quinta-feira, 25 de julho de 2013

A hora do cuco (Conclusão)



Muito se poderia romancear em torno deste episódio que aqui vos contei ontem. Quer  sobre as razões que levaram JK Rowling a escrever sob pseudónimo - e os pormenores que rodearam a revelação- , quer  sobre a verdadeira identidade do autor. Não vou por aí.
Limito-me a relembrar o que  no CR já escrevi - dezenas de vezes ao longo destes anos - sobre a forma acéfala como os consumidores se deixam manipular pelo marketing e pela publicidade. Nunca saberão onde está o erro nesta história  mas, na verdade, também não acredito que estejam interessados. Engoliram o que lhes foi vendido pela comunicação social e foram atrás de um nome, não de um livro. Como vão atrás de uma marca e não da qualidade.Como vão atrás de um sonho, para fugir da realidade.
Se um dia destes se viesse a saber que afinal Richard Galbraith existe, foi ele mesmo o autor de “ The Cuckoo’s Calling” e JK Rowling  só emprestou o seu nome para dar visibilidade ao livro, as pessoas  reagiriam com a  mesma indiferença com que reagem quando lhes dizem que estão a comprar peças de vestuário  de grandes marcas, fabricadas à custa da exploração do trabalho infantil. 
 O que move os consumidores em todo o mundo  é a atracção pela última novidade- mesmo que seja apenas uma velharia recauchutada  pelo marketing – e a sensação de proximidade e partilha com as vedetas.  Por isso correram a comprar um livro até ali ignorado e condenado a ganhar pó nos escaparates; acampam de véspera para conseguir um bom lugar no concerto do seu ídolo; fazem longas filas para serem os primeiros a comprar o último gadget, ou o último livro de um autor conceituado. Tudo o que seja apelo material ou idolatria, faz mover multidões. (E se vier acoplado a uma boa dose de motivação onírica, ainda melhor...)
No entanto, protestam se têm de perder uma manhã na repartição de finanças, ou o médico se atrasa uma hora para a consulta de rotina, porque em matéria de cidadania não há ídolos nem vedetas. Há funcionários públicos mais ou menos dedicados, de carne e osso como eles, com os mesmos problemas, os mesmos defeitos e virtudes. Tudo gente que não os ajuda a sonhar, porque lhes mostra a realidade crua da vida.
A sociedade de consumo infantilizou as pessoas. Tornou-as acríticas e por vezes acéfalas. As pessoas reagem cada vez mais com espírito gregário a um ídolo - seja ser humano ou objecto- criado pelas multinacionais do marketing, do que a um modelo social.  ( Claro que me refiro à generalidade que conta para as estatísticas e estudos sociológicos ou  de mercado e  não à totalidade dos consumidores
Isso explica, em boa parte, termos chegado a um modelo de sociedade pouco consentâneo com a democracia e civilidade e deixar-mo-nos atrair, facilmente,  por fenómenos populistas. Como aconteceu recentemente em Itália com Beppe Grillo, por exemplo.
E há ainda o outro lado...
Nas sociedades hodiernas  as pessoas manifestam o seu descontentamento de forma cada vez mais violenta.  Isso acontece porque são cada vez menos a protestar nas ruas e a combater a indiferença generalizada dos cidadãos. A violência é uma forma de se fazerem ouvir. É, também, uma forma cultural de se expressarem, que tem como matriz o modelo da indústria do lazer ( particularmente norte-americano, mas também oriental)  assente na violência  gratuita. Não me refiro apenas a filmes e séries onde impera a violência, mas também à indústria do lazer, com especial incidência nos brinquedos e na banda desenhada. Eu não vejo muitos jovens empolgados a ler a Mafalda. E vocês?
Este episódio em volta do livro de JK Rowling também me reportou ao momento político que se vive em Portugal mas, como aqui não se fala de política, limito-me a lembrar a trilogia  de Haruki Murakami (IQ 84) e invocar o dilema de Tengo quando lhe fazem a proposta de reescrever, em segredo, o livro de Fuja Eri, com o objectivo de garantir uma vitória num concurso literário.  Quem leu o livro sabe que Tengo acabou por aceitar e, assim, mudou o rumo da história. E, quiçá, da História...


