segunda-feira, 17 de junho de 2013

O diário de Adriana




Quando dei a minha opinião sobre o livro de Nuno Camarneiro (aqui), afirmei que enquanto o lia me vinha sempre à memória  um livro de Saramago: Clarabóia.
Os inquilinos do prédio de Saramago são  mais impressivos  do que os de Nuno Camarneiro e retratam  um povo que oscila entre a mesquinhez e a solidariedade, a ingratidão e a bajulice, o amor ao dinheiro e os ideais. São particularmente impressivos os diálogos entre o jovem  “libertino”  Abel e o velho sapateiro Silvestre. Encerram duas concepções de vida que se enriquecem pela troca de ideias, sem que nenhum queira impor ao outro a sua razão.
Não foi isso, porém, que me levou a escrever este post.
Há dias estive a reler algumas passagens de Clarabóia  e a páginas tantas encontrei este excerto que me transportou para os dias de hoje e me deixou a meditar sobre o relativismo das nossas memórias.  
Numas breves linhas do seu diário, Adriana escreve sobre o tempo. Da chuva primaveril que a desconforta. Ora leiam:
“ Domingo, 23/3/52 às dez e meia da noite. Choveu todo o dia. Nem parece que estamos na primavera. Quando eu era pequena, lembro-me de que os dias de primavera eram bonitos e que começavam a ser bonitos logo no dia 21. Já estamos a 23 e não faz senão chover. Não sei se é do tempo, mas sinto-me mal disposta. Não saí de casa. A mãe e a tia foram a casa das primas de Campolide depois do almoço. Chegaram cá todas molhadas (…)”
Ao ler esta passagem, dei comigo a pensar o que escreveria Adriana no seu diário em 17 de Junho de 2013, se ainda fosse viva e (não) tivesse memória da primavera de 1952…

7 comentários:


  1. De facto, com o dia que se fez sentir hoje por todo o país, alguém queixar-se de chuva a 23 de Março até chega a ser irónico...

    Bom apontamento!


    Beijos de chuva (como os da Amélia dos olhos doces)
    (^^)

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  2. A memória por vezes atraiçoa-nos! E esquecemos sempre que na primavera e até no verão também há dias de chuva... :)

    Beijocas!

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  3. Coitada da Adriana apanharia uma desilusão...
    mas, concordo com a Teté nós somos muito selectivos e esquecemos os dias de chuva, com isto da chuva lembrei-me de que um ano qualquer estava em casa dos meus pais (Amarante) e a meio de Maio apanhei um dos maiores sustos de sempre quando começaram a chover pedras de gelo do tamanho de bolas de pingue-pongue ... enfim...eu estou a adorar esta Primavera, fresca sem tantas alergias, só é mau para o investimento :)

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  4. Iniciei agora a leitura de "Debaixo de Algum Céu" mas não li ainda "Clarabóia"...
    De Nuno Camarneiro li já "No Meu Peito não Cabem Pássaros" e gostei bastante!
    Já hoje choveu torrencialmente!
    Não tivemos Primavera...em qualquer sentido!

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  5. Estaria como eu...xoxa de todo!Sem vida!

    Beijinhos.

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  6. Sinais dos novos tempos... A memória ainda não em atraiçoa (muito) e tenho a leve sensação, quase certa que não há muito que não há verões como na minha infância, é certo que também vivia numa zona de Verões quentes e Invernos rigorosos, mas... Mesmo por lá há muito que não há noites de Verão em que sabia bem ficar deitada na relva pela noitinha...

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