segunda-feira, 29 de julho de 2013

Da causa das coisas ( e suas consequências)

Imagem roubada aqui

Estava a terminar os preparativos para o jantar, quando a notícia irrompeu  na sala com a força de um murro certeiro no estômago. O AVE  tinha descarrilado em Santiago e havia  mortos e feridos.  As primeiras notícias apontavam para 25 mortos.  Debiquei um pouco do atum da salada russa e afastei o prato com repulsa. 
Colei-me ao televisor.  Fiz zapping e vi as primeiras imagens via CNN. Alguém colocava a hipótese de se tratar de um atentado, com base em testemunhos de populares. O número de mortos  e feridos ia-se  avolumando a uma velocidade assustadora.   Ligo-me à internet . Espiolho todos  jornais espanhóis e mantenho-me atento às notícias  debitadas  na RTP Informação. A hipótese de atentado é afastada. Ganha força a ideia de excesso de velocidade. O próprio maquinista teria confessado ir  a 190 km/h. Numa curva onde a velocidade máxima era de 80.
Deito-me com a raiva a crescer-me no peito. Como (quase) sempre acontece nestes casos, invoco a sabedoria chinesa  ( “Deixa sempre passar uma noite sobre a injúria da véspera”) e resisto a escrever um post.
No dia seguinte  leio notícias  aludindo ao gosto do maquinista pelas altas velocidades. Ele próprio o testemunha no FB (essa consciência virtual onde expomos e  gravamos para a eternidade  os nossos delitos)  exibindo uma foto do velocímetro durante uma outra viagem  a 200 kms/hora. Leio os comentários jocosos à proeza de Garzon Amo.
Durante o dia, a comunicação social acentua a faceta velocista do maquinista, apontando-lhe sibilinamente o dedo acusador.  Em mim, como em milhares de pessoas, cresce  a revolta  contra o inconsciente, avolumada pelas imagens  captadas por uma câmara, que são exibidas à exaustão pelos canais de televisão, sequiosos de encontrarem um culpado. ( Culpar alguém, seja um terrorista, ou um cidadão comum, alivia a consciência da opinião pública. Sem culpados,  todos os crimes permanecem envoltos numa áurea de mistério especulativo. Como em Camarate. É por isso que  toda a gente procura encontrar rapidamente  um bode expiatório  que possa ser alvo da nossa ira. Garzon Amo é o alvo a abater)
Almoço tardiamente com algumas pessoas numa esplanada. Nas mesas circundantes, o acidente é tema de conversa acalorada, tendo um ecrã mudo como testemunha.
Ao final da tarde tenho de ir a uma vernissage do croquete O acidente vem à baila, impulsionado por uma senhora  em traje de gala, debroado a pechisbeque, luzindo como ouro. 
Devia ser condenado e internado numa clínica psiquiátrica para toda a vida. Assassino!”-  garante num tom de voz  esganiçado que lhe foge das cordas vocais e fere os tímpanos de quem a rodeia.  Olha em volta à procura de aplausos e consenso. As pessoas  procuram  desviar a conversa para outro tema : uma série televisiva a que sou completamente alheio.
Saia um canapé de caviar das Berlengas. Para acelerar a viagem até ao estômago, acompanho com um pouco de porto tónico. E dou meia volta, rumo a outro círculo de profissionais da vernissage, que estão como peixe na água, esgrimindo conversa sobre proezas golfistas.
Quando regresso a casa não me apetece escrever sobre o acidente. Deixo para o dia seguinte. Na manhã de sexta-feira  ligo-me à Internet para ler as notícias.  Ainda mal  começara a prospecção logo leio esta. 
Engulo em seco.  Vou ter que reinventar a crónica e o título  - pouco criativo, diga-se - que engendrara: o erro fatídico de um Fittipaldi dos comboios.  
Parece que afinal existe um problema mecânico, negligenciado por quem tinha o dever de garantir a segurança dos passageiros.  O meu culpado deixa de ser aquele a quem todos apontam o dedo. Se os sistemas de segurança fossem adequados àquela situação, Garzon Amo não teria conseguido entrar naquela curva a 190 kms/hora. Não ficaria para história como um criminoso inconsciente e não teriam sido ceifadas dezenas de vidas.  Alguém irá culpar  - ou no mínimo co-responsabilizar- os responsáveis pela falha nos sistemas de segurança?
Não creio. É muito mais fácil culpar um homem. É importante que a opinião pública tenha confiança nas instituições e um culpado de carne e osso para apontar. Assim, o mudo gira muito melhor. 
Em tempo: Já depois de ter escrito e agendado este post, Garzon Amo saiu em liberdade. Circula por aí um video que não consegui reproduzir, mas lança grandes dúvidas sobre as culpas exclusivas do maquinista.