9 comentários:


  1. Aqui não se fala de política (e eu suspiro de alívio)... mas hoje quase não te seguravas! :)

    Curioso como acompanho perfeitamente a tua ideia e repudio de igual forma a sociedade de consumo voltada cada vez mais para o populismo e para as "modas".
    Eu costumo dizer que sou a pessoa menos consumista que conheço e que toda a vida me pautei por não ir em modas. Daí que tento não "ir em cantigas" nem deixar que me lavem o cérebro com propaganda (qualquer que seja o tipo)...

    Para entender o que escreves na última parte do teu texto, vou ter de investigar um pouco sobre Haruki Murakami.


    Beijinhos com os olhos em bico
    (^^)

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  2. Aplaudo-te de pé!

    A sociedade de consumo "embruteceu" as pessoas.

    Magnífico post!

    Beijinhos.

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  3. Realmente as pessoas tornaram-se impacientes para as obrigações e direitos mas, têm sempre tempo disponivel para ir atrás do que está 'in'...

    Nunca compraria um livro pelo critério - nome do autor. O que não significa que o livro não possa ser bom sob outros critérios...

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  4. Bom, em relação à história do heterónimo da JK Rowlings, considero essa conversa toda uma grande patranha: há lá algum advogado minimamente competente, que se "descaia" a dizer o nome do seu cliente, ainda por cima a alguém aparentado com jornalistas? Queriam vender e toca de pôr a boca no trombone, tentando parecer um acaso.

    Quanto às influências publicitárias, é óbvio que, por mais que tentemos e estejamos atentos (porque também há publicidade enganosa), não somos totalmente imunes a elas... :)

    Beijocas!

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    1. Quanto ao caso JK Rowlings penso exactamente como a Teté!

      As minhas influências publicitárias são muito reduzidas, porque nos canais de TV da minha preferência não há publicidade.

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  5. Excente texto!
    Ao contrário de muita mulher, eu uma das coisas que não suporto é fazer compras, mas a que não suporto mesmo é ir atras da moda, isso é andar por verandar os outros, não me encaixo nesse padrão,nem ando para agradar a ninguém, mas para me sentir bem comigo própria.

    beijinho e uma flor

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  6. Gostei de ler esta sua crónica, Carlos, embora eu não seja contra a sociedade de consumo.

    Eu até acampava todo o ano para conseguir um bilhete para o Festival de Bayreuth!!!

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  7. Sociedade de consumo?
    Modas?
    É melhor sair de fininho.
    Fui! :)))

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  8. Jovens a ler a Mafalda? Ó Carlos, por favor, quem é que perde tempo com uma menina reaccionária quando pode entrar no fabuloso mundo dos vampiros e dos lobishomens?...Muito mais giro. Agora cá pensar em justiça social e no ambiente. Imagine-se!

    Uma boa crónica para reflexão. Eu sou muito anti-modas. Não sou contra a sociedade de consumo per se, pelas escolhas que nos proporciona. Há coisas boas no marketing e na mediatização, quanto mais não seja a divulgação e fácil acesso a coisas que nos passariam ao lado de outra forma. Agora também não tenho problemas nenhuns em dizer que na minha opinião o Harry Potter é lixo, como a saga dos vampiros da Meyers é lixo. Se há quem goste, e gaste dinheiro com isso, ou em concertos do Justin Bieber, isso ja não é problema meu. A não ser que fosse meu filho. Aí já me preocupava, e antes de tocar nos Harry Potters e nos vampiros, ou de ficar horas agarrado a uma consola ou a ver folhetins adolescentes com nome de fruta, havia de ler Júlio Verne e ver o Clube dos Poetas Mortos, para não me acusar depois de ter embrutecido porque eu deixei ou porque não lhe mostrei mais nada. Também há muito paizinho que não faz o trabalho de casa e depois diz que a culpa é da sociedade... mas isto sou eu que tenho mau feitio.

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