quarta-feira, 26 de junho de 2013

RM 41: "E Depois do Adeus", o povo saiu à rua a cantar "Grândola Vila Morena"


Foto de Eduardo Gageiro

No dia 1 de Janeiro de 1973, a CEE alarga-se à Dinamarca, Reino Unido e Irlanda. São os primeiros países a entrar para o espaço comunitário, desde a sua criação, em 1958.
Portugal continua orgulhosamente só e indiferente às críticas internacionais, cada vez mais afastado do mundo civilizado. Ao contrário, parece seguir em caminho inverso ao da História e o deputado Casal Ribeiro chega a pedir, na Assembleia Nacional, a pena de morte para os "terroristas". Depois de a ONU reconhecer a Guiné Bissau e condenar a nossa política em África, Portugal brinca ao "faz de conta". Enquanto são massacrados 400 civis em Wiryamu, a propaganda turística convida para "Moçambique -Praias de Sonho". A hipocrisia vai durar até ao fim e a publicidade dá uma ajuda. 
Mas há sinais de mudança. O Congresso da Oposição Democrática em Aveiro confirma que o País não está adormecido e o Movimento dos Capitães dá os primeiros passos. O país vive em bichas, de manhã à noite, em busca de gasolina. Os membros da OPEP diminuiram a produção de petróleo e aumentam o preço do barril para o dobro. De tudo isto nos dá notícia um novo semanário: o "Expresso".
Termina a Guerra do Vietname mas os EUA, talvez frustrados pela derrota, dão cobertura - e participam - no assassinato de Salvador Allende que, seis meses antes, fora eleito Presidente do Chile.A grande febre no mundo ocidental é o skate.
Estamos em 1974, mergulhados em profunda crise energética. Na Grã Bretanha é o caos. Os mineiros, maquinistas e gasolineiros entram em greve e agravam a crise, o que leva o Governo a decretar que as fábricas só poderão laborar três dias por semana. A sociedade de consumo treme. Mas não cai. 
Felizmente para os portugueses, o que cai é uma ditadura de 40 anos saloia e bafienta. "O Povo saiu à rua " entoando "Grândola Vila Morena", quando ouviu "E depois do Adeus". As salas de cinema enchem-se para ver "O Último Tango em Paris", o derradeiro soft core da onda de erotismo que começou a invadir a Europa no início da década. 
A sociedade de consumo "não passará"? A Lei que estava para ser discutida na AN no dia 25 de Abril nunca entrará em vigor, mas a DECO acaba de ser fundada por um grupo de entusiastas dos direitos dos consumidores. A crise energética deixa os países industrializados "à beira de um ataque de nervos" e a energia nuclear surge como solução salvadora. A indignação ambientalista aumenta e as manifestações sucedem-se.
Em 1975, Ano Internacional da Mulher, é eleita como Presidente do Partido Conservador inglês Margaret Thatcher, mas em Porugal, "o Povo é quem mais ordena" graças ao Processo Revolucionário em Curso (PREC). A ordem é nacionalizar e a sociedade de consumo irrita-se. Irá perder um cliente? Quem começa a perder clientes são as empresas tabaqueiras, com o início das campanhas anti-tabágicas na Europa e nos Estados Unidos.
Ponto final na Revolução Cultural Chinesa. Estamos em 1976, ano da morte de Mao. A Grande Marcha “chega ao fim” e o Bando dos Quatro é preso. Apenas um ano depois da descoberta do exército de Terracota, uma das maravilhas do mundo.
Outra maravilha, mas só para alguns jovens, é o movimento (?) punk que tem nos "Sex Pistols" um retrato fiel. Quem não gosta de se ver retratada com um brinco no nariz, na capa de um dos seus discos é a Rainha. Mal agradecida (até porque o grupo lhe dedica o tema do álbum -God S(h)ave the Queen), consegue que o disco seja proibido. Já não há mulheres assim!
A sociedade de consumo prepara-se para começar a abandalhar. É preciso agradar a todos. Para cada um seu instrumento, é o lema que seguirá quando estiver reabilitada da crise petrolífera. Por agora encontra-se em convalescência e os médicos recomendam-lhe repouso.
Quem está de boa saúde são as multinacionais, apesar de aos olhos do mundo serem responsabilizadas pelo desastre de Seveso, em Itália, e outras catástrofes ecológicas como Bhopal (Índia) e o ExonValdez.
As mamãs têm boas razões para sorrir graças às fraldas descartáveis.
Em 1977 morre Elvis Presley, pondo milhares de fãs em luto consternado. Mas para a sociedade de consumo o lema é "Rei morto rei posto" e inventa um novo ídolo feito à pressa. Chama-se John Travolta e incendeia o mundo com "Saturday Night Fever". Os tempos estão maus para os grandes empresários. O patrão da Mercedes é assassinado pelas Baader- Meinhof.
Há dez anos que Paris vive uma crise de ciúmes. Londres roubara-lhe muita clientela turística desde meados da década de 60. Por isso decide abrir um Centro para as Artes. Encomendou o projecto a dois arquitectos arrojados e chamou-lhe Pompidou. Um sucesso....
Sucessos também hounve em Inglaterra, mas...na TV com a estreia dos "Marretas". Miss Piggy e o sapo Cocas deliciam miúdos e graúdos e a força da sua popularidade, aliada ao êxito da televisão, fazem com que inúmeros actores ambicionem ser seus companheiros num programa.

4 comentários:

  1. Sem dúvida a mais importante década da segunda metade do século XX para Portugal.

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  2. Um década marcante que desperdiçamos!

    Beijinhos.

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  3. Janeiro 1973 tinha acabado de fazer 16 aninhos,casei a segir em Fevereiro.
    Foi sem dúvida uma década muito marcante.
    gostei imenso de ler este texto, fez-me recuar no tempo.

    beijinho e uma flor

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  4. Os Marretas ainda hoje se vêem com o maior prazer

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