9 comentários:

  1. Claro que a empresa vai atirar as culpas para cima do maquinista, para tentar que essas falhas de segurança lhes sejam apontadas. De qualquer forma, estava a achar muito estranho que um homem que trabalha há 30 anos numa empresa e que não é louco, quisesse provocar propositadamente um acidente destes...

    Mas facto é que deve ficar com ele na consciência, mesmo que a culpa não lhe possa ser totalmente atribuída!

    Beijocas!

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  2. Gostei bastante do texto, e apenas poderei acrescentar que a maioria das pessoas que criticam esse acidente. Quase todas elas excedem o limite de velocidade quando estão ao volante do seu carro... Pondo por vezes em risco, amigos e família que vão dentro do carro, outros carros e os que circulam em sentido oposto...

    Já dizia a minha avó e tantas outras: "Lá diz o Roto ao Nu, porque não te vestes tu..."

    Creio que o senhor maquinista terá um grande "fardo" para transportar até ao fim dos seus dias...

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    1. Não sei de quem é a culpa, mas para os mortos e seus familiäres não adianta nada encontrar o culpado ou os culpados.

      Quando ainda vivia em Portugal fui várias vezes dentro de carros de amigos e familiäres, que além de excederem o limite da velocidade, também já tinha bebido mais do que deviam.

      Concordo em absoluto com a sua avó, Francisco!!!

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  3. Sobre qualquer coisa seja o que for toda a gente opina e aponta o dedo com muita facilidade...
    A CULPA nunca é só de uma pessoa....
    Concordo com a opiniâo do Francisco grande fardo vamos lá ver se ele aguenta.
    xx

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  4. Achei estranho um homem que trabalha à tantos anos fizesse uma loucura destas, mas por vezes as pessoas ficam fora de si sem entendermos o porquê, mas se realmente foi um erro mecânico, irão arranjar a forma de o empregado arcar com a culpa, se assim for, possivelmente a culpa dele é ter ficado vivo, porque vai ter que viver com uma culpa que não tem, mas passa a ter.
    Lamento imenso quem morreu, acredite Carlos.

    beijinho e uma flor

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  5. A culpa morre solteira!

    Apenas sei que nada restituirá vidas ceifadas nem a dor dos familiares!

    Magnífico texto!

    Beijinhos.

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  6. Fico calado à espera dos resultados das investigações.
    Só tenho uma certeza - naquela curva, a 190 km/h, nem pensar.

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  7. Que posso dizer? Falha humana ou mecânica? Do que tenho a certeza é que o maquinista vai viver sempre com essas mortes a assombrarem-lhe os dias.

    Beijo

    Laura

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  8. As últimas notícias que ouvi reportavam que o maquinista se encontrava ao telefone no momento do acidente, ou pouco antes, e não conseguiu travar a tempo. Mas só hoje se irão abrir as caixas negras e saber exatamente o que aconteceu, se é que é possível avaliar o que se passa na cabeça de cada um de nós num espaço de segundos.
    Uma coisa é certa: é um peso muito grande a pesar na consciência, que hoje fez o maquinista declarar que gostaria de estar entre os mortos no acidente.

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