quarta-feira, 24 de julho de 2013

A hora do cuco



Era uma vez ... um militar cansado de guerras.
 Farto de disparar sobre inimigos imaginários, trocou a metralhadora pelo teclado de um computador. Tanto teclou, que um dia descobriu que tinha escrito um romance. Levou-o a um editor. Ao fim de uns dias, recebeu a notícia: o seu romance ia ser um livro.
Após o lançamento, a crítica desdobrou-se em elogios. Romance  notável . Estreia brilhante. Uma nova estrela a despontar no firmamento da literatura mundial. 
Os panegíricos que inundaram a imprensa generalista ou especializada não foram, porém, suficientes  para convencer os leitores.  O  livro não vendia. Em três meses, apenas 1500 exemplares saíram dos escaparates.  Editores estrangeiros não se interessaram pela obra.
Até que ao final de uma tarde  de Junho,  o telefone tocou num escritório de advogados, que representam o autor.  Era o editor de “ The Cuckoo’s calling” (O Apelo do Cuco) a lamentar-se do prejuízo   que  o livro  estava a dar. Sugeria por isso aos advogados que fizessem valer os seus conhecimentos junto da imprensa para dar mais visibilidade ao livro e ao autor - Robert Galbraith. 
No dia seguinte, o advogado convida  o crítico literário de um jornal britânico para um almoço.  Fala-lhe do livro. Das boas críticas que mereceu na imprensa especializada. Do fracasso das vendas.  Pede-lhe conselhos.  O crítico encolhe os ombros. Reconhece que o livro é bom, mas nem sempre isso chega. Lembra que os leitores gostam de conhecer os autores. Se o advogado conseguisse  arranjar uma entrevista exclusiva  com  Galbraith, talvez pudesse  voltar a dar visibilidade ao livro no jornal.
O advogado suspira fundo, bebe mais um trago de whiskey, puxa uma fumaça do “habano” e responde:
- Vou falar com a JK Rowling!
O crítico literário franze o sobrolho e pergunta:
- Mas a que propósito é que  ela entra nesta história? É amiga de Galbraith?
- Eu falei em JKRowling? Desculpe lá… foi distracção. Estava a pensar num telefonema que ela me fez esta manhã a propósito dos direitos do Harry Potter ...
- Espere aí… você não me está a sugerir que…
- Não estou a sugerir nada… não me interprete mal… mas agora que fala nisso, talvez não fosse má ideia…
E foi assim que no dia seguint, um jornal britânico revelou  a identidade do autor de “ The Cuckoo’s Calling”.  Richard Galbraith era apenas um pseudónimo de JK Rowling.
 A descoberta - revela o crítico literário-  foi fruto de um aturado trabalho de investigação que envolveu outros especialistas literários. Uma descrição demasiado pormenorizada da indumentária de uma personagem feminina terá traído JK Rowling. O crítico não explica como, nem porquê, mas isso também "não era importante"... 
 Dias depois, a própria  criadora de Harry Potter veio admitir ser ela a autora do livro. Na altura  lamentou que a revelação tivesse sido resultado de um descuido dos seus advogados. Obviamente omitiu  que  o objectivo  estava alcançado: assim que a notícia foi conhecida, dispararam as vendas  e o livro alcançava em poucas horas o segundo lugar no top de vendas da Amazon.
( Conclui amanhã)

4 comentários:


  1. Ainda estou zonza com essa história...

    Estou a saber disto por ti, mas fui agora mesmo procurar mais informações à net e acho que até entendo a vontade da autora em manter-se "escondida" atrás do pseudónimo.
    Não "compro" a história de que tudo isto tenha sido um golpe de marketing porque dinheiro tem ela a rodos... prestígio também...
    Talvez ela só quisesse sentir a liberdade de escrever algo diferente (e até lhe reconhecerem o valor) sem um carimbo escrito na testa!


    Beijinhos carimbados na tua face
    (^^)

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  2. Infelizmente, o mérito não é valorizado em anónimos!!!

    Estou curiosa com o final.

    Beijinhos.

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  3. Interessante! Não tinha a menor ideia dessa história!

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  4. Curioso pelo final de uma história que não conhecia

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