quarta-feira, 19 de junho de 2013

RM 37: Maio de 68 e Danny Le Rouge



O Maio de 68  foi  uma erupção social decorrente de factores vários que marcaram a década de 60- essa sim, uma década de ouro em termos de transformações sociais. Mais do que uma revolução, foi uma inevitabilidade. Uma espécie de assinatura dos jovens de 60, no jeito tranquilo de quem diz: agora não há recuos. E, na verdade, não houve... O Maio de 68 foi ponto final, parágrafo. Uma nova era começou a partir dessa data? Não! A transformação começara muito antes.
É preciso não esquecer que os jovens de 60 são a primeira geração pós-guerra que encontra condições políticas, sociais e económicas que justificam o seu inconformismo.
Condições políticas- os movimentos independentistas africanos transformam o continente num puzzle, propício a um conjunto variado de experiências políticas e ideológicas a que os jovens prestam especial atenção; a luta dos negros americanos pela igualdade de direitos civis e políticos, encabeçada por Martin Luther King, alastra à Europa; enquanto Kennedy falava de uma nova ordem mundial, os Estados Unidos envolviam-se na guerra do Vietname, com medo da vitória de Ho Chi Minh, o que era interpretado como uma contradição; a revolução chinesa e a “descoberta” do maoismo por uma juventude que já percebera que os regimes comunistas se tinham auto- destruído em contradições insanáveis que os levaram a refugiar-se atrás do muro de Berlim,transformado durante 28 anos numa barreira inexpugnável.
Havia inúmeras contradições e incertezas no período pós –guerra. Os jovens europeus dos anos 60 procuravam um modelo de organização política e social que acabasse com elas e expurgasse qualquer possibilidade de ressurgimento de um novo conflito. A CEE fora criada com esse objectivo- salvaguardar a Europa de um novo conflito de proporções e consequências inimagináveis- e os jovens do Maio de 68 tiveram necessidade de afirmar, na rua, que partilhavam da mesma opinião, dos mesmos medos e por isso apoiavam.
Condições económicas- a sociedade de consumo tinha começado a florescer nos meados da década anterior. Os europeus libertavam-se da míngua, dos racionamentos, voltavam a ter condições para viver desafogadamente. A sociedade de consumo de “massas” revelou-se o modelo ideal para satisfazer as carências e exigências dos europeus, cujo distanciamento dos EUA, em termos de qualidade de vida, era abissal. A liberdade tornara-se uma palavra de ordem, mas tinha subjacentes questões de índole económica que não são menosprezáveis.
Condições sociais- Ao contrário do que tenho lido por aí, o Maio de 68 não foi determinante para a igualdade entre homens e mulheres, para a conquista de direitos ou para uma revolução sexual. Na verdade, as mulheres já tinham acesso à Universidade e ao mercado de trabalho; na moda, a mulher já inventara a mini-saia, numa manifestação clara que já libertara o corpo; e a pílula – que já circulava livremente nas Universidades europeias- era a demonstração que libertara a mente.
A moda foi, aliás, fundamental para alterar muitos códigos sociais e derrubar convenções. Como o foram o cinema, a música e a literatura, a partir da segunda metade da década de 50.
Penso que atribuir ao Maio de 68 a responsabilidade pela mudança de paradigma é manifestamente abusivo. Essa mudança começou a operar-se com o Plano Marshall!
O Maio de 68 foi um momento bonito- que muito me apraz ter vivido, ainda que à distância- mas não foi mais do que isso. Se tivesse sido significante, não teria acabado com uma vitória de De Gaulle no mês seguinte. Se tivesse sido determinante para a mudança de paradigma, não desaguaria, anos mais tarde, na sociedade da hiperescolha em que hoje estamos atolados, correndo o risco de naufragar. Se tivesse sido decisivo, teria dado lugar à “nova ordem mundial” e não a uma sociedade nihilista eivada de hedonismo.
Não sei se é a estas coisas que Cohn Bendit se refere, quando afirma no seu livro "Forget 68", que o melhor a fazer em relação a Maio 68, é esquecê-lo, mas partilho da sua opinião.
Ao recordar Maio de 68 parece haver uma tendência para adulterar a realidade e conferir-lhe uma dimensão que nunca teve. Na verdade nunca houve“ uma praia debaixo da calçada”. Houve apenas uma amálgama de irreverência e devaneios juvenis, com consequências que não merecem muito a pena ser lembradas, salvo se pretendermos “dourar a pílula”.
Querem apenas um exemplo? No Maio de 68, gritavam-se “slogans” sobre a liberdade sexual. Quarenta anos mais tarde, é mais fácil acabar com a carreira de um político ( ou uma figura pública) denunciando a sua infidelidade amorosa, do que acusando-o de corrupção.
Pensar sobre o que se terá perdido, entre duas gerações, é o desafio que vos deixo.

8 comentários:

  1. O Maio de 68 teve uma importância fundamental nas minhas opções político-sociais de então e que não se modificaram desde então.

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  2. E nós aqui nesta estufa calafetada sem sabermos grande coisa...e , no fim, foi a Direita que saiu reforçada!

    Mas não deixa de ser um momento único.

    Amigo, obrigada por nos fazeres lembrar...

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  3. Em maio de 68 eu era criança e vivia só com a minha mãe enquanto o meu pai estava em França. À distância e sem muita informação, o retrato da situação que lá se vivia chegava-nos com dramatismo. A angústia de não saber se estava tudo bem com o meu pai foi decisiva para nos levar menos de um ano depois para junto dele.

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  4. Nada se perdeu nem ganhou...pois a dita liberdade foi fictícia!!!

    Obrigada por mais este momento único!

    Beijinhos.

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  5. Maio de 68 aconteceu um ano antes da minha chegada a Paris. Apesar de ter passado um ano, pairavam já no ar as mudanças havidas a partir do Quartier Latin.
    Até porque também eu sou de Maio, fiquei com a sensação de que faz falta haver muitos mais Maios, em todas as partes do mundo.
    Grande abraço Carlos

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  6. Eu tinha 11 anitos,não sentia a impotância destes acontecimentos, mais tarde tive noção deste acontecimento, obrigada por relembrar.

    beijinho e uma flor

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  7. Tinha quatro anos.
    Só muito mais tarde me apercebi do que se tinha passado.
    Mas não tenho resposta(s) para a pergunta - o que se perdeu entretanto?

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  8. Em épocas de mudança perdem-se sempremuitas coisas e ganham-se aindamais.

    A vida é eterno devir. O seu cerne é a mudança: para o bem e para o mal e aqui reside a nossa subjetiva avaliação.

    Beijinho

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