domingo, 7 de julho de 2013

Jerónimo on the road



Puxo de uma cigarrilha a seguir ao jantar e sinto-me a deslizar para fora da sala, levado pela voz de Kate Melua. Sentado no sofá ( ou estarei já a levitar?) resigno-me à minha condição de cidadão proscrito, por cometer duas vezes ao dia o pecado de fumar. Eu, que lamentava a sorte daqueles que tendo nascido nas ex-colónias tinham “gravada” no Bilhete de Identidade a sua condição de cidadãos de segunda ( ou de terceira, no caso de serem pretos), provo agora do mesmo veneno.
Estava decidido a começar a elaborar uma lista telefónica dos restaurantes do País onde se pode fumar ( olha que boa ideia para abrir um negócio, jovens licenciados à procura do primeiro emprego precário neste País das Maravilhas à espera de ser envenenado com cicuta! Porque não se lembram de criar uma espécie de Páginas Amarelas ou de Roteiro com os restaurantes e bares onde se pode fumar neste País? Sejam empreendedores, vamos lá!) quando oiço as sirenes de carros da Polícia. Regresso à Terra, já não sentado no sofá, mas com os pés na varanda. Lá em baixo há um grande ajuntamento, vozeares imperceptíveis, um grito, choros, espernear de um vulto.
Não é uma cena típica do meu bairro, por isso é sem espanto que quando olho em redor vejo inúmeros rostos assomar às janelas de marquises que ocupam o lugar de varandas iguais à minha, para dar mais meia dúzia de metros a uma sala fechada. Volto a dirigir o olhar para a cena que se passa seis andares abaixo e vejo um polícia enfiar um corpo que, apesar da distância, me parece ser de um jovem. O carro arranca com a sirene a tocar e aquele pirilampo espalhando a sua luz azulada, ao ritmo de compasso.
- Não me digas que era o Jerónimo!... – ouço sair de uma marquise.
( O Jerónimo é um menino que escapou a ter “gravado” no seu BI cidadão de 3ª, mas que na vida não se libertou desse ferrete. É um bom menino, o Jerónimo! Toda a gente lhe conhece os bons modos, e tinha fama de ser aluno exemplar até ao momento em que o Pai se suicidou, depois de ter sido engrominado por um construtor civil sem escrúpulos que lhe roubou o salário e a fidelidade da mulher. Viviam numa casita modesta a cuja porta muita gente do meu bairro ia bater, para solicitar as habilidades do Julião, na prática do biscate.
Não, não pode ser o Jerónimo” – pensei para os meus botões. Por que razão um miúdo tão afável - que apesar da desdita do pai, e de uma mãe a tentar em parte incerta cobrar com os favores do corpo as refeições de cada dia- a quem ninguém conhecia indícios de mau comportamento, ia agora preso?
Tirei mais uma fumaça, tentando afastar a ideia de tal sorte e deixei deslizar o olhar pelo horizonte, acompanhando a imagem “virtual” de Jerónimo a ser conduzido aos calabouços.
Já não sei em que ponto estava, quando ouço uma voz ofegante a sair de uma qualquer marquise:
- Mãe, mãe! Era o Jerónimo!
- Como é que isso é possível, filha? O que é que o miúdo fez?
- Mãe, o Jerónimo andava metido na droga.
- Estás maluca! Onde é que ele tinha dinheiro para isso?
- “Eles caçaram-no” Mãe! Depois obrigavam-no a roubar carros e coisas assim. A gente já suspeitava que ele ‘tivesse metido em alhadas. ‘tava a assaltar a mercearia do sr. Casimiro com mais dois, mas os outros fugiram e ele veio tentar esconder-se nas obras do prédio aqui ao lado, mas alguém viu tudo e chamou a polícia ...
- Coitado do Jerónimo. Queres um chazinho para acalmar, minha filha?
- Não Mãe, quero ir à esquadra saber do Jerónimo!
- Estás completamente doida! Que é que vão pensar na esquadra se apareces lá a perguntar por um preto? Se calhar ainda julgam que também andas metida nisso. Não andas, pois não, minha filha? Ai meu Deus, para o que te havia de dar, querer ir agora atrás do Jerónimo. Anda mas é deitar-te, filhinha, que a Mãe faz-te um chazinho para acalmares.

Dois anos depois...

O Jerónimo saiu a semana passada da prisão. Aqueles olhos antes tão vivos e curiosos, têm agora uma expressão baça e triste que esconde a amargura de tempos passados na prisão, de que não quer falar. Também não quer falar do futuro porque- afirma- a prisão tirou-lhe a esperança. Custou-me enfrentar um jovem de 20 anos que perdeu a esperança. Não encontrei palavras para o animar. Perguntei-lhe pela amiga, que já não vejo desde o Natal. Encolheu os ombros. Creio ter percebido, no seu olhar, a razão de ter perdido a esperança.
-Que vais fazer Jerónimo?
- Tentar tirar a minha Mãe daquela vida. Quero levá-la comigo para fora daqui.
- Para onde Jerónimo?
- Não sei, alguma coisa se há-de arranjar. Conheci um tipo "lá dentro" que me vai ajudar. Talvez vá para Espanha trabalhar nas obras.
- E os estudos Jerónimo? Vais abandonar os estudos? Olha os sacrifícios que a tua Mãe passou para te pôr a estudar.
- No tempo que estive lá dentro, já aprendi tudo da vida...


Aviso: Texto reeditado, a partir de um original publicado na sede em 2010

4 comentários:

  1. A realidade de tanta vida madrasta!

    Beijinhos.

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  2. Há vidas muito complicadas, a desse menino feito homem na prisão deve ser uma das muitas que se estragam, por motivos até alheios à sua vontade...

    Beijocas!

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  3. Uma escola terrível, Carlos.
    As coisas que eu ouvi nos meus tempos de advogado!!

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  4. São vidas tão tristes!
    Ás vezes deparo-me com essas situações, na escola. É muito triste!

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