, o possível, o transcendente, entrando e saindo de um mundo nefelibata...

    Grande abraço.

